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Compreender, portanto, é uma atividade
criativa em que o leitor/ouvinte age sobre
os textos. É uma atividade de seleção,
reordenação e reconstrução em que uma certa
margem de criatividade é permitida. |
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LER E COMPREENDER:
CRIAÇÃO E COOPERAÇÃO
-
Angélica Freire
(*)
-
-
Um tigre de papel
Sabendo que a ele caberia determinar seus
movimentos e controlar sua fome, o escritor
começou lentamente a materializar o tigre. Não
se preocupou com descrições de pêlo ou patas.
Preferiu introduzir a fera pelo cheiro. E o
texto impregnou-se do bafo carnívoro, que
parecia exalar por entre as linhas. (...)
Em vez de escrever um salto, o escritor
transmitiu a sensação de movimento com uma frase
curta. Em vez de imitar o terrível miado, fez
tilintar os cristais acompanhando suas passadas.
Assim, escolhendo o autor as palavras com o
mesmo sedoso cuidado com que sua personagem
pisava nos tapetes persas, criava-se a realidade
antes inexistente. (...).
-
Marina
Colassanti
(1)
A idéia de que a
compreensão do texto não se pauta, somente, na
superficialidade do escrito, no âmbito meramente
formal da língua, mas, também, guia-se pelas
co-relações que se estabelecem no funcionamento global
da linguagem, institui um conceito de texto como
atividade consciente e organizada, que compreende
processos e estratégias cognitivas inerentes à mente
humana, os quais são postos em prática na interação
social. E, por ser assim conceituado, o texto
corresponde a uma fase do processo global de
enunciação.
O texto é uma atividade consciente e organizada a qual
implica a escolha/seleção de elementos lingüísticos, a
partir de um contexto sócio-interacional, cuja
ordenação e combinação se dá de acordo com o “projeto
de dizer” do produtor. Assim, a atividade de produção
textual de sentidos compreende o trabalho de um
produtor e, também, de um interpretador que, segundo
Koch (2002:19), são “estrategistas”, pois no “jogo da
linguagem”, mobilizam uma série de estratégias
objetivando a produção de sentido(s). Por esta razão,
o texto é um processo em constante construção. Segundo
essa autora, são peças do jogo da linguagem:
1. o
produtor/planejador, que procura viabilizar o seu
“projeto de dizer”, recorrendo a uma série de
estratégias de organização textual e orientando o
interlocutor, por meio de sinalizações textuais
(indícios, marcas, pistas), para a construção dos
(possíveis) sentidos;
2. o texto,
organizado estrategicamente de dada forma, em
decorrência das escolhas feitas pelo produtor entre as
diversas possibilidades de formulação que a língua lhe
oferece, de tal sorte que ele estabelece limites
quanto às leituras possíveis;
3. o leitor/ouvinte,
que, a partir do modo como o texto se encontra
lingüisticamente construído, das sinalizações que lhe
oferece, bem como pela mobilização do contexto
relevante à interpretação, vai proceder à construção
dos sentidos.
Ao se referir a
formas de encadeamento para a construção de sentido(s)
no texto, Koch (2002: 121) compara tal processo ao
trabalho em tricô. Nesta tarefa, há um entrelace de
fios passados por agulha, o que permite a execução de
pontos que servem de base à grande variedade de
padrões que constituem uma peça. Na transposição da
imagem para o texto, verifica-se que, ao entrar em
contato com o texto, o leitor/ouvinte mantém uma
operacionalização mental em constante movimento,
utilizando-se de processos de ordem cognitiva,
lingüística e discursiva; nesta “caça ao sentido”
(2),
o leitor estabelece relações entre conteúdos dados
novos e dados anteriores no enunciado. De acordo com a
autora:
As relações entre
segmentos textuais estabelecem-se em vários níveis: no
interior do enunciado, o relacionamento se dá em
termos da articulação tema-rema (...) A informação
temática é normalmente dada, enquanto a remática
constitui, em geral, informação nova. O uso de um ou
de outro tipo de articulação tema-rema (...) tem a ver
com o tipo de texto, com a modalidade (oral ou
escrita), com os propósitos e atitudes do produtor.

Para acompanhar as
oscilações nos movimentos realizados durante o
processamento textual, a ação do leitor/ouvinte se
assemelha ao movimento da agulha naquele trabalho
manual, em que o buscar novo enlace da linha é buscar
a idéia nova e procurar estabelecer pontes de sentido
com o que foi realizado/lido/proferido anteriormente.
É claro que esta relação não é tão simples e explícita
como se possa supor; afinal, ela poderá exigir a
produção de inferências, de expressões referenciais e
o recurso a outros mecanismos lingüísticos. De acordo
com Koch (2002:30):
O sentido de um
texto, qualquer que seja a situação comunicativa, não
depende tão somente da estrutura textual em si mesma
(daí a metáfora do texto como um iceberg
(3)).
Os objetos de discurso a que o texto faz referência
são apresentados em grande parte de forma lacunar,
permanecendo muita coisa implícita. O produtor do
texto pressupõe da parte do leitor/ouvinte
conhecimentos textuais, situacionais e enciclopédicos
e, orientando-se pelo Princípio da Economia, não
explicita as informações consideradas redundantes. Ou
seja, visto que não existem textos totalmente
explícitos, o produtor de um texto necessita proceder
ao “balanceamento” do que necessita ser explicitado
textualmente e do que pode permanecer implícito, por
ser recuperável via inferenciação.
A inferenciação,
importante estratégia de mapeamento do(s) sentido(s)
do texto, é uma estratégia de ordem
lingüístico-cognitiva que permite estabelecer uma
ponte de significação entre o material lingüístico
presente na superfície textual e conhecimentos prévios
partilhados. E tal relação entre a informação
textualmente expressa e o conhecimento prévio e/ou
partilhado é estabelecida por recurso à
intertextualidade, a elementos da situação
comunicativa e a todo o contexto sociocultural.
Com isso, vê-se que o texto possui apenas uma pequena
superfície exposta e uma imensa área subjacente, assim
como no tricô, em que os pontos de base – a superfície
textual – servem de ancoragem para variados padrões –
as profundezas do implícito a serem construídos de
acordo com o gosto, a intenção do produtor. Por esta
razão, não se pode dizer que se constrói o sentido do
texto; mas, sim, um sentido possível para o texto no
curso de uma interação.
A compreensão de um texto depende de uma determinada
focalização sob a qual confluem os aspectos da
materialidade lingüística e as estratégias de
processamento cognitivo, suscetíveis a variações a
cada nova interação, daí se poder dizer que o(s)
sentido(s) surge(m) nas “lentes do interlocutor”. E,
ainda, que a produção - tanto a elaboração, falada ou
escrita, quanto a compreensão - de textos assenta-se
nesta interação: produtor leitor/ouvinte e texto, para
a qual se atribui, em relação ao processo de
construção de sentido(s), peso adequado a cada um dos
elementos.
Deste modo, o texto pode ser visto, conforme Koch
(1995), como um “mapa da mina”, o qual permitirá ao
leitor percorrer caminhos que o aproximem da idéia do
produtor ou o desviem dela, por meio do levantamento
de hipóteses de sentido, embora seja impossível
garantir a captação da intenção de um locutor/produtor
de um texto. O percurso realizado pelo leitor se dá
num processamento textual on line, isto é, a todo
instante, no texto, vão se estabelecendo as hipóteses
e as constatações de leitura necessárias para
aproximar o leitor do seu sentido maior, para ficar
próximo ao “tesouro”, aproveitando a metáfora do mapa
da mina. Assim, estrategicamente os leitores/ouvintes
constroem hipóteses interpretativas no início da
leitura ou da conversação e, à medida que o discurso
avança, tais hipóteses são complementadas,
especificadas ou modificadas de acordo com a interação
comunicativa e o contexto sociocognitivo.
O texto, portanto, constitui um conjunto de pistas
sinalizadoras para a construção de sentidos possíveis;
e nesta construção, há, numa composição forma e
conteúdo, um entrelace de aspectos
lingüístico-discursivos, sociais, culturais,
antropológicos, etc. Nesse caso, falar em forma e
conteúdo imbricados significa dizer que o modo como os
elementos lingüísticos, constituidores da superfície
textual, estão organizados realiza, na mente dos
leitores/ouvinte, uma configuração veiculadora de
sentidos, a qual está na dependência da atuação de
diversos fatores de ordem cognitiva, situacional,
sociocultural e interacional, conforme Koch (2002:
48-51). Por isso, o estabelecimento de relações de
sentido vai depender de cálculos, estratégias
interpretativas, inferências, estratégias de
negociação de sentido que se estabelecem criativamente
de acordo com o contexto interacional.
A construção de sentidos não é estática nem exclusiva,
há no processamento textual um vaivém de sentidos
construídos na cooperação e interação discursiva, o
que reitera a máxima de que história, cultura e
sentido formam um tripé indissociável na negociação
pública que é a comunicação humana. De acordo com
Marcuschi (1998:4):
Produzir textos é
produzir propostas de significação com efeitos de
sentido que não são permanentes ou estáveis, pois o
sentido se efetiva no ato do processamento pelo seu
leitor/ouvinte, que pode estar situado em tempos
históricos defasados ou em contextos sócio-culturais
diversos. Assim, produz texto quem escreve/fala, mas
também quem lê/ouve.
Sob esses argumentos,
entende-se a língua como semideterminada, a qual se
modifica na medida em que as atividades, do mesmo modo
que os contextos, mudam; por esta razão, a língua é
uma prática social. E o texto - quer seja oral, quer
seja escrito - é um evento comunicativo dentro dessa
prática social.
Pensar o modo como alguém, que se dispõe a elaborar um
texto, escrito ou falado, escolhe a organização do seu
dizer e como o encaminhará ao interlocutor exige que
se leve em conta uma série de fatores não só
cognitivos, mas também lingüísticos e sociais, os
quais estão em permanente construção e inter-relação.
Isto porque não são exigidos, na interação, somente os
fatores relacionados à capacidade cognitiva de
produção e de intelecção, mas ainda os que dizem
respeito aos contextos de linguagem e aos contextos
onde se encontram inseridos os sujeitos.
Assim, os conhecimentos que se pressupõem
compartilhados e as ações conjuntas por meio da
linguagem constituem-se em eventos lingüísticos que
são inerentemente sociais. Conforme Clark (1996)(4),
os eventos lingüísticos são ações conjuntas por serem
essencialmente sociais; por meio delas, os indivíduos
interagem a fim de realizar ações. Isto equivale dizer
que os indivíduos agem uns com os outros através da
língua, e não somente uns sobre os outros.
Em razão de o sentido ser uma construção que se dá
numa troca constante entre sujeito, mundo e seus
objetos de interação, sejam esses objetos um outro
sujeito ou o mundo em que está inserido, são as
práticas discursivas por meio da linguagem que geram
as nomeações, as criações e as recriações lingüísticas
utilizadas pelos sujeitos, objetivando a expressão e o
entendimento por seus interagentes.
O produtor do texto já supõe um engajamento do leitor
na produção de sentidos, o que confirma o postulado de
Geraldi
(5)
(1991) de que é para o
outro que se produz o texto, isto é, o outro é a
medida do dizer. Esse princípio se estende, também,
para o entendimento de que na interação se constituem
os mais variados gêneros, dependentes de seus
interlocutores e dos contextos sociocomunicativos. Daí
se pode afirmar, conforme Alves Filho (2005: 215), que
“a autoria e o gênero mantém uma relação
indissociável, complexa e circular”. Trata-se, nas
palavras do autor, de uma relação de mão dupla, pois
“ao mesmo tempo em que o gênero institui a autoria, os
autores vão refazendo os gêneros e refazendo a própria
postura de autoria do gênero”.
Ao produzir um texto, o autor expõe a sua
singularidade no discurso, extrapola os aspectos
formais e as regras que condicionam um texto; assim, a
autoria estaria onde há a explosão do sujeito; isto é,
onde ele imprime ao texto suas marcas
(6)
, essas vozes se mesclam no curso de uma interação e
promovem o(s) sentido(s).
Por esta razão, estabelecem-se conexões entre autoria,
gênero e estilo. Assim, para verificar a impressão das
marcas de autoria, faz-se necessária a observação dos
traços co-determinantes nas relações autor e seus
enunciadores bem como autor e seus leitores/ouvintes,
pois é nesta interação que se constituem e se
organizam composições lingüístico-discursivas.
Koch (2002: 159-61) afirma que para se chegar a um
entendimento mais profundo do texto é preciso
reconhecer as marcas que constituem a sua
argumentatividade; isto é, é preciso perceber as
marcas de sinalização do texto que encaminham o
interlocutor a determinados tipos de conclusão, a
partir da recusa e da aceitação de hipóteses de
sentido. A construção e a recriação de sentidos levará
ao entendimento de implícitos que estão mesclados na
retórica discursiva do texto.
Um texto abre a perspectiva de uma multiplicidade de
interpretações e o produtor possui intenções variadas,
que são concretizadas por meio de marcas
lingüístico-discursivas que ele utiliza em seu texto.
Cabe ao leitor/ouvinte, portanto, saber qual o caminho
a percorrer a partir de tais marcas e que sentido
adequado atribuir-lhes, levando sempre em conta o
conhecimento compartilhado, isto é, os esquemas e
estereótipos socioculturalmente determinados, bem como
a reciprocidade na interação social. Conforme Clark
(1985), esses aspectos confirmam a importância do
conhecimento social e do processo de inferência na
compreensão de textos.
Para Dascal (1992: 109-27), a propósito, “a
compreensão de uma enunciação ou de um texto envolve
sempre uma pluralidade de habilidades, níveis e
sistemas diferentes de conhecimento, tanto lingüístico
quanto não-lingüístico”. Assim, para o autor, a
competência lingüística é apenas um dos componentes
utilizados no processo de compreensão. Por isso, é
necessário encarar tal processo como um meio de
aproximação gradual do sentido de uma enunciação ou de
um texto. Jamais se pode dizer que se alcançou uma
compreensão global e completa do texto.
De sua parte, Koch (2002) chama a atenção para o fato
de que, embora os sentidos se constituam numa
construção colaborativa, o produtor do texto, de
acordo com os seus propósitos comunicativos e com o
gênero discursivo escolhido, expõe no texto marcas
lingüísticas que visam a reforçar a sua intenção
comunicativa, almejando evitar um desvio de
interpretação em relação às expectativas de
compreensão pretendida.
Bakhtin (1981/1997: 203) afirma que todo ato de
produção de sentido é um evento dialógico do
significado e complementa esta afirmativa, em outro de
seus textos, com o entendimento de que
A palavra não é um
objeto, mas um meio constantemente ativo,
constantemente mutável de comunicação dialógica. Ela
nunca basta a uma consciência, a uma voz. Sua vida
está na passagem de boca em boca, de um contexto para
outro, de um grupo social para outro, de uma geração
para outra. (...). Um membro de um grupo falante nunca
encontra uma palavra neutra da língua, isenta das
aspirações e avaliações de outros ou despovoada de
vozes de outros. Absolutamente. A palavra ele a recebe
da voz de outro e repleta de voz de outro. No contexto
dele, a palavra deriva de outro contexto, é impregnada
de elucidações de outro.
Para este autor, o
dialogismo é inerente às práticas sociointerativas,
penetra toda a linguagem humana, tudo o que tem
sentido e importância. Mesmo que o “outro” seja
invisível e suas palavras estejam ausentes, há uma
interferência silenciosa que confirma a sua “atitude
responsiva”(7),
isto é, um modo de reagir silenciosamente ao outro.
A partir de uma concepção dialógica, Geraldi (1997:17)
distingue as ações que os sujeitos fazem com a
linguagem, as ações da linguagem e ações que se fazem
sobre a linguagem, marcando o entrecruzamento que
ocorre na materialização lingüística:
A aprendizagem da
linguagem é já um ato de reflexão sobre a linguagem:
as ações lingüísticas que praticamos nas interações em
que nos envolvemos demandam esta reflexão, pois
compreender a fala do outro e fazer-se compreender
pelo outro tem a forma do diálogo: quando
compreendemos o outro, fazemos corresponder à sua
palavra uma série de palavras nossas; quando nos
fazemos compreender pelos outros, sabemos que às
nossas palavras eles fazem corresponder uma série de
palavras suas.
A construção do
sentido, portanto, se dá nesta relação dialógica entre
produtor, leitor e os contextos de interação, na qual
a co-relação produz novos conhecimentos. Assim, ser
sujeito na linguagem significa trabalhar produzindo e
interpretando a constituição heterogênea dos
discursos.
Trata-se de uma negociação de sentidos em que,
conforme Geraldi (1997:19) no processo de compreensão
ativa e responsiva, a presença da fala do outro
deflagra uma espécie de "inevitabilidade de busca de
sentido: esta busca, por seu turno, deflagra que quem
compreende se oriente para a enunciação do outro”. É
uma busca que exige a todo instante a formulação de
hipóteses para sentidos possíveis, negociáveis no
curso de uma interação.
A intelecção de textos é sempre uma atividade de
co-autoria, e o texto é um processo em permanente
elaboração e reelaboração ao longo de sua história e
ao longo das diversas recepções pelos diversos
leitores:
(...) o texto só tem
sentido graças a seus leitores; muda com eles;
ordena-se conforme códigos de percepção que lhe
escapam. Torna-se texto somente na relação à
exterioridade do leitor, por um jogo de implicações e
de astúcias entre duas espécies de “expectativas”
combinadas: a que organiza um espaço legível (uma
literalidade) e a que organiza uma démarche necessária
para a efetuação da obra (uma leitura).
(8)
Como os textos são
sempre contextualizados numa determinada situação,
cultura, momento histórico, campo ideológico, crença,
etc, é impossível obter-se a sua explicitude. Além
disso, existem os conhecimentos pessoais do leitor ou
do ouvinte que produzirão múltiplas leituras, o que
implica a existência de leitores com diferentes
especializações ou conhecimentos prévios. Há na
interação autor, texto e leitor a produção conjunta de
sentido(s) que se sujeitam às modificações segundo os
diferentes contextos comunicativos. Assim, afirma-se
que:
(...) toda leitura
envolveria uma produção – e não uma descoberta – de
significados, criados a partir das circunstâncias que
constituem o leitor e a situação de leitura. Em outras
palavras, o significado não se esconde nem se embute
no texto à espera de que um leitor o decifre,
compreenda ou resgate; o significado é produzido pelo
leitor a partir de suas circunstâncias e das
convenções que organizam e delimitam suas
instituições, inclusive a linguagem. Nesse sentido,
nenhuma leitura poderia ser considerada absolutamente
correta ou incorreta, absolutamente aceitável ou
inaceitável. Uma determinada leitura pode ser
considerada correta ou inaceitável apenas dentro de
uma determinada situação ou perspectiva e esse
julgamento seria necessariamente diferente em outra
situação e a partir de outra perspectiva.
(9)
Compreender,
portanto, é uma atividade criativa em que o
leitor/ouvinte age sobre os textos. É uma atividade de
seleção, reordenação e reconstrução em que uma certa
margem de criatividade é permitida. É uma atividade
dialógica que se dá na relação com o outro. É a busca
de empatias em que nos encontros e desencontros a
magia da palavra gera o sentido próprio ao leitor que,
a partir dos significados atribuídos, tem a de um
instante, pois um novo tempo trará um novo sentido,
uma nova leitura.
Conclui-se das idéias expostas que as atividades de
leitura e de compreensão envolvem criação e
cooperação. O autor como criador e gerenciador de
idéias, tem um projeto de dizer que contará com a
cooperação de leitores para que uma proposta de
sentidos se construa. Assim, o produtor-autor possui
responsabilidades na apresentação do seu discurso,
oferecendo ao produtor-leitor pistas que melhor
encaminhem sentidos possíveis para conteúdos
veiculados.
No projeto de dizer, além de apresentar uma enunciação
particular, o produtor apresenta a voz de outros
enunciadores, emitindo opiniões que podem ratificar ou
trazer novos argumentos, mas que, de algum modo, se
aproximam do sentido esperado, no qual aposta sua
cumplicidade com o leitor. Quanto mais referências o
autor fizer em seu texto, mais conta com a cooperação
do leitor, apostando no ato referencial, na criação e
na cooperação a serem realizadas pelo leitor.
NOTAS
(1) COLASSANTI, Marina.
Contos rasgados de amor, Rio de Janeiro, Rocco, 1986.
(2) Alude-se, aqui, ao pensamento de DASCAL (1992)
sobre o homem ser um caçador de sentidos,. DASCAL, M.
Models of interpretation. In: STAMENOV, M. (ed.)
Current Advances in Semantic Theory. Amsterdam, John
Benjamins, 1992, pp. 109-27.
(3) KOCH, 1995:65.
(4) CLARK, Herbert, 1996. Using Language. Cambridge,
Cambridge University Press.
(5) GERALDI, J. W. Identidades e especificidades do
ensino de língua. IN: Portos de passagem, São Paulo,
Martins Fontes, 1991, p. 73-113.
(6) Segundo POSSENTI, o trabalho com e sobre a
linguagem é condição necessária, porém não suficiente
para que o sujeito se constitua como autor de seu
texto.O autor é aquele que organiza o intradiscurso,
dando-lhe uma orientação, através de mecanismos de
coerência e de coesão, mas também garantindo que
certos efeitos de sentido e não outros serão
produzidos durante a leitura. Assim, podemos dizer que
efeitos de sentido tais como: a sensação de
“cumplicidade” entre narrador e leitor/ouvinte, ou
ainda a criação de um efeito de suspense seriam
produzidos pela função-autor. Para que o sujeito se
constitua enquanto autor é necessário transgredir mais
do que uma determinada ordem estabelecida, mais do que
atuar com e sobre a linguagem. É fundamental,
sobretudo, que este sujeito inscreva o seu discurso na
ordem do enunciável, no verdadeiro da época. (POSSENTI,
Sírio. Indícios de autoria, Revista Perspectiva,
Florianópolis, v.20, nº01, p. 105-124, jan/jun. 2002).
(7) Em BAKHTIN, “Questões de literatura e estética”,
1975.
(8) CERTEAU, Michel de. Ler uma operação de caça.In:
---, A invenção do cotidiano, 1, Artes de fazer, Trad.
Ephraim Ferreira Alves, Petrópolis, Vozes, 1996, p.
266.
(9) ARROJO & RAJAGOPALAN, (1992) O signo desconstruído:
implicações para a tradução, a leitura e o ensino,
[...],p. 88
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Maria Angélica Freire de Carvalho
é analista educacional do Programa Salto para o
Futuro – TV Escola, canal da Secretaria de
Educação a Distância do Ministério da Educação,
produzido pela TV Educativa-TVE Rio de Janeiro.
Professora Adjunta de Língua Portuguesa do Centro
Tecnológico Estadual da Zona Oeste – RJ – UEZO.
Doutora em Lingüística – UNICAMP; Mestra em
Educação – UERJ; Integra a equipe de pesquisadores
do PROTEXTO – grupo de estudos lingüísticos da
Universidade Federal do Ceará – UFC -- linha de
pesquisa "Práticas Discursivas e estratégias de
textualização". Seus estudos atuais,
pós-doutorado, contemplam o desenvolvimento de
material didático para ambiente hipermídia, sob o
enfoque da auto-aprendizagem.
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