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... Grandes jornais estão perdendo seu público porque estão distantes da vida comum, do leitor, das ruas, dos bairros, das cidades.... << >> ... o conjunto das teorias comunicacionais indica que, até o momento, não apareceu processo ou sistema capaz de igualar  (...() leitura como fonte de informação e formação das pessoas....

"O QUE O JORNAL TEM DE PEDAGÓGICO PARA MELHOR QUALIFICAR
 
 
LEITURAS E LEITORES NO BRASIL ATUALMENTE"?
 
 
Marcelo Pereira & Wagner Geribello

 retina de... MARCELO PEREIRA

Vivemos um paradoxo na sociedade da informação. Ao mesmo tempo, temos tudo e nada. O dilema é cultural: para onde vamos com tanto lixo midiático? Que geração está sendo formada? O que se pode aproveitar disso tudo? A artilharia pesada da informação sem fronteira envolve recursos tecnológicos variados: TV aberta, TV fechada, rádio, jornal, revista, Internet, MSN, Orkut, YouTube, celular, iPod, MP3, MP4. Esta oferta avassaladora confunde e pode, sim, desinformar. Mas não sejamos maquiavélicos. Isso é ruim se quisermos que seja, ou melhor, se não formos seletivos, se não tivermos ferramenta crítica para dosar esta exposição e para separar o joio do trigo. É inevitável que tudo isso já nos engoliu e é salutar que há coisa boa no meio desta babel.

De todo este frenesi, o jornal é um bom companheiro. Por sua vocação reflexiva e por permitir uma relação amigável obra-leitor-obra, ele é uma luz no fim deste túnel. Há que se observar que nem todos os jornais, porém, têm esta empatia com seu público. Um jornal que tenta falar para todos, atirando para todos os lados, não fala para ninguém. Um veículo que não conversa de maneira comunitária, não cumpre seu papel cidadão.

Grandes jornais estão perdendo seu público porque estão distantes da vida comum, do leitor, das ruas, dos bairros, das cidades. Estes jornalões acabam, apesar de seus inegáveis prestígios, se misturando a este caleidoscópio informativo, oferecendo pouco diferencial em relação à massificadora disputa por um naco de atenção. Neste universo, os jornais regionais têm desempenhado papel fundamental na defesa dos interesses comunitários e na ajuda pelo desenvolvimento social, econômico, cultural e educacional de multidões pelo Brasil afora.

E é justamente esta característica de proximidade com a vida real, no exercício de um jornalismo cívico-cidadão, a grande ferramenta pedagógica de um jornal. Estando sintonizado com sua comunidade, ele é um fio condutor de mudanças. Um jornal é pedagógico ao oferecer multiplicidade de opiniões em sua carteira de articulistas e colaboradores. Um jornal é pedagógico ao oferecer espaços para o debate de projetos comunitários que transformam vidas e mentes. Um jornal é pedagógico ao dar espaço para a boa notícia, dando visibilidade às ações de sucesso que modificam a realidade para melhor. Um jornal é pedagógico se tem independência editorial, se age como porta-voz da comunidade em defesa dos interesses desta comunidade e não do jornal, de seus jornalistas ou acionistas. Um jornal é pedagógico se tiver humildade para reconhecer seus erros. Um jornal é pedagógico se tiver compromisso com a educação de qualidade, com o desenvolvimento sustentável, com a infância, com o meio ambiente. Enfim, um jornal é pedagógico se tem a capacidade de informar e formar, ou seja, se oferece algo mais que a simples notícia, se oferece análise e vários pontos de vista.

A qualificação de leitores e leituras só se dá por meio de um jornal se, por outro lado, seus leitores estiverem amplamente sintonizados com este modo de fazer jornalismo. A troca de experiências e energias é fundamental. Um bom jornal deve, sempre, persuadir e conquistar os leitores não pela notícia em si, mas pelo conjunto de sua credibilidade.
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Marcelo Pereira, jornalista, 38 anos, é editor-executivo da Rede Anhangüera de Comunicação (RAC), publicadora, entre outros, do Correio Popular, de Campinas. Formado pela PUC-Campinas, tem mestrado em Jornalismo de Qualidade pelo Centro de Extensão Universitária, ligado à Universidade de Navarra.

 

 

                   

 

retina de... WAGNER GERIBELLO

O QUE O JORNAL TEM DE PEDAGÓGICO PARA MELHOR QUALIFICAR LEITURAS E LEITORES NO BRASIL ATUALMENTE

 

A cena foi mais ou menos assim: manhã, oito horas, sala de espera. Dez ou doze jovens, finalistas de um processo de seleção de emprego, em uma empresa de grandes proporções, contam o tempo em silêncio e aguardam. Salário compensador, amplas possibilidades de carreira, mais o horizonte de trabalho criativo e envolvente, alimentavam os candidatos de expectativa, ansiedade e nervosismo. Até ali haviam vencido múltiplas e árduas fases de seleção, passando por análise de currículo, teste “on line”, dinâmica de grupo, avaliação de aptidões, provas, entrevistas. A multidão de candidatos, contada em milhares no início do processo, caiu para a casa das centenas, até ficar reduzida àquela dúzia de sobreviventes vitoriosos, (des)acomodados na sala de espera, à espera do teste final: entrevista com o gerente responsável pela vaga, futuro chefe do candidato selecionado.


Esperavam, todos, pelo procedimento comum: alguém chama, o candidato entra na sala do gerente, conversa, convence e, quem sabe, vence... nada disso. Foi o gerente que entrou na sala de espera. Bateu um olhar severo no olho de cada candidato e, ao grupo, endereçou uma única pergunta, direta e reta: - quem já leu o jornal hoje de manhã levante o braço...


Poucos ergueram timidamente a mão espalmada á altura do rosto. A maioria permaneceu estática, olhares e movimentos da boca expressando surpresa e incompreensão. Todos entenderam a pergunta, mas ninguém, ainda, compreendera a razão do perguntar. Foi o gerente mesmo quem acabou com as dúvidas, apontando dedo e olhar na direção de cada um dos candidatos que restava com a mão erguida: – você, você, você... ficam. Vamos conversar. Os demais estão dispensados, pois só posso trabalhar com pessoas que lêem jornal logo cedo, para se manter bem informadas (frisou a locução com gestos e timbre de voz) o tempo todo, sobre um mundo que muda da noite para o dia.


Como jornalista e professor de jornalismo, acredito que a história (real) dispensa elucubrações outras sobre a importância da leitura do jornal para o que chamarei aqui, na falta de termo melhor, de ajuste à dinâmica e ao meio social.
Se há um tempo e um lugar em que o indivíduo pode sentir-se integrado à sociedade, esse tempo não é somente hoje e o lugar não é somente aqui, mas compreende toda a vasta área de influência da chamada sociedade ocidental contemporânea, na qual o pertencimento, a aculturação e o entrosamento social não representam mais uma fase específica e um lugar determinado, mas são, agora, atividades permanentes, que obrigam o indivíduo a ajustar-se a ambientes – tecnologia, política, economia, cultura – que mudam com níveis cada vez mais fortes de radicalismo e velocidade. Como ponderou o gerente da história, o mundo que foi dormir ontem, não é o mesmo que acordou hoje. Antípodas mantém a roda girando e mudanças acontecem sempre, a todo momento, pois ao sono de uns, corresponde a vigília de outros, que continuam alterando o mundo. Conseguirão ajustar-se à sociedade aqueles que derem conta das mudanças, mister que não pode prescindir da leitura.


É certo que as mudanças sociais compreendem ampliação proporcional do cardápio de fontes às quais o indivíduo pode recorrer para arrecadar informações necessárias ao mencionado ajuste contínuo à sociedade. Todavia, o conjunto das teorias comunicacionais indica que, até o momento, não apareceu processo ou sistema capaz de igualar ou superar a leitura como fonte de informação e formação das pessoas. Por isso mesmo, o gerente não perguntou sobre ver televisão ou ouvir rádio, mas foi incisivamente ao ponto vital que diferencia a formação pela aquisição de informação, ou seja, leitura.


Cotidiano, freqüente, diversificado e amplo, o jornal impresso, comparado ao rádio-jornal, telejornal ou infojornal (se me permitem o tema), abriga qualidades e vantagens que, enumeradas, certamente ultrapassariam as dimensões propostas para este artigo, cabendo, no entanto, assinalar que a mais importante delas é, sem dúvida, a leitura, no sentido mais “oficial” do termo, entendida como processo que permite ao indivíduo localizar e tomar conhecimento de dados, processar esses dados, transformando-os em informação e refletir sobre as informações para criar concepções próprias de mundo. Vale dizer que, do ponto de vista intelectual, a leitura é o meio comunicacional que mais contribui para que a pessoa se transforme em indivíduo.


O pensamento popular e mesmo alguns teóricos, à importância do jornal como elemento essencial de formação intelectual, têm contraposto a idéia de que a evolução tecnológica tende a remeter o jornal ao ostracismo e ao desaparecimento, substituindo a folha diária por mídias mais mirabolantes do ponto de vista tecnológico. Todavia, a realidade mostra que não é bem assim, pois, se é certo que o aporte tecnológico no campo das comunicações efetivamente reconfiguram funções e posições do jornal, em contrapartida, estudos diversos indicam que essa reconfiguração não vai na linha da pura e simples substituição do texto impresso no papel por suportes virtuais, condenando aquele ao inevitável desaparecimento. O “scholar” americano Wilson Dizard (1998), ao analisar as tendências da mídia no primeiro quarto do século XXI, pelo viés da tecnologia, lembra que o jornal “ainda é a peça central das atividades da mídia impressa americana” e que, historicamente, “é a indústria que tem definido os padrões e as responsabilidades da mídia na sociedade americana”. Afirma, ainda, Dizard “Os jornais estão entrelaçados na urdidura e na trama da experiência americana”, referindo-se à história e à cultura. Sobre o mesmo tema e de modo mais enfático, escrevem os pesquisadores Melvin de Fleur e Sandra Ball-Rokeach (1993), em Teorias da Comunicação de Massa: “a pesquisa sobre os tipos de usos, satisfações e gratificações dos leitores pelo jornal diário indica que ele está profundamente envolvido na vida quotidiana dos cidadãos comuns. Ele fornece certos serviços e satisfações ímpares”. Uma dessas satisfações é, sem dúvida, a ampla possibilidade de aprender (no sentido pedagógico do termo), consolidando um aspecto que, até aqui, nenhuma alternativa de mídia conseguiu superar.


Por fim, essas características sumariamente expostas representam os fios que entrelaçam o jornal à proposta que este artigo se propôs debater, quer seja a qualificação do leitor. Enquanto fonte de informação rica, mas ao mesmo tempo imediata, dinâmica e permanentemente atualizada, o jornal não só traz, em si mesmo, subsídios para o conhecimento e o posicionamento ante a realidade, como também, pelo seu caráter de veículo impresso escrito, estimula o exercício da leitura, o que faz do leitor contumaz do jornal, também um potencial leitor assíduo de outras fontes, entre as quais o livro, interessado e habilitado à formação intelectual pela leitura.


Não é por outra razão que o gerente mencionado no início do artigo, ao contar a história que protagonizou, confessou que o critério de seleção não indicava tão somente futuros funcionários bem informados, como também – e principalmente – destacava pessoas com elevado potencial para a aquisição continuada de conhecimento. Em outras palavras, leitores.

BIBLIOGRAFIA

De FLEUR,
Melvin e BALL-ROKEACH, Sandra. Teorias da comunicação de massa. 5. ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1993.


DIZAR,
Wilson. A nova mídia. 2. ed. rio de janeiro: Jorge Zahar, 1998.

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Wagner J. Geribello é jornalista, sociólogo, doutorando na Faculdade de Educação - Unicamp.

 

 

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