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reformas ortográficas têm sido feitas sem o
conhecimento científico do que vem a ser a
ortografia. Desse erro original deriva uma
série de equívocos... |
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RUÍDOS
LINGÜÍSTICOS (com trema por enquanto)
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Fábio de Castro - Agência FAPESP
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Entrevista com
LUIZ CARLOS CAGLIARI
O Acordo Ortográfico da
Língua Portuguesa foi assinado em 1990 para
uniformizar o registro escrito nos oito países que
falam o idioma: Brasil, Angola, Cabo Verde,
Guiné-Bissau, Moçambique, Portugal, Timor Leste e São
Tomé e Príncipe.
A implementação do acordo, adiada diversas vezes desde
1994, poderá ocorrer a partir de janeiro de 2008 nos
três países da Comunidade dos Países da Língua
Portuguesa (CPLP) que já ratificaram o protocolo:
Brasil, Cabo Verde e São Tomé e Príncipe.
Facilitar o processo de intercâmbio cultural e
científico entre os países e garantir a divulgação
mais ampla do idioma são os principais objetivos da
unificação ortográfica que, entre outras decisões,
elimina o acento circunflexo em palavras paroxítonas
terminadas em “o” duplo (como “vôo” e “enjôo”),
extingue o trema e inclui as letras K, Y e W no
alfabeto.
Para o Ministério da Educação brasileiro, a
divergência de ortografias do português prejudicaria
sua divulgação e prática em eventos internacionais. As
mudanças necessárias em livros escolares e arquivos de
editoras seriam compensadas pela atenuação do alto
custo da produção de diferentes versões de dicionários
e livros.
Mas a resistência é grande em alguns meios,
principalmente em Portugal, onde haveria o maior
impacto na língua – com o acordo, desaparecem o “c” e
o “p” não pronunciados, como em “acção” e “baptismo”.
Os portugueses precisarão também trocar a grafia de
“húmido” por “úmido”.
Para alguns especialistas, a reforma traria benefícios
desproporcionalmente pequenos em relação às
dificuldades que representaria. “Em uma reforma,
ninguém ganha e muitos perdem”, afirmou Luiz Carlos
Cagliari, professor do departamento de Lingüística da
Faculdade de Ciências e Letras da Universidade
Estadual Paulista (Unesp), em Araraquara.
Para o professor, a reforma é desnecessária e se
fundamenta em um grande desconhecimento da natureza,
das funções e dos usos da ortografia. Especialista em
fonética e fonologia, Cagliari publicou 11 livros e
atua na pesquisa em sistemas de escrita, prosódia,
ortografia e na história da ortografia da língua
portuguesa.
Há base científica para as modificações
contempladas pelo acordo?
As reformas ortográficas têm sido feitas sem o
conhecimento científico do que vem a ser a ortografia.
Desse erro original deriva uma série de equívocos. Mas
a questão fundamental não é se as mudanças serão
feitas em determinadas regras. O fundamental é saber
se há necessidade de mudança. Os argumentos dados para
justificar uma reforma como essa são, em geral,
falhos.
Poderia dar exemplo desses argumentos?
Um deles é “facilitar o uso da língua”. Mudar a
ortografia não facilita a vida de ninguém, porque a
ortografia não representa a fala de ninguém. É
simplesmente uma representação gráfica que permite a
leitura. Não vou ler Camões na pronúncia dele, mas na
minha. Como todos fazem isso, a ortografia não
representa a pronúncia de ninguém.
A unificação não facilitaria a comunicação
diplomática entre os países?
Unificar a ortografia é um equívoco. Apesar de seguir
regras de uso, tiradas de uma tradição, a ortografia,
como a linguagem em geral, sofre transformações no
tempo e no espaço. A história da ortografia mostra que
a escrita se transforma continuamente. Veja, por
exemplo, os corretores ortográficos dos computadores,
que apresentam variação de opções de ortografias
regionais para línguas como o inglês e o francês,
ambas tradicionais. O inglês tem uma ortografia
britânica e outra americana, ambas tradicionais.
Então, por que precisamos ter apenas um modelo? O
problema diplomático atinge somente a língua
portuguesa? Ou é um falso problema?
Alguns críticos dizem que a reforma forçará uma
mudança em todos os livros didáticos, dicionários e
arquivos de editoras, mas que seria uma reforma
superficial, que não chegaria a cumprir o objetivo de
padronizar a língua.
A idéia de simplificar a ortografia é uma ilusão desse
tipo de reforma ortográfica. Talvez a única
simplificação seja a abolição do trema – que ainda
terá exceção. Isso não representa grande coisa. Na
realidade, não precisaríamos de sinal algum além das
letras. Nem acento, nem trema. O inglês não tem sinais
diacríticos e não cria problemas aos usuários.
A reforma só faria sentido, então, se fosse mais
profunda?
Há grandes confusões nas bases ou regras da língua,
com relação ao hífen, por exemplo. Poderia haver
apenas uma regra que dissesse que as palavras
compostas por composição levam hífen e as compostas
por derivação não levam. O uso de acento gráfico em
português também gera confusão. Há um número enorme de
regras, todas desnecessárias, porque o falante sabe
onde cai o acento nas palavras e quais vogais são
abertas ou fechadas. Tirar uma regra ou outra não muda
muito.
As dificuldades de implantação da reforma são
grandes demais comparadas aos benefícios?
Venho dizendo há décadas: o melhor é não mexer na
ortografia, não fazer leis, deixar a tradição –
recomendada pelos dicionários, gramáticas,
vocabulários ortográficos – fazer sua história. Hoje,
temos que lidar com e ler muitos documentos antigos,
escritos em outras ortografias, e nada disso perturba,
nem mesmo os juristas, que precisam desses documentos
para se pronunciar em processos.
A ortografia deveria se basear na tradição e não em
leis?
Seria melhor. Os usuários agem da seguinte forma: ou
sabem escrever – e o fazem com certeza – ou têm
dúvidas. Nesse caso, não adianta pensar, a solução é
olhar no dicionário e não ficar procurando regras nas
gramáticas. As regras, estudadas apenas em alguns
momentos da escola, ajudam. Mas, na hora da dúvida
ortográfica, o que salva os usuários comuns não são as
regras, mas o conhecimento de outros fatores, como a
etimologia e a comparação.
Entre as mudanças propostas, quais o senhor
considera mais impactantes? Nenhuma delas é
imprescindível?
Em uma reforma, ninguém ganha e muitos perdem. No caso
desse acordo, nenhuma mudança sugerida é necessária.
Poderíamos ficar com o que tínhamos e nada mudaria. A
grande confusão veio quando resolveram transformar a
ortografia em lei, um absurdo tão grande quanto o fato
de terem tornado oficial uma nomenclatura gramatical
brasileira. Uma aberração sem tamanho.
A maior resistência à reforma vem de Portugal. Por
que isso ocorre? O senhor vê, como alguns, uma
“brasilificação” da língua com essa reforma?
Estive em reuniões em Portugal com acadêmicos e
escritores que discutiam a unificação. Eles acham a
reforma totalmente desnecessária. De fato, esta
reforma, ao contrário da feita na década de 1910,
representa um gesto brasileiro contra a tradição da
língua. Para uma pessoa culta, a escrita traz as
marcas da pátria, da história, e isso fica prejudicado
por leis que pretendem que todos sejam iguais.
A padronização tornará os livros atuais obsoletos?
Isso é um problema que decorre, como todos os outros,
de transformar a ortografia em lei e não da reforma
ortográfica em si mesma. Alguém poderia propor
alterações na grafia das palavras e, se os usuários
passassem a aderir, com o tempo viraria tradição, como
sempre ocorreu. Se não for oficial, a ortografia pode
aparecer de modos diferentes e os livreiros não
precisam jogar nada no lixo. Nem precisaríamos jogar
fora os livros escolares de nossas bibliotecas
escolares porque estão com a ortografia errada.
Quem sofrerá maior impacto com a reforma?
Os literatos sofrerão mais, porque a ortografia também
pode ter valor estilístico, como vemos em autores como
Saramago. Por outro lado, em um país em que grande
parte da população não lê, uma reforma ortográfica vem
perturbar apenas os letrados.
Tivemos reformas em 1919, 1943 e 1971. O português
muda demais?
Poderíamos ter seguido o exemplo das línguas francesa
e inglesa que, apesar da longa tradição de brigas por
reformas ortográficas, se mantêm há séculos sem
grandes mudanças. Mas entramos em um caminho errado.
Isso ocorre porque, para entender a ortografia,
precisamos saber que a leitura não é transcrição
fonética nem semântica, portanto basta reconhecer na
escrita o que o usuário fala. A ortografia foi criada
para neutralizar a variação lingüística: não interessa
se você fala “tia” ou “tchia”. A escrita é uma só:
tia. A letra “A” representa o som de todos os “As”
falados em todos os dialetos em todas as palavras da
língua. Assim, na palavra “acharam”, que se pronuncia
“acharu”, o “A” tem o som de “U”.
Quanto tempo uma reforma dessas deve levar para ser
assimilada pelas populações?
Em relação à reforma de 1919, constatamos que somente
na segunda metade do século 20 as pessoas aderiram de
fato. E nem todas. As publicações só adotaram a
reforma 50 anos depois. Nas reformas posteriores, a
intervenção do Ministério da Educação nas escolas, nos
livros e nas editoras foi ameaçadora, como é hoje: ou
tudo ou nada. Com relação às pessoas cultas, a reforma
começa logo, por força social. Na escola, é um grande
problema para os professores e menor para os alunos,
que não precisam modificar o que sabiam antes. Para o
povo, pouco interessa. Muitos continuarão escrevendo
fora de qualquer padrão tradicional ou imposto por
lei, mas de acordo com hipóteses que fazem de como
podem escrever para alguém ler e entender o que eles
querem dizer.
* Republicado com
autorização da AGÊNCIA FAPESP -
http://www.agencia.fapesp.br/
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