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    Um bom livro não nos ensina a ver as pessoas e o mundo que nos cerca, mas nos dá valiosos elementos para descobrirmos como são as pessoas e o mundo ao redor.

LEITURA
Amilcar Neves (*)

As pessoas afeitas a obras de auto-ajuda pessoal, profissional ou espiritual acostumam-se a receber argumentos e recomendações expostos de forma clara, linear e segura. O autor nunca tem dúvidas, é uma pessoa de enorme sucesso pessoal, profissional e espiritual (o sucesso da venda aos borbotões para clientes que adoram textos isentos de dúvidas, incertezas, indefinições, penumbras e questionamentos) e sabe com precisão o que o leitor tem que fazer para subir na vida e ter sucesso, emprego, dinheiro, mulheres e/ou homens, saúde e felicidade.

Aliás, o caminho a ser seguido é óbvio, claro, fácil, plano e seguro, bastando ao interessado apenas começar a trilhá-lo, o que, se decidir mesmo fazê-lo, ele o fará sem o menor esforço: é suficiente apenas que acredite em si e, claro, no seu sonho: que busque o sonho pessoal com determinação e destemor, que acredite nele com confiança e perseverança, porque ele, o sonho, está ali à sua inteira disposição, aguardando tão-somente ser realizado: aquela história confortável de que a força encontra-se exclusivamente dentro de cada um de nós.

Seguindo o sonho com fervor, não há obstáculo que ouse manter-se de pé. O autor de obras de auto-ajuda, em meio a muita historinha cor-de-rosa plena de ensinamentos morais, aposta na capacidade do seu leitor cativo que, como qualquer ser humano, não tem limitação intelectual alguma e as suas necessidades ao longo do caminho Deus proverá, assim como o faz aos pássaros, plantas e montanhas. Enfim, no fim tudo dará certo (e, como se sabe, se não deu certo é porque ainda não chegou ao fim, o que perpetua a esperança e inibe a cobrança).

O único problema disso tudo é que a vida não é assim, desenhada com traços puros e definidos, quase geométricos. Estes atributos cabem, na verdade, aos contos de fadas. A vida, por sorte, é outra coisa, complexa, sedutora e cheia de alternativas.

Da mesma forma, esse tipo de obra pode vir em livros, mas não é literatura, e seus autores podem ganhar muito dinheiro, mas não são escritores (no sentido literário do termo).

As pessoas afeitas a obras de auto-ajuda, e que chegam até elas como o ideal máximo de leitura, não suportam as sutilezas e entrelinhas do texto literário. Um romance, um poema, mesmo um conto e até uma crônica, são muito difíceis, complicados e deixam no leitor, ao invés de certezas cristalinas, um monte de dúvidas, perguntas sem respostas e, não raro, sequer dizem o que aconteceu de verdade ou depois da última página - como se a vida, que a literatura pretende recriar - mas não copiar, o que não funciona literariamente -, fosse diferente disso e nos deixasse menos dúvidas, perplexidades e ignorâncias.

No entanto, o verdadeiro autoconhecimento, com todas as nossas limitações e fraquezas, com todos os nossos valores e qualidades, revela-se a partir da literatura. Um bom livro não nos ensina a ver as pessoas e o mundo que nos cerca, mas nos dá valiosos elementos para descobrirmos como são as pessoas e o mundo ao redor. Uma obra literária nos permite experimentar outras personalidades e outras situações, viver em lugares diferentes que passamos a conhecer com a simpatia de quem, de alguma forma, esteve lá. Dir-se-á: o cinema também propicia essa experiência, da mesma forma e em muito menos tempo. Não é verdade, porém. No cinema - o bom cinema -, estamos sujeitos ao ritmo do filme e à exigüidade, inerente à linguagem da sétima arte, de cenas muito curtas que pretendem sintetizar muita coisa. Na literatura, o ritmo é o de cada leitor, e a imersão é absoluta, pelo tempo que desejarmos.

Sem contar o imenso prazer que a leitura de um bom livro sempre proporciona.


(*) Amilcar Neves é escritor e assina crônicas às quartas-feiras no jornal Diário Catarinense, de Florianópolis. Dentre seus sete livros publicados, citam-se Relatos de Sonhos e de Lutas, contos (Record, 3a. edição, 2007), Da Importância de Criar Mancuspias, crônicas (Garapuvu, 2005), e O Tempo de Eduardo Dias, teatro, em co-autoria com Francisco José Pereira (Garapuvu, 2005), pesquisa sobre a vida de um pintor catarinense, livro que vale três processos por danos morais contra os autores e a editora, com pedido de retirada de circulação da obra.

Agradecimento especial ao Diário Catarinense, por autorizar a republicação do texto em Linha Mestra

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