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... Este é um país que padece do grave problema de ser infantil em relação à criança. Um país que faz da criança um adulto precoce, mas que insiste em tratar a criança como se criança fosse imatura...

A INFÂNCIA BREVE NA
SOCIEDADE DA INDIFERENÇA
 
 José de Souza Martins
 
O Brasil é um país em que milhões de crianças já nascem quase perto de se tornarem idosas. Muitas delas já estarão cansadas de trabalhar aos 25 anos de idade porque começaram cedo demais. Se levarmos em conta a nossa pobre concepção de idoso e que, nela, o homem se torna idoso aos 60 anos, aos 40 anos de idade muitos já terão trabalhado o tanto que os leva ao fim da vida. Pior ainda é o cenário se considerarmos que em certos setores sociais muitos só conseguem começar a trabalhar aos 30 anos, depois de terminarem os cursos de pós-graduação na universidade. Estarão começando, apesar de terem quase a mesma idade, quando seus colegas etários estarão terminando, já próximos da morte simbólica que lhes reserva a nossa previdência social.

Milhões das nossas crianças, antes de aprenderem a rezar o pão nosso de cada dia, já saberão como é que em cada dia se ganha o nosso pão. Um quinto dos brasileiros trabalha antes do corpo se tornar adulto, antes que uma pessoa tenha condições de dominar fisicamente o instrumento de seu trabalho, de modo que milhões vão conhecer indefesos o trabalho como a crua forma em que a coisa domina a pessoa. Em nossa cultura cristã, nascemos e crescemos sabendo que o trabalho é castigo porque, no Paraíso, Adão e Eva decifraram o mistério do pecado. Aqui, milhões de nossas crianças ainda estão longe de conhecer esse mistério e já são castigadas pelo pecado que ainda não cometeram.

Não nos enganemos, porém, a respeito dessas falácias que estão na trama essencial de nossas crenças e dos valores da sociedade, apesar de fábulas. Castigo, sabemos todos, é nascer condenado à privação de alegria. Apesar de moderna, e distante de lendas bíblicas e não bíblicas, a sociedade contemporânea, e no Brasil isso é claro, não conseguiu elaborar nenhum mito decente para superar esses mandatos e construir uma nova concepção da vida (e do trabalho) centrada na precedência da alegria como núcleo essencial do viver. O trabalho-castigo ganhou pleno sentido não nos tempos bíblicos, mas com a Revolução Industrial, com legiões de crianças transformadas em equivalentes de carvão-de-pedra, consumidas como combustível nas linhas de produção e em jornadas de trabalho que nem aos cavalos era imposta: os cavalos custavam caro.

A pobreza de muitos responde, sem dúvida, pela alta proporção de crianças e jovens que nascem condenados ao trabalho precoce no Brasil. Não é estranho, portanto, que aos 15 anos de idade quase metade dos adolescentes já esteja na força de trabalho e que pouco menos de 20% dos que estão na faixa de 10 a 14 anos de idade estejam trabalhando: 11% no Sudeste e 24% no Nordeste. Mas na faixa dos 15 anos quase metade trabalha e a diferença entre Nordeste e Sudeste é de menos de 3%.

Já o Sul familista, agrícola, religioso e, comparativamente, próspero tem quase um quinto de suas crianças de menos de 15 anos no trabalho. Técnicos que conhecem as estatísticas e não conhecem os costumes e a vida ficam eriçados de horror diante desses fatos. Mas o campo não é a cidade. Crianças e adolescentes no trabalho rural expressam também uma forma de organização da família que a cidade já não conhece. Expressam o caráter comunitário da vida, onde a alegria ainda não foi transformada em mercadoria, não foi separada da família, do viver e do trabalho que o articula e cimenta, não foi expulsa de casa. O trabalho infantil na roça é a escola em que os pais transferem com amor aos filhos o imenso capital de conhecimento que herdaram de pais e avós.

Fazem o que a escola nunca fez nem quer fazer nem tem competência para fazer. Poderia tê-la se os nossos educadores não fossem tão elitistas e tão reacionariamente avessos ao campo e aos camponeses, aos valores socialmente criativos que há num mundo que ainda não foi fragmentado e seus pedaços espalhados. Mesmo os educadores revolucionários desta era de esquerda são agentes de alienação dos filhos da terra, disseminadores de uma ideologia proletária a membros de uma categoria social que ainda não passou pela proletarização e, se passou, quer dela escapar, como é caso dos sem-terra, que querem retornar à condição camponesa, ao mundo idílico da agricultura familiar, à vida comunitária dos filhos de Nosso Senhor. Sem-terra leninista é goiabada de chuchu, peixe fora d'água, vítima da pregação alienante dos missionários das próprias conveniências de classe média desenraizada. E não é que não haja valorização da escola pelos destinatários da escolarização. No Brasil inteiro, há dez anos, já era surpreendentemente grande a valorização da escola. Mais de 7% das crianças que tinham entre 10 e 11 anos de idade estudavam e trabalhavam e um por cento só trabalhava. Dos que tinham de 12 a 14 anos, os que estudavam e trabalhavam eram 14% e os que só trabalhavam eram mais de 3%. Um esforço para conciliar o destino com a esperança.

Mas há os muitos que trabalham não porque estão condenados, mas porque são amados. É forte entre nós a tradição de povo trabalhador que faz do trabalho um valor. Honrado é o homem que valoriza o trabalho e de boa índole é a criança que não estranha o trabalho e não recusa o destino de trabalhador. Essa ideologia nasceu entre nós quando morria o trabalho escravo e o trabalho livre passava por uma fase de experimentação nada fácil. Na escravidão não havia infância. Filho de cativo brincava de ser escravo do sinhozinho. Mesmo os livres e bem nascidos brincavam de mandar.

A infância nasce culturalmente após a Revolução Francesa, que chegou até nós muito tardiamente, mais de cem anos depois. Nos anos trinta, com Mário de Andrade e Nicanor Miranda no Departamento de Cultura da Prefeitura de São Paulo, creches foram criadas na cidade para acolher os filhos de trabalhadores. Mas também para ensiná-las a brincar. Brincava-se nas ruas, geralmente de terra, é verdade. Mas brincava-se de adulto, de cavaleiro andante, de princesa confinada, brincadeiras pré-modernas, de romance, teatro infantil e de rua. Não se brincava de brincar, de ser criança. As personagens representadas nos brinquedos infantis não eram infantis. Infância era uma espécie de doença, um sintoma de incapacidade física e mental para ser adulto. Nas escolas as crianças eram preparadas para serem adultas e não para serem crianças. Não avançamos muito até hoje. Milhões de crianças, no Brasil, não conhecem e nunca conhecerão a infância. Brincam de gente grande e não raro o fazem com alegria e paciência. São muitas as que brincam trabalhando, para cumprir indevida e injustamente a pena de Adão.

Este é um país que padece do grave problema de ser infantil em relação à criança. Um país que faz da criança um adulto precoce, mas que insiste em tratar a criança como se criança fosse, imatura, incapaz, dependente. Pode trabalhar, até manter a família, mas não pode interpretar o seu lugar no mundo, as vicissitudes que a vitimam, expressar sua visão de mundo, ser ouvida, fazer dos adultos a crítica social que os adultos fazem das crianças e dos adolescentes. Um país que se espanta quando descobre o doloroso fato de que no corpo de uma criança já existe o adulto que não deveria existir, empunhando a enxada que pesa mais do que ela, ou o martelo que só pode ser erguido com as duas pequenas mãos ou o revólver cujo gatilho pede a força e a determinação de quem pode matar sem ainda ter vivido. Ou que convoca o adolescente cedo para o trabalho, mas que proíbe o seu trabalho para transformá-lo em criança da mera ficção da lei e cria, assim, o limbo das crianças e dos jovens, na espera mentirosa pela condição adulta.

É quase inacreditável o número de iniciativas, instituições e organizações que tem a criança como pretexto de sua própria existência. Certamente há um número grande daquelas que estão genuinamente voltadas para a criança. Mesmo assim deveria ser motivo de grande preocupação que tantas mediações 'não naturais' existam entre a criança e seu destino. Como deveria ser objeto de debate e consciência que a criança tenha se transformado no Brasil num ser fictício, de meras considerações analíticas e estatísticas, destituída da corporeidade social de que é parte e lhe dá sentido. É tão ampla a perda de perspectiva que, na maioria dos casos, o noticiário sobre a criança deixa de lado a criança como ela é. A criança e o adolescente ganharam visibilidade como o que não são. Curiosamente, como seres perigosos, como ameaça à sociedade, como futuros bandidos, como carentes da tutela preventiva que protegerá a anômala sociedade de adultos muito mais do que a rica normalidade da infância e da criança. Os adultos, e as instituições que criaram, se defendem antecipadamente dos perigos presumíveis que a criança representa.

Todos se inquietam com a criança na rua e já inventaram até mesmo o esdrúxulo conceito de 'meninos de rua'. Por que não, 'adultos de rua'? Numa certa época existiam as delegacias de repressão à vadiagem e ainda existe a repressão à vadiagem. Ai daquele homem de aparência modesta e mal vestido que não tiver no bolso a carteira de trabalho com emprego devidamente registrado. No mínimo será inquirido, molestado, sujeito a verificação de folha corrida e até recolhido para averiguação. O trabalhador foi, durante muito tempo, o suspeito social por excelência, suspeito não importa de que. Hoje a criança é a suspeita. A criminalização da infância e da juventude mostra-nos a capacidade adaptativa dessa insidiosa cultura da repressão que se perpetua de vários modos, não raro piedosas iniciativas de solidariedade.

É inacreditável que educadores, políticos, religiosos, queiram decidir o destino das crianças sem ouvi-las, sem falar sua língua, queiram fazer delas cidadãos sem permitir-lhes que sejam antes crianças, fazê-las responsáveis sem tê-las feito antes alegres e felizes. Qual cidadão, cara-pálida? Milhões de crianças e jovens neste País, porém, chegarão lá porque inventaram um jeito de ter uma infância clandestina, um jeito de ser esperançosamente felizes a despeito da sociedade em que vivem.
 
 
 
(IN Estado de S. Paulo. Aliás. Página J4 Domingo, 3 dezembro de 2006, com autorização da fonte)   

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