O Brasil é
um país em que milhões de crianças já nascem
quase perto de se tornarem idosas. Muitas delas
já estarão cansadas de trabalhar aos 25 anos de
idade porque começaram cedo demais. Se levarmos
em conta a nossa pobre concepção de idoso e que,
nela, o homem se torna idoso aos 60 anos, aos 40
anos de idade muitos já terão trabalhado o tanto
que os leva ao fim da vida. Pior ainda é o
cenário se considerarmos que em certos setores
sociais muitos só conseguem começar a trabalhar
aos 30 anos, depois de terminarem os cursos de
pós-graduação na universidade. Estarão
começando, apesar de terem quase a mesma idade,
quando seus colegas etários estarão terminando,
já próximos da morte simbólica que lhes reserva
a nossa previdência social.
Milhões das nossas crianças, antes de aprenderem
a rezar o pão nosso de cada dia, já saberão como
é que em cada dia se ganha o nosso pão. Um
quinto dos brasileiros trabalha antes do corpo
se tornar adulto, antes que uma pessoa tenha
condições de dominar fisicamente o instrumento
de seu trabalho, de modo que milhões vão
conhecer indefesos o trabalho como a crua forma
em que a coisa domina a pessoa. Em nossa cultura
cristã, nascemos e crescemos sabendo que o
trabalho é castigo porque, no Paraíso, Adão e
Eva decifraram o mistério do pecado. Aqui,
milhões de nossas crianças ainda estão longe de
conhecer esse mistério e já são castigadas pelo
pecado que ainda não cometeram.
Não nos enganemos, porém, a respeito dessas
falácias que estão na trama essencial de nossas
crenças e dos valores da sociedade, apesar de
fábulas. Castigo, sabemos todos, é nascer
condenado à privação de alegria. Apesar de
moderna, e distante de lendas bíblicas e não
bíblicas, a sociedade contemporânea, e no Brasil
isso é claro, não conseguiu elaborar nenhum mito
decente para superar esses mandatos e construir
uma nova concepção da vida (e do trabalho)
centrada na precedência da alegria como núcleo
essencial do viver. O trabalho-castigo ganhou
pleno sentido não nos tempos bíblicos, mas com a
Revolução Industrial, com legiões de crianças
transformadas em equivalentes de
carvão-de-pedra, consumidas como combustível nas
linhas de produção e em jornadas de trabalho que
nem aos cavalos era imposta: os cavalos custavam
caro.
A pobreza de muitos responde, sem dúvida, pela
alta proporção de crianças e jovens que nascem
condenados ao trabalho precoce no Brasil. Não é
estranho, portanto, que aos 15 anos de idade
quase metade dos adolescentes já esteja na força
de trabalho e que pouco menos de 20% dos que
estão na faixa de 10 a 14 anos de idade estejam
trabalhando: 11% no Sudeste e 24% no Nordeste.
Mas na faixa dos 15 anos quase metade trabalha e
a diferença entre Nordeste e Sudeste é de menos
de 3%.
Já o Sul familista, agrícola, religioso e,
comparativamente, próspero tem quase um quinto
de suas crianças de menos de 15 anos no
trabalho. Técnicos que conhecem as estatísticas
e não conhecem os costumes e a vida ficam
eriçados de horror diante desses fatos. Mas o
campo não é a cidade. Crianças e adolescentes no
trabalho rural expressam também uma forma de
organização da família que a cidade já não
conhece. Expressam o caráter comunitário da
vida, onde a alegria ainda não foi transformada
em mercadoria, não foi separada da família, do
viver e do trabalho que o articula e cimenta,
não foi expulsa de casa. O trabalho infantil na
roça é a escola em que os pais transferem com
amor aos filhos o imenso capital de conhecimento
que herdaram de pais e avós.
Fazem o que a escola nunca fez nem quer fazer
nem tem competência para fazer. Poderia tê-la se
os nossos educadores não fossem tão elitistas e
tão reacionariamente avessos ao campo e aos
camponeses, aos valores socialmente criativos
que há num mundo que ainda não foi fragmentado e
seus pedaços espalhados. Mesmo os educadores
revolucionários desta era de esquerda são
agentes de alienação dos filhos da terra,
disseminadores de uma ideologia proletária a
membros de uma categoria social que ainda não
passou pela proletarização e, se passou, quer
dela escapar, como é caso dos sem-terra, que
querem retornar à condição camponesa, ao mundo
idílico da agricultura familiar, à vida
comunitária dos filhos de Nosso Senhor.
Sem-terra leninista é goiabada de chuchu, peixe
fora d'água, vítima da pregação alienante dos
missionários das próprias conveniências de
classe média desenraizada. E não é que não haja
valorização da escola pelos destinatários da
escolarização. No Brasil inteiro, há dez anos,
já era surpreendentemente grande a valorização
da escola. Mais de 7% das crianças que tinham
entre 10 e 11 anos de idade estudavam e
trabalhavam e um por cento só trabalhava. Dos
que tinham de 12 a 14 anos, os que estudavam e
trabalhavam eram 14% e os que só trabalhavam
eram mais de 3%. Um esforço para conciliar o
destino com a esperança.
Mas há os muitos que trabalham não porque estão
condenados, mas porque são amados. É forte entre
nós a tradição de povo trabalhador que faz do
trabalho um valor. Honrado é o homem que
valoriza o trabalho e de boa índole é a criança
que não estranha o trabalho e não recusa o
destino de trabalhador. Essa ideologia nasceu
entre nós quando morria o trabalho escravo e o
trabalho livre passava por uma fase de
experimentação nada fácil. Na escravidão não
havia infância. Filho de cativo brincava de ser
escravo do sinhozinho. Mesmo os livres e bem
nascidos brincavam de mandar.
A infância nasce culturalmente após a Revolução
Francesa, que chegou até nós muito tardiamente,
mais de cem anos depois. Nos anos trinta, com
Mário de Andrade e Nicanor Miranda no
Departamento de Cultura da Prefeitura de São
Paulo, creches foram criadas na cidade para
acolher os filhos de trabalhadores. Mas também
para ensiná-las a brincar. Brincava-se nas ruas,
geralmente de terra, é verdade. Mas brincava-se
de adulto, de cavaleiro andante, de princesa
confinada, brincadeiras pré-modernas, de
romance, teatro infantil e de rua. Não se
brincava de brincar, de ser criança. As
personagens representadas nos brinquedos
infantis não eram infantis. Infância era uma
espécie de doença, um sintoma de incapacidade
física e mental para ser adulto. Nas escolas as
crianças eram preparadas para serem adultas e
não para serem crianças. Não avançamos muito até
hoje. Milhões de crianças, no Brasil, não
conhecem e nunca conhecerão a infância. Brincam
de gente grande e não raro o fazem com alegria e
paciência. São muitas as que brincam
trabalhando, para cumprir indevida e
injustamente a pena de Adão.
Este é um país que padece do grave problema de
ser infantil em relação à criança. Um país que
faz da criança um adulto precoce, mas que
insiste em tratar a criança como se criança
fosse, imatura, incapaz, dependente. Pode
trabalhar, até manter a família, mas não pode
interpretar o seu lugar no mundo, as
vicissitudes que a vitimam, expressar sua visão
de mundo, ser ouvida, fazer dos adultos a
crítica social que os adultos fazem das crianças
e dos adolescentes. Um país que se espanta
quando descobre o doloroso fato de que no corpo
de uma criança já existe o adulto que não
deveria existir, empunhando a enxada que pesa
mais do que ela, ou o martelo que só pode ser
erguido com as duas pequenas mãos ou o revólver
cujo gatilho pede a força e a determinação de
quem pode matar sem ainda ter vivido. Ou que
convoca o adolescente cedo para o trabalho, mas
que proíbe o seu trabalho para transformá-lo em
criança da mera ficção da lei e cria, assim, o
limbo das crianças e dos jovens, na espera
mentirosa pela condição adulta.
É quase inacreditável o número de iniciativas,
instituições e organizações que tem a criança
como pretexto de sua própria existência.
Certamente há um número grande daquelas que
estão genuinamente voltadas para a criança.
Mesmo assim deveria ser motivo de grande
preocupação que tantas mediações 'não naturais'
existam entre a criança e seu destino. Como
deveria ser objeto de debate e consciência que a
criança tenha se transformado no Brasil num ser
fictício, de meras considerações analíticas e
estatísticas, destituída da corporeidade social
de que é parte e lhe dá sentido. É tão ampla a
perda de perspectiva que, na maioria dos casos,
o noticiário sobre a criança deixa de lado a
criança como ela é. A criança e o adolescente
ganharam visibilidade como o que não são.
Curiosamente, como seres perigosos, como ameaça
à sociedade, como futuros bandidos, como
carentes da tutela preventiva que protegerá a
anômala sociedade de adultos muito mais do que a
rica normalidade da infância e da criança. Os
adultos, e as instituições que criaram, se
defendem antecipadamente dos perigos presumíveis
que a criança representa.
Todos se inquietam com a criança na rua e já
inventaram até mesmo o esdrúxulo conceito de
'meninos de rua'. Por que não, 'adultos de rua'?
Numa certa época existiam as delegacias de
repressão à vadiagem e ainda existe a repressão
à vadiagem. Ai daquele homem de aparência
modesta e mal vestido que não tiver no bolso a
carteira de trabalho com emprego devidamente
registrado. No mínimo será inquirido, molestado,
sujeito a verificação de folha corrida e até
recolhido para averiguação. O trabalhador foi,
durante muito tempo, o suspeito social por
excelência, suspeito não importa de que. Hoje a
criança é a suspeita. A criminalização da
infância e da juventude mostra-nos a capacidade
adaptativa dessa insidiosa cultura da repressão
que se perpetua de vários modos, não raro
piedosas iniciativas de solidariedade.
É inacreditável que educadores, políticos,
religiosos, queiram decidir o destino das
crianças sem ouvi-las, sem falar sua língua,
queiram fazer delas cidadãos sem permitir-lhes
que sejam antes crianças, fazê-las responsáveis
sem tê-las feito antes alegres e felizes. Qual
cidadão, cara-pálida? Milhões de crianças e
jovens neste País, porém, chegarão lá porque
inventaram um jeito de ter uma infância
clandestina, um jeito de ser esperançosamente
felizes a despeito da sociedade em que vivem.
(IN Estado de S.
Paulo. Aliás. Página J4
Domingo, 3 dezembro de 2006,
com autorização da fonte)