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Este
pequeno texto foi escrito num momento de ressaca -
ressaca de alegria, quando retornava de mais uma
festa da leitura, COLE, em 2003, publicado no site
Canteiros de Obras.
Ressuscito-o para lembrar aos convivas que é chegada
a data de mais um encontro, a ser realizado entre os
dias 10 a 14 de julho na UNICAMP.
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Com as malas prontas para mais um COLE, conto um
pouquinho deste evento para você leitor ficar com
água na boca e ficar desejoso de também vir.
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Nos emparedados anos da ditadura militar no Brasil –
em que a democracia era objeto de desejo e os sonhos
só se realizavam quando eram comidos na padaria em
frente, como vaticinava Alex Polari; em que pensar
coletivamente era caso de polícia e em que valia a
pena viver, segundo Gullar e muita gente boa, mesmo
sendo a liberdade pequena; em que Ledo Ivo, em sua
Cartilha, via mais que a Eva e o Ovo, Ivo via o povo
e a Greve –, um grupo de professores fundava a
Associação de Leitura do Brasil (ALB).
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Era preciso democratizar o país, era preciso
democratizar a leitura.
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Entre os muitos caminhos trilhados pela ALB para
refletir sobre a leitura em nosso país, destaca-se o
Congresso de Leitura do Brasil (COLE) e a revista
publicada semestralmente, Leitura: Teoria e Prática.
Realizado bianualmente, o COLE, que teve sua
primeira edição em 1978, comemorou 25 anos em 2004.
E agora está as portas de entrar na casa dos 30.
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Num amplo exercício de socialização de leituras
sobre leituras, encontram-se nesse evento pesquisas
realizadas em programas de pós-graduação,
investigação de grupos de pesquisas, relatos de
experiências de professores experientes e
iniciantes. Também fora do espaço escolar e
acadêmico ressoam outras vozes, que narram outros
tipos de leituras: editores, livreiros, professores,
bibliotecários, pesquisadores, estudantes,
escritores, críticos, agentes culturais,
ilustradores... todos reunidos num único lugar! Eis
o COLE.
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Nesses quase 30 anos foi tecido um repertório de
textos que se fizeram e ainda estão presentes nas
discussões de quem pensa sobre o mundo múltiplo da
leitura (formas, razões, gestos, práticas,
suportes): O mundo da escrita, de Haquira Osakabe
(1o COLE, 1978) Leitura e Lei-dura, de Ezequiel
Theodoro da Silva (2o COLE, 1979) A importância do
Ato de ler, de Paulo Freire (3o COLE , 1981);
Tecendo a leitura, de Marisa Lajolo (4o COLE, 1983),
entre muitos e muitos outros.
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Na perspectiva transdisciplinar adotada na década de
90, o COLE conta com 16 Seminários temáticos
simultâneos, que têm como ponto comum reflexões
sobre Cultura Escrita, Letramento e Educação. Alguns
desses seminários já vão para a 8a edição, como o
Seminário sobre Biblioteca e o de Educação de Jovens
e Adultos; outros ainda são meninos, como o
Seminário sobre Educação Matemática, Linguagens na
Educação Infantil e o de Produção de Conhecimento,
Saberes e Formação Docente. A multiplicidade de
Seminários acaba por se converter numa unicidade,
isto é, todas as comunicações trazem em suas linhas
e entrelinhas o contato afetivo e efetivo com a
leitura e a escrita: objetos de enganos, desenganos,
prazeres... mas sempre objetos de desejo.
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O desejo de Ezequiel Theodoro da Silva de que o COLE
“colasse” concretizou-se, embora ainda não tenhamos
concretizado a democratização da leitura. Parabéns a
todos e a todas (Elianes, Ezequiéis, Paulos,
Marisas, Márcias, Reginas e muitos outros Joãos,
Pedros e Marias) das mais diferentes regiões do
Brasil, que se encontram e se reencontram no COLE
para fazê-lo sempre vivo. E que estejam presentes e
sempre em mente as palavras proferidas por João
Wanderley Geraldi na abertura do 9o COLE: “Qualquer
trabalho que procure tornar a leitura conquista de
uma realidade não pode esquecer o contexto de sua
luta e tampouco excluir de seus horizontes a
realização da felicidade individual no projeto de
construção de uma sociedade democrática em todos os
sentidos desta expressão”.
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(*)
Eliane Santana Dias Debus.
Doutora em Letras – PUCRS. Professora da
Universidade do Sul de Santa Catarina (UNISUL) -
eliane.debus@unisul.br