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Agradam-me, particularmente, as análises das imagens docentes. Na leitura que Célia faz das representações da professora, esta figura tão central e muitas vezes tão injustamente culpabilizada....

LEITURA, LITERATURA INFANTO-JUVENIL E EDUCAÇÃO
Marisa Lajolo 

 
Livros, leitura, professores e alunos fizeram sempre parte do cenário escolar; pois não é de hoje que educadores e famílias se perguntam se a criançada está lendo o quanto deve ler, o que deve ler e como deve ler.

São inúmeras as pesquisas, inclusive brasileiras, que vêm desenhando um XIX já preocupado com o que a meninada lia ou deixava de ler. Se incluirmos no desenho Bárbara Heliodora e Margarida da Silva e Orta, a agenda remonta ao século XVIII.

Mas questões de leitura não são, no entanto, monopólio da escola. Também é verdade que os leitores sempre fizeram parte - maior ou menor - de reflexões sobre literatura. Parte menor, talvez, em teorias de extração romântica, que privilegiavam o pólo do autor e da escrita encolhendo o pólo da leitura; e parte maior – muito maior - nas várias vertentes da Estética da Recepção, algumas das quais dão ao leitor crédito total pela construção do significado do que é lido.

No ponto de encontro da educação e dos estudos literários, na riqueza da luz e das questões que um campo projeta sobre o outro, inscreve-se o trabalho de Célia Regina Delácio Fernandes, nascido como Tese de Doutorado que eu tive o imenso prazer de orientar e com a qual tanto aprendi.

E é por ter acompanhado, assim de perto, a gestação e o nascimento deste belo trabalho, que gostaria de dizer duas palavrinhas aos leitores. Pois estes, se podem tudo, talvez possam mais se compartilharem com outros leitores o percurso de sua viagem por palavras, linhas e entrelinhas. É nesta condição de leitora solidária e de primeira hora, que vou ao encontro de meus pares, todos os que têm este livro aberto nas mãos.

O trabalho que se desenrola pelas 296 páginas deste livro mostra aos leitores um caminho instigante, original e absolutamente necessário para se trabalhar com a literatura infantil. Um caminho que, na realidade, se bifurca numa encruzilhada dialética: o dentro e o fora dos livros de que se ocupa.

Nestes dois advérbios, dentro e fora, que, creio, podemos usar com propriedade para falar deste livro, a antiga dicotomia entre fatores externos e internos da literatura recoloca-se, e encontra um provocante desenvolvimento talvez favorecido pelo gênero que estuda: a literatura infantil.

Ao analisar as representações que escola, leitura e professores recebem em inúmeros livros voltados para o público infantil, Leitura, Literatura Infanto-Juvenil e Educação já ensina suas primeiras lições: de que na cidade das letras, o que se tem são representações, e que se precisa ter mão leve e olhar carinhoso para fazê-las (as representações) nos contarem o que, afinal, elas representam. E Célia faz isso com mão leve e firme, discutindo imagens de professor, de aluno, de escola, de livros e de leitura que povoam a literatura em circulação a partir da década de 1980; imagens construídas quer no texto, quer nas ilustrações, quer nas capas e contra-capas dos livros.

Ao levar em conta a materialidade de cada livro de que se ocupa, isto é, acreditando que é na totalidade dele, e não apenas de sua capa para dentro (por assim dizer) que um livro significa, Célia dialetiza bastante a oposição dentro/fora acima mencionada. O texto não é interno ao livro, nem este é externo àquele: ambos, aqui, são o dentro...

Agradam-me, particularmente, as análises das imagens docentes. Na leitura que Célia faz das representações da professora, esta figura tão central e muitas vezes tão injustamente culpabilizada ganha uma bem-vinda complexidade, ao também ser lida pelo viés do gênero, da classe social e da faixa etária.

Mas além de internalizar a materialidade do livro, fazendo sua componente visual dialogar com a componente verbal, o fora de Célia também renova-se e amplia-se ao ultrapassar a tradicional perspectiva de que o exterior de um texto é a sociedade que o viu nascer, como, por exemplo, se diz que a escravidão e os movimentos abolicionistas dialogam com a obra de Castro Alves.

O trabalho, aqui publicado, vai além desta visão. A autora parte da hipótese de que é verdade, sim, que a literatura dialoga com a vida social, da qual autores, livros e leitores fazem parte. A hipótese refina-se, porém, ao postular que é também verdade que o diálogo entre literatura e sociedade se faz de forma mais sutil do que a justaposição linear de um dado traço da sociedade a temas/assuntos/personagens presentes no texto.

O livro sugere ao leitor que a passagem do real para suas representações é mediada por instituições e por discursos que moldam, por assim dizer, as representações possíveis. É por esta perspectiva teórica, que é muito bom trabalhar com a literatura infantil. Mais do que a literatura não infantil, os livros para crianças são muito mais explícitos na articulação institucional de que se valem para alcançarem a circulação pretendida.

Como a literatura não infantil, também a literatura infantil carece de legitimação, de metalinguagem, de uma tradição da qual seja consciente e com a qual possa dialogar. Mas, ao contrário da literatura não infantil, a infantil articula-se, de forma muito visível, a uma poderosa instituição social, a escola, a partir da qual formata sua maneira de cumprir o percurso, que vai do autor aos leitores e da escrita à leitura.

Neste livro, no rigor com que estuda a mediação da escola no horizonte da literatura infantil, a autora inicia sua reflexão na teia de leis, projetos e financiamentos que constituem – agora sim a malha externa ao texto e ao livro, mas que o fazem chegar às mãos e aos olhos de leitores; menores de idade quando se trata de alunos, maiores de idade quando se trata de professores, autores e demais profissionais (adultos, por hipótese) envolvidos no mundo da literatura infantil.

Se for possível pensarmos que a segunda metade do século XX marca o tempo em que a leitura entrou definitivamente no mapa, tanto da política educacional quanto dos estudos literários, é com certeza correto dizer que este livro marca, com sensibilidade e competência, alguns dos caminhos pelos quais se navega por este mapa.

SOBRE A AUTORA: Célia Regina Delácio Fernandes é doutora em Letras pelo Instituto de Estudos da Linguagem, da UNICAMP. Atualmente trabalha como diretora, docente e pesquisadora do Curso de Letras na Universidade Federal da Grande Dourados (UFGD). Também presta diversos tipos de assessorias na elaboração de documentos governamentais sobre políticas públicas de leitura no Brasil, organiza eventos nessa área e ministra inúmeras palestras, cursos e minicursos. sobre leitura e formação de leitores. como resultado de seus estudos sobre escola, leitura, literatura infanto-juvenil e formação de leitores, publicou, como co-autora, o livro: Histórias e Histórias: Guia do usuário do Programa Nacional Biblioteca na Escola – PNBE/99. Coord. Marisa Lajolo. Brasília: MEC; SEF, 2001, 268p. Nos anos de 2005 e 2007, foi uma das autoras do fascículo Organização e uso da biblioteca escolar e das salas de leitura, que faz parte da Coleção Pró-Letramento do Ministério da Educação, desenvolvido pelo Centro de Formação Continuada de Professores – CEFIEL, da UNICAMP, onde atua como formadora dos tutores do Programa Pró-Letramento. Também apresentou diversos trabalhos em importantes eventos científicos nacionais e internacionais, que foram publicados sob a forma de artigos em revistas especializadas. celwal@terra.com.br

FERNANDES, Célia Regina Delácio. Leitura, Literatura Infanto-Juvenil e Educação. Londrina: EDUEL, 2007. (320 p.)

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