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Estudar é desocultar, é ganhar a compreensão
mais exata do objeto, é perceber suas
relações com outros objetos. Implica que o
estudioso se arrisque, se aventure, sem o
que não cria nem recria.... |
CARTA
DE PAULO FREIRE AOS PROFESSORES - UM
DESTAQUE
-
Paulo
Freire
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Noutra
ocasião presenciei experiência semelhante do
ponto de vista da inteligência do comportamento
das pessoas. Já me referi a este fato em outro
trabalho mas não faz mal que o retome agora. Me
achava na Ilha de São Tomé, na África Ocidental,
no Golfo da Guiné. Participava com educadores e
educadoras nacionais, do primeiro curso de
formação para alfabetizadores.
Havia sido escolhido pela equipe nacional um
pequeno povoado, Porto Mont, região de pesca,
para ser o centro das atividades de formação.
Havia sugerido aos nacionais que a formação dos
educadores e educadoras se fizesse não seguindo
certos métodos tradicionais que separam prática
de teoria. Nem tampouco através de nenhuma forma
de trabalho essencialmente dicotomizante de
teoria e prática e que ou menospreza a teoria,
negando-lhe qualquer importância, enfatizando
exclusivamente a prática, a única a valer, ou
negando a prática fixando-se só na teoria. Pelo
contrário, minha intenção era que, desde o
começo do curso, vivêssemos a relação
contraditória entre prática e teoria, que será
objeto de análise de uma de minhas cartas.
Recusava, por isso mesmo, uma forma de trabalho
em que fossem reservados os primeiros momentos
do curso para exposições ditas teóricas sobre
matéria fundamental de formação dos futuros
educadores e educadoras. Momento para discursos
de algumas pessoas, as consideradas mais capazes
para falar aos outros.
Minha convicção era outra. Pensava numa forma de
trabalho em que, numa única manhã, se falasse de
alguns conceitos-chave — codificação,
decodificação, por exemplo — como se
estivéssemos num tempo de apresentações, sem,
contudo, nem de longe imaginar que as
apresentações de certos conceitos fossem já
suficientes para o domínio da compreensão em
torno deles. A discussão crítica sobre a prática
em que se engajariam é o que o faria.
Assim, a idéia básica, aceita e posta em
prática, é que os jovens que se preparariam para
a tarefa de educadoras e educadores populares
deveriam coordenar a discussão em torno de
codificações num círculo de cultura com 25
participantes. Os participantes do círculo de
cultura estavam cientes de que se tratava de um
trabalho de afirmação de educadores. Discutiu-se
com eles antes sua tarefa política de nos ajudar
no esforço de formação, sabendo que iam
trabalhar com jovens em pleno processo de sua
formação. Sabiam que eles, assim como os jovens
a serem formados, jamais tinham feito o que iam
fazer. A única diferença que os marcava é que os
participantes liam apenas o mundo enquanto os
jovens a serem formados para a tarefa de
educadores liam já a palavra também. Jamais,
contudo, haviam discutido uma codificação assim
como jamais haviam tido a mais mínima
experiência alfabetizando alguém.
Em cada tarde do curso com duas horas de
trabalho com os 25 participantes, quatro
candidatos assumiam a direção dos debates. Os
responsáveis pelo curso assistiam em silêncio,
sem interferir, fazendo suas notas. No dia
seguinte, no seminário de avaliação de formação,
de quatro horas, se discutiam os equívocos, os
erros e os acertos dos candidatos, na presença
do grupo inteiro, desocultando-se com eles a
teoria que se achava na sua prática.
Dificilmente se repetiam os erros e os equívocos
que haviam sido cometidos e analisados. A teoria
emergia molhada da prática vivida.
Foi exatamente numa das tardes de formação que,
durante a discussão de uma codificação que
retratava Porto Mont, com suas casinhas
alinhadas à margem da praia, em frente ao mar,
com um pescador que deixava seu barco com um
peixe na mão, que dois dos participantes, como
se houvessem combinado, se levantaram, andaram
até a janela da escola em que estávamos e
olhando Porto Mont lá longe, disseram, de frente
novamente para a codificação que representava o
povoado: "É. Porto Mont é assim e não sabíamos".
Até então, sua "leitura" do lugarejo, de seu
mundo particular, uma "leitura" feita
demasiadamente próxima do "texto", que era o
contexto do povoado, não lhes havia permitido
ver Porto Mont como ele era. Havia uma certa
"opacidade" que cobria e encobria Porto Mont. A
experiência que estavam fazendo de "tomar
distância" do objeto, no caso, da codificação de
Porto Mont, lhes possibilitava uma nova leitura
mais fiel ao "texto", quer dizer, ao contexto de
Porto Mont. A "tomada de distância" que a
"leitura" da codificação lhes possibilitou os
aproximou mais de Porto Mont como "texto" sendo
lido. Esta nova leitura refez a leitura
anterior, daí que hajam dito: "É. Porto Mont é
assim e não sabíamos". Imersos na realidade de
seu pequeno mundo, não eram capazes de vê-la.
"Tomando distância" dela, emergiram e, assim, a
viram como até então jamais a tinham visto.
Estudar é desocultar, é ganhar a compreensão
mais exata do objeto, é perceber suas relações
com outros objetos. Implica que o estudioso,
sujeito do estudo, se arrisque, se aventure, sem
o que não cria nem recria.
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Trecho de
Carta de Paulo Freire aos Professores.
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