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ESTRADA
DE CHÃO
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Fernanda Mazzetto Moroso
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A terra era batida
E o que era barraco,
Taboa seca e seco chão,
Ela chamava de mansão.
Frestas largas, lixo no porão,
Comida rasa, restos por todos os lados,
Resto de gente, cheiro desagradável
Por todos os cantos, lixo espalhado:
Catadores de papelão.
Água tinha, luz não
Fogão até tinha,
Mas se tinha pro gás,
Faltava pro pão.
E quando era frio,
A lenha estralava,
Molhada, não queimava,
Restava o lampião.
Seis filhos já crescidos,
Em algum lugar escondidos do mundo,
Agora, só o mais novo e dois netos,
Sempre ali cabendo mais um.
No armário, do lixo da cidade
Um santo e um velho relicário,
Seus enfeites de pobreza
E um livro bem fechado.
Manchas no rosto de pele marrom,
Não, não era negra.
O marrom era de terra vermelha,
Batida pelo tempo,
De uma estrada usada
Por qualquer realidade submunda
No mundo de nossas realidades sempre cansadas.
Há pouco entraram em sua casa,
Dinheiro não tinha não,
Mas o pouco que tinha levaram
Nada sobrou do arroz e do feijão.
E assim ela vivia, sem proteção.
Todos os dias ia à cata de papelão
De qualquer lixo, de qualquer pão.
Um qualquer pra matar a fome,
A fome de homem perdido na multidão,
De ser mais só que a própria solidão.
É fome, pranto, venda, frio, ilusão.
Cheiro preso à velha vida cansada.
Terra escondida, batida, usada,
Nessa estrada sem chão.

Fernanda Mazzetto Moroso,
24, é catarinense e integrante da Academia
Itajaiense de Letras. Seu primeiro livro
publicado foi "Um feito de sentidos, poemas",
aos 18 anos de idade. Autora de livros de
contos, poemas e crônicas. Sua obra mais
recente é "Diário de Crônicas e Outras
Histórias". Atualmente, reside na cidade de
Itajaí onde está se formando em Letras pela
Universidade do Vale do Itajaí. Escreva para a
autora contando a sua apreciação do poema aqui
publicado
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