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...Como professores,
devemos dominar conhecimentos sobre o que é ler;
sobre as formas pelas quais uma criança se apropria
da capacidade de leitura; sobre modos de organizar
tempos, espaços e experiências capazes de motivar a
formação de leitores; sobre livros e textos; sobre
práticas de leitura essenciais ao desenvolvimento
amplo das crianças com quem trabalhamos... |
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QUESTÕES
SOBRE LEITURA E FORMAÇÃO DE PROFESSORES: ALGUMAS
REFLEXÕES
Michelle de Freitas
Bissoli
(*)
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Resumo:
Este artigo busca relacionar duas questões
prementes da educação brasileira: a leitura e
a formação de professores. Pretende apresentar
uma concepção de leitura, como capacidade
humanizadora e refletir sobre as implicações
deste conceito para um repensar sobre as
práticas de formação docente.
Palavras-chave: Leitura. Formação
docente. Humanização. Atividade. |
Resumen:
Este artículo busca relacionar dos importantes
cuestiones en la educación brasileña: la
lectura y la formación de maestros. Pretende
presentar una concepción de la lectura, como
capacidad humanizadora y reflexionar sobre las
implicaciones del referido concepto para
repensar sobre las prácticas de la formación
docente.
Palabras-clave: Lectura. Formación
docente. Humanización. Actividad. |
INTRODUÇÃO
Somos professores e professoras. Somos
responsáveis pela formação de leitores. Não os
únicos, evidentemente, já que a leitura é uma
prática social e, como tal, torna-se (ou deveria
tornar-se) presente na vida de meninos e meninas
desde muito cedo. Mas, é na escola que o contato
com a prática de ler e com o conhecimento dos e
sobre os mais variados tipos de textos,
socialmente produzidos, se dá de forma
sistemática, intencional. Se na escola temos a
oportunidade de atuar diretamente sobre a
formação das capacidades humanas, por intermédio
de um trabalho pedagógico organizado para tanto,
como contribuir para a consolidação da prática
de leitura entre as crianças com quem
trabalhamos?
Alguns saberes nos são essenciais. Como
professores, devemos dominar conhecimentos sobre
o que é ler; sobre as formas pelas quais uma
criança se apropria da capacidade de leitura;
sobre modos de organizar tempos, espaços e
experiências capazes de motivar a formação de
leitores; sobre livros e textos; sobre práticas
de leitura essenciais ao desenvolvimento amplo
das crianças com quem trabalhamos. Devemos ser,
sobretudo, leitores experientes que, na prática
diária, tornam-se exemplos de pessoas que
conhecem diferentes estratégias de leitura,
textos diversos e que, por sua atuação,
despertam nas crianças a necessidade
humanizadora de tornar-se, também, leitoras.
Cabe, portanto, à formação de professores um
papel fundamental.
Optamos, aqui, por tratar de maneira especial da
relação entre o fenômeno da leitura e a formação
de professores, tendo em vista a preocupação em
direcionar nossas reflexões teóricas em favor da
construção de uma formação docente comprometida
com os ideais de humanização, universalidade e
liberdade. Nesse sentido, refletimos,
primeiramente, sobre o conceito de leitura,
passando, em seguida, a discutir alguns aspectos
da formação de professores-leitores e formadores
de leitores.
SIGNIFICANDO A LEITURA
A leitura, como possibilidade, é uma realidade
presente em quase todas as sociedades. Porém, em
se tratando de tornar-se uma capacidade
efetivamente formada por todas as pessoas, há
ainda um grande hiato entre o ideal e o real.
Sabemos que a capacidade de ler não é
generalizada, nem mesmo entre os alfabetizados
(Foucambert, 1994; 1997). Isso porque, para ser
leitor, não basta o domínio da correspondência
grafo-fonológica, promovido pela alfabetização.
A leitura vai além: ser leitor, segundo
Foucambert (1997), é ser capaz de pensar também
por intermédio da escrita, é desenvolver uma
razão gráfica, que permite estabelecer relações
de significado e de sentido entre o texto e a
vida. Onde estão os leitores?
Inúmeros são os conceitos de leitura e, nesse
sentido, diversificadas são suas práticas.
Conceitos e práticas por eles iluminadas
guardam, em si, posturas político-filosóficas
ora de compromisso com a manutenção de uma
situação de dominação dos que detêm o saber
socialmente valorizado sobre os que não o sabem;
ora com a democratização, com os direitos à
humanização, à universalidade, à liberdade,
pautados na possibilidade, comum a todos, de se
apropriarem dos bens culturais e das capacidades
neles imanentes. Que conceitos e práticas são
necessários para ressignificar a realidade de
tantos não-leitores?
Etimologicamente, leitura deriva de legere,
cujos significados se desvelam em verbos como
reunir, escolher, espiar, ler para si, ler em
voz alta. Seria possível pensar, hoje, sobre
o conceito de leitura, aproximando-o de
significados tão diversos? Pensar sobre a
aproximação entre o verbo ler e cada um desses
significados aqui elencados, num exercício de
reflexão, é uma oportunidade de reconhecer e
compreender sentidos historicamente construídos
para a atividade de leitura, de discutir
conceitos e práticas.
Dessa forma, na tentativa de relacionar a
compreensão que se tem, neste texto, do que seja
ler ao verbo reunir, pode-se pensar na
ação de unir ao texto lido, inúmeras outras
experiências anteriores que permitem sua
leitura. Ler é, pois, reunir experiências de
outras leituras e vivências para atribuir
significados e sentidos a um texto. Quando se é
capaz de estabelecer relações entre o texto que
se tem à frente dos olhos e as experiências
anteriores, é possível afirmar que existe
compreensão. Ler é, portanto, compreender.
É importante fazer aqui algumas ressalvas: nem
sempre é este o conceito de leitura a iluminar
as práticas. Compreender é, de acordo com Smith
(1999) e Foucambert (1997), condição sine qua
non para ler. Assim, aquele que não compreende
sua leitura simplesmente não pôde ler, não fez
das palavras do outro palavras suas. Ao
contrário do que crêem aqueles que vinculam o
ler à decifração e a compreensão a uma outra
etapa, perfeitamente isolada da primeira, só
existe leitura quando se é capaz de reunir
expectativas, conhecimentos, emoções próprias ao
texto, estabelecendo uma relação dialógica com o
material lido. (Geraldi, 1984; Bakhtin, 1995)
Vale atentar, por um momento, sobre um conceito
aqui utilizado: o conceito de atividade
(Leontiev, 1978). Para consolidar-se como uma
atividade, a leitura deve atender a uma
necessidade do leitor, deve ser realizada com
significado para o sujeito que domina
conscientemente os motivos pelos quais lê e
pelos quais lê o que lê. A atividade se
consolida apenas quando tal condição é atendida.
Quando se faz algo sem que o resultado desse
fazer corresponda ao motivo que o desencadeou,
não há atividade (Leontiev, 1978). Portanto,
estar em atividade implica que o sujeito conheça
os objetivos de seu fazer e esteja envolvido
emocionalmente por eles. Cabe ressaltar, ainda,
que, de acordo com os autores da
Teoria Histórico-Cultural,
é na atividade que o sujeito desenvolve, de
forma plena, as suas capacidades. Por isso a
importância de possibilitar aos leitores a real
atividade de leitura: que possam ler conhecendo
o porquê e o para quê de sua leitura (não
simplesmente obrigados por motivos pedagógicos
que lhes são alheios) e, principalmente, para
que estejam motivados a isso.
É importante compreender que, segundo os
postulados da Teoria Histórico-Cultural, a
atividade se realiza através de diversas ações,
cujos motivos não estão presentes em seus
próprios resultados, mas na atividade que elas
integram. Nesse sentido, diferentes ações estão
inscritas na atividade de leitura. São elas, por
exemplo: a observação do suporte em que o texto
se apresenta, a percepção das marcas textuais
que o caracterizam, o estabelecimento das
previsões ou hipóteses sobre o texto. Cada uma
dessas ações possui um resultado específico, um
objetivo próprio. Nenhum deles é, em si mesmo, a
finalidade última da leitura, mas todos
configuram-se como estratégias que colaboram
para a compreensão dos textos. O motivo que gera
todas as ações corresponde ao motivo da
atividade. Portanto, é importante que o leitor
saiba que todas as suas ações, no processo de
leitura, visam, em última instância, à
compreensão, à relação dialógica com o texto.
Retomando a questão da etimologia da palavra
leitura, tem-se que ler também pode aproximar-se
de escolher. A leitura possibilita
inúmeras escolhas: do tipo de texto a ser lido,
da finalidade da tarefa de leitura, dos sentidos
atribuídos ao texto. Ler é, sobretudo, uma
escolha: de o quê ler; do ler; do quando ler; de
não ler. Mas, para que possa configurar-se como
opção, deve ser uma capacidade de todas as
pessoas, indiscriminadamente.
Refletindo
sobre este ponto, torna-se essencial atentar
para o fato de que a leitura é uma capacidade
historicamente formada e, como tal, remete à
possibilidade de tornar cada ser humano mais
livre e universal, mais humanizado, à medida que
dela se apropria, tornando-a parte de sua
“segunda natureza” (Saviani, 1997). Vale lembrar
que o processo de humanização dá-se através da
apropriação, pelos indivíduos, dos objetos e
saberes produzidos socialmente, no decorrer da
História, e à capacidade de objetivar-se,
produzindo, também eles, objetos e saberes. Com
efeito, ao tornar-se leitor, o ser humano
apropria-se de uma nova modalidade de utilização
da linguagem, historicamente construída e, com
ela, de infinitas possibilidades de apropriação
de ideais, valores, saberes, habilidades,
plenamente humanos. A leitura que, inicialmente,
é objeto de apropriação como processo a ser
dominado pelo sujeito, vai transmutando-se,
pouco a pouco, em instrumento de um pensamento
menos empírico e mais reflexivo, de compreensão
do mundo objetivo, de formação da consciência e
da individualidade, de expressão das formas de
entender e se relacionar com o mundo, com as
pessoas, com o próprio eu. Sendo assim, a
leitura apresenta-se como um direito inalienável
de todo ser humano para que seja capaz de
escolhas nos textos (e na vida).
Ler também pode ser espiar.
Metaforicamente, quando lê, o leitor espia. Pela
janela dos significados dos textos, o leitor
espia o pensamento do outro, os fatos, o
conhecimento historicamente acumulado. E, nesse
processo, torna seus os objetos da reflexão e da
escrita de outrem. Ao ler, o leitor fluente
também é um espião: segundo Smith (1999), ao
tomar contato com o texto, todo leitor “espia”
seu conteúdo e, a partir disso, faz previsões de
sentido essenciais para a sua compreensão. Ao
buscar marcas textuais, ao correr os olhos sobre
um índice, ao perceber figuras e símbolos, o
leitor “espia” o texto e, como espião, formula
hipóteses que vão atuar, progressivamente, na
construção dos significados, na apreensão das
idéias e na sua transmutação em pensamento.
Vigotski afirma “[...] que a relação entre
pensamento e palavra é um processo vivo de
nascimento do pensamento na palavra”. (2001,
p.484) Ler é, assim, construir o pensamento
através da apropriação das palavras do outro, da
atribuição de sentidos aos significados
partilhados socialmente. Ler é uma atividade que
culmina, portanto, na elaboração da consciência
humana. Ainda de acordo com Vigotski (2001, p.
486):
A consciência
se reflete na palavra como o sol em uma gota
d'água. A palavra está para a consciência como o
pequeno mundo está para o grande mundo, como a
célula viva está para o organismo, como o átomo
para o cosmo. Ela é o pequeno mundo da
consciência. A palavra consciente é o microcosmo
da consciência humana.
Ao ler, assim
como ocorre na comunicação oral, o homem toma
contato com as palavras de outros homens, cuja
existência é essencial para que ele possa
humanizar-se, apropriando-se das objetivações
socialmente construídas. O social, na figura do
outro, é, pois, determinante na formação da
consciência, porque medeia as formas pelas quais
o indivíduo se apropria da realidade objetiva e
forma, para si, o reflexo dessa realidade, a sua
forma própria de atuar e de compreender os
objetos da cultura, os valores, a realidade que
o cerca. As palavras são signos que portam em si
conceitos. Ao utilizá-las, o homem age sobre o
mundo não mais de forma direta, mas cria
realidades de maneira simbólica; representa o
mundo objetivo em seu pensamento, em sua
consciência. Envolvem-se, nesse processo,
pensamentos e emoções; o que é objetivo e real
une-se à forma subjetiva de dar sentidos aos
fatos e à existência. Nesse bojo, a linguagem
assume o papel de instrumento da elaboração da
consciência, da capacidade de refletir sobre a
própria linguagem, sobre o outro, sobre si mesmo
e posicionar-se frente a tudo isso.
Mas, para que
tal processo se cumpra em toda a sua
complexidade, a leitura deve ser leitura
propriamente dita, não apenas decifração. É
somente por intermédio da compreensão do texto
escrito que se estabelece a relação dialógica
entre texto e leitor; que o outro se oculta e se
mostra no texto, e suas palavras podem ser
apropriadas por aquele que lê, tornando-se parte
de sua individualidade.
Por constituir uma atividade eminentemente
simbólica, a leitura supera a linguagem oral em
abstração. Por isso, lida com o pensamento e com
a consciência de maneira mais complexa. É, como
revela Foucambert, uma linguagem para os olhos,
uma nova forma de pensar sobre o mundo:
necessita da razão gráfica. Disso decorre a
consideração de que o leitor seja, por essa
condição, bilíngüe — capaz de refletir sobre o
mundo por meio de duas modalidades de linguagem
essencialmente diferentes: a oral (linguagem
para os ouvidos) e a escrita (linguagem para os
olhos). A compreensão da linguagem oral está
baseada, de maneira privilegiada, no contexto no
qual ela é empregada. Assim, apresenta-se de
forma muitas vezes fragmentada, auxiliada, para
a construção de significados, pela gestualidade,
pela entonação, pelos fatos. Pelo contrário, a
escrita apresenta-se como uma modalidade mais
elaborada de linguagem, tendo em vista que o
leitor atribui sentidos ao texto a partir de
elementos simbólicos, representativos da
realidade objetiva: os signos escritos que o
constituem. Há, portanto, no caso da leitura,
uma relação mais complexa entre consciência e
linguagem. A apropriação da capacidade de
leitura é, então, imprescindível para o processo
de humanização.
Legere significa, ainda, ler para si e
ler para os outros. O “ler para si” traz
consigo a necessidade de valorização do sujeito
leitor, que é capaz de buscar, na leitura,
respostas para seus anseios, confirmação ou
refutação para suas hipóteses. O verdadeiro
leitor lê para si, pois conhece os motivos de
sua leitura e os procedimentos para
conquistá-la. Esse deve ser o maior objetivo da
formação do leitor: formar o leitor para-si. Um
leitor que tem consciência da leitura como
processo contínuo de apropriação; aquele que se
sabe enriquecido pela atividade de ler; aquele
que atua sobre o texto de maneira autônoma,
buscando atender as suas próprias necessidades.
Antes de
adentrar a questão da formação docente, passemos
ao derradeiro significado de legere: ler para
os outros. Sim, a atividade de leitura
envolve essa dimensão coletiva que,
historicamente, deixa suas marcas (Manguel,
1997). Por muitas vezes os que sabem põem-se a
serviço dos que não sabem. E ler para o outro
tem o significado de compartilhar um saber, uma
emoção, uma dúvida, de trocar conhecimentos, de
educar.
A formação do
leitor e a generalização do conceito de leitura
como compreensão do escrito e como domínio de
uma razão gráfica representam uma verdadeira
revolução nas práticas de leitura, dentro e fora
das escolas. Faz-se premente a construção de uma
nova pedagogia da leitura, capaz de assumir a
tarefa da formação de leitores fluentes. Em
outras palavras, para que se consolidem novas
práticas de leiturização (FOUCAMBERT, 1994;
1997), prontas para superar a precária relação
da maioria das pessoas com os textos escritos, a
formação de leitores fluentes deve concentrar-se
não apenas nos não-leitores propriamente ditos,
mas também e, principalmente, naqueles que, por
julgarem-se leitores efetivos, não refletem
sobre suas leituras, nem sobre o como trabalham
pela formação de novos leitores: os professores.
PENSANDO A LEITURA NA
FORMAÇÃO DE PROFESSORES-LEITORES
A formação de professores, inicial e continuada,
precisa ser repensada de forma a ser decisiva na
consolidação de um referencial teórico-prático
bastante sólido sobre a leitura. Os professores,
de maneira geral, aderem muito facilmente a
modismos pedagógicos sem uma maior reflexão
sobre suas implicações. Tais modismos atestam o
nível de alienação da prática docente, tendo em
vista que, por não dominarem conscientemente os
objetivos de sua atividade e, com eles, os
conteúdos e as formas pelas quais se deve atuar,
os professores encantam-se pelas novidades que,
muitas vezes, não passam de novas roupagens a
práticas desgastadas, com resultados duvidosos.
Segundo Rossler (2000, p. 16):
A presença de
processos de sedução na vida dos indivíduos é um
sinal do grau de alienação desses mesmos
indivíduos e, sendo assim, a sedução nas
atividades que compõem a prática educativa dos
educadores é, por sua vez, uma manifestação da
alienação desses mesmos educadores, assim como
da alienação de sua prática, de seu pensamento
e, em última instância, de sua formação, seja a
formação básica, seja a chamada formação
continuada.
Tal constatação
exige dos cursos destinados à formação de
professores o engajamento dos futuros
profissionais em uma prática de reflexão radical
sobre a educação e suas questões, na luta pela
construção de uma postura político-filosófica e
de uma visão consciente sobre a realidade
objetiva e sobre o papel assumido pelo trabalho
pedagógico para a sua transformação.
Os cursos de formação docente têm, muitas vezes,
pecado pelo aligeiramento das discussões e,
acima de tudo, por não estarem atentos para algo
essencial: é neles que se deve garantir que os
professores apropriem-se de uma cultura geral
ampla, dos conteúdos fundamentais do ensino,
além das formas de trabalho, pautadas nos
conhecimentos pedagógicos. É importante
questionar: será que todos aqueles que ingressam
nos cursos de formação de professores detêm
conhecimentos gerais suficientes para atuarem na
docência? Eles são todos leitores fluentes?
Dominam bem a escrita? E, se isso não acontece
realmente, será que esses cursos de formação têm
se preocupado em trabalhar tais conhecimentos
até que sejam apropriados pelos futuros
professores?
Com relação à
leitura, que é objeto de discussão no presente
texto, os cursos de formação docente têm estado
suficientemente preocupados com a formação de
professores leiturizados, efetivamente? Se os
cursos de formação, em especial os de formação
inicial de professores não se responsabilizam
pela leiturização dessas pessoas, como será
possível que elas, num momento posterior, se
responsabilizem pela formação de outros
leitores?
É importante atentar para o fato de que o avanço
da pobreza e da exclusão social, que se reflete
nas escolas, infelizmente despreparadas para
atender às novas demandas, aliado à
desvalorização da profissão docente, têm
reservado para os bancos escolares da formação
de professores, muitos não-leitores. A própria
tradição educacional brasileira, fundamentada em
conceitos e práticas que confundem ler com
decifrar e oralizar, não permite que os
ingressantes nos cursos de formação estejam
leiturizados. Sem intervir sobre essa realidade,
como mudar o quadro dos excluídos do mundo da
leitura, em nossa sociedade?
Sabe-se que a relação teoria-prática constitui o
elo fundamental da atividade pedagógica. A
atividade docente filia-se a uma esfera do
trabalho humano denominada trabalho não-material
(Saviani, 1997). Isso supõe que esteja referida
à produção de idéias, atitudes, valores, hábitos
e conhecimentos. Possui, como principal
especificidade, o fato de que sua produção e seu
consumo estão imbricados, acontecendo de forma
simultânea. Disso decorre a sua complexidade: o
educador ensina e ao educando,
concomitantemente, algo é ensinado. As
implicações dessa peculiaridade da atividade
docente exigem, daquele que educa, o pleno
domínio dos objetivos de cada ação, dos
conteúdos de ensino, das suas formas de
assimilação, o que pode se dar apenas por
intermédio de uma relação bastante consciente do
professor com o seu trabalho.
A prática deve ser objeto de reflexão,
possibilitada pela teoria, na construção da
práxis pedagógica. Ora, nesse sentido, teoria e
prática devem estar conectadas desde o início da
formação docente. É preciso que os professores
estejam conscientes da teoria como fundamento de
uma prática refletida, para que estejam aptos a
assumir posições consistentes frente às questões
do ensino. É preciso, também, que lidem com a
prática não como cópia de modelos prontos, mas
como oportunidade de reflexão e de produção de
conhecimentos pedagógicos, capazes de atuar em
favor da qualidade da aprendizagem efetiva dos
alunos. A relação entre teoria e prática implica
que os professores em formação se apropriem dos
saberes necessários à atividade pedagógica,
incluindo aí a questão metodológica. Isso não
significa retroceder ao tecnicismo, mas prover o
profissional docente de meios para que possa
realizar a transposição didática, fundamentada
no domínio das formas de elaboração e
sistematização dos saberes produzidos
historicamente (Libâneo, 2001; Saviani, 1997).
Dessa forma, se o que se quer é a construção de
uma escola democrática, transformadora,
universal e plenamente humanizadora, os
professores devem estar capacitados para a
reflexão e para a intervenção didática no
processo de aprendizagem de seus alunos. É
fundamental que os professores dominem os
conteúdos de ensino, a capacidade de pesquisa, o
saber-fazer (saber para si mesmo e para a
mediação pedagógica).
Refletindo
sobre a questão da leitura, toda a discussão
anterior se valida. É essencial que os cursos de
formação, tendo como objetivo formar professores
capazes de desenvolver leitores, atuem sobre a
elaboração de capacidades complexas de
pensamento por meio do ler e, para isso,
reservem tempo e espaço para a prática de
leitura, para o contato com as diferentes
modalidades textuais, para o questionamento de
textos (Jolibert, 1994a, 1994b), para a
discussão das estratégias de leitura empregadas
pelos sujeitos leitores.
É evidente que tal prática não elimina a
necessidade da discussão teórica; pelo
contrário, a torna uma atividade (Leontiev,
1978), que possibilita o amplo desenvolvimento
da consciência daqueles que a realizam. O debate
sobre a leitura, segundo os pressupostos de
diferentes autores, aliado à prática de leitura
pelos futuros professores, é uma forma
privilegiada de elaborar capacidades e de
garantir uma opção não alienada por uma ou outra
abordagem teórico-prática, eliminando, pela
reflexão rigorosa, o perigo dos modismos
pedagógicos.
É importante que as universidades aproximem-se
das salas de aula não como detentoras do saber,
a ser imposto aos professores, mas de forma
atuante e compromissada com o processo de
reflexão sobre a prática, responsabilizando-se
também pela formação continuada. É possível
promover a leiturização dos professores,
realizando atividades teórico-práticas sobre a e
de leitura, por intermédio dos próprios grupos
de pesquisa, da extensão universitária. Trata-se
de uma forma de refletir, com os professores,
sobre a sua prática, considerando-os
co-pesquisadores e contribuindo para a
transformação da sala de aula em um ambiente de
leiturização. Sobre essa questão, Maurice Tardif
(2001, p. 122) destaca:
[...] A meu
ver, a pesquisa universitária sobre o ensino
começará a progredir quando ela reconhecer que
não produz uma teoria sobre uma prática, mas que
ela mesma é uma prática que se reporta a
atividades (ou seja, ensinar) e a atores (ou
seja, os professores) que dispõem de seus
próprios saberes e de seus próprios pontos de
vista.
É preciso
superar o ceticismo — que considera os problemas
da realidade como barreira intransponível — e o
dogmatismo — que considera o professor como mero
executor de técnicas formuladas por outrem —,
característicos da formação de professores
(Oliveira, 2001). É fundamental abrir espaço
para o diálogo entre formadores e formandos: um
diálogo sobre suas crenças, expectativas,
experiências, dúvidas, sugestões, o que pode
fazer da formação docente, também ela, uma
atividade. E isso somente será possível à medida
que as necessidades de formação daqueles que se
pretendem educadores estiverem bastante
conscientes para todos eles e tornarem-se
motivos da atuação de todos os envolvidos nesse
processo.
A leitura é uma necessidade e uma conquista
humana. Portanto, se se quer trabalhar pela
transformação da realidade atual, marcada pelas
relações de poder dos mais fortes sobre os mais
fracos; se se pretende construir uma sociedade
em que os indivíduos sejam livres, é preciso
lutar para que todos sejam leitores. O caminho é
longo. A estrada é cheia de dificuldades. Há
muitas questões e poucas respostas... Mas o
homem move-se pelo ideal. Ele adianta-se no
tempo e constrói, em sua mente, o mundo a ser
conquistado com o trabalho. O ideal foi
responsável pela construção da História. É ele o
que vai nos mover em direção à construção de uma
sociedade de leitores.
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Professora Adjunta
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