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...Então como explicar que durante séculos as mulheres, os negros, os homossexuais, os regionalismos... foram sempre colocados à margem daquilo que era/é tido como padrão criacional?

 POR UM ESTUDO CULTURAL E DE ALTERIDADE
Valter César Andrade Junior
(*)

Resumo: A partir de uma crítica à sociedade globalizada, capitalista e excludente, tece-se considerações sobre a função transformadora da literatura e alguns escritores brasileiros que representam essa transformação.
Palavras-chave: Literatura. Alteridade. Ficção

Abstract: Critically analysing the excludent, capitalistic and global society, we make considerations about the transforming functions of literature and mention some Brazilian writers that represent that transformation.
Palabras-clave: Literature. Alterity. Fiction

Partir do princípio de compreensão do termo literatura é, sem dúvida, um modo seguro para se chegar a um entendimento da sua função enquanto produto humano para a sociedade que abarca o próprio homem, agente do processo. Ouvimos com freqüência que a arte tem por finalidade a própria arte; ela é um fim em si mesma. O que não significa que não tenha alguma utilidade.

É a partir daí que compreendemos que a literatura enquanto produto do homem – produto tal que retrata a alma – não pode reduzir-se ao caráter capitalista das finalidades atuais. Ao contrário, ela deve exercer seu papel de elemento da cultura, sendo, pois, um reduto de luta a protestar contra a utilização do homem como objeto descartável, bem como a seletividade daquilo que atende a um cânone literário excludente e transgressor de limites, no que diz respeito à alteridade.

Ora, no bojo destas questões ouvimos, também, com exaustiva freqüência que a literatura, do ponto de vista estético, está para a universalidade, vendo o homem de todas as sociedades e de todas as classes como o mesmo. Então como explicar que durante séculos as mulheres, os negros, os homossexuais, os regionalismos, entre outras classes foram sempre colocados à margem daquilo que era/é tido como padrão criacional? Será que estão fadados ao esquecimento de um cânone perverso, machista, corporativista? Não se trata aqui de colocar à prova a veracidade de que a literatura deva tender, de fato, à universalidade. Entretanto, reivindica-se nesses questionamentos a aceitação da existência de uma diversidade poética na produção literária tanto nacional, quanto de toda América Latina.

Já nos fins do século XX respirávamos o alvorecer de uma nova consciência voltada para a valorização do outro, no que diz respeito à produção artística. Mas, se buscarmos subsídios a partir da ascensão de uma sociedade pós-colonialista (entendida aqui como sendo a partir do movimento de vanguardas), já encontraremos ecos significativos de busca de valores da alteridade. Parte do uno para o múltiplo.

Se observarmos, por exemplo, a construção da identidade nacional em José de Alencar encontraremos um índio europeizado, como uma figura muito mais voltada, quiçá, também, para o modelo de um deus do Olimpo, do que a figura de homem rude, embrenhado numa mata densa e pertencente a uma comunidade marcada por características próprias. Sobre este aspecto, Zilá Bernd apud Marli Fantini Scarpelli et Eduardo de Assis Duarte, expõe:

Ficam excluídos do projeto alencariano os negros, pois, à época, o que interessava ao autor era dar ao povo brasileiro uma ancestralidade ilustre composta pelo português, Martin, e pela nobre índia Iracema. Moacyr, o fruto do amor dos dois heróis, é o povo brasileiro, ficando deste modo elidida a presença negra que, embora chegada ao Brasil desde os primeiros anos da colonização e integrando efetivamente a etnia brasileira, trazia o estigma degradante da escravidão.

Em outro extremo está, ao que parece, Jorge Amado que, apesar de marginalizado em sua criação literária, tentou construir com certo rigor a baianidade. Dava voz aos personagens postos no lixo da sociedade, trabalhando, sobretudo com prostitutas e carregadores do cais soteropolitano e, quando não, partia em direção ao sul da Bahia, a fim de explorar o ‘material literário’ abundante por entre trabalhadores da lavoura do cacau. Expôs, também, diante de uma sociedade cristã, na maioria católica, a figura de pais de santo do Candomblé (religião africana), a exemplo de Jubiabá: homem místico, mas que sentia arder na carne o desejo latente de estar sempre em contato com o prazer sexual. Isto não quer dizer, porém, que Jorge Amado via a Bahia tão somente desta forma, mas isto que ele escolheu para abordar em sua obra; este é o caráter de alteridade deixado por ele.

Por outro lado, assistimos à construção da idéia de transformar o mundo numa grande aldeia unificada. Daí advém a globalização, mas esta numa perspectiva de reconstrução da cidadania universal, com um ideário de união dos povos, buscando a paz mundial e erradicando, sobretudo, a fome. Como a literatura está ligada ao cultural/social, haveríamos de saborear também a adoção de aceitação ante a multiplicidade da produção literária. Entretanto, tudo se assentou no princípio cruel do capitalismo e, o que era para ser elo entre os povos, o entre-lugar, tornou-se a imagem de um terrorismo financeiro e subjugo dos países economicamente desfavorecidos em relação aos chamados de ‘primeiro mundo’. Confirmando isto, Benjamin Abdala Junior apud Fantini et Duarte, alude que

É errôneo, nesse sentido, designarmos globalização a esse processo perverso. Globalização pressupõe reciprocidade, e esta não existe nas relações norte/sul. Assim, também nossa produção literária acaba sucumbida por este processo de dominação.

Ressaltemos, para melhor compreensão, em que nível se dá a universalidade abordada já no início deste texto, no que tange a uma concepção de alteridade. Um exemplo disso encontramos em Guimarães Rosa, que busca sair de uma linguagem ‘regionalista ridicularizada’ para algo ‘sublime’ – sem, porém fugir às raízes – renovando a língua literária, podendo, assim, apresentá-la para o mundo. Sobre a universalidade deste literato, a própria Fantini afirma:

Ao ultrapassar as barreiras do seu ponto de partida contingente, o universo ficcional rosiano ganha dimensões interculturais e transnacionais. Neste processo Rosa dá sua parcela significativa na construção e solidificação de um cânone da América Latina.

Desta feita, os discursos marginalizados vão tomando corpo e forma na construção de uma abordagem literária livre das algemas de um dogma ‘universal’, posto numa relação subalterna de nossa parte, já que o recebemos e temos de nos submeter a ele. Entretanto, uma nova luz brilha no túnel da produção artística nacional e de toda a América Latina. Também salientamos, atentar para um cuidado quanto às expectativas, para que não caiamos na mesma utopia que o próprio Rosa, numa citação utilizada por Fantini, o fez:

Estou firmemente convencido, e por isso estou aqui falando com você, de que no ano 2000 a literatura mundial estará orientada para a América Latina; o papel que um dia desempenharam Berlim, Paris, Madrid ou Roma, também Petersburgo ou Viena, será desempenhado pelo Rio, Bahia, Buenos Aires. O século colonialismo terminou definitivamente.

Sabemos que ainda há muito a desbravar, mas tudo já foi iniciado.

                                                                    Bibliografia

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David. Condição pós-moderna. São Paulo: Loyola, 1993.

MATOS,
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André. (org.). Imagem-máquina: a era das tecnologias do virtual. Rio de Janeiro: Editora 34, 1993.

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SCARPELLI,
Marli Fantini, DUARTE, Eduardo A. (org.). Poéticas da diversidade. Belo Horizonte: PosLit/Fale, 2002.

SOUZA,
Roberto Acízelo de. Teoria da Literatura. e. 6. São Paulo: Ática, 1997. (Série Princípios).

SCHWARTZ,
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_________________. Vanguarda e Cosmopolitismo.
São Paulo: Perspectiva, 1993. (Coleção Estudos).

* Valter Cezar Andrade Junior. Graduado em Letras pela Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia e especializado em Leitura e Literatura Infanto-Juvenil pela mesma universidade.

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