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     Já pensou, comer a merenda, como todos? O Zé-povinho? Ela não. Bia não se importa de não comer.  

       BIA NÃO QUER MERENDAR

 

 

Rodrigo Ciríaco

Bia não quer merendar. Bia nunca comeu a merenda mas ouviu dizer que é ruim, que é sempre a mesma coisa; que não presta. Bia vê o que alguns alunos fazem com a merenda: dão duas colheradas e deixam no canto; amassam, fazem uma pasta e jogam uns nos outros. Guerrinha. Raspam o fundo do prato com a colher de plástico, dão uma lambida e pedem: - Tem mais, Tia? Bia acha engraçado. Os merendeiros. Bia diz pras amigas “eu não, eu não sou merendeira”. Ela inclusive viu esta semana uma calça. A tia falou que vai lhe dar um tênis. Já encomendou um celular para a mãe. Tem nome e marca de carro: um V8. Bia espera que o seu V8 não demore. Ela tem medo. Não pode deixar de se comunicar com as meninas. Odiaria ser rejeitada pelas amigas. Não ter um grupo. Ser apenas mais uma do povo. Já pensou, comer a merenda, como todos? O Zé-povinho? Ela não. Bia não se importa de não comer. As modelos não são todas magras? Quem dera tivesse anorexia. Dizem que é doença de rico. Tomar Sorvete, comer lanches, salgados e depois vomitar. Pelo menos esta dor no estômago, esta fraqueza faria sentido. Bia não quer merendar. Ela já avisou: não tomou café, não almoçou. Não, não é dieta. Não comeu porque não tinha. Assim como no intervalo não tinha dinheiro pra cantina. Bia não quis sair para comer a merenda, ainda que fosse às escondidas. A última coisa que Bia insistiu em dizer, antes de desmaiar de fome, foi: “Professor, eu, eu... Eu não sou merendeira.”

IN  Te Pego lá Fora, de Rodrigo Ciríaco. São Paulo: Edições Toró, 2008.

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