Depoimento

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... quando professora ainda era “pepessola”, eu passei aperto, pois Clarice queria saber que cor era “bu”: “Mainha que cor é bu?” “Bu, mainha! Bu!” “A pepessola que disse”. Daí cheguei ao azul de blue.

FALARES DE CACÁ
  Margareth Correia Fagundes Costa
As crianças no processo de apropriação da língua e na estruturação do pensamento lógico encantam os pais com expressões curiosas e engraçadas. Eu deveria ter feito um registro das expressões verbalizadas pelas minhas filhas. Não fiz. Agora, Cecília está com nove anos e meio e Clarice com quatro anos e meio. Já falaram tantas coisas curiosas que se perderam no tempo. Mas nunca é tarde, pois, então, aqui estão alguns falares de Cacá:

- Pera, mãe! Deixa eu “desdá” o nó da sapato.

- Mãe! “Desacende” a luz que eu quero dormir!

Fátima, minha auxiliar nos fazeres domésticos, era “Palma”, depois “Fata” e finalmente “Fátima”. Água era “apu” , uma das primeiras palavras a ser falada. Quero era “quelo”, biscoito era “coto” e “cocoto”.

Na sua maneira carinhosa, o pai era/é “papá” “papate”, “padingo” e eu era/sou “mamane”, “mandiga”, “dindinga” e “didinguinha”.

Café que sempre não quis lhe oferecer era “faqué”. No quadro dos evitados (sem muito sucesso) tinham ainda o doce, “dote”, o chiclete que era “tiquete”, o chocolate que era “colate”.

Lá pelos seus poucos meses, tínhamos na parede um par de víboras alcunhadas de Mariquinha e Maricota. Quando irritada, dente nascendo, babando muito, solicitava: “ bê Boicota” (ver Maricota). Oficializávamos a visita, para sossego de todos. Outro recurso, sempre a postos, era a “badinha” (fraldinha). Badinha para o xixi e o cocô; badinha para cheirar; badinha para o rosto, na hora em que o sono teimava em não vir.

Até recentemente, confesso, já em vias de um fonoaudiólogo por causa dos encontros consonantais e o r brando que ela não conseguia falar (“Calice”), ela grita lá do quarto: “CALÁ, CALÁ, CLA CLArice, CLArice... Mainha, já sei! já sei! “CLArice”. Posteriormente, por várias vezes, a vi repetindo a palavra “CLAro, CLAro”. Muitas palavras ela já domina outras, ainda, não. E foi assim, por ela mesma e com alguns empurrõezinhos dados pela turma da casa, que temos deixado de ouvir os gostosos sons de “quelo”, “Calice”, “calo” “Ículo” (Ícaro).

Certo dia, quando professora ainda era “pepessola”, eu passei aperto, pois Clarice queria saber que cor era “bu”: “Mainha que cor é bu?” “Bu, mainha! Bu!” “A pepessola que disse”. Foi aí, então, que cheguei ao azul de blue.

E as perguntas então? Nossa! No seu esforço para entender o mundo a sua volta, quantas interrogações engraçadas Clarice já fez! Só que não me lembro de todas e a muitas não fui capaz de responder. Um dia, fui passar pomada no seu bumbum, ela saiu com uma: “Tem bunda de criança, tem bunda de mulher, tem bunda de homem. Mãe, tem bunda de Deus? Por que Deus chama Deus? Porque Deus é invisível?"

E os quatro anos e meio de vida de Clarice têm sido suculentos em indagações, sempre na busca de compreender a lógica da vida e de se firmar como pessoa, mesmo ainda tão pequena:

- “Mãe, eu posso namorar com quantos anos?”

- Por que você está perguntando isso? Você já sabe com quem vai namorar?

- “Não, eu vou escolher. Quer dizer, eu já namolo com Ículo. Eu e Lina.”

E lá se vão os momentos de perguntas: “Já pensasse se eu cortava a barriga? Ia sair sangue?” “Quem cuidava de mim, quando você era pequenininha? “Onde eu estava?” “Por que você não me levou no seu casamento?” “Eu queria levar a aliança”.

Nunca vi menina ter tantos sonhos como essa. E os sonhos são enormes, compridos, mirabolantes. O enredo muda toda hora. Quem está “morrido” vive “denovamente”. Aparece “insepto”, bruxa, fada, o “mais melhor”, o “mais pior”. É uma loucura. E eu dou corda: espanto-me, crio um clima de suspense, pergunto, acredito e ela se empolga e se alonga na falação, a ponto de precisar falar: “Êpa! Amanhã você conta o resto. Boa noite.”

E mal começa o outro dia, lá vem ela: “Mãe, deixa eu contar um sonho”.

 

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