Entrevista

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Comecei a escrever literatura quando percebi que o estilo acadêmico não suportava que eu lhe colocasse alguma alegria, história ou poesia.

O SENHOR DAS METÁFORAS
  Entrevista com Rubem Alves

Rubem Alves começou a escrever crônicas no Caderno C do Jornal Correio Popular (Campinas, SP) em 1990. Em 2008, portanto, faz 18 anos que, dominicalmente, ele conversa com os leitores do caderno. Parte do que escreveu está no livro que acaba de lançar, Ostra Feliz não faz Pérolas (Planeta, 276 págs., 29,90), que, segundo o autor, remete a um dos títulos (Quarto de Badulaques) que se repetem nas crônicas no Correio Popular. São tópicos selecionados por temas, como amor, beleza, política, religião, velhice, morte, crianças etc. Aos 74 anos (nasceu no dia 15 de setembro de 1933, em Boa Esperança, MG, mas radicou-se em Campinas a partir dos anos 70, depois de ter passado pela cidade, nos anos 50, para estudar teologia no Seminário Presbiteriano do Sul), Alves fala nesta entrevista sobre a morte (tema recorrente nas suas crônicas), educação, igreja, Deus e literatura. Leia trechos da entrevista do escritor que tem cerca de 90 livros lançados.



Do que trata o livro Ostra Feliz não faz Pérolas?
É a mesma idéia do Quarto de Badulaques, título recorrente de crônicas que publico no Caderno C (escrevi 130 com este título). Costumo anotar idéias que podem virar futuras crônicas, mas a quantidade de idéias é muito maior. Então, acabo fazendo textos curtos sobre diversos temas e vou guardando. Boa parte desses textos está no livro. Ocorre que os leitores adoram esse tipo de leitura, porque podem ler aos poucos.

Em 2008, você está completando 18 anos ininterruptos escrevendo no Caderno C. Como tem sido essa experiência?
Vou contar dois casos que aconteceram como resultados das crônicas no jornal. Um dia, recebi e-mail de uma egípcia que mora no Rio. Ela se reportava a uma crônica sobre minha infância, no Interior de Minas, em cuja casa não havia eletricidade. Portanto, não tínhamos geladeira e a comida era guardada num móvel chamado, justamente, de guarda-comida. A crônica a fez viajar 60 anos no passado para a casa em que ela viveu no Cairo e onde, também havia o tal guarda-comida. Outro e-mail foi de um rapaz, com HIV positivo, que não gostava de ler, mas passou a gostar das crônicas e se entusiasmou pela leitura, porque achava interessante a maneira pela qual eu me referia a um Deus que não era vingança, mas beleza. E, certa noite, indo para casa, deparou com um verdadeiro enxame de vaga-lumes, que ele chamou de "visão do divino" e me pediu para escrever uma crônica sobre o tema.

Qual a diferença do contato via jornal e daquele feito por meio da clínica da época em que você foi terapeuta?
Como terapeuta eu atendia uma pessoa de cada vez, era uma coisa vagarosa. Hoje, faço terapia com muita gente que nem conheço. Certa vez, numa palestra, eu disse que tinha sido pastor, mas, hoje, não sou mais. Ao final, um professor da Unicamp me procurou para dizer que queria corrigir o que eu disse. "Para minha família, você continua a ser pastor, porque semanalmente nos reunimos para ler o seu sermão dominical" .

Por que você deixou a escrita acadêmica para fazer literatura?
Comecei a escrever literatura quando percebi que o estilo acadêmico não suportava que eu lhe colocasse alguma alegria, história ou poesia. Então, decidi escrever o que me dava na telha. Só sei pensar por metáforas, como Albert Camus, no seu Cadernos da Juventude, em que ele diz que escreve apenas por metáforas. Não é preciso avaliá-las para sentir o poder delas. São visuais, são imagens. Sempre quis falar para pessoas simples e tornei-me um educador mais eficaz quando comecei a usar metáforas com os alunos, pois lhes era prazeroso e eles nunca mais esqueciam os ensinamentos. Costumava usar uma metáfora com alunos dizendo que a inteligência é como o pênis, flácido e apontado para baixo, mas que se transforma de maneira a dar vida e prazer, se provocado. Assim, a inteligência pode ser preguiçosa, mas se estimulada pode produzir muito.

Quando essa mudança começou a se processar?
Na academia esse meu estilo ficou sufocado. Costumava ouvir críticas, segundo as quais eu não fazia ciência, mas literatura. Isso surgiu muito antes da academia, no antigo ginásio (hoje, Ensino Fundamental). Depois, fui pastor, cujo papel deveria ser o de contar histórias. Veja a pregação de Jesus, toda cheia de parábolas, estórias que nunca aconteceram, como O Filho Pródigo. Certa vez, ao final de palestra sobre educação, uma mulher me perguntou se eu acreditava em Deus. Eu respondi com outra pergunta: "Qual Deus? Há tantos deuses quanto pessoas" . A pergunta me provocou e eu escrevi o livro Perguntaram se eu Acredito em Deus, no qual reconto as histórias bíblicas em linguagem atual. Quem saberia, hoje, o que é um samaritano? Eu o substituo por um garçom que saiu de madrugada do trabalho e foi assaltado, tendo ficado jogado na sarjeta até quase amanhecer o dia. Então, passou o padre, mas não pode ajudá-lo, porque ia rezar a primeira missa. E passou o pastor, que não teve tempo de atendê-lo, porque tinha compromissos etc.

Como você define sua literatura?
Sou contador de histórias. Toda minha literatura está recheada de histórias. Um dos livros meus de que mais gosto é O Velho que Acordou Menino, que são relatos da minha infância. Aliás, brigo com o dicionário que eliminou a separação entre as palavras história e estória, que são coisas diferentes. A estória não quer se tornar história. Minha filha, quando tinha 3 anos, me perguntou se aquela estória que lhe contei tinha de fato acontecido. Eu disse que aquela estória não aconteceu nunca para acontecer sempre. A história acontece uma vez, a estória ressuscita cada vez que é contada.

Você ganhou dinheiro com literatura?
Não ganhei muito. Invejo o Augusto Cury e o Paulo Coelho, mas dá para sobreviver modestamente.

Grande parte do público que prestigia suas palestras é feita de mulheres. Por quê?
Cerca de 95% do público das minhas palestras é formada por pedagogos - cuja maior incidência é de mulher. Mas nunca havia pensado sobre isso a partir de razões psicanalíticas. Talvez porque os homens busquem temas mais sólidos, como economia e política. Meus temas são românticos, pois falo de jardinagem, amor, história etc e, quem sabe, os homens não os vejam como apropriados para eles.

O que o levou a deixar a igreja (Alves foi pastor da Igreja Presbiteriana do Brasil)?
Deixei a igreja em 15 de setembro de 1971, dia do meu aniversário, por duas razões. A primeira é que as igrejas têm medo da inteligência, do pensamento e, por isso, buscam a uniformidade - todos dizendo e pensando a mesma coisa. A igreja tem medo da dúvida e dúvida, para mim, é essencial. O segundo motivo é que a direção da igreja onde eu atuava fez aliança implícita com os militares durante a ditadura. Por conta disso, tive de sair do País, com minha família. A partir daí, perdi completamente o respeito pela igreja. Tenho bons amigos nela, mas desprezo a instituição.

Sua teologia também mudou?
Espanto-me com as coisas que as pessoas são capazes de acreditar. O papa Bento XVI, há pouco, decretou a existência física do inferno. Posso acreditar num Deus que condena pobres homens a uma eternidade de sofrimento? Eu que sou homem não teria essa coragem, imagine Deus. São Tomás de Aquino escreveu: "Deus e os salvos, nos céus, contemplarão os condenados no inferno nos estertores do sofrimento para que sua alegria seja completa" . A doutrina da igreja prega que Cristo foi crucificado para que fosse paga uma dívida, e quem era o credor? Deus, que não perdoa a dívida senão por meio de sangue. E, para isso, seria preciso uma pessoa de valor infinito para pagá-la e manda Jesus para saldar a dívida que os homens tinham com ele. Eu nunca vi um pai mandar matar o filho. Essas e outras doutrinas foram invenção do apóstolo Paulo, que sistematizou o evangelho.

Por que você tem falado tanto em morte e velhice?
Falo sobre morte porque ela está próxima e uma maneira de exorcizar o temor é falar sobre ela. A morte mexe comigo de várias maneiras. Tive muito medo da morte; esse medo foi embora, mas ficou o medo do morrer, que pode ser doloroso e humilhante. Outro dia, em Fortaleza, uma mulher veio me agradecer por uma crônica que escrevi sobre a eutanásia, pois ela está com um filho em estado vegetativo há quatro anos. A pessoas não falam, mas quando tratam da questão da morte separam esta da dor. Para mim, um dos direitos humanos deveria ser poder morrer sem dor. E a velhice está ligada à morte. Começamos a pensar no pouco tempo que temos pela frente e o que vamos fazer com o tempo que nos resta. O filme Antes de Partir (2007, de Rob Reiner) fala, justamente, sobre isso. Cito aqui o personagem bruxo D. Juan, do livro Viagem a Ixtlan, de Carlos Castañeda, para quem a proximidade da morte nos permite desapegar das mesquinharias da vida, ela transforma em tolice a maior parte das nossas aflições.

Você se realizou mais como pastor, professor, terapeuta ou escritor?
Como escritor. Escrever tem sido terapia até para mim. Nos momentos de aflição, encontro tranqüilidade ao mergulhar nos textos que escrevo. É como montar quebra-cabeça, mas não só, porque colocar as idéias no papel é fácil. O difícil é desenvolvê-las e encontrar as palavras adequadas, que tem a ver com beleza. O curioso é em que em todas essas profissões eu lidei com pessoas. Mas escrever significa prazer; escrevo para mim, mas depois que as pessoas lêem elas se encontram comigo e o ciclo se completa. T. S. Elliot diz: "E ao final das longas explorações chegaremos finalmente ao lugar de onde partimos e o conheceremos, então, pela primeira vez" .

Por que você nunca escreveu romance?
Não consigo, tenho preguiça e acho difícil entrelaçar tantos personagens numa mesma história. Isso não me impede de fazer ficção. Faço pequenas ficções; a maior parte do que escrevo é ficcional. No livro sobre minha infância, O Velho que Acordou Menino, 30% é real, o restante é inventado.

O que mais o marcou na vida?
Creio que foi a elaboração interna das idéias religiosas que influenciaram grandemente minha literatura. Mas não gosto de me referir a isso, colocando a palavra Deus ou religião. No lugar de Deus, prefiro dizer O Grande Mistério. E no lugar de religião, prefiro dizer o sentido místico da vida, que eu nem sei direito o que é.

O que você não faria de novo?
Não gosto da idéia de que se pudesse viver a vida outra vez eu mudaria isso ou aquilo. Faria tudo de novo, não faria nada que não me levasse onde cheguei e, onde cheguei, eu fui feliz. Não queria mudar nada. Certa vez um estudante me perguntou como planejei a vida para chegar onde cheguei. Eu disse que tudo o que planejei deu errado, fui sendo levado, minha vida foi feita de acidentes, mas eu assumo tudo o que ela me apresentou. Há algo nessa linha no filme Quando Nietzsche Chorou (2006, de Pinchas Perry, baseado nos escritos do filósofo alemão): "Assim foram as coisas, mas o homem livre diz: assim eu desejei que as coisas fossem".

 

Alguns dos cerca de 90 livros de Rubem Alves

CRÔNICAS
- As Contas de Vidro e o Fio de Nylon (Ars Poética)
- Teologia do Cotidiano (Olho d’Água)
- A Festa de Maria (Papirus)
- O Quarto do Mistério (Papirus)

INFANTIS
- A Menina, a Gaiola e a Bicicleta (Cia das Letrinhas)
- A Boneca de Pano (Loyola)
- A Loja de Brinquedos (Loyola)
- A Menina e o Pássaro Encantado (Loyola)

FILOSOFIA DA EDUCAÇÃO
- A Alegria de Ensinar (Ars Poética)
- Estórias de quem Gosta de Ensinar (Ars Poética)
- Entre a Ciência e a Sapiência (Loyola)

FILOSOFIA DA RELIGIÃO
- O Enigma da Religião (Papirus)
- O que é Religião (Brasiliense)
- Protestantismo e Repressão (Ática)

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Biografia do Autor

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Entrevista concedida primeiramente ao jornalista João Nunes e publicada no Caderno C do Jornal Correio Popular-Campinas, SP, em 07 de maio de 2008. Republicação aqui autorizada por Rubem Alves.

Copyright ©2008, by ALB/Campinas, SP, Brasil

 

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