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... há a necessidade de se resgatar/ reinventar o conceito e a prática da alfabetização que atualmente está sendo “diluída” pelas apropriações e práticas pedagógicas inadequadas, referentes ao letramento...

 O ENSINO E A APRENDIZAGEM DE GRAMÁTICA DE LÍNGUA PORTUGUESA:
AS RELAÇÕES COM A ALFABETIZAÇÃO E O LETRAMENTO
Heloísa Andréia Vicente de Matos  (*)

Resumo: Os conceitos de ensino e de aprendizagem de gramática da Língua Portuguesa têm sofrido redefinições, principalmente, ao longo dos últimos anos, mas ainda muitas questões ficaram sem resposta, para muitos docentes ligados à educação básica. Também com a contribuição de novas reflexões sobre o processo de letramento e alfabetização, pretende-se, neste artigo, trazer à tona os aspectos que podem esclarecer o ensino e a aprendizagem da gramática.
Palavras-chave: gramática, letramento, ensino, aprendizagem, prática pedagógica

Abstract: The concepts of the education and learning of grammar of the Portuguese Language have suffered redefinitions, mainly, throughout last years, but many questions were still without reply, for many professors of the basic education. Also with the contribution of new reflections on the process of literacy and reading instruction , it is intended, in this article, to bring the aspects that can clarify the education and the learning of the grammar.
Key words: grammar, literacy, education, learning, pedagogic practicel

Assim como os conceitos de alfabetização, leitura e escrita têm sido, ao longo das últimas décadas, discutidos e redefinidos, com a contribuição de várias áreas do conhecimento como a Lingüística, a Sócio-Lingüística, a Psicologia, entre outras (1) , o ensino e a aprendizagem da gramática, nesse contexto, também foram colocados em foco de análise e ampla discussão no terreno acadêmico, chegando às escolas da Educação Básica e do Ensino Médio.

O que se nota(va) com a discussão dos processos de ensino de leitura e escrita e, principalmente, com a busca por métodos de ensino mais eficazes
(2) foi uma enorme celeuma (3), para além da comunidade acadêmica. Nesse ínterim, o ensino e a aprendizagem de gramática tinham um lugar de destaque. Sírio Possenti (1997), por exemplo, traz à tona esse cenário em Por que (não) ensinar gramática na escola?

Sucintamente, em sua obra, trata dos aspectos relativos às formas do ensino de gramática, apontando os problemas vinculados ao ensino “tradicional” da mesma, onde se enfatiza a gramática sem o contexto que a envolve na escrita, suas relações e entrelaçamentos sócio-historicamente também marcados.

Assim, considera que o ensino sistemático de gramática deve acontecer no trato com a língua
(4), com planejamento didático obviamente, apropriado para cada faixa etária, sem uma visão de que a aprendizagem vai acontecer espontaneamente, como alguns autores interpretavam o processo pedagógico, incorrendo, praticamente, num inatismo para tal.

Do mesmo modo como apontado, o autor critica o ensino “tecnicista” da gramática, pelo fato da mesma assemelhar-se ao que Paulo Freire (1983) chamou de educação bancária, haja vista que nesse modelo os alunos apenas recebem as regras determinadas da língua e as decoram.

Nesse bojo, Possenti (1997), assim como Batista (1999), Morais (2000), Bagno (1999), assim como os Parâmetros Curriculares Nacionais de Língua Portuguesa (BRASIL, 1997) destacam a necessidade do trabalho pedagógico voltado para a epilinguagem, onde aos alunos são dadas oportunidades de reflexão sobre a língua, em sua modalidade oral e escrita.

Diante dos aspectos apontados, não podemos deixar de salientar o próprio conceito de letramento que tem sido configurado, como mostra Soares (2004) e Kleiman (1995), por exemplo, no que diz respeito ao ensino e aprendizagem de gramática. Como foi apontado anteriormente, o ensino “tradicional” de alfabetização e de gramática desconsideravam os usos sociais da leitura e da escrita ou o efeito desses usos no cotidiano social, ou seja, os eventos de letramento, para que as regras instituídas fossem dimensionadas e refletidas diante do texto e da vida.

Entretanto, da mesma forma como Soares (2004) destaca que há a necessidade de se resgatar/ reinventar o conceito e a prática da alfabetização que atualmente está sendo “diluída” pelas apropriações e práticas pedagógicas inadequadas, referentes ao letramento
(5), o ensino de gramática também corre o risco de ficar à margem de tais práticas, uma vez que os novos conhecimentos sobre a língua podem ser mal interpretados e utilizados na área pedagógica.

Diante do exposto, faz todo o sentido a dúvida de uma professora de Língua Portuguesa, recém-formada no curso de Letras, uma das participantes da pesquisa etnográfica de mestrado de Matos (2001), que atuava numa 5ª. Série do Ensino Fundamental e mostrava-se muito empenhada em proporcionar aos alunos o melhor que podia oferecer como docente, no que dizia respeito à leitura e escrita. Assim, numa sessão de autoscopia (6) pede que a pesquisadora desligue o gravador e partilha sua angústia: “Afinal, devo ou não ensinar gramática?”

Embora não se tratasse de uma pesquisa-ação, a pesquisadora disse, ao final da sessão, que a questão seria como ensinar gramática e indicou-lhe leituras sobre o tema, ao final do trabalho de observação, ainda que suas aulas fossem bastante efetivas, do ponto de vista indicado por autores como Possenti (1997).

Drummond
(7) já disse que estamos em “tempo partido”; em tempo de “homens partidos” e talvez seja essa a situação que muitos professores alfabetizadores e de Língua Portuguesa tenham vivenciado e estejam vivenciando no cotidiano das práticas pedagógicas, em função de muitas variáveis que não cabe aqui tratar em profundidade. De qualquer maneira, paralelamente, temos assistido (de modo geral) a um alargamento dos conhecimentos até então produzidos sobre o ensino da “língua materna”, nos últimos anos, o que é bastante positivo também para o aprimoramento de tais práticas.

Há que se investir ainda mais em formação dos docentes de modo que os projetos político-pedagógicos das escolas estejam, de fato, voltados para a perspectiva do ensino de Língua Portuguesa com vistas ao letramento, e também para que haja articulações interdisciplinares nesse sentido, assim como abertura e democratização da gestão escolar, além da necessidade de se requerer políticas públicas que assegurem o tratamento de um ensino efetivo em níveis mais amplos, o que de certo englobará o ensino de Língua Portuguesa e do letramento dos educandos. Assim, conforme Soares (1998), certamente o letramento será um mapa no coração do homem.

Referências Bibliográficas

BAGNO,
M. Preconceito lingüístico: o que é, como se faz. São Paulo: Edições Loyola, 1999. v. 1.

BATISTA,
A.A.G. Leitura: práticas, impressos, letramentos. Belo Horizonte: Autêntica, 1999.

BRASIL.
Secretaria de Educação Fundamental. Parâmetros Curriculares Nacionais: Língua Portuguesa. Brasília: 144p. Disponível em: < http://portal.mec.gov.br/seb/arquivos/pdf/livro02.pdf  > Acessado em 11.07.08.

FREIRE,
P. Pedagogia do Oprimido. 13.ed. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1983. ( Coleção O Mundo, Hoje,v.21).

KLEIMAN,
A.B. Os significados do letramento: uma nova perspectiva sobre a prática social da escrita. Campinas: Mercado de Letras, 1995.

LEITE,
S.A.S. O processo de alfabetização escolar: revendo algumas questões. Perspectiva, Vol. 24, No 2, 2006a.

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S. A. S. Sobre o vovô viu a uva. Folha de São Paulo, Coluna Tendências e Debates, p. 3 - 3, 17 mar. 2006b.

MATOS, H.A.V. Análise de Práticas Pedagógicas na área de leitura desenvolvidas em sala de aula. Trabalho de Conclusão de Curso. Faculdade de Educação. Universidade Estadual de Campinas, Campinas, 1997.

____________. Práticas de produção da leitura no ensino fundamental: o professor e a construção do seu fazer pedagógico.
Dissertação (Mestrado em Educação) - Universidade Estadual de Campinas, Campinas, 2001.

____________. Histórias de leitura: a constituição de sujeitos surdos como leitores.
Tese (Doutorado em Programa de Pós Graduação da Faculdade de Educação) - Universidade Estadual de Campinas, Campinas, 2007.

MORAIS,
A.G. Ortografia: ensinar e aprender. São Paulo: Ática, 2000.

MORTATTI,
Maria do Rosário Longo. Os sentidos da alfabetização (São Paulo -1876/1994) (1a.ed./2a. reimp). 2. ed. São Paulo: Editora Unesp, 2005. v. 1. 372 p

POSSENTI,
S. Por que (não) ensinar gramática na escola. Campinas: Mercado de Letras, 1997.

SILVA,
Tomaz Tadeu. Desconstruindo o construtivismo pedagógico. Educação e Realidade. Porto Alegre, 18 (2), p.3-10, jul./dez., 1993.

SOARES,
M.B. Letramento: um tema em três gêneros. Belo Horizonte: Autêntica, 1998.

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Letramento e alfabetização: as muitas facetas. Rev. Bras. Educ. , Rio de Janeiro, n. 25, 2004 . Disponível em:
<http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1413-24782004000100002&lng=en&nrm=iso>. Acesso em: 11 July 2008. doi: 10.1590/S1413-24782004000100002

WEIZ,
T. Não há método milagroso. Folha de São Paulo, 18. Fev. 2006. Tendências e Debates.

NOTAS

(1) A esse respeito, Leite (2006a, 2006b), Soares (1998, 2004) e Matos (1997, 2001, 2007) apontam o contexto da transformação do conceito de alfabetização e seus desdobramentos, salientando também os aspectos sócio-econômicos que interferem nesse processo, além dos motivos pedagógicos. Do mesmo modo, Telma Weisz (2006), em artigo publicado na Folha de São Paulo, engaja-se também na discussão que foi retomada em meados de 2003 sobre a possível adoção de cartilhas de alfabetização pelo MEC e as conseqüências para o ensino de leitura e da escrita no Ensino Fundamental para as classes economicamente desfavorecidas.

(2) Tal discussão é bastante antiga e historicamente situada, como mostra Mortatti (2005).

(3) Ver, por exemplo, o artigo “Desconstruindo o Construtivismo Pedagógico” de Silva (1993).

(4) Considerando também as idiossincrasias da língua escrita e da língua oral.

(5) De acordo com Soares (2004), saímos de um extremo para chegar a outro. De modo geral, antes, não se letrava e atualmente não se alfabetiza, ou seja, não se ensinam as regras e convenções da língua.

(6) Basicamente, nesse processo de autoscopia, os sujeitos assistiam às suas imagens videogravadas, em processo dinâmico de atuação e, a pedido da pesquisadora (com roteiro prévio), comentavam determinadas ações, observadas no cotidiano da sala de aula.

(7) Carlos Drummond de Andrade. Nosso Tempo. In: A Rosa do Povo. José Olympio, 1945.

Créditos das imagens, pela ordem no texto:

1. <ww1.rtp.pt/.../images/articles/347200/aulas.jpg> 385 x 270 - 33k/ Acessado em 10.07.08
2. <www.ideotario.com/blog500_zzz_leitura.jpg> 340 x 500 - 35k/ Acessado em 10.07.08
3. <bp2.blogger.com/.../s320/homem+partido.jpg> 320 x 244 - 20k/ Acessado em 10.07.08
4. <acertodecontas.blog.br/wp-content/uploads/200...> 301 x 384 - 48k/ Acessado em 10.07.08

Obs: Ilustrações selecionadas e inseridas pela autora

Heloísa A.V. Matos –  Doutora em Educação pela F.E./Unicamp (2007), onde também concluiu os cursos de graduação em Pedagogia (1997) e Mestrado em Educação (2001). Professora convidada da F.E./UNICAMP dos cursos Proesf (2004-2008) e Gestores (2006-2007). Atualmente, é coordenadora pedagógica da ProfSAT ( www.profsat.com.br  ) e ministra aulas em curso de pós-graduação na área da leitura e da surdez.  

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