Retinas

voltar menu revista 10

 

... Por que gosto de um modo especial desses dois livros? Porque neles o Rubem se encontra fora da angústia de toda teoria (ideologia), e talvez até mesmo tenha encontrado o assunto dominante de sua fase madura, conclusiva: o da memória fecunda.  

                                    CONVERSA COM RUBEM ALVES

 Eustáquio Gomes
 
 
 
Enquanto caminhamos pelas ruas de Barão Geraldo, digo ao Rubem que ele acaba de escrever seus melhores livros: O velho que acordou menino, memórias de infância, e Ostra feliz não faz pérola, livro de fragmentos. Não que eu tenha lido todos os outros (são 90!), mas em minha opinião aqui está o melhor Rubem, o que relata o cotidiano, fabula a realidade chã e até escarnece um pouquinho da eternidade.

Na cantina, passamos entre as mesinhas atoalhadas. Sentamos.

Pergunto:

— Você fala de amor. Mas que história é essa?

— Amor é isto: a dialética entre a inteligência do encontro e a dor da separação. Quem não pode suportar a dor da separação não está preparado para o amor.

O livro sobre a infância é irmão-gêmeo daquele outro livro belíssimo de Murilo Mendes, de título igualmente maravilhoso, A idade do serrote. Murilo é de Juiz de Fora, Rubem é de Boa Esperança. Ambos mineiros, dois espíritos líricos e livres, tão livres quanto um montanhês pode ser livre. São livros de linguagem tersa, amorosa, feitos para durar. Dou um exemplo tirado de O velho: “O barulho de ferro batendo nas pedras me acordava de madrugada. O ruído das ferraduras se misturava ao relinchar dos cavalos. Eu me levantava e abria a única bandeira da janela.” Ou então isto: “Era em torno do fogo que o lar acontecia. O fogão de lenha marcava o único lugar quente da casa.”

— O amor prefere a luz das velas, ele diz. Tudo o que desejamos da pessoa amada é que seja uma luz suave que nos ajude a suportar o terror da noite.

O livro de fragmentos é uma mistura de diário, percepções, reminiscências, resquícios de leitura. Embora organizados por assunto, os tópicos, em geral breves, são independentes e díspares. Apesar disso eles convergem para um centro e funcionam como uma suma do pensamento do autor. Admiro este livro não somente por sua forma refinada, pelas frases acabadas e pela palavra justa no seu lugar, mas também porque é um retrato fiel do Rubem: sempre em busca da harmonia no desarmônico, da unidade na disparidade.

— Somos donos dos nossos atos, mas não somos donos dos nossos sentimentos. Somos culpados pelo que fazemos, mas não somos culpados pelo que sentimos.

Por que gosto de um modo especial desses dois livros? Porque neles o Rubem se encontra fora da angústia de toda teoria (ideologia), e talvez até mesmo tenha encontrado o assunto dominante de sua fase madura, conclusiva: o da memória fecunda. Mas sei que isso é uma ilusão, que ele será sempre o ser proteiforme que foi até aqui, e que se puder chegar a 180 livros ele o fará. Livros sobre o amor, educação, filosofia. Fabulários, Deus, palácios, pássaros encantados e por vezes desiludidos. Não lhe faltarão aplausos. Outros lhe torcerão o nariz. Mas ele seguirá adiante, lotando salões, esgotando edições e dando banana aos críticos.

— Muito tarde aprendi os limites da palavra. Alguns pensam que seus argumentos, por sua natureza e lógica, são capazes de convencer. Levou tempo para que eu compreendesse que o que convence não é a “letra” do que falamos; é a “música” que se ouve nos interstícios da fala.

Penso que a imagem pública do Rubem, um homem de vida intensa e exposta à luz dos auditórios, pouco tem a ver com sua figura real. Faz-se dele a imagem de um taumaturgo, de um místico, um ser isento de dúvidas. É um terrível engano. Quando se lê atentamente A ostra (e a seus leitores isso não deve passar despercebido), compreende-se que o Rubem se nutre sobretudo de poesia, nunca de certezas absolutas. No fundo é – eu não diria um agnóstico – mas um cético que não abdicou da inteligência. Ou uma religiosidade que abominou os dogmas e se desencontrou da religião.

— Primeira possibilidade: há vida após a morte. Nesse caso estou tranqüilo porque, se há vida após a morte, é porque há um Poder Misterioso que a garante. Segunda possibilidade: não há vida após a morte. Nesse caso, a morte significa que vou voltar ao lugar onde estive por todo o tempo infinito passado, inclusive no Big Bang.

Rubem tem a aparência de quem, chegado de uma longa viagem, encontra finalmente seu ponto de repouso. Durante essa viagem houve alegrias e sofrimentos, mas ele aparenta manter a cabeça acima do nevoeiro. Repouso? Não creio. Uma mente inquieta como a dele não tem repouso. Tampouco a de Nietzsche teve. Mas, ao contrário de Nietzsche, Rubem não enlouquecerá: está condenado a ser lúcido até o fim. E talvez, no fundo, feliz.

Por fim, uma explicação: as falas aqui transcritas foram extraídas de seu livro de fragmentos, mas nossa conversa, se foi outra, não foi diferente.

Copyright ©2008, by ALB/Campinas, SP, Brasil

 

Indique a um amigo:
Remetente:
Email Remetente:
Destinatário:
Email Destinatário: