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Por que gosto de um modo especial
desses dois livros? Porque neles o Rubem se
encontra fora da angústia de toda teoria
(ideologia), e talvez até mesmo tenha
encontrado o assunto dominante de sua fase
madura, conclusiva: o da memória fecunda.
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CONVERSA COM RUBEM ALVES
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Eustáquio
Gomes
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Enquanto caminhamos pelas ruas de Barão Geraldo,
digo ao Rubem que ele acaba de escrever seus
melhores livros: O velho
que acordou menino, memórias de infância,
e Ostra feliz não faz
pérola, livro de fragmentos. Não que eu
tenha lido todos os outros (são 90!), mas em
minha opinião aqui está o melhor Rubem, o que
relata o cotidiano, fabula a realidade chã e até
escarnece um pouquinho da eternidade.
Na cantina, passamos entre as mesinhas
atoalhadas. Sentamos.
Pergunto:
— Você fala de amor. Mas que história é essa?
— Amor é isto: a dialética entre a inteligência
do encontro e a dor da separação. Quem não pode
suportar a dor da separação não está preparado
para o amor.
O livro sobre a infância é irmão-gêmeo daquele
outro livro belíssimo de Murilo Mendes, de
título igualmente maravilhoso,
A idade do serrote.
Murilo é de Juiz de Fora, Rubem é de Boa
Esperança. Ambos mineiros, dois espíritos
líricos e livres, tão livres quanto um montanhês
pode ser livre. São livros de linguagem tersa,
amorosa, feitos para durar. Dou um exemplo
tirado de O velho: “O barulho de ferro batendo
nas pedras me acordava de madrugada. O ruído das
ferraduras se misturava ao relinchar dos
cavalos. Eu me levantava e abria a única
bandeira da janela.” Ou então isto: “Era em
torno do fogo que o lar acontecia. O fogão de
lenha marcava o único lugar quente da casa.”
— O amor prefere a luz das velas, ele diz. Tudo
o que desejamos da pessoa amada é que seja uma
luz suave que nos ajude a suportar o terror da
noite.
O livro de fragmentos é uma mistura de diário,
percepções, reminiscências, resquícios de
leitura. Embora organizados por assunto, os
tópicos, em geral breves, são independentes e
díspares. Apesar disso eles convergem para um
centro e funcionam como uma suma do pensamento
do autor. Admiro este livro não somente por sua
forma refinada, pelas frases acabadas e pela
palavra justa no seu lugar, mas também porque é
um retrato fiel do Rubem: sempre em busca da
harmonia no desarmônico, da unidade na
disparidade.
—
Somos donos dos nossos atos, mas não somos donos
dos nossos sentimentos. Somos culpados pelo que
fazemos, mas não somos culpados pelo que
sentimos.
Por que gosto de um modo especial desses dois
livros? Porque neles o Rubem se encontra fora da
angústia de toda teoria (ideologia), e talvez
até mesmo tenha encontrado o assunto dominante
de sua fase madura, conclusiva: o da memória
fecunda. Mas sei que isso é uma ilusão, que ele
será sempre o ser proteiforme que foi até aqui,
e que se puder chegar a 180 livros ele o fará.
Livros sobre o amor, educação, filosofia.
Fabulários, Deus, palácios, pássaros encantados
e por vezes desiludidos. Não lhe faltarão
aplausos. Outros lhe torcerão o nariz. Mas ele
seguirá adiante, lotando salões, esgotando
edições e dando banana aos críticos.
— Muito tarde aprendi os limites da palavra.
Alguns pensam que seus argumentos, por sua
natureza e lógica, são capazes de convencer.
Levou tempo para que eu compreendesse que o que
convence não é a “letra” do que falamos; é a
“música” que se ouve nos interstícios da fala.
Penso que a imagem pública do Rubem, um homem de
vida intensa e exposta à luz dos auditórios,
pouco tem a ver com sua figura real. Faz-se dele
a imagem de um taumaturgo, de um místico, um ser
isento de dúvidas. É um terrível engano. Quando
se lê atentamente A ostra
(e a seus leitores isso não deve passar
despercebido), compreende-se que o Rubem se
nutre sobretudo de poesia, nunca de certezas
absolutas. No fundo é – eu não diria um
agnóstico – mas um cético que não abdicou da
inteligência. Ou uma religiosidade que abominou
os dogmas e se desencontrou da religião.
— Primeira possibilidade: há vida após a morte.
Nesse caso estou tranqüilo porque, se há vida
após a morte, é porque há um Poder Misterioso
que a garante. Segunda possibilidade: não há
vida após a morte. Nesse caso, a morte significa
que vou voltar ao lugar onde estive por todo o
tempo infinito passado, inclusive no Big Bang.
Rubem tem a aparência de quem, chegado de uma
longa viagem, encontra finalmente seu ponto de
repouso. Durante essa viagem houve alegrias e
sofrimentos, mas ele aparenta manter a cabeça
acima do nevoeiro. Repouso? Não creio. Uma mente
inquieta como a dele não tem repouso. Tampouco a
de Nietzsche teve. Mas, ao contrário de
Nietzsche, Rubem não enlouquecerá: está
condenado a ser lúcido até o fim. E talvez, no
fundo, feliz.
Por fim, uma explicação: as falas aqui
transcritas foram extraídas de seu livro de
fragmentos, mas nossa conversa, se foi outra,
não foi diferente.
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