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A
cooperação entre os países de língua
portuguesa será facilitada, pois uma editora
poderá produzir uma grande quantidade de
livros e, barateando o custo da produção,
poderá vendê-los ou doá-los para os países
mais pobres. |
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SOBRE O ACORDO
ORTOGRÁFICO E SUAS CONSEQÜÊNCIAS
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Entrevista com José Pereira
José
Pereira da Silva possui graduação em Curso da
Cades pela Universidade Federal da Bahia (1970),
graduação em Letras Português Literatura pela
Faculdade de Humanidades Pedro II (1976),
especialização em Língua e Literatura do Século XVI
em Portugal, pela Universidade do Estado do Rio de
Janeiro (1982), especialização em Metodologia do
Ensino Superior pela Universidade Estácio de Sá
(1982), mestrado em Lingüística e Filologia pela
Universidade Federal do Rio de Janeiro (1986) e
doutorado em Lingüística pela Universidade Federal
do Rio de Janeiro (1991). Atualmente é professor
adjunto da Universidade do Estado do Rio de Janeiro,
diretor-presidente do Círculo Fluminense de Estudos
Filológicos e Lingüísticos e segundo secretário da
Academia Brasileira de Filologia. Tem experiência na
área de Letras, com ênfase em Letras, atuando
principalmente nos seguintes temas: filologia,
lingüística, letras, língua e textos. Site:
http://www.filologia.org.br/pereira/
O sistema
educacional terá mais facilidade para ensinar os
alunos? Será que essa forma não os deixará mais
confusos e dispersos da escrita?
Um sistema ortográfico mais simplificado e mais
lógico facilita a tarefa do professor e do aluno. Há
regras ortográficas que não têm qualquer lógica
lingüística e que os professores são obrigados a
fazer seus alunos decorarem a regra sem lhes
oferecer uma explicação lógica, como é o caso do
acento circunflexo nos hiatos -ôo e -êem, por
exemplo. A eliminação do uso do trema nos grupos
güe, güi, qüe e qüi vai facilitar a vida dos
estudantes e dos professores, assim como a
eliminação de vários acentos diferenciais que ainda
prevaleceram na língua.
Os livros e dicionários sofreram mudanças. Como o
senhor acha que as pessoas se adaptarão já que estão
acostumadas com os acentos?
Com dificuldades. As pessoas têm dificuldades
para se adaptar com qualquer coisa nova. Todo o
mundo se acomoda ao que já conseguiram e fica muito
chateado quando descobre que o que tinha não era de
boa qualidade e que o que apareceu agora é muito
melhor.
Para as pessoas que prestam concursos essas mudanças
tornarão as provas mais difíceis?
De maneira alguma, Mônica. As novas regras
ortográficas são mais simplificadas que as
anteriores. Além disso, fique tranqüila. Somente em
2012 a escola pública vai começar a utilizar o novo
sistema ortográfico no ensino fundamental e médio.
Como esses cursos terão uma duração mínima de três
anos, só em 2015 tais normas serão cobradas em
concursos públicos, exceto, naturalmente para os
profissionais do ensino e para os profissionais da
comunicação escrita. Além disso, os erros
ortográficos correspondem, hoje, nas avaliações
lingüísticas a mais da metade dos erros cometidos
pelos alunos e profissionais. Aumentar isto é
bastante difícil.
Como o senhor acha que a sociedade encarará tal
reforma?
Depende do que você chama de sociedade. A língua
escrita padrão é cobrada apenas de uma elite muito
selecionada, que corresponde a pessoas que tenham
curso superior e somente em algumas especialidades.
Nem o médico, nem o engenheiro, nem o técnico em
geral será cobrado quanto a isto. Nunca foi. O
cidadão comum, que corresponde a quase noventa por
cento da sociedade, nem perceberá que houve
alteração. Primeiro, porque já não sabiam as regras
atuais de ortografia; depois, porque isto não lhes
fará falta.
Segundo alguns sites de informações sobre as novas
regras da Língua Portuguesa filólogos são a favor e
editores não, da reforma. Por que?
É balela. Ninguém é favor de acordo nenhum.
Qualquer acordo significa negociação em que ambas as
partes perdem para chegarem a um meio termo possível
ou tolerável. Se houver um "acordo" em que uma parte
ficar plenamente satisfeita, o nome seria "ditadura"
ou "imposição". Acordo é negociação quando não é
possível convencer uma das partes a aceitar
inteiramente a proposta da outra. Talvez seja até o
contrário, em termos estatísticos. Os filólogos e
lingüistas estavam todos esperando um acordo que
simplificasse definitivamente o nosso sistema
ortográfico, mas isto não foi possível porque houve
muita resistência em alguns grupos. Entenda que a
língua portuguesa é uma das mais faladas no mundo e
está espalhada em oito países como língua oficial,
além de dezenas de outros como segunda língua. Os
editores, em sua maioria, terão até vantagens, visto
que a maioria dos livros é vendida em dois ou três
anos e o custo da produção de um livro é de apenas
25% do seu custo de mercado. Livros como a Bíblia,
por exemplo, podem ser lidos em qualquer ortografia,
pois isto não afetará em nada sua compreensão nem os
seus objetivos. Já percebeu que a Bíblia, na versão
mais popularizada entre os evangélicos, tem uma
linguagem bem arcaica?
A maioria das pessoas não gosta da idéia de uma nova
ortografia. O que o senhor diria a elas sobre essa
questão?
A maioria das pessoas não gosta nem sabe o que é
a nova ortografia. Nem a velha. Você sabe utilizar
corretamente o hífen nas palavras compostas com as
regras que você já estudou (ou deveria ter estudado)
na escola? Você usa corretamente o trema e o acento
grave nas situações que a ortografia atual exigem?
Estou tratando de uma estudante interessada no
assunto. Imagine o que acontece com um estudante de
Matemática, Biologia, Química, Física, Medicina,
Engenharia etc.
Professores terão que ter aulas, antes, para ensinar
seus alunos? Como o senhor acha que será esse
processo?
É óbvio. O Espírito Santo não infundirá em cada
um deles o conhecimento das novas regras
ortográficas nem teria tempo para isto. Atualizar-se
profissionalmente faz parte da vida de qualquer
pessoa que se especializa em qualquer coisa. Hoje,
quem não se recicla em sua profissão está perdendo o
emprego desde o momento em que tomar posse dele.
Esse processo será como qualquer outra reciclagem.
Uma ferramenta ultrapassada pela tecnologia pode ser
reciclada ou virar lixo. É assim também com os
profissionais de hoje, muito mais do que era nos
tempos em que a história avançava em passos de
tartaruga. Hoje, tudo tem a velocidade da
eletrônica.
Quando acontecerá, de verdade, as mudanças
ortográficas? Por que só agora decidiram colocar em
prática?
Já estão acontecendo. Os profissionais do ensino
de Letras já têm gramáticas, dicionários e livros
especializados que lhes oferecem informações a este
respeito. A Academia Brasileira de Letras está
terminando de preparar o Vocabulário Ortográfico da
Língua Portuguesa para servir de base para os
pesquisadores mais detalhistas e para resolver as
questões que dependerão de um árbitro. Por que só
agora decidiram colocar em prática?!... Porque tudo
tem o seu tempo. O projeto da simplificação
ortográfica teve início em 1986, foi aprovado em
1990, passou por negociações políticas e acadêmicas
desde aquela época, inclusive com inclusão de mais
um país (o Timor Leste) entre os que o negociaram
inicialmente. A partir de primeiro de janeiro de
2007, com a assinatura de três países da Comunidade
dos Países de Língua Portuguesa, o Acordo está
oficialmente em vigor, mas isto não basta, pois a
sua implementação depende de decisões políticas que
demandam muito investimento. A implementação do
Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa depende de
reciclagem do professorado, depende de aquisição de
livros didáticos e paradidáticos para todas as
escolas públicas do país e, neste caso, a negociação
com as editoras e com os autores tem de ser feita
com um bom prazo de antecedência, porque não apenas
umas centenas de livros, mas muitos milhões deles.
Com a ratificação
as nações ficaram mais unidas, já que facilitará a
linguagem internacionalmente.
Você pensou em fazer uma pergunta ou é uma
declaração? A cooperação entre os países de
língua portuguesa será facilitada, pois uma editora
poderá produzir uma grande quantidade de livros e,
barateando o custo da produção, poderá vendê-los ou
doá-los para os países mais pobres. Antes desse
Acordo, o Brasil doou alguns milhares de livros a um
país africano de língua portuguesa e, depois de
avaliados por uma consultoria local, foram proibidos
de circular porque atrapalharia a aprendizagem da
língua portuguesa ali, visto que sua ortografia
diverge da nossa. Os livros portugueses poderão
circular mais facilmente no Brasil, assim como os
brasileiros poderão ser consumidos em qualquer país
do mundo do mesmo modo. Se outro banqueiro
brasileiro for preso na Europa, não será mais
necessário traduzir os documentos do português do
Brasil para eles, pois o português é uma das línguas
oficiais da União Européia. Os cursos de língua
portuguesa para estrangeiros serão facilitados por
uma ortografia unificada, assim como o ensino a
distância da língua terá muito maior sucesso pois o
material didático será idêntico para qualquer um dos
países. Veja que os portugueses também terão
vantagens, pois o português é segunda língua em todo
o Mercosul, além do fato de que nossas novelas
difundem o português em todo mundo, enquanto
Portugal não tem a mesma penetração midiática.
Enfim. Há muitas vantagens e muitas desvantagens. As
desvantagens são de curta duração, pois, na próxima
geração, todos os estudantes de hoje já terão
assimilado essa nova ortografia, enquanto o
progresso da humanidade não é concluído ao final de
cada geração.
ENTREVISTA
CONCEDIDA A
MÔNICA SARAIVA EM
SETEMBRO-2007
ACORDO ORTOGRÁFICO DA LÍNGUA
PORTUGUESA
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