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Essas e várias outras histórias muito me
ensinaram. Histórias que ficaram enraizadas
em meu caráter e que, aos pouquinhos, dão
seus frutos, transformando meus modos de
pensar e de agir. |
DAS COISAS NASCEM COISAS
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Eduardo
de Almeida
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Muito
mais do que um amontoado de volumes, minha
biblioteca significa, para mim, uma reunião de
memórias. Isso porque cada livro na prateleira
tem uma história, que extravasa linhas, palavras
e idéias para influenciar minha vida à sua
maneira. Quase sempre me recordo de quando o
comprei, dos motivos que me levaram a isso e da
sensação que ele deixou. Cada pessoa coleciona
seu passado de um jeito. Acho que o meu é esse.
Quando olho para a biblioteca que toma conta do
quarto, estou olhando para dentro de mim mesmo,
onde cada livro representa uma experiência de
vida.
Sou um assíduo freqüentador de sebos.
Descobri-os na época da faculdade e desde então
tenho comprado muita coisa neles. Não nego que
os livros novos têm seus atrativos, como o
cheiro gostoso de papel recém-saído da gráfica;
mas os usados possuem um estilo todo especial,
um tipo de “aura” própria que lhes foi sendo
imbuída pelos antigos donos. Quem é apaixonado
por leitura deve compreender. Gosto de pegá-los
com cuidado, observar os sinais deixados em suas
páginas e tentar descobrir a quem pertenceu. É
emocionante ter em mãos um pedaço da história de
alguém. Afinal, como ele veio parar aqui?
Algo bastante curioso aconteceu nesta semana.
Perto de onde trabalho, existe uma porção de
bons sebos, que costumo visitar na hora do
almoço. Para meu deleite, um novo acabara de
abrir as portas e, naquele mesmo instante, fui
xeretar.
Já na vitrine vi um livro de arte, sobre o
movimento impressionista, que estive namorando
em outra loja vizinha, mas que não comprei
porque custava caro demais. De qualquer modo,
por curiosidade, perguntei o preço: 45 reais.
Fiquei espantado. Era 25% do valor da tabela,
por um livro que sequer tinha sido folheado! Uma
grana que provavelmente me faria falta, nesta
época de vacas magras, mas não podia deixar uma
oportunidade como aquela passar e me propus a
levá-lo. O ruim é que eu tinha no bolso apenas o
troco do almoço. Assim, reservei o volume para o
dia seguinte.
Acontece que passei por lá na mesma noite,
quando caminhava para o ponto de ônibus, e me
deparei com a loja aberta. Entrei e disse o que
viera buscar. O vendedor ficou sem graça, pediu
desculpas e explicou que errara o preço – o
livro custava 145 reais, muito além das minhas
possibilidades. Fui embora decepcionado.
Minha namorada, especialista em marketing,
comentou que, uma vez dito o preço, o vendedor
deveria mantê-lo. Também achei ser o correto.
Porém, fiquei pensando que, se soubesse do erro
dele, jamais conseguiria pagar mais barato e
deixá-lo no prejuízo.
Pois ontem à noite, três dias depois, encontrei
o sebo aberto novamente. O vendedor estava na
porta e me chamou a atenção, estendeu o livro e
disse: “Ainda está com a grana? É seu.” Tentei
explicar que não queria prejudicá-lo, mas ele
foi enfático: “Eu já havia dado minha palavra e
não conseguiria dormir se não vendesse o livro
para você. Faça bom proveito.” Fiquei sem saber
o que falar. Agradeci, paguei os 45 reais e fui
embora.
A dignidade do vendedor me fez lembrar de uma
outra história que meu pai costuma contar, de
quando se confundiu e colocou o dinheiro
recebido por uma venda na sacola da cliente,
junto com o produto comprado.
Era uma senhora muito humilde, que freqüentava a
loja uma vez por mês e cujo sacrifício feito em
cada compra ficava evidente. Ele só soube do
erro quando, no mês seguinte, a cliente quis lhe
devolver a quantia. Ela ainda se desculpou por
não ter ido antes e explicou que não tinha sido
possível. Meu pai tem certeza de que, entre as
duas visitas, a senhorinha passou por
dificuldades, mas não tocou no dinheiro que não
lhe pertencia. É emocionante vê-lo contar. Em
recompensa pela honestidade, ele se recusou a
receber o valor, fazendo questão que ficasse com
ela.
Essas e várias outras histórias muito me
ensinaram. Histórias que ficaram enraizadas em
meu caráter e que, aos pouquinhos, dão seus
frutos, transformando meus modos de pensar e de
agir.
Ontem, quando cheguei em casa com o livro na
mão, pretendia registrar em suas primeiras
páginas o ocorrido no sebo. Porém, logo me dei
conta de que isso não seria necessário. Percebi
que, ao olhar para ele em uma das prateleiras de
minha biblioteca, vou sempre trazer à tona tudo
o que aprendi antes mesmo de abri-lo.
Então transformei o registro numa crônica.
Fiquei repassando o episódio e tentando colocar
em palavras o que ele significou para mim. Nesse
sentido, os livros da biblioteca servem para
ajudar a manter vivas em minha memória algumas
das pessoas que conheço por aí e também suas
histórias. Acho incrível como apenas umas poucas
sementinhas podem fazer brotarem grandes
experiências de vida! Pois olho para meus
livros, penso no vendedor do sebo, na cliente de
meu pai e, num momento de profunda introspecção,
fico perguntando a mim mesmo: “O que você tem
plantado ultimamente?”
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