Depoimento

voltar menu revista 12

 

Mas nada se compara ao sopro de alívio (e às vezes de plenitude fugaz) quando o coração sente que está prestes a encerrar a aventura do texto com um ponto final que não é outra coisa senão uma morte consentida, uma morte com doçura

PEQUENAS COISAS
  Eustáquio Gomes *
NAUFRÁGIO

Naufragado em livros. Nunca tantos livros novos sobre a mesa, nas prateleiras, montados no dorso de outros livros, até no banheiro há pilhas de livros. Escarneço de mim mesmo quando digo aos outros que nisto de amar os livros é preciso também saber defender-se deles, sobretudo os que não nos concernem. Nem sempre cumpro o que apregôo, daí essa angústia dos livros comprados e não lidos, ou lidos pela metade, ou lidos por desfastio.

RAÏSSA

Buquinava num sebo quando topei com o Diário de Raïssa Maritain. Compro diários para esgotar uma obsessão. Sempre estala uma faísca quando encontro um diário novo entre a bagaceira. Pouco importa que o diário encontrado nada tenha a ver comigo, como este da Maritain, carola até a medula; na verdade três vezes mais carola que o diário de Pierre van der Meer, intitulado Magnificat. (Na verdade todos os homens têm a ver comigo). Mas mesmo nesses vejo profundo interesse humano, a notação do cotidiano sacralizado. Hesitei um instante mas acabei por trazê-lo, para evitar me arrepender mais tarde, como aconteceu mais de uma vez.

LIÇÕES DE ABISMO

No sebo Galpão reluto diante do Lições de abismo, de Gustavo Corção, que conheço de leitura antiga. Lembrava-me que naquela época o livro me pareceu obra-prima, e ao folheá-lo agora, de pé contra a estante alta, continua a me parecer assim. Noto seu parentesco com o Abdias de Cyro dos Anjos, na linguagem e na forma, ambos de matriz machadiana. Mas de repente o livro me repele. Ia já saindo sem ele quando, num repente, volto atrás e o apanho de um golpe... por pressentir obscuramente que no meu trabalho atual a proximidade do romance de Corção me seria, não apenas benigna, mas indispensável.

ESCREVER

O prazer não está tanto no momento da edição. Minhas alegrias são anteriores. Há o sofrimento da escrita e por vezes a felicidade de um capítulo bem construído. Também é feliz o instante em que chega o contrato do editor, geralmente pelo correio, como um pombo alvissareiro batendo asas. Mas nada se compara ao sopro de alívio (e às vezes de plenitude fugaz) quando o coração sente que está prestes a encerrar a aventura do texto com um ponto final que não é outra coisa senão uma morte consentida, uma morte com doçura. Depois disso há uma separação progressiva em relação à obra, com uma indiferença por sua sorte que tende a crescer com o tempo, embora, no fundo, essa compulsão seja apenas uma tentativa de não desgastar interiormente a obra com um amor excessivo, e também a necessidade de passar a outra coisa.

PADRÃO-OURO

Das respostas a um questionário-entrevista que me envia o editor do caderno “Idéias”, do Jornal do Brasil, esta pode ser levada a sério: “Venho adiando esse livro [O diário jubilaico] há vinte anos e ainda não pareço estar preparado para ele. Creio que é um daqueles projetos colocados muito acima de minhas forças e que servem antes para estabelecer uma espécie de padrão-ouro, uma miragem a ser perseguida. O irônico é que tudo o que foi escrito desde então, cinco ou seis obras mais ou menos obscuras e que intimamente considerei trabalho de entressafra, terminaram por ser o trabalho verdadeiro, o trabalho possível. É sempre assim: a gente imagina parágrafos cinzelados e termina escrevendo sentenças ordinárias. Até que se descobre que aquela é a nossa medida. Mas não vou renunciar à miragem do padrão-ouro, mesmo sabendo que o resultado será diverso”.

TOLSTOI E GANDHI

Os grandes eventos da história não se fazem anunciar de modo algum, e em sua fase embrionária podem parecer mesmo insignificantes. Mesmo a derrubada das Torres Gêmeas em 2001 tem suas raízes nos chamados “tratados infames”, que durante décadas fomentaram o recrudescimento do fundamentalismo árabe. Escrevo isto a propósito de uma brevíssima nota de Tolstoi em seu diário de 1910, em que o velho sábio começa deplorando a “admiração pasmada” de dois visitantes japoneses pela civilização européia; e conclui: “Em troca, recebi de um hindu um livro e uma carta que mostram a compreensão que o autor tem de todas as lacunas da civilização européia, e mesmo de sua completa vaidade”. O hindu, jovem ainda, era Mahatma Gandhi, que levaria ainda um terço de século para vir a ser o que foi. Tolstoi morreu naquele ano, octogenário e desiludido, parecendo hoje uma figura remota e lendária. Gandhi, então um obscuro advogado na África do Sul, estava destinado a projetar luz intensíssima sobre todo o século 20. É possível que naquela carta Tolstoi tenha captado um vislumbre dessa luz futura?
Eustáquio Gomes  - Escritor campineiro.
 

Copyright ©2008, by ALB/Campinas, SP, Brasil

 

Indique a um amigo:
Remetente:
Email Remetente:
Destinatário:
Email Destinatário: