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O
Filho Eterno foi mesmo um impacto na
minha vida. Às vezes me acho personagem de
um apólogo do Machado. |
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CRISTÓVÃO
TEZZA - O MAIS PREMIADO DO ANO
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Entrevista a João Nunes, Correio Popular -
Campinas
Na literatura brasileira, 2008 foi o ano Cristovão
Tezza. O escritor catarinense radicado em Curitiba
tem 56 anos, 13 livros publicados, a partir de 1979,
mas era pouco conhecido (mesmo tendo vencido prêmios
importantes anteriormente) e lido. Neste ano, no
entanto, Tezza saiu do (quase) anonimato para ser
tornar nome obrigatório no meio literário do País.
Seu livro
O Filho Eterno
(Record, 2007, 223 pág., R$ 34,00) está na quinta
reimpressão depois de ganhar os principais prêmios
nacionais (ver lista nesta página), incluindo o
internacional e cobiçado Portugal Telecom, que lhe
rendeu R$ 100 mil. Tanto que o escritor planeja
deixar a carreira de professor no ano que vem para
se dedicar exclusivamente à literatura.
Até agora foram vendidos 10 mil exemplares (uma
exorbitância em se tratando de ficção brasileira) de
O Filh o
Eterno e há cerca de 4 mil disponíveis nas livrarias
do País. A mais recente láurea do autor saiu na
semana retrasada: o Prêmio São Paulo de livro do
ano, com o qual embolsou R$ 200 mil, o mais alto
pago em premiação literária no Brasil.
Falando ao Caderno C do Jornal Correio Popular
(Campinas, SP), Cristovão Tezza disse que pretende
deixar a Universidade Federal do Paraná (UFPR), onde
leciona em Curitiba, em junho do ano que vem.
Atualmente escreve um romance que tem o amor como
tema e planeja lançá-lo em 2009.
Sobre as mudanças ocorridas em sua vida após o
sucesso de O Filho Eterno, ele diz: “Preciso
decifrar o sentido do que está acontecendo. Mas o
saldo pessoal é bom, até por motivos práticos, de
sobrevivência mesmo. A hipótese de viver da escrita
é maravilhosa”.
O LIVRO
No tempo em que o interesse pela leitura está
intimamente ligado ao pragmatismo dos manuais, que
ditam regras mas dão pistas sem garantias, Cristovão
Tezza poderia tomar o tema proposto — o filho do
personagem protagonista tem Síndrome de Down — e
criar mais um manual, dicas de como fazer isto ou
aquilo e exibir a experiência bem-sucedida como
troféu. Em vez disso, utiliza-se do tema espinhoso
para fazer literatura de alta qualidade.
E em nenhum momento o personagem — nitidamente
inspirado na própria biografia — escorrega para a
autocomiseração, ou para o piegas. É um pai como
qualquer um de nós (seres humanos com todas as suas
contradições), com a diferença de que ele não tem
medo de expor de maneira crua os sentimentos e as
opiniões. Pelo contrário, revela profundo enfado
diante do drama; incômodo que, em dado momento, o
leva a alimentar saídas impossíveis e mesquinhas.
Ao mesmo tempo, de posse de oportuno distanciamento,
consegue a proeza de provocar comoções sem que as
tenha propositadamente buscado — não quer emoções
baratas nem faz apelos na direção da sensibilidade
do leitor. Ao contrário, é, por vezes, um personagem
antipático em busca da empatia e que se salva por
meio do humor cáustico. O humor o salva, mas não só.
O amor também. Mas não o amor escancarado, pegajoso,
sentimentalóide (apropriado às telenovelas ou a
manuais de auto-ajuda), mas aquele escondido por
debaixo da pele. Por exemplo, o personagem conta que
chega a temer que, após o parto, a mulher “espere
dele alguma efusão sentimental ou amorosa, o que
sempre o desajeita, defensivo”. A atmosfera do
não-dito, das entrelinhas e do subtexto permeia O
Filho Eterno que, no entanto, está carregado de
sutil ternura: desconcerta e arrebata. (João Nunes,
Jornal Correio Popular, Campinas, 14-12-2008)
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TRECHO DA OBRA
“E então,
finalmente, os olhos se deslocam do chão para
o alto, e lá estão as mulheres — apenas
mulheres — que fazem aquela máquina girar. Há
mães, tias, avós, empregadas domésticas, ele
calcula, percorrendo os rostos, que trazem
seus lesados paras as horas de fisioterapia.
São fisionomias a um tempo pacientes e tensas
— ele aprendeu ali, pela primeira vez, a
síndrome dos pais com filho lesado: essa marca
no rosto, uma camada subcutânea de tensão, o
olhar agudo, aflito e incompleto, sempre com a
sombra de uma justificativa na ponta da
língua, que às vezes (no início) se derrama
num desespero rapidamente controlado, porque a
civilização é poderosa. Não podemos agarrar as
pessoas para sacudi-las com força, para que
nos olhem. Depois, pouco a pouco, assimila-se
a consciência discreta de quem está
definitivamente do lado de fora da vida, e o
resto se resolve em detalhes práticos — o
mundo tem só dez metros de diâmetro. É aqui
que nos movemos.” |

ENTREVISTA
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Você deixou a
universidade para se dedicar somente à
literatura. Isso significa dizer que há vários
livros em andamento? Pode adiantar, pelo menos,
o próximo?
Na verdade, esse é um projeto que estou
articulando para julho do ano que vem. Ainda
continuo professor por pelo menos mais um
semestre. A idéia de largar a universidade
depois de 22 anos veio do fato de que está
difícil conciliar literatura com aulas. E eu só
me aposentaria com 70 anos, porque, bicho-grilo
anos 70, comecei muito tarde. Quando carimbei
pela primeira vez minha carteira de trabalho eu
já estava com 34 anos... Estou com um romance
engatilhado, que não consigo avançar por
absoluta falta de tempo. É uma história de amor.
Escrevi vários contos nos dois últimos anos,
sempre com a mesma personagem. Um dos contos
cresceu muito e acabou virando um projeto de
romance, que quero terminar em 2009.
Em O Filho Eterno, em algum momento, você se
ressente pelo fato de viver (como escritor)
longe do eixo Rio/São Paulo. Mas, hoje, com
tantos eventos literários, palestras, debates,
feiras etc, não lhe parece que estar “recolhido”
em Curitiba lhe dê mais tempo para o mais
importante, que é escrever?
Sim, eu não trocaria mais Curitiba por lugar
nenhum. Para mim é um espaço ideal de viver e
escrever. E sim, é uma cidade que me dá um tempo
precioso — tudo aqui está ao alcance da mão, por
assim dizer. Uma cidade para se andar a pé. No
caso do livro, o personagem não se confunde
exatamente comigo. O ressentimento dele é meio
“arquetípico”, isto é, a sensação de
inferioridade que normalmente a província
alimenta, em segredo, com relação à metrópole.
E, é claro, os tempos pré-internet eram outros.
Hoje a noção de distância se esfarelou em boa
parte.
Você disse que escrever na terceira pessoa o
possibilitou distanciamento necessário para
tratar de tema tão delicado. Mas tive a
impressão de que, pela maneira como você escreve
e pela sua visão de mundo explicitada no livro,
o uso da primeira pessoa não interferiria no
resultado final. Você concorda com isso ou acha
que acertou em fazer da maneira como foi feita?
Concordo com você. O fato “gramatical” da
primeira pessoa não impede o distanciamento. Mas
a terceira pessoa me permitiu a maleabilidade da
narração, em sua relação com o personagem. Isto
é, jogos de aproximação e afastamento, às vezes
na mesma sentença, que a terceira pessoa faz com
bastante segurança. E ela garante uma “frieza”
importante. Dizer “ele” é sempre uma operação de
“criar distância”, o que dá mais liberdade. Há
outro aspecto, psicológico: em primeira pessoa
eu estaria demasiadamente próximo do personagem
e correria o risco de não perceber a fronteira
em vários momentos. A fusão pessoal com o
personagem poderia destruir minha narrativa. Mas
lembro que tudo isso aconteceu num processo em
grande parte intuitivo. É fácil explicar depois
de pronto, mas ao escrever fui meio que
avançando pelo “faro”, digamos assim...
A longa frustração de lançar livros para poucos
lerem (do início da carreira) às premiações
deste ano mudaram o quê em sua vida? E na sua
maneira de enxergar as coisas (do mundo
literário ou não)?
As coisas acontecem sempre lentamente na
vida. Olhando para trás parece que vivemos aos
saltos, mas não é assim. Sempre tive um projeto
muito íntimo de escritor, profundamente pessoal
e existencial. Se eu pensasse muito em resposta
teria parado de escrever já há vários anos.
Cheguei a ter quatro livros na gaveta e
continuei escrevendo, sem muito estardalhaço.
Pouco a pouco as coisas começaram a dar certo,
principalmente depois da edição de Trapo, em
1988, quando finalmente “entrei no circuito”,
por assim dizer. Mas então eu já era outra
pessoa. Outros livros vieram, alguns prêmios, um
reconhecimento silencioso mas bastante sólido
que foi se fazendo. Os anos passam, virei os 40,
depois os 50. Já nem lembro mais como era minha
cabeça 30 anos atrás. Fui vivendo. Mas
reconheço: O Filho Eterno foi mesmo um impacto
na minha vida. Às vezes me acho personagem de um
apólogo do Machado. Preciso decifrar o sentido
do que está acontecendo. Mas o saldo pessoal é
bom, até por motivos práticos, de sobrevivência
mesmo. A hipótese de viver da escrita é
maravilhosa. Não sei se o meu modo de ver vai
mudar as coisas por essa seqüência meio
atordoante de prêmios. Talvez isso dê um bom
romance no futuro.
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PRÊMIOS
Os prêmios de
O Filho Eterno em 2008
Jabuti (melhor romance)
Prêmio da Associação Paulista dos Críticos
de Arte (melhor obra de ficção)
Revisto Bravo! (livro do Ano)
Portugal-Telecom de Literatura em Língua
Portuguesa
Prêmio São Paulo de Literatura
OBRAS DO AUTOR
O Fotógrafo
(romance, Rocco, 2004)
A Suavidade do Vento (romance, Rocco,
2003)
Juliano Pavollini (romance, Rocco, 2002)
Ensaio da Paixão (romance, Rocco, 1999)
Uma Noite em Curitiba (romance, Rocco,
1995)
A Primeira Noite de Liberdade (contos,
Fundação Cultural de Curitiba & Ócios do
Ofício Editora, 1994)
Gran Circo das Américas (romance,
Brasiliense, 1979) |
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