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Vivemos numa cultura essencialmente
individualista que valoriza justamente
alguém que seja “fantástico”, “super” ou
“diferente” (ou que faça justiça com as
próprias mãos etc.). |
SOBRE A CRIAÇÃO
LITERÁRIA, A 'INSPIRAÇÃO' E O 'IMPREDIZÍVEL'
-
Ricardo
Azevedo
(*)
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Quando tenho a oportunidade e o privilégio de
conversar com leitores que leram meus livros,
volta e meia surge uma pergunta: “como você se
inspirou para fazer tal texto”. Trabalho há
quase trinta anos com livros e se há perguntas
recorrentes, esta é uma delas.
Por trás deste “como você se inspirou”, estão
escondidos alguns mitos largamente disseminados
e naturalizados, comumente relacionados ao ato
de criação artística e considerados “verdades”.
Vou enumerar alguns deles:
-
1.
a crença de que a “inspiração” é algo como uma
iluminação que surge do nada, de repente, sem
mais nem menos, espontânea e involuntariamente,
na cabeça de certas pessoas especiais e
“inspiradas”. Segundo tal princípio, algo meio
místico, um instante mágico, uma força estranha
surge no ar, vinda das musas ou sei lá de onde,
e entra na cabeça dessas pessoas predestinadas
trazendo trabalhos prontos;
2. a crença de que pessoas criativas são, de
alguma forma, diferentes dos outros, “geniais”,
“meio loucas”, gente “diferente” etc.;
3. a crença de que artistas são mais criativos
do que, por exemplo, engenheiros, médicos,
economistas etc.
-
A meu ver, são
crenças desumanas, equivocadas e nefastas.
-
-
Desumanas
porque encobrem algumas características e
potencialidades humanas. A “criatividade”, por
exemplo, nunca foi um conceito unívoco. Há
criatividades, criatividades e criatividades.
Por essa razão, de diferentes formas, todos nós
podemos ser considerados criativos. Além disso,
como ensinou Hanna Arendt, seres humanos são
inesperados. Segundo ela: a “...ação humana
(...) está estreitamente ligada à pluralidade
humana, uma das condições fundamentais de vida
humana, na medida em que repousa no fato da
natalidade, por meio do qual o mundo (...) é
constantemente invadido por estrangeiros,
recém-chegados cujas ações e reações não podem
ser previstas por aquele que neles já se
encontram e que dentro em breve irão deixá-lo.”(1)
Para a
filósofa, em suma, o ser humano é “impredizível”
por definição.
Se isso for verdade, creio que é, significa que
todas as pessoas são capazes, num dado momento,
de inovar, improvisar e sair dos padrões
previamente estabelecidos. Ou seja, são capazes
de ser criativas.
-
Creio que, fora isso, são crenças equivocadas.
Por não levarem em conta as reais
potencialidades humanas, não nos ajudam a
compreender nem a vida, nem a nós mesmos, nem os
outros.
E são nefastas porque, ao distorcer os fatos
podem, por exemplo, levar um jovem a dizer: “eu
não sou criativo”, “eu não tenho inspiração”,
“sou comum” e coisas do tipo. Idéias que talvez
marquem e limitem este jovem pelo resto da vida.
Não estou sugerindo que não existam diferenças
entre as pessoas. Nem que qualquer um possa se
igualar a Carlos Drummond de Andrade ou Antonio
Carlos Jobim. Tento dizer apenas que ao
valorizar em demasia a “inspiração”, algo
bastante vago e relativo, costuma-se menosprezar
o trabalho, algo nítido e palpável.
Infelizmente, a associação entre criação e
trabalho nem sempre tem sido colocada em pauta.
E ela é essencial.
-
Como sabemos, mas muito mais gente devia saber,
Drummond não criou seus poemas por meio de
surtos inspirados mas sim com trabalho árduo.
Ele mesmo conta isso no poema “O lutador” :
“Lutar com as palavras/ é a luta mais vã/
entanto lutamos/ mal rompe a manhã/ são muitas,
eu pouco/ algumas tão fortes como um javali/
(...) luto corpo a corpo/ luto todo o tempo/ sem
maior proveito/ que o da caça ao vento...”.
Sim, certamente existem pessoas mais e pessoas
menos “criativas”.
Na
minha visão, porém, uma pessoa “menos criativa”
que acredite em si mesma e trabalhe duro tende a
conseguir melhores resultados do que uma pessoa
“mais criativa” que não esteja disposta a
trabalhar.
Isso sem entrar no mérito de que dividir
pessoas, simploriamente, entre “criativas” e
“não criativas” é um erro e uma inutilidade.
Sei que o leitor pode argumentar: “mas entre
duas pessoas que trabalham muito, pode haver uma
que se destaca e outra que não!”.
É verdade, mas, e daí? Se o homem é
“impredizível”, como disse Hanna Arendt, é claro
que sempre existirá todo tipo de diferença entre
as pessoas. Assim como vai existir todo tipo de
semelhança. Ocorre que, enquanto as diferenças
são singulares e relativas a cada indivíduo, as
semelhanças são compartilháveis. Por serem
capazes de gerar identificação entre todos nós,
elas nos ajudam a compreender melhor a ação
humana. O trabalho é um ponto em comum, um ponto
de afinidade e compreensão entre todos os
homens. Todos nós sabemos que, em geral, para
realizá-lo a contento é preciso vontade,
dedicação, paciência, capacitação, métodos,
técnicas e esforço concentrado. Embora sejam
importantes características do trabalho elas nem
sempre são lembradas e valorizadas,
principalmente entre os jovens. Refiro-me
particularmente aos jovens urbanos habituados,
cada vez mais, a conviver com trabalhos
burocráticos, abstratos e menos visualizáveis
(não braçais).
Tento dizer que uma criança filha de um lenhador
ou de alguém que trabalha na roça pode ter uma
noção mais exata do trabalho do que aquela que é
filha de um burocrata.
Naturalmente, as crendices a respeito de
“genialidades” e “inspirações” são alimentadas
por certos discursos. Penso por exemplo em
figuras emblemáticas de Leonardo da Vinci e
Albert Einstein, sempre descritos como “gênios”
e raramente como pessoas que trabalharam dura e
sistematicamente.
Por vezes, tais crenças são reforçadas pelos
próprios artistas. Refiro-me, por exemplo, à
figura histriônica de Salvador Dali, grande
artista e, sabidamente, grande comerciante. Ou
então à figura de alguns “artistas pop” com seus
comportamentos e imagens idiossincráticos
planejados por departamentos de marketing.
Tal modelo porém não é acompanhado pela maioria
dos artistas. Para ficar no Brasil, vamos pensar
em Portinari, João Câmara, Oscar Niemayer,
Gilvan Samico, João Guimarães Rosa, Manuel
Bandeira, o citado Drummond e Antonio Carlos
Jobim, Nelson Freire, Edu Lobo e Chico Buarque
entre tantos e tantos outros, de diferentes
áreas, todos artistas maiores e, entretanto,
figuras humanas com vidas prosaicas e aparências
mais ou menos convencionais.
Seu diferencial sempre foi a arte construída por
meio do trabalho concreto. Nada de “aparências”,
“poses”, “caras” e “atitudes”.
Pensando bem, muita “pose” pode até ser sinal de
pouca criatividade.
Peço ao leitor que pense no ambiente que nos
rodeia.
Lembro a enxurrada de super heróis que, vira e
mexe, aparecem no cinema de entretenimento,
diferentes de todos nós graças a seus poderes
mágicos.
Lembro dos personagens do cinema comercial que
fazem justiça com as próprias mãos,
transgredindo as leis, colocando a vida dos
outros em risco ou mesmo ferindo e matando
gente. Penso aqui na cena recorrente da
perseguição de automóveis em pleno o espaço
urbano, desfecho de boa parte dos filmes de ação
norte-americano e similares. Nela, somos levados
a acompanhar um herói que, diferentemente da
maioria das pessoas, dá-se o direito de andar na
contra mão a mil por hora, esquecendo que nas
calçadas e ruas estão pessoas “normais”, gente
como a gente, que não tem nada a ver com o
assunto e está sendo exposta a todo tipo de
risco.
-
Abro parênteses: Joseph Campbell, estudioso do
mito, define o herói como alguém capaz de
colocar os interesses coletivos acima de seus
próprios interesses.
Lembro do discurso publicitário, com seus
modelos solitários e elegantérrimos, paradigmas
de pessoas especiais, ricas, descoladas e
modernas, entrando em automóveis caríssimos
acompanhados de mulheres lindíssimas e partindo
em alta velocidade para sabe-se lá onde diante
do olhar pasmado dos “comuns”, em outras
palavras, nós.
-
E as capas de Cds ou fotos de divulgação de
grupos de rock, rap e similares, com artistas,
quase sempre com roupas escuras, fazendo caras
de “atitude” e poses “agressivas”, “diferentes”,
“descoladas”?
-
Muitos adultos dão risada diante de tais poses
“agressivas” mas que efeito elas podem ter em
crianças e jovens?
-
E o que falar de certas obras de arte (ou
produtos comerciais, dá na mesma) apresentadas
como “inovações”, de “vanguarda”, a “última
palavra”, diferentes de tudo o que se fez até
hoje quando, na verdade, não passam de simples
simulacro?
Separar inovações concretas, algo importante e
sempre difícil de realizar, de simulacros de
inovação, fica cada vez mais difícil num
ambiente onde tudo parece ser mero produto de
marketing e discurso publicitário.
-
Fato é que temos sido bombardeados diuturnamente
por uma enxurrada de gente e produtos que se
apresentam e pousam como “únicos”, “diferentes”
e “melhores”.
Neste contexto, versos como “prefiro ser uma
metamorfose ambulante/ do que ter aquela velha
opinião formada sobre tudo” viraram uma espécie
de lema.
Tento dizer que ser “diferente” é uma
instituição nos dias atuais.
Nem sempre, porém, lembramos o que está na cara.
Vivemos numa cultura essencialmente
individualista que valoriza justamente alguém
que seja “fantástico”, “super” ou “diferente”
(ou que faça justiça com as próprias mãos etc.).
Em outros termos, que valoriza a ação singular,
o único, o especial, o novo. Ser diferente,
neste modelo, é quase uma ordem, um dever e uma
obrigação. Mesmo que a diferença ou inovação
seja mecânica e supérflua, simples simulacro
descartável desprovido de qualquer interesse que
não seja o lucro.
Ora, é preciso separar “inovações” que, na
verdade, pretendem reforçar o status quo,
problemático como sabemos, de conceitos que
podem contribuir para alterar o modelo cultural
e social que aí está e entretanto são
considerados “comuns”, “fora de moda” ou
“tradicionais”.
Sociólogos como Christopher Lash descrevem
algumas características desse homem “moderno”(2)
: o “isolamento do eu”; a “crença de que a
sociedade não tem futuro” (devido a “uma
incapacidade narcisista de identificar-se com a
posteridade ou de sentir-se parte do fluxo da
história”); o “viver para si, não para os que
virão a seguir ou para a posteridade”; a
valorização da “popularidade do modo
confessional” (que mistura de forma interessada
o público e o privado); a “tentativa de vender a
própria imagem” como mercadoria e com valor de
mercado, e mais, o “culto da celebridade’ (nas
palavras de Lash “a mídia dá substância e (...)
intensifica os sonhos narcisistas de fama e
glória, encoraja o homem comum a identificar-se
com as estrelas e a odiar “o rebanho” e torna
cada vez mais difícil (...) aceitar a banalidade
da existência cotidiana”).
Lash lembra ainda que essa autonomia toda, com
relação a tudo, o Outro, a sociedade, a família
etc, não é tão autônoma assim. Na verdade, ela é
funcional. Trata-se de um dos instrumentos da
sociedade de consumo. Precisamos ser “livres” e
“autônomos”, não tanto para tornar mais
civilizada a sociedade em que vivemos (lutando,
por exemplo, por uma melhor distribuição de
conhecimento entre os cidadãos), mas,
principalmente, para escolher os produtos
oferecidos pelas indústrias e anunciados
diariamente pela mídia.
Como sabemos, “quem sabe o que quer, fuma
Minister” ou é “free” para escolher seu cigarro,
sua bebida, seu brinquedo ou outro produto.
Tal modelo tem muitos efeitos. Por exemplo, pode
levar uma criança de sete anos a dizer: “Pai,
você nunca vai entender porque eu quero tanto um
tênis que acende luzinha. Você está por fora!”.
Não à toa, psicólogos têm relatado a crescente
dificuldade de pais que não conseguem fazer seus
filhos compreenderem a noção de limite. Como
alguém que “está por fora” terá credibilidade
para aconselhar, educar ou colocar limites em
pessoas que se julgam “descoladas”, “singulares”
e “diferentes”?
Aliás, para Lash, esse aspecto da cultura
“moderna” tem contribuído diretamente para minar
a autoridade paterna e desestruturar as
famílias.
Formada
em tal ambiente, a criança, na idade adulta,
agora uma pessoa individualista descolada e
cheia de autonomia, talvez seja capaz de dizer:
“e daí que a natureza vai ser devastada pela
poluição? Até lá eu já morri!”.
-
Vamos torcer para que certas crianças, às vezes
estudantes de escolas caras, não tenham posições
de poder no futuro.
O assunto é grande e demanda reflexão, pelo
menos quando pensamos em educação.
Creio que a associação da noção de “inspiração”
e a valorização das pessoas “descoladas” e
“diferentes das outras” (em detrimento dos
pontos de identificação entre as pessoas) e o
modelo individualista, largamente disseminado
por aí mereceria muita discussão, tanto no
âmbito escolar como no familiar. Na verdade,
mereceria ser discutido por toda a sociedade.
Obviamente não pretendo ser contra o
desenvolvimento de individualidades ou contra a
inovação e a criatividade. Mas, sim, discutir a
formação de indivíduos tão auto-centrados, tão
idiossincráticos e exclusivistas, que tornam-se
incapazes de perceber que, não só têm pontos em
comum com o Outro, como pertencem e dependem de
uma sociedade e, mais, têm deveres e
responsabilidades para com ela.
Mas voltemos à “inspiração”.
Vejamos o que William Faulkner (1897-1962 Prêmio
Nobel de Literatura em 1949, autor de O som e a
fúria, Luz de Agosto e Absalão, Absalão entre
outras obras consagradas), sem dúvida uma pessoa
“criativa”, disse sobre o assunto numa famosa
entrevista.
“Pergunta: O senhor se referiu à experiência,
observação e imaginação como sendo importantes
para o escritor. Não incluiria a inspiração?
-
Faulkner: Não sei nada a respeito da inspiração,
porque não sei o que é. Ouvi falar a respeito
dela, mas nunca a vi.”
(3)
-
Certamente existem pessoas altamente capazes,
criativas e talentosas.
É preciso lembrar, porém, que em geral elas
tornaram-se conhecidas porque uniram seus dotes
à sua grande capacidade de trabalho. A frase “
10% de inspiração e 90% de transpiração”
atribuída a um sem número de pessoas, tem tantos
autores porque é obvia e verdadeira.
Infelizmente é conhecida mas pouco levada em
conta, principalmente pelos jovens,
condicionados por n razões a lutar o tempo todo
para ser, mecânica e gratuitamente “diferentes”
ou “descolados” e a acreditar que a “inspiração”
é algo próprio a poucas pessoas e funciona como
uma iluminação que surge de repente.
Tal crença, repito, camufla o trabalho e a
vontade objetiva, organizada e sistemática.
Quando mencionei a idéia de que artistas são
mais criativos que outros profissionais, quis
dizer que tal mito não faz sentido. Primeiro
porque a criatividade é marca presente em todas
as atividades desenvolvidas pelo homem e,
segundo, há os mais variados tipos e graus de
criatividade.
Talvez os artistas sejam considerados mais
criativos do que, por exemplo, advogados,
engenheiros e médicos por terem suas obras
ligadas a expressões marcadamente subjetivas.
Num ambiente impregnado pelo individualismo, é
bem possível que seja isso.
Pois bem, vale a pena recordar as palavras do
filósofo e educador John Dewey. Dizia ele, na
passagem do século XIX para o século XX, que a
humanidade dispõe de um método, “o da ciência
experimental e cooperativa, o qual constitui o
método da inteligência”.
(4)
Dewey, em suma, dava muito mais valor ao modelo
de inteligência participativa empregado pela
ciência, por meio do qual a criação é feita por
muitos pesquisadores, do que ao modelo de
inteligência individualista e suas criações
realizadas por uma única pessoa.
Além disso, dizia ele, as preocupações e
conclusões derivadas da ciência tendem a ser
essencialmente democráticas, pois visam
problemas amplos que dizem respeito a todos e
nada têm a ver com benefício pessoal ou de
classe.
Não se trata, ressalto mais uma vez, de
desvalorizar criações individuais mas, sim,
apenas, de lembrar que a criatividade é uma
potencialidade humana, adquire diversas formas e
graus e que, portanto, a noção de “criação” não
necessariamente tem a ver com indivíduos únicos,
singulares e iluminados.
Para um jovem inexperiente em fase de formação,
essa informação pode ser valiosa. Digo mais:
como todos nós de alguma forma estamos em
permanente formação, ela pode ser útil para
qualquer um. Muitos adultos até hoje acreditam
em “inspiração” e, não poucos, talvez por essa
razão, sintam-se pouco “inspirados”.
Sim, é possível que alguém um dia tenha uma
grande idéia. É preciso lembrar porém que na
maioria das vezes, isso não basta. Vai ser
preciso trabalho para torná-la algo concreto e
produtivo.
Peço licença ao leitor para concluir esse
pequeno artigo dando um depoimento pessoal.
Lá pela década de 70, antes de publicar meu
primeiro livro, decidi começar a recortar
notícias de jornal e colar num caderno. Passei
também a anotar, no mesmo caderno, idéias,
nomes, frases feitas, cenas etc. Achei que fazer
isso poderia me ajudar em futuros trabalhos.
Passados mais de 30 anos, as anotações migraram
para os arquivos do computador.
Mas continuo, até hoje, a cortar e colar
notícias de jornal. Tenho vários cadernos cheios
delas. Por causa do espaço, vou dar exemplos
apenas de títulos de alguns desses recortes:
“Estou vivo, berra o homem dentro do caixão”
(Estado de S. Paulo, 8 de setembro de 2004);
“Produtor rural vive pelado há 35 anos “ (Folha
de S. Paulo, 21 de agosto de 1994); “Vampiro
foge e leva sua namorada” (Folha de S. Paulo,
sem data); “Menino de 9 diz que matou menina de
8” (Folha de S. Paulo, 22 de março de 2000);
“Homem é preso por comer pássaros de gaiolas na
PB” ( acho que Estado de S. Paulo, sem data);
“Cachorro é enterrado com honras em MG (Folha de
S. Paulo, sem data); “Troquei a virgindade por
vodka” (Folha de S. Paulo, sem data); “Taturana
assassina faz 3ª vitima (Folha de S. Paulo, sem
data); “Mendigo vai para hospital depois de
comer cachorro” (Estado de S. Paulo, 2 de agosto
de 2005); “Aposentada guarda seu caixão na sala
de casa” (Folha de S. Paulo, 17 de junho de
1995); “Mulher entala em janela ao tentar roubar
vizinho” (Estado de S. Paulo, 30 de maio de
1998); “Evangélico corta o pênis para não pecar”
(Folha de S. Paulo, sem data); “Escola tem
quatro professoras e dois burros” (Folha de S.
Paulo, sem data); “Após beber diretor solta
presos na PB” (Folha de S. Paulo, sem data);
“Após 16 anos, chipanzé larga o vicio de fumar”
(Estado de S. Paulo, 4 de outubro de 2005);
“Igreja receita urina para tratar câncer e até
aids” (Folha de S. Paulo, 11 de novembro de
1995); “A primeira do dia é a mais salgada, diz
balconista” (reportagem na mesma matéria);
“Jardinópolis aposenta cavalo” (Estado de S.
Paulo, 22 de fevereiro de 1999); “Menino que
furtou ônibus quer achar o pai” (Folha de S.
Paulo, 12 de agosto de 2001); “Leilão vende
vírus de McCartney” (acho que Estado de S.
Paulo, sem data); “Na Bahia agricultor enterra
filho e o reencontra em casa” (Estado de S.
Paulo, 11 de outubro de 2003); “Aposentada se
irrita e tira a roupa em banco” (Estado de S.
Paulo, 27 de abril de 2005); “Mulher tem útero
operado em vez do tornozelo” (Estado de S.
Paulo, 22 de setembro de 2006); “Famílias tomam
sopa de barro em MG” (Folha de S. Paulo, 15 de
novembro de 1992); “Policial diz fazer ‘bico’
como dançarina” (Estado de S. Paulo, sem data);
“Ladrão invade casas em Osasco só para
‘assaltar’ geladeiras” (Folha de S. Paulo, 8 de
fevereiro de 2008); “Mulher deixa o marido e
freira paga o pato” (Estado de S. Paulo, 9 de
agosto de 2004); “Esquecimento: mulher está há
25 anos com tesoura no corpo” (Folha de S.
Paulo, 9 de maio de 2008); “Papagaio grita e é
salvo de ladrões” (acho que Estado de S. Paulo,
sem data.).
O leitor há de concordar: a vida comum, banal e
cotidiana pode ser vista como um acervo humano
acessível e, ao mesmo tempo, extraordinariamente
rico e criativo.
Preciso dizer que embora continue cortando e
colando notícias, nunca utilizei nenhuma delas
em meus textos. Aproveito esses cadernos de
outra forma: quando estou trabalhando e me dá um
branco, não consigo entender para onde a
história vai ou algo assim, pego um dos meus
cadernos de recortes e dou uma folheada. Eles
sempre me surpreendem. Parecem ter o dom de me
fazer tirar os olhos do meu próprio umbigo e me
mostrar a riqueza da vida e do mundo à minha
volta. Saber que o homem é, de fato,
“impredizível” tem algo de utópico e me enche de
energia e de esperança. Desta maneira, esses
recortes me abrem para a vida e têm ajudado a
construir meu trabalho.
NOTAS
(1) ARENDT,
Hannah.
Entre o passado e o futuro. São Paulo,
Perspectiva, 2007, p.92.
(2) LASCH, Christopher.
A cultura do narcisismo. A vida americana numa
era de esperanças em declínio. Rio de
Janeiro, Imago, 1983.
(3) MAFFEI, Marcos org.
Os escritores – As históricas entrevistas da
Paris Review. São Paulo, Companhia das
Letras,1988.
(4) DEWEY, John.
Liberalismo, liberdade e cultura. Companhia
Editora Nacional, 1970.
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BIBLIOGRAFIA
ARENDT, Hannah.
Entre o passado e o futuro. São Paulo,
Perspectiva, 2007.
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DEWEY, John. Liberalismo, liberdade e cultura.
São Paulo, Companhia Editora Nacional, 1970.
-
LASCH, Christopher.
A cultura do narcisismo. A vida americana numa
era de esperanças em declínio. Rio de
Janeiro, Imago, 1983.
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MAFFEI, Marcos org.
Os escritores – As históricas entrevistas da
Paris Review. São Paulo, Companhia das
Letras, 1988.
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