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é no
cruzamento de vozes do autor e dos leitores
que se constroem os sentidos dos textos e
outras leituras e outros textos se
configuram, em uma interpenetração
constante. |
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AS
LETRAS POR ENTRE AS GRADES:
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sessões de leitura no
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Conjunto Penal de Teixeira de Freitas
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Karina
Lima Sales
(*)
Como discutir leituras com um grupo em situação-limite
de sobrevivência, cuja liberdade foi cerceada? Essa
era a principal questão que me inquietava quando me
propus a desenvolver sessões de leitura no
Conjunto Penal de Teixeira de
Freitas, através do
Projeto Rompendo Barreiras,
(1)
criado há cerca de três anos e que funciona em
parceria com o Campus X da Universidade do Estado da
Bahia, em que atuo como professora substituta.
As sessões de leitura, ainda em andamento, estão sendo
realizadas com um grupo em média de 25 homens, com
idades entre 20 e 65 anos, oriundos de diversas
cidades circunvizinhas e até de outros estados. O
nível de escolaridade do grupo é baixo, mas embora
essa informação possa ser pertinente para situar o
grupo dentro de um dado contexto, interessa-me aqui a
condição que lhes é inerente de serem seres humanos,
discriminados por sua situação de encarcerados. Uma
outra perspectiva essencial é a condição de leitores
desses homens, pois somente com a presença deles as
sessões de leitura tornaram-se possíveis, dando
existência a cada um dos textos propostos, o que
remete ao que afirma Cordeiro (2006)
(2)
sobre a inexistência do texto sem a presença do
leitor, pois somente ele dá voz e vida ao texto.
Segundo Cordeiro, é no cruzamento de vozes do autor e
dos leitores que se constroem os sentidos dos textos e
outras leituras e outros textos se configuram, em uma
interpenetração constante.
A primeira sessão de leitura funcionou inicialmente
como uma apresentação da proposta, o que se pretendia
com aqueles encontros, de livre participação, e a
leitura foi apresentada como um importante alimento
para a alma. Analisou-se o texto “Livro: a troca”, de
Lygia Bojunga Nunes, para que se pudesse discutir a
importância (ou não) dos livros na vida desses homens.
Foi proposto aos participantes que produzissem um
texto sobre suas histórias de leitura, a ser entregue
no encontro seguinte. A análise desses textos,
corroborada pelos depoimentos no dia da sessão, deixou
claro que suas histórias de leitura são perpassadas
pelas suas histórias de vida. Oriundos de famílias
economicamente desfavorecidas, seus horizontes
culturais de origem são marcados por um baixíssimo
nível de instrução, em um contexto em que a leitura
não era valorizada como prática cultural.
Desenvolviam-se práticas leitoras nessas relações
familiares, mas culturalmente conferia-se à leitura de
livros o status de leitura efetiva, desconsiderando-se
outros diversos suportes de leitura. Quando
questionados sobre o que costumam ler, alegaram que
quase não leem. Mas as conversas com o grupo têm
demonstrado que muitos leem a Bíblia e textos
religiosos, além de revistas, livros de auto-ajuda,
romances, aventuras, além de realizarem leituras
várias a todo o tempo, como condição de sobrevivência.
Segundo Yunes (2003) , leitura é uma prática
obrigatória para todas as coisas que fazemos e não
lemos apenas o escrito, lemos contextos, situações,
pessoas, uma diversidade de sistemas e códigos, além
das linguagens formais.
A segunda sessão de leitura foi deflagrada pelo conto
“Circuito fechado (1)”, de Ricardo Ramos. Como da vez
anterior, a roda de leitores foi tentando construir
sentidos para o texto. A deixa de E. Z., “parece um
cara que trabalha num escritório”, motivou o grupo na
busca de pistas no texto, como se se formasse um
grande mosaico, com diversas contribuições. A rotina
percebida na vida da personagem foi relacionada à
vivenciada pelos homens no presídio, mas também se
relacionou essa rotina à própria repetição da nossa
lida diária.
De acordo com Eliana Yunes (2003),
(3)
quem lê o faz com toda a sua carga pessoal de vida e
experiência, consciente ou não dela, atribuindo ao
lido as marcas pessoais de memória intelectual e
emocional e dessa forma desvela-se o sujeito que
somos, mesmo que minimamente. E com essa carga de
pessoal de vida e experiência a que se refere Yunes é
que os participantes das sessões de leitura
construíram sentidos para os textos propostos,
desvelando-os e desvelando-se, partindo de seus
horizontes de expectativa e estabelecendo relações
entre as diversas leituras, em um cruzamento de vozes.
Também a minha leitura dessas pessoas tem sido
modificada a cada encontro. A minha angústia inicial,
de como falar sobre o universo mágico da leitura para
os presos, por considerar que poderiam ser pessoas
amargas, dada a sua condição de privação da liberdade,
transformou-se em um sentimento de respeito por esses
homens que, embora inseridos em uma situação-limite,
aprisionados, apartados de família e amigos externos e
vivenciando outros parâmetros de vida, são pessoas
abertas a receber uma estranha, acolhendo-a.
Tenho me condicionado a rever minhas posições, relendo
o meu texto pessoal, para que o meu encontro com o
outro não seja mais permeado pelas minhas
pré-concepções e a leitura seja um movimento cada vez
maior de imbricamento, em que todos os textos se
cruzam, em um processo coletivo de construção de
vários sentidos.
NOTAS
(1) O projeto é coordenado pela funcionária da
UNEB Rozineide Carneiro e é valorizado pela sociedade
por sua preocupação com a promoção da cidadania. Em
2007, o reconhecimento veio através do Prêmio Servidor
Cidadão, do Governo do Estado da Bahia. O Rompendo
Barreiras foi classificado em segundo lugar, entre 82
concorrentes, 15 finalistas e 10 premiados.
(2) CORDEIRO, Verbena Maria Rocha. “Cenas de
leitura”. In: TURCHI, M. Z., SILVA, V. M. T. (orgs).
Leitor formado, leitor em formação: a leitura
literária em questão. São Paulo: Cultura
Acadêmica; Assis, SP: ANEP, 2006.
(3) YUNES, Eliana & OSWALD, Maria Luiza
(orgs.). A experiência da leitura. São Paulo,
Edições Loyola, 2003.
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(*) Karina Lima Sales -
Possui graduação em Letras pela Universidade do Estado
da Bahia - UNEB (1997) e é especializada em Avaliação
(2002) e em Literatura brasileira (2007) pela UNEB. É
mestranda em Estudo de linguagens pelo Programa de
Pós-Graduação em Estudo de linguagens da Universidade
do Estado da Bahia. Atualmente exerce a função de
professora substituta no Campus X da UNEB, nos cursos
de Letras e Pedagogia.
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