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Experiência

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Como 74% afirmam ter
sido alfabetizados, não é exagero dizer que as vias
públicas são um terreno fértil para a leitura.Notei
até certa familiaridade com o tema. |
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CAMINHO
LIVRE
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A cada livro
oferecido em vez de esmola, um leitor descoberto

O "Dinheiro eu não tenho, mas estou aqui com uma
caixa cheia de livros. Quer um?" Repeti essa
oferta a pedintes, artistas circenses e
vendedores ambulantes, pessoas de todas as
idades que fazem dos congestionamentos da cidade
de São Paulo o cenário de seu ganha-pão. A ideia
surgiu de uma combinação com os colegas de NOVA
ESCOLA: em vez de dinheiro, eu ofereceria um
livro a quem me abordasse - e conferiria as
reações.
Para começar, acomodei 45 obras variadas - do
clássico "Auto da Barca do Inferno", escrito por
Gil Vicente, ao infantil divertidíssimo "Divina
Albertina", da contemporânea Christine Davenier
- em uma caixa de papelão no banco do carona de
meu Palio preto. Tudo pronto, hora de rodar. Em
13 oferecimentos, nenhuma recusa. E houve gente
que pediu mais.
Nas ruas, tem de tudo. Diferentemente do que se
pode pensar, a maioria dessas pessoas tem, sim,
alguma formação escolar. Uma pesquisa do
Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à
Fome, realizada só com moradores de rua e
divulgada em 2008, revelou que apenas 15% nunca
estudaram. Como 74% afirmam ter sido
alfabetizados, não é exagero dizer que as vias
públicas são um terreno fértil para a leitura.
Notei até certa familiaridade com o tema. No
primeiro dia, num cruzamento do Itaim, um bairro
nobre, encontrei Vitor*,
20 anos, vendedor de balas. Assim que comecei a
falar, ele projetou a cabeça para dentro do
veículo e examinou o acervo:
- Tem aí algum do Sidney Sheldon? Era o que eu
mais curtia quando estava na cadeia. Foi lá que
aprendi a ler.
Na ausência do célebre novelista americano, o
critério de seleção se tornou mais simples.
Vitor pegou o exemplar mais grosso da caixa e
aproveitou para escolher outro - "Esse do
castelo, que deve ser de mistério" - para
presentear a mulher que o esperava na calçada.
Aos poucos, fui percebendo que o público mais
crítico era formado por jovens, como Micaela*,
15 anos. Ela é parte do contingente de 2 mil
ambulantes que batem ponto nos semáforos da
cidade, de acordo com números da prefeitura de
São Paulo. Num domingo, enfrentava com paçocas a
1 real uma concorrência que apinhava todos os
cruzamentos da avenida Tiradentes, no centro.
Fiz a pergunta de sempre. E ela respondeu:
- Hum, depende do livro. Tem algum de
literatura?, provocou, antes de se decidir por
Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de
Assis.
As crianças faziam festa (um dado vergonhoso:
segundo a Prefeitura, ainda existem 1,8 mil
delas nas ruas de São Paulo). Por estarem sempre
acompanhadas, minha coleção diminuía a cada um
desses encontros do acaso. Érico*,
9 anos, chegou com ar desconfiado pelo lado do
passageiro:
- Sabe ler?, perguntei.
- Não..., disse ele, enquanto olhava a caixa.
Mas, já prevendo o que poderia ganhar,
reformulou a resposta:
- Sim. Sei, sim.
- Em que ano você está?
- Na 4ª B. Tio, você pode dar um para mim e
outros para meus amigos?, indagou, apontando
para um menino e uma menina, que já se
aproximavam.
Mas o problema, como canta Paulinho da Viola, é
que o sinal ia abrir. O motorista do carro da
frente, indiferente à corrida desenfreada do
trio, arrancou pela avenida Brasil, levando
embora a mercadoria pendurada no retrovisor.
Se no momento das entregas que eu realizava se
misturavam humor, drama, aventura e certo
suspense, observar a reação das pessoas depois
de presenteadas era como reler um livro que fica
mais saboroso a cada leitura. Esquina após
esquina, o enredo se repetia: enquanto eu
esperava o sinal abrir, adultos e crianças,
sentados no meio-fio, folheavam páginas.
Pareciam se esquecer dos produtos, dos
malabares, do dinheiro...
- Ganhar um livro é sempre bem-vindo. A
literatura é maravilhosa, explicou, com
sensibilidade, um vendedor de raquetes que dão
choques em insetos.
Quase chegando ao fim da jornada literária,
conheci Maria*.
Carregava a pequena Vitória*, 1 ano
recém-completado, e cobiçava alguns trocados num
canteiro da Zona Norte da cidade. Ganhou um
livro infantil e agradeceu. Avancei dois
quarteirões e fiz o retorno. Então, a vi
novamente. Ela lia para a menininha no colo.
Espremi os olhos para tentar ver seu semblante
pelo retrovisor. Acho que sorria.
*
Os nomes foram trocados para preservar os
personagens.
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*
Rodrigo Ratier,
da
Editora Abril: Revista Nova Escola
FOTO:
Renato Albuquerque
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