- A
unha roxa
Tiago Ribeiro da Silva
- Ele era
daqueles que não enxergam nenhuma minimeza na
vida, nenhum detalhe, a não ser ele mesmo: é
que, como qualquer pessoa, ele era um detalhe
indigesto no estômago do mundo a vida. E
treinava sorrir, mas não um sorriso sorrido
assim espontâneo; seu sorriso era amarelidão
sob a qual ele mesmo ficava escondido: sorrir
não é coisa simples.
Demais, ele nunca pensou em si mesmo de outra
forma a não ser dirigido ao seu escudo secreto e
trivial: eu! Eu simplesmente o
salvava da morte, pois, se ao invés de ser
eu ele fosse ele mesmo, então
estaria nu diante da vida e diante de muitos
outros eus. Estar pelado em um mundo
de vestes fantasiosas é um risco iminente.
Então, eu que ele era, ia se movendo
lentamente e sem remorsos, mergulhando fundo sem,
no entanto, banhar-se de vida. Não era feliz
porque não era triste. Apenas era, ou ensaiava
ser, embora ninguém seja, desde que viver é
sempre estar sendo. E naquele dia, conquanto
nunca tivesse se percebido de outra forma senão
como um eu, ele se deu conta de que
era mais do que eu: era André. A
estupefação mordeu-o com dentes fortes e
pontiagudos, cravou-o firme, cerradamente.
De repente, em frente ao espelho, com a
consciência inflando dentro dele como uma bexiga
que já perigava estourar, boquiaberto pela
percepção que era ausência de pergunta ou
resposta, ele sabia. Sabia quem era porque não
perguntava. Compreendia. E compreendia porque
compreender era parte do mistério do silêncio,
era uma linguagem sublime, portanto sem palavra.
Em frente ao espelho, com a consciência se
alastrando com grossos e rubros tentáculos
voluptuosos, ele pouco a pouco André
foi se dando conta de sua unha roxa, quase
preta, enegrecida, da qual nunca notara a
existência. E o que sempre fora apenas visto,
foi enxergado; e o que sempre fora apenas ouvido,
foi escutado. André debruçou-se dentro de si
mesmo, caiu em queda livre, sem estrépito,
porque por mais que esticasse o braço, não
alcançava o fim: o caminho sempre se espicha à
frente. Anda-se para nunca chegar. E lá no
fundo, folhas amareladas da memória se
esvoaçaram, e André descobriu a dor, uma dor, e
a unha roxa.
A unha roxa todos temos, ao menos uma pequena
unha roxa invisível, que às vezes os olhos não
bastam para ver. Às vezes a unha roxa é
pintada, então se esconde, se metamorfoseia, às
vezes... Somos nós mesmos sem saber que somos:
é que não saber consome muito, exige sermo-nos,
e ser-se é quase uma afronta.
Mas André viu e enxergou a unha roxa, defronte
ao espelho. Estivera ela ali o tempo todo? Algum
dia se livraria de sua unha roxa? Ou sua unha
roxa era uma marca que o acompanharia para sempre
e, por isso mesmo, não seria eterna? André
nunca a viu porque não a conhecia? Não conhecer
é como não ver, mas não basta ver para
conhecer, porque não se vê com os olhos... E
André indo, ia em frente, para nunca chegar, com
sua unha roxa, porque depois dela outra viria.
Para nunca sempre.
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- Eu/Eus
- Fonte:
CARMAGO, Otavio A. FOTO. Arquivo pessoal
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- * - Tiago Ribeiro
da Silva - Graduando do curso de
Pedagogia da Universidade Federal do Estado do
Rio de Janeiro (Unirio) e pesquisador (bolsista
de iniciação científica) do grupo GPPF (Grupo
de Pesquisa Práticas Educativas e Formação de
Professores), que está atrelado ao Núcleo de
Estudos e Pesquisas: Práticas Educativas e
Cotidiano (NEPPEC), o qual é vinculado ao
Departamento de Didática da Unirio.