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IMAGEM, O TEXTO: E A LEITURA?
- Maria Rosa R. Martins de
Camargo

Las Meninas, Diego Velázquez.
Fonte: Museo Nacional del Prado
Materialidades que diferem
entre si, especificidades que lhes são próprias,
diversidade de suportes que se prestam a veículos
inusitados, modulações de práticas que se movem
informes, e tudo isso sem referirmo-nos à autoria, ao
estilo, às formas de composição do mosaico efeito da
editoração, aos modos de recepção, todos igualmente
importantes; as possibilidades de abordagem são quase
infinitas quando o tema se entrelaça em imagem, texto e
leitura. É o nosso pressuposto, o das possibilidades
quase infinitas de leitura, ao se confirmar mais um
número da Revista Linha Mestra no ar.
Se imagem e texto se interpenetram sem intenção de
complementaridade, que fazer quando, em algum momento,
uma tomada de posição do que entendo por leitura se faz
premente? Por onde começar? Por onde caminhar? Como
eleger, entre tantos, um referencial de apoio e de
aprofundamento que, para além de definições, e
práticas instrutivas nos ponha em condições de... ler?
E o que seria ler? As mídias, muitas vezes, nos
encaminham...
Entre tantos e tão diversos referenciais, vem-me à
mente uma combinação de imagem e texto que a cada
aproximação, de um e de outro, sinto criar-se o
espetáculo que libera um volume de pensamento que faz
estremecer o que já discutimos sobre leitura.
Trata-se do texto Las Meninas de Michel Foucault e do
quadro que tem o mesmo nome, pintado por Diego
Velázquez, dado por concluído em 1656. O quadro que
pode ser encontrado, inclusive, em alguns livros
didáticos atuais, o que o torna mais acessível como
imagem, traz em si artimanhas como o olhar do
pintor em foco que estão longe de acomodar o
apreciador/leitor; o texto de Foucault, que não é
leitura do quadro de Velázquez, põe mais lenha na
fogueira do pensamento.
De uma frase extraída do primeiro parágrafo do texto de
Foucault (...) Entre a fina ponta do pincel e o gume do
olhar, o espetáculo vai liberar seu volume (...) podemos
apreender que quadro e texto, ou do texto que leva de
volta ao quadro, disparam modos de ler que beiram a um
volume inusitado de leitura, nem sempre perceptível ou
passível de análise. Modos de ler carregados de
intensidade tensa, densa, móvel, elástica, e bela.
Que estas breves linhas apontem outras perspectivas de
leituras possíveis e que, mais uma vez, a Linha Mestra
possa trazer contribuição, por ínfima que seja, no seu
intuito dinâmico ler, efetivamente, por entre imagem e
texto.
FOUCAULT, M. Las Meninas. In: As palavras e as coisas.
São Paulo, Martins Fontes Editora Ltda., 1987.
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