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Rosalia de Ângelo Scorsi*

Se a Escola carrega uma tradição de escrita, é preciso, hoje, que se reconheça também como imersa na chamada atual civilização de imagens e sons.
A linguagem escrita será sempre o nosso porto de partida e de chegada. O texto escrito, matéria palpável, estático frente aos nossos olhos, garante o leitor. Permite que este interrompa a leitura, que volte parágrafos, folhas atrás, que paralise a leitura para uma reflexão sobre o que se lê ou sobre o que não se lê. Quero dizer que a cultura escrita cria em nós um modo de conhecer, perceber e intelectualizar o mundo, assegurado na concretude da linguagem dos signos gráficos.
O advento do cinema e da televisão inaugura uma outra linguagem — audiovisual — que no seu desenrolar rápido ou lento, caótico e contínuo, também nos forma. As imagens e sons do cinema, da televisão, derramadas sobre nós, seus espectadores, em sua indisciplina, fixam-se em nossa memória e misturam-se ao nosso ser legível.

Walter Benjamin, já em 1931, dizia em sua Pequena História da Fotografia que “o analfabeto do futuro não será aquele que não sabe escrever, e sim quem não sabe fotografar”, pois “sejamos de direita ou de esquerda, temos de nos habituar a ser vistos”. Temos de nos habituar a ver os outros, em close-up, em plano geral, em câmera lenta e em tantas outras técnicas de captação das imagens. Temos de nos habituar a ver a realidade construída mediada pelas tecnologias de reprodução das imagens e dos sons. Uma realidade montada de forma nada inocente dentro dos estúdios do cinema e da televisão.
Isto significa que estamos expostos “naturalmente” a uma educação, não-institucional, das imagens e sons produzidos pelos veículos de transmissão eletrônica.
A Escola, portanto, tem de lidar com uma nova tarefa: a de perguntar que linguagem é essa que circula pelos aparelhos de reprodução de imagens e sons em movimento. Que política visual e sonora pode estar sendo transmitida por uma mera propaganda televisiva? Que recortes de notícias do mundo nos são apresentados pelas imagens e sons dos jornais de televisão? A narrativa ininterrupta no escuro do cinema e na sala de televisão que história conta? Que estética poderosa é essa capaz de fascinar a todos?
Antes da crítica, temos de alfabetizarmo-nos nas imagens e sons em movimento ou não. Aprender a vê-las demoradamente, quadro a quadro, interagindo com sua sintaxe. Se nós olhamos as imagens, elas também nos observam e nos perguntam: “Trouxeste a chave?”.
A Escola se depara com esse novo desafio: não somente apreender essa nova linguagem, mas captar nelas o espírito da atual sociedade. Podemos imaginar uma Escola que combine, em suas práticas de ensino, a linguagem discursiva cognitiva oral/escrita, de signos gráficos, com outras linguagens produzidas pela cultura e que produzem cultura: imagens da pintura, da escultura, do cinema, da fotografia, do vídeo, da televisão... .
Alguém já disse: “o cinema mudou tudo e a todos”. Um outro dizer poderia ir junto ao modo de dizer a educação e ensino fixado em nossas Escolas, nos Parâmetros Curriculares, nos Programas de Conteúdos. Um dizer ritmado à atual sociedade que criou o cinema.
Penso na Escola segmentada, especializante, criada pela razão iluminista, afirmativa, evolucionista tendo de encarar o irracionalismo da linguagem que é luz no cinema e na televisão. Penso ainda na razão instrumentalizadora que, muitas vezes, sob a fachada de um discurso absoluto, decreta surdez a outros dizeres tão sólidos quanto os seus.

Penso na Escola como Instituição cujas regras já estão dadas, como espaço restritivo, com seus inumeráveis problemas e contradições e que, no entanto, se substantiva como espaço democrático, aberto a fazer outros giros. A dizer coisas nas variantes do ser legível e do ser audiovisual.

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* Doutora em Educação pela Faculdade de Educação da Unicamp.

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