Com vasta experiência na promoção de projetos voltados à leitura, JASON PRADO é um dos maiores produtores culturais do nosso país. O famoso "caminhão da leitura" que visita escolas em várias regiões, as primorosas edições de compêndios para leitura, um mega portal da leitura na Internet, etc - tudo isso nasceu da criatividade de Jason, que há muito tempo vem se esforçando para que um número maior de jovens brasileiros consiga o acesso ao livro e, através dele, aos múltiplos horizontes tecidos pelos escritores. Aqui um pouco do vasto trabalho do LEIA BRASIL. Abrindo nossa prosa, conte para os nossos leitores um pouquinho de você mesmo. De onde é, formação e coisas assim.
Sou capixaba, mas moro no Rio
desde 64, como conseqüência do golpe militar. Morar no
Rio nos anos sessenta foi inesquecível. Das
manifestações de 68 aos festivais de música, tudo era
efervescente, prenhe de conteúdo. Acabei virando
jornalista e depois estudei Comunicação Social na
PUC-Rio. Acho que foi uma das melhores coisas que fiz
na vida. O curso tinha um viés muito forte de
filosofia, não só com a parte de lingüística, mas
também por conta da Teologia, e do famoso Pilotis, que
era uma espécie de festival underground
permanente... Tentei o Mestrado na ECO-UFRJ e cheguei
a freqüentar dois semestres. Mas não consegui
compatibilizar a vida prática com o discurso teórico,
a jornada integral etc. Abandonei o mestrado e fiz uma
pós graduação em Administração de Empresas... Nos anos
80 comecei a trabalhar a comunicação como instrumento
de relacionamento. Fazia campanhas de conscientização;
publiquei um Manual de Cidadania, mostrando os
direitos e deveres garantidos pela Constituição de 88,
coisas assim. Entrei os anos 90 promovendo teatro como
ferramenta de comunicação em comunidades e escolas
públicas. Foi dessa relação que nasceu o Leia Brasil,
quando verificamos que a leitura estava excluída do
cotidiano escolar.
O Leia Brasil nasceu na hora
certa, mas no lugar errado. E esta foi sua sorte. No
final dos anos 80 o País enterrou muitas mazelas da
ditadura e do coronelismo com a Constituinte, a
eleição direta e a abertura de mercado. Foi quando
começou a cair a ficha de nosso atraso tecnológico em
relação aos outros povos e países, e isso apontava,
ainda que de forma muito tênue, para o analfabetismo
funcional. Este foi o cenário perfeito para o
surgimento de projetos voltados para esta questão,
tanto que o Leia e o Proler (Programa de Incentivo à
Leitura do Ministério da Cultura) são quase
simultâneos – o Leia tem precedência de meses e
financiou a instalação do
Proler. O lugar errado foi
determinante: nossa proposta era instrumentar o
trabalho de leitura das escolas sem provocar qualquer
interferência no ensino-aprendizado. Em troca,
circulávamos pelas cidades com uns caminhões
chamativos, coloridos, enfatizando a responsabilidade
social da Petrobrás. Se esse projeto tivesse nascido
numa Universidade, teria sucumbido diante das
premissas de impacto, das avaliações de desempenho,
das limitações e distribuições de verbas acadêmicas
etc. Por outro lado, se nascesse como projeto de algum
governo, em qualquer esfera, estaria datado para
acabar. Isso nos permitiu agregar inúmeros apoios,
experimentar todos os caminhos e cunhar o que seria a
marca de nosso trabalho: promovemos a leitura pela
fruição, como forma de ampliação de conteúdo pessoal.
Crescemos de forma inesperada e sempre respondemos a
essas demandas com qualidade e responsabilidade. Da
primeira biblioteca que montamos, no final de 1991,
passando pelos Cadernos de Leituras Compartilhadas que
distribuímos gratuitamente às escolas que atendemos,
até a Bienal da Leitura que realizamos em 2005, em São
Gonçalo, no Rio de Janeiro – a única que realizou
troca-troca gratuito de livros e deixou um acervo de
mais de 15 mil livros de presente para a cidade, sem
custar um tostão para a população – tudo que fazemos
tem a finalidade de ajudar o Brasil a ler melhor. Não
por beletrismo, mas para ampliar a compreensão do
humano e suas relações com o universo. Desafetos se
faz em qualquer trajeto. Tenho certeza de que temos
bastante, tanto dos que cultivamos por ignorância,
quanto dos que incentivamos por incompetência. E é
óbvio que essas pedras que deixamos no caminho geram
desilusões... A maior é assistir ao sucateamento do
ensino público (seja pela falta de políticas decisivas
de fortalecimento das escolas de ensino fundamental -
principalmente do magistério), ao som de discursos
vazios, repetitivos e comprometidos, à alma, com essa
estratégia de privatizar as funções do estado. Me
lembro de quando sugeri o nome do Ezequiel ou do
Bartolomeu para o Conselho Nacional de Educação, como
alternativas de valorização da leitura, e ouvi como
resposta de uma proeminente figura republicana, que eu
“estava querendo fazer política sem ser da política”.
Penso que nossa seleção se
prenda exclusivamente ao que já fizemos e continuamos
fazendo. Primeiro deve ter contado o fato de que
estamos nessa estrada há quinze anos, com uma pequena
freada para arrumação, em 2002, mas ainda na estrada e
com todo o gás. Os números do Leia Brasil são muito
impressionantes, e nossas atividades muito variadas.
Já que estamos numa web-zine, em 98, por exemplo, nós
já tínhamos um site de serviços no ar. Hoje oferecemos
mais de 500 artigos, entrevistas e crônicas, além das
quinze edições de Leituras Compartilhadas
completamente disponíveis na rede. Nossas bibliotecas
volantes (hoje são sete em três estados, mas chegaram
a 19 em oito estados) emprestam, em média, 1,1 mil
livros por dia, cada uma, ao longo de todo o ano
letivo. Nossos cursos e oficinas já ajudaram a mais de
cem mil professores, com temas e carga horária variada
– inclusive a primeira pós graduação em leitura, feita
em parceria com a PUC-Rio e a Universidade. Só este
ano em que resolvemos trabalhar a Leitura de Mundo
Através da Narrativa Dramática, aqui no Rio, fizemos a
montagem de três peças teatrais em 9 cidades
diferentes, totalizando 27 apresentações. Além disso
fizemos leituras de peças com atores e leituras de
peças com professores. Acho que seria difícil não ser
finalista neste concurso. Cumpre dizer que nós não o
vencemos. Mas isso já seria uma outra história...
A leitura tem galgado posições.
De 1991 para cá, muitas coisas mudaram. É muito
recente, por exemplo, a Lei que tira do livro a
condição de patrimônio nas escolas e o torna objeto de
uso. Mesmo assim, há escolas pelo Brasil que não
emprestam seus livros. Também já temos salas de
leitura na maioria das escolas, embora seus acervos
sejam mínimos e os critérios de seleção sejam
determinados por uma confraria. Mas acho que isso está
muito aquém do que seria necessário. Os professores do
ensino fundamental e da pré-escola continuam com o
mínimo de qualificação possível, com as cargas de
trabalho mais pesadas e a remuneração mais
amesquinhada do estrato social. Esses professores não
recebem quatro h/a de informação sobre leitura,
dinamização de acervo, formação de repertório... nada!
Esses professores recebem nada de seus professores,
que também não foram leitores, e darão nada a seus
alunos. Como será possível fazer leitores nas 240 mil
escolas públicas que temos? Parece que estamos
querendo perpetuar as castas do Brasil coronelista no
mundo informatizado. Enquanto isso, o mercado de
livros vai muito bem, obrigado. Aliviado da carga
tributária, e vendendo cada vez mais livros (mais
bonitos e mais caros) aos mesmos compradores de
sempre. Não teríamos nada com isso se o conteúdo
desses livros não fosse essencial para diminuir as
desigualdades. E se o principal cliente não fosso o
Estado.
Acho que antecipei na resposta
acima. Daria aos professores do ensino fundamental
ferramentas (informação, bagagem de conhecimento,
reconhecimento, valorização e remuneração) que fariam
alunos mais exigentes. O resto seria conseqüência. Uma coisa que diferencia o Leia Brasil de outras entidades da sociedade civil é que não temos nenhuma fonte de financiamento institucional. Nunca recebemos um centavo que não fosse carimbado para um projeto específico. De governo, de ninguém. Isso faz com que todas as nossas ações tenham um desenho prévio, difícil de flexibilizar. O Programa que fazemos em Araucária, por exemplo, tem tudo especificado para atender ao que os dirigentes das cidades esperam, conciliado com o que o patrocinador deseja. Muitas pessoas nos procuram querendo ser voluntárias, por exemplo, mas não temos como instrumentalizar esse trabalho. O que procuramos fazer, quando são pessoas, é abrir o conteúdo do site e, muitas vezes, encaminhar para alguém que possa ajudar. Quando são cidades ou estados, de um modo geral procuramos alguma empresa que patrocine. Neste momento estamos desenvolvendo um projeto para a cidade de São Gonçalo do Amarante, no Ceará, por exemplo, a pedido de uma grande empresa local. Chegamos a publicar os Cadernos de Leituras Compartilhadas, mas fomos profundamente incompetentes para distribuí-los, e paramos até que surja uma oportunidade de equalizar custos com receitas. Mas, como eu disse lá atrás, estamos vivos, cheios de gás. Se para ajudar a construir políticas públicas tivermos que fazer política, aí estaremos com a ONG Leia Brasil, pensando em alternativas que nos permitam ocupar espaços e mudar essa terra pela leitura.
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