APROXIMAÇÃO
AO UNIVERSO DOS JORNAIS UNIVERSITÁRIOS
‘modo
de ser’, de quem para quem e a que se destinam?
Ana
Maria Netto Machado[1]
Paulo de Tarso Nunes[2]
A
história deste trabalho – contextualizando...
Na
seqüência de trabalho publicado no cdrom da edição 2002 deste evento, no
qual mapeamos a produção de jornais alternativos de Porto Alegre, e atualmente
atuando em universidade catarinense, voltamos o olhar para a relação
jornal-universidade, desta vez em parceria com colega, mestre em sociologia,
cuja dissertação[3], defendida em 2000,
analisou o poder político da mídia na serra catarinense, centrando-se mais
especificamente no veículo rádio, a partir da perspectiva teórica de Antonio
Gramsci.
Aliando
interesses e desenvolvimentos anteriores de ambos os autores, direcionamos um
olhar inicial sobre um conjunto de jornais
atualmente circulando no âmbito da educação superior
no estado de SC, pensando-os como órgãos de comunicação social capazes de
influenciar o debate privado no interior de um grupo social e, enquanto atores
políticos, de incrementar o teor ideológico das mensagens em favor de um ou
outro agrupamento social. No âmbito deste trabalho, vamos tentar entender as
relações do intelectual coletivo-universidade com alguns segmentos sociais que
compõem o espaço acadêmico e seu entorno. Dados os limites do trabalho, e em
vista da necessidade de descrever o material de campo (jornais), não será possível
estender-se em considerações teóricas preliminares. Remetemos o leitor a
algumas obras pertinentes, na bibliografia, e lançaremos mão de algumas referências
pontuais aplicáveis à análise e à interpretação dos elementos mais
instigantes do material coletado, abrindo a discussão para futuros trabalhos
nesta seara. Na descrição das particularidades e detalhes dos veículos midiáticos,
na sua materialidade e concretude, procuraremos tornar evidentes algumas de suas
tendências ou opções em termos de política editorial e função social. É
para o que tentamos apontar no título do trabalho ao perguntar: ‘de quem para
quem, e para quê?’
O
texto é enriquecido por um conjunto de imagens em anexo: capas dos jornais
(anexos 1, 2 e 3 ), mensagem de solicitação de jornais (anexo 4) e tabela
caracterizando os veículos (anexo 5: número de páginas, formato, tipo de
papel, uso de cores, editorias ou sessões, responsáveis pela edição e
destinatários). Contextualizamos o estudo, delineando o recorte da amostra de
jornais e as universidades cujos veículos consideramos: IES catarinenses
pertencentes ao sistema ACAFE. Descrevemos os procedimentos para obtenção do
material e o conjunto de documentos obtidos, discutindo alguns elementos que
saltam aos olhos nesta primeira aproximação, visando construir algum
conhecimento novo, por mínimo que seja, relativo a este tipo de produção
escrita, tão pouco pesquisada na área da educação superior.
A descrição dos jornais é permeada por alguns comentários e considerações de cunho interpretativo, tendo como pano de fundo e referencial as concepções de Gramsci sobre o campo da comunicação social. Consideramos aspectos como formato, quem edita? A quem se destina? Quem escreve? Que tipo de conteúdo textual e imagético é veiculado e como este material é organizado, entre outras dimensões. Encerra o trabalho breve comentário apontando novas possibilidades de pesquisa na área.
Captação
dos jornais’ e breve caracterização das universidades do sistema ACAFE
O
universo escolhido compreendeu as universidades de SC, pertencentes ao sistema
ACAFE: Associação Catarinense de Fundações Educacionais fundada em 1974 e
congregando hoje 15 instituições, a maioria municipais de direito privado,
isto é, os alunos pagam mensalidades, mas o patrimônio que vai sendo adquirido
torna-se público. A maioria destas instituições não recebe subsídios públicos,
dependendo completamente das mensalidades dos alunos. Entretanto, se distiguem
das empresas, pois não visam lucro, além de manter um compromisso com a
comunidade regional circunvizinha e com a região, uma vez que foram concebidas
a partir de uma política de interiorização do ensino superior, promovida
desde o governo Celso Ramos, nos anos 60, proposta esta assumida com bastante
intensidade em SC. Além das IES da Acafe, SC conta com uma universidade Federal
(UFSC) e uma estadual (UDESC). A solicitação de jornais que circulam nos meios
acadêmicos foi enviada a todas as IES por e-mail e também solicitada
presencialmente em um evento de bibliotecários do sistema, presencialmente.
Os
jornais...
Ao
cabo de 20 dias, obtivemos 14 jornais diferentes em suporte de papel, duas
indicações de sites, um documento acompanhado de imagem descrevendo um
jornal mural em fase de implantação, além de diversos boletins, informativos,
folders e algumas revistas de divulgação. Alguns enviaram várias edições de
um mesmo jornal. O conjunto de documentos foi remetido por nove instituições (FURB
- Blumenau, UNIVALI - Itajaí, UNOESC - Joaçaba, UNERJ – Jaraguá do Sul,
UNIPLAC - Lages, UNESC - Criciúma , UNC – Canoinhas/Porto União, UNIDAVI –
Rio do Sul e UNOCHAPECÓ - Chapecó), sendo que não obtivemos resposta, a
tempo, das outras 6.
A
UNIDAVI e UNIPLAC mantém boletins informativos eletrônicos nos seus sites:
www.unidavi.edu.br
e www.uniplac.net.
Conforme resposta da primeira:
A
UNIDAVE esse ano não publicou edição impressa de seu informativo (a última
edição foi em dezembro de 2003, mas deverá voltar a circular a partir do
próximo ano). O "Universo
UNIDAVI" nome
do nosso informativo é feito virtualmente (site www.unidavi.edu.br)
e enviado tbém aos cadastrados através de e-mail. É transmitido
ainda, diariamente, através da nossa Rádio UNIDAVI FM.
A
UNERJ (Jaraguá do Sul) está
elaborando um novo formato de informativo e justifica a opção escolhida:
A
UNERJ manteve seu jornal papel até 2002, que era entregue a todos os funcionários,
professores e acadêmicos da instituição. Pesquisas internas mostraram que
este veículo não estava cumprindo com seus objetivos, por isso, iniciou-se um
processo de estudo p/ implantação de um jornal virtual. [...] Atualmente, a
UNERJ realiza sua comunicação interna através do Jornal Mural (mural
com editorias padronizadas de cada setor), e-mails e clipping.
Os
14 jornais em suporte de papel recebidos vieram de 7 universidades diferentes.
Cinco delas enviaram um único jornal cada uma (Unc: Transparência; Unesc:
Jornal da Unesc; Uniplac: Visão Acadêmica; Unochapecó: Passe a Folha; Unoesc:
Informativo), uma enviou dois (Furb: Jornal da Universidade e Diretório Central
de Estudantes) e outra (Univali) enviou 7 jornais diferentes, tanto no formato
como no público a que se dirigem. Dez dos 14 são produzidos
institucionalmente, dois por DCEs (Uniplac e um dos da Furb) e dois são
jornais-laboratório de cursos de jornalismo (Cobaia - Univali e Passe a Folha -
Unochapecó).
Quanto
aos formatos, a maioria são do tipo tablóide: 9/14. Apenas um é formato A2 em
papel jornal (tipo Folha de SP: um dos 7 da Univali). Três são próximos do
tamanho A4, todos em papel couché (DCE-Uniplac, UniRH e Abstract da Univali).
Papo-cabeça destinado aos alunos do ensino médio da Univali tem tamanho
diferenciado, 20 x 50cm, em papel couché ou clorado, colorido. Dentre os 9 tablóides,
um é em papel couché colorido, um em papel clorado, com apenas a capa colorida
e 6 em papel jornal, dos quais um é todo colorido, 5 têm a capa colorida (dos
quais 2 têm também a página central colorida). O número de páginas varia
entre 8 e 20, com exceção de dois que têm 4 e 6 páginas. Estes informativos
não são exatamente jornais, têm formato aproximado ao A4 (Visão Acadêmica e
UniRH, informativo da Univali direcionado aos funcionários). O primeiro foi
incluido por ser o único em suporte-papel da Uniplac. E o segundo, por fazer
parte do conjunto de jornais da Univali, caso bastante particular, pois investe
em 7 veículos impressos, direcionados a segmentos sociais diferentes que são
de fato ou potencialmente vinculados a IES.
Observando
os 14 jornais e constatando que a metade provém de uma única universidade, é
imperioso considerar que esta privilegia o jornal como estratéga fundamental
para atingir suas metas institucionais. Afinal, o custo de manter tantos jornais
precisa estar ancorado num efetivo retorno. Neste sentido, se aplica bem à
Univali o entendimento de Gramsci (1985, 3) sobre a função dos meios de
comunicação e a relação do campo econômico, social, político e
intelectual:
Cada
grupo social, nascendo no terreno originário de uma função essencial no mundo
da produção econômica, cria para si, ao mesmo tempo, de um modo orgânico,
uma ou mais camadas de intelectuais que lhe dão homogeneidade e consciência da
própria função, não apenas no campo econômico, mas também no social e no
político: o empresário capitalista cria consigo o técnico da indústria, o
cientista da economia política, o organizador de uma nova cultura, de um novo
direito.
É
interessante observar que 6/7 jornais da Univali são produzidos pelo
Departamento de Comunicação e Marketing,
sendo o Cobaia, do curso de jornalismo, o único com uma equipe
independente. Em 5 desses 6 jornais, a equipe é praticamente a mesma. A exceção
parcial é para o Mundo Cau e o Abstract. O Mundo Cau é destinado aos colegios
de aplicação (observe-se que não é o jornal do colégio mas ‘para o colégio’).
Aparecem no expediente desse veículo os nomes dos Diretores dos CAU (Colégio
de aplicação) de três municípios. O Abstract tem uma equipe de redação
ligeiramente diferente dos demais, dedicando-se à divulgação científica, num
padrão de notícia curta, mas com nível acadêmico, abordando temas de
pesquisa, pós-graduação, extensão e cultura.
Chama
a atenção que a tiragem mais numerosa, 20 mil exemplares, é do jornal
destinado ao ensino médio, candidatos a alunos da IES, o que parece representar
uma estratégia de captação de alunos, fundamental num momento de expansão de
instituições de ES, com as quais é preciso disputar nichos de mercado. Em matéria
de tiragem, segue-se o Jornal do Cau (para alunos do colégio de aplicação) e
Oxigênio, destinado aos graduandos da Univali: ambos com tiragem de 8 mil
exemplares.
Os
tablóides das universidades que enviaram apenas um jornal (não significa que não
existam outros, pois a busca não foi exaustiva neste momento), fazem divulgação
das atividades desenvolvidas na universidade (cursos, apresentações, eventos,
participações na comunidade), das conquistas e regulamentações obtidas, ou
de atividades promovidas nas diversas instâncias comunitárias por alunos ou
docentes. Quanto as matérias, o da Unc traz apenas uma matéria assinada. O
Informativo, o editorial assinado pela Reitora e uma matéria assinada. O da
Unesc traz uma página com três matérias assinadas (pag 2), uma pelo Reitor e
duas por acadêmicos. O da Furb traz 4 artigos assinados, por um jornalista,
dois professores, e um externo (?) coordenador do Festival de Teatro de Blumenau
(há um encarte de 4 páginas sobre o FUTB). O Jornal da Univali apresenta uma
peculiaridade: Praticamente todas as matérias (16) são assinadas por membros
da equipe editorial, chegando a repetir nomes, o que levaria a caracterizá-lo
como uma produção endógena
O
exame realizado sugere que as concepções sobre a o que é e para que serve um
jornal universitário não são unânimes. A Univali desponta como arrojada no
uso deste tipo de mídia, e é bem possível que o seu amplo desenvolvimento
(está entre as maiores do sistema), esteja associado a essa visão. Por outro
lado, aquelas instituições que abdicaram de ter seu veículo em suporte de
papel, têm a sua visibilidade restrita, deixando a divulgação de suas
atividades a cargo da motivação e iniciativa de seus quadros docentes e
discentes, que precisam acessar o site para saber o que está se
passando. Unc, Unesc, Unoesc utilizam seus jornais como boletim informativo,
utilizando intensamente o recurso da fotografia para marcar eventos e momentos
(lembra crônica social, embora centrada na atividade acadêmica), e
praticamente não incluindo matérias assinadas. A Furb segue parcialmente esta
linha, incluindo alguns elementos de fora da universidade e mais artigos
assinados.
Para
continuar...
Outros
elementos foram levantados, mas não puderam ser analisados no espaço restrito
estipulado pelos critérios do evento, mas podem ser observados na tabela anexa.
São eles a estruturação dos jornais, por exemplo, em editorias ou sessões,
as tiragens, que comentamos apenas parcialmente e a periodicidade. Uma análise
mais profunda das matérias, de seu teor e qualidade literário-científica
seria também oportuna, e fica como sugestão de continuidade. Esperamos que
estas reflexões possam ser de interesse do meio universitário e sirvam para
instigar novos estudos, uma vez que a qualificação do jornalismo científico
está sendo considerada cada vez mais importante para fortalecer os laços entre
a sociedade e a ciência, num sentido amplo, e
entre as comunidades e as unversidades, num sentido pontual e localizado.
REFERÊNCIAS
/ BIBLIOGRAFIA
G
RAMSCI, A. Os Intelectuais e a Organização da Cultura. Rio de Janeiro,
Civilização Brasileira, 5ª edição, 1985.
Il materialismo storico. Roma, Ed. Riuniti,
1977.
MACHADO, A.
M. N. Jornais alternativos como
espaço público para produções escritas de cidadãos e professores.
IN: I SEMINÁRIO NACIONAL: O PROFESSOR E A LEITURA DO JORNAL.
Campinas, 2002. Anais em cdrom.
NUNES,
P. de To. Dissertação:
Se a Clube não deu, é porque não aconteceu: Comunicação e poder político
no Planalto Serrano de Santa Catarina, UFSC, 2000.


ANEXO
4
MENSAGEM
ENVIADA ÀS IES
Prezados
assessores da Reitoria da ...:
Sou pesquisadora na Uniplac desde março deste ano e estou contribuindo na
organização de nosso mestrado em educação. Estou pretendendo enviar um
trabalho para um Seminário em Campinas sobre o jornal e a educação
(trata-se da segunda edição, sendo que já escrevi um trabalho para a 1ª
edição desse evento, dois anos atrás, fazendo um mapeamento dos jornais
alternativos de Porto Alegre, que são, por sinal, mais de 100).
Caso
possa interessar a sua comunidade acadêmica tal evento, o site é: www.acordeduca.com.br
Nesta
ocasião, gostaria de analisar, preliminarmente, a produção de jornais
universitários de SC, limitando a amostra às IES associadas a ACAFE.
Para tanto, preciso coletar os veículos de informação que circulam em cada
universidade.
Esclareço que não me interessam as revistas acadêmicas, para os fins deste
trabalho específico, mas apenas jornais, boletins ou informativos.
Gostaria não apenas de saber de sua existência, como receber preciso de um
exemplar de cada um. Os eventuais exemplares podem ser enviados para a PróReitoria
de Pesquisa da UNIPLAC.
Interessam-me também eventuais publicações de alunos, do diretório acadêmico
por exemplo. Mas estou ciente de que talvez você não possa me ajudar neste
item particular. Em todo caso, toda colaboração é preciosa. Uma informação
de que existe um veículo de alunos ou de tal departamento já me ajudaria a
busca-lo junto a quem poderá me fornecer o material.
Lembro
que há prazo para o envio desse trabalho, de modo que para viabilizá-lo eu
precisaria receber tais jornais até o final do mês de setembro.
Contando com sua inestimável ajuda para o progresso do conhecimento,
Receba
meu abraço,
Ana Maria Netto Machado
Dra. em Ciências da Linguagem pela Universidade de Paris X
Pesquisadora na Uniplac.
Laboratório de Escrita - Porto Alegre
fones (49) 251 10 09 ou (51) 33 36 19 62
[1]
É psicanalista, Mestre em Educação/UFRGS, Dra. em Ciências da
Linguagem/Universidade de Paris X (título revalidado para a Educação pela
UFRGS), pesquisadora da Uniplac/Lages/SC, responsável pelo Laboratório de
Escrita/Porto Alegre e autora de vários livros e artigos no campo da
escrita e da autoria.
[2]
É sociólogo, Mestre em Sociologia Política pela UFSC, prof. da UNIPLAC/Lages/SC,
secretário dos Conselhos Deliberativos Superiores e da Reitoria.