REFLEXÕES ACERCA DO USO DA NOTÍCIA NA PRÁTICA DE LEITURA E PRODUÇÃO DE TEXTOS
Ana
Rosa Vidigal Dolabella[1]
Professora
do curso de graduação em Jornalismo e em
Pedagogia do Centro Universitário
de Belo Horizonte (UNI-BH)
Descrição
do objeto
As
reflexões apresentadas neste trabalho decorrem da prática de leitura e produção
de textos em três diferentes cursos de graduação. Essas reflexões se
fundamentam no trabalho que desenvolvemos em torno da notícia, ou seja, da
leitura e da produção de texto jornalístico noticioso de referência na
imprensa de grande circulação no país.
Objetivos
▪Refletir
sobre a consideração do uso do
texto noticioso em cursos de graduação a partir da perspectiva do
desenvolvimento de práticas de aprimoramento da leitura e da produção de
textos em geral
▪Considerar
alguns resultados observados a partir dessas práticas de leitura e produção
de textos no estudo da notícia
▪Refletir
sobre os limites e as possibilidades do uso do texto jornalístico noticioso na
formação e desenvolvimento do raciocínio lógico sobre a língua de sujeitos
aprendizes da leitura crítica e da elaboração de textos coerentes e coesos
(na educação básica e na educação superior)
Procedimentos
Através
da formação em Comunicação Social, em Lingüística e em Pedagogia,
desenvolvemos um "olhar pensante" sobre as questões da prática de
produção de textos na escola de educação básica e de educação superior.
O
que observamos no trabalho com professores e alunos da educação básica é a
procura de estratégias mais eficazes de ensino de língua materna na produção
de textos coesos e coerentes e na leitura crítica de textos em geral.
O
que temos percebido ao logo dos anos nesse trabalho, tanto em escolas públicas
quanto em escolas privadas (Região Metropolitana de Belo Horizonte), é que
crianças e adolescentes não estão aprendendo efetivamente a pensar
sobre o texto. Nesse sentido, pensar sobre o texto implica em uma
estruturação e organização das idéias, em uma construção e em um
processo.
O
processo do qual estamos falando se constituiria, desse modo, em um planejamento
textual, em uma realização desse planejamento na textualização e uma revisão
textual, ou seja, uma avaliação do processo. Para tanto, se faz necessária a
aprendizagem de levantamento de hipóteses, de seleção de informações, de
definição de critérios e parâmetros; enfim, faz-se necessária a aprendizagem da autoria.
Pensamos
que a mediação do professor no processo de ensino-aprendizagem da autoria, no
sentido descrito acima, pressupõe o desenvolvimento do pensar e da autonomia do
sujeito. Primeiramente, o sujeito deve ser estimulado a expressar oralmente suas
idéias. Oportunidades de debate sobre determinado assunto, em que o sujeito
precisa posicionar-se e mostrar conhecimentos sobre o tema permitem, já de início,
que o texto seja formado oralmente. Essa situação favorece o "ouvir o
outro", colocar-se no lugar do outro, confrontar pontos de vista, encontrar
os melhores argumentos para a defesa de suas idéias através da interação
oral dialogada.
A partir desse ponto, o sujeito aprendiz do uso
da língua será capaz de apresentar e registrar suas idéias porque já
experimentou expressá-las oralmente, focar, extrair, selecionar informações.
São esses passos necessários para a organização das idéias no papel, o
registro final e a concretização da autoria.
Como
chegar ao final desse percurso com êxito? Uma possibilidade se faz no uso do
texto jornalístico noticioso em sala de aula, desde as séries iniciais do
ensino fundamental na educação básica.
O
que temos acompanhado nos cursos de graduação em que atuamos, ainda que com
propósitos diferentes em cada curso, é a dificuldade do sujeito aprendiz em
expressar-se verbalmente e por escrito. Experiências com o uso da notícia como
estudo para a prática de leitura e produção de textos têm demonstrado
resultados positivos em relação ao aprendizado do raciocínio lógico sobre o
uso da língua.
Normalmente,
esse estudo sobre o texto jornalístico noticioso acontece, em geral,
considerando os seguintes aspectos:
▪Consideração
do título como resumo do texto/da notícia e exercício para a síntese
▪Consideração
do lide como forma de priorizar e hierarquizar informações, através do exercício
da descrição do fato
▪Considerar
o sub-lide , como o próprio nome indica, uma continuação e complementação
das informações tratadas no início do texto, ainda na perspectiva da descrição
objetiva dos fatos
▪Considerar
o corpo da notícia como um exercício de narração jornalística, preservando
norma padrão "cotidiana" e distanciamento do autor do texto em relação
ao objeto narrado
▪Considerar
o leitor e a recepção do texto noticioso como um meio de obtenção de um
maior número de informações/quantidade e de qualidade, comprovando essas
informações com fontes e dados
▪Principalmente,
observar como, na leitura de jornais, o jornalista/autor na notícia consegue
usar o estilo próprio na objetividade, até mesmo para a manipulação da
informação, de acordo com questões ideológicas inerentes ao veículo de
comunicação e à própria situação de comunicação midiática.
Resultados:
A
perspectiva de prática de leitura e produção de textos focada neste trabalho
é a do uso da língua de forma consciente e planejada pelo sujeito aprendiz,
considerando também o sentido de autoria e de aproximação e distanciamento do
texto em relação às suas próprias opiniões. Aprender quando se deve
argumentar/opinar e quando se deve apenas descrever e narrar é o principal
exercício dessa prática. Escolher a melhor forma de dizer, através da
simplicidade da linguagem cotidiana sem comprometer a norma culta padrão é o
segundo principal exercício.
Nessa
perspectiva, percebemos como resultados gerais da prática de leitura e escrita
através do uso de notícias em aulas de língua materna:
▪Os
aprendizes refletem sobre a língua em contexto
▪Os
aprendizes demonstram reflexão sobre o uso da língua (vocabulário, gramática,
estilo)
▪Os
aprendizes praticam a síntese
▪Os
aprendizes praticam a seleção de informações
▪Os
aprendizes distiguem os modos de organização do discurso (argumentação,
descrição e narração), suas especificidades e suas finalidades
▪Os
aprendizes experimentam jogar com as possibilidades do texto,
percebendo o interlocutor como leitor e os possíveis efeitos de produção
na recepção desse texto
Nessa
experiência com grupos de alunos de cursos de graduação, o trabalho com a
estrutura do texto jornalístico noticioso promove uma compreensão mais precisa
da interação pela linguagem verbal escrita.
Os
sujeitos aprendem a raciocinar logicamente, prevendo estratégias para alcançar
seus objetivos comunicacionais. Aprender a ler nas entrelinhas e a perceber as
intenções comunicativas através do processo de reflexão e de leitura crítica
e através do processo de estruturação das idéias no papel são aspectos básicos
para o trabalho com textos durante a escolarização do sujeito em todos os níveis.
Referências
Bibliográficas:
CHARAUDEAU,
Patrick. Le Discours d´information médiatique;
la construction du miroir social. Paris: Nathan/INA, 1997.
CYSNEIROS,
Paulo Gileno. Ler, escrever e avaliar na
Universidade. UFPB, Pós-graduação em Educação, 1998 (mimeo).
DOLABELLA,
Ana Rosa Vidigal. O discurso relatado
na imprensa brasileira;
o jogo de estratégias de apropriação de vozes e de construção de efeitos. BH:
FALE/UFMG: 1999. Vol
I e II (Dissertação de Mestrado; Análise do Discurso).
LAGE,
Nilson. A estrutura da notícia. São Paulo: Ática (Séries Princípios),
1997.
MOUILLAUD,
Maurice, PORTO, Sérigo Dayrell (org.). O
jornal, da forma ao sentido. Brasília: Ed. Paralelo 15, 1997.
[1]
Professora
do curso de graduação em Jornalismo e em Pedagogia do Centro Universitário
de Belo Horizonte (UNI-BH), ministrando as disciplinas Redação
Jornalística I e Fundamentos Teóricos-metodológicos
do ensino de Língua Portuguesa. Professora do Curso Superior de
Tecnologia em Gestão de Recursos Humanos da Estácio de Sá de Belo
Horizonte, com a disciplina Redação
de Relatórios. Mestre em Estudos Lingüísticos pela FALE/UFMG.