LEITURA E ENSINO: O USO DO JORNAL PELO
PROFESSOR DA EDUCAÇÃO SUPERIOR

 

Profa. Dra. Ana Carolina Rocha Pessoa Temer
Profa. Dra. Graziela Giusti Pachane
Centro Universitário do Triângulo - UNITRI

 

O presente trabalho, parte de um projeto maior desenvolvido pela linha de pesquisa Didática e Currículo do Ensino Superior do Centro Universitário do Triângulo, tem por objetivo conhecer a apreensão de saberes pelos professores universitários por meio da grande mídia, bem como sobre a maneira que estes saberes são levados para a sala de aula, interferindo (ou não) na atividade do professor. Tendo em vista a especificidade do encontro, por ora abordaremos apenas questões relativas à leitura de jornal pelo professor universitário, bem como sobre sua utilização, com os alunos, em sala de aula, priorizando a análise dos dados coletados.

Devido ao caráter exploratório da pesquisa, nossa opção foi por concentrar a coleta de dados apenas na instituição de origem das pesquisadoras: o Centro Universitário do Triângulo – Unitri (www.unitri.edu.br). A Unitri teve seu início em 1972 e conta hoje com aproximadamente 470 professores e 12.000 alunos, sendo que, na Unidade de Uberlândia, possui 36 cursos de Graduação.

O instrumento de coleta de dados, baseado nas diretrizes apresentadas por Lakatos e Marconi (1991), Selltiz, Wrightsman e Cook, (1987), Thiollent (1984) e Pachane (1998), constituiu-se num questionário com 23 questões abertas e fechadas, agrupadas em dados gerais do professor (graduação, titulação, cursos e disciplinas em que leciona, carga horária); freqüência com que costuma ver TV ou ler jornais e revistas; e uso dos meios de comunicação pelos professores em sala de aula. Houve, ainda, uma questão sobre possíveis conflitos gerados no interior das disciplinas pelas notícias veiculadas na mídia e os conteúdos abordados pelos professores.

A aplicação do questionário se deu entre os meses de setembro e outubro de 2004. Obtivemos um total de 55 questionários devolvidos, o que equivale a aproximadamente 12% do total de professores da Unitri, portanto, acima de 10%, referência mínima estatisticamente válida para pesquisas de caráter exploratório (Selltiz, Wrightsman e Cook, 1987; Gil, 1989). Os questionários, distribuídos aleatoriamente entre professores e coordenadores de cursos de graduação (eles também docentes), englobaram representantes de todas as áreas do saber.

A análise dos dados seguiu os procedimentos propostos por Bardin (1977), Krippendorff (1989), Lüdke e André (1986) e Bogdan e Biklen (1994), em especial no que diz respeito aos dados das questões abertas.

 

Quanto à titulação dos sujeitos da pesquisa, obtivemos: 7% de graduados, 27% de especialistas, 51% de mestres e 15% doutores. Sua formação inicial (graduação), foi variada, correspondendo, em geral, aos cursos nos quais atuam. O número de horas em sala por semana varia, havendo poucos professores nos extremos, com 6-8 horas-aula (10%) ou com carga total de 38-40 horas (13%). A maioria concentra-se em uma média de 17 a 24 horas em sala ((33%). Há casos cuja somatória de horas dedicadas ao trabalho docente e fora da sala de aula ultrapassa 40 horas (6), 50 horas (7) ou mesmo 60 horas (3), num total de 16 professores. Dos pesquisados, 32 professores (58%) dedicam-se predominantemente à docência.

Dos respondentes, 43% afirmam ler jornais diariamente, 25%, em torno de 3 vezes por semana e 21% ocasionalmente. No que diz respeito à leitura de revistas, os percentuais são um pouco diferentes: 60% afirmam ler revistas semanalmente, enquanto 30% as lêem ao menos uma vez por mês. Apenas 10% afirmam lê-las ocasionalmente. Podemos, portanto, observar maior disponibilidade para a leitura de revistas. É válido ressaltar que entre os leitores mais assíduos de jornais, encontram-se aqueles que mais diretamente trabalham com meios de comunicação ou com a linguagem escrita, sejam eles professores dos cursos de comunicação social ou letras: dos 24 que afirmam ler jornais diariamente, 50% são formados ou atuam nestas áreas.

No que diz respeito à televisão, os resultados praticamente se invertem: o maior percentual de professores (60%) afirma assistir TV ocasionalmente, enquanto 36% afirmam assistir ao menos 2 horas por dia. Apenas 2% assistem a mais de 4 horas por dia e um professor afirmou não ver TV.

A comparação com outros meios torna-se bastante interessante, em especial se considerarmos a alta freqüência de leitura de revistas e o pouco contato com a TV por parte dos docentes entrevistados. Resultados diametralmente opostos, por exemplo, aos dados apresentados pelo Instituto Datafolha em 1997: a pesquisa com jovens entre 6 e 14 anos mostrou uma presença decisiva da TV como fonte de informação, tendo sido considerada muito importante por 75% dos entrevistados, enquanto os jornais e as revistas foram considerados muito importantes por, respectivamente, 55% e 52%.

Entre os jornais que os professores da UNITRI costumam ler, o mais mencionado foi Folha de São Paulo, citado por 45 dos 55 respondentes, seguido do Correio de Uberlândia (com 33 referências). Há, ainda, menções a: O Estado de São Paulo-Estadão (6), O Estado de Minas (5), Jornal do Brasil (2),  Valor Econômico (1) e Meio & Mensagem (1). Dois professores consultam freqüentemente edições online.

Os assuntos que mais chamam a atenção dos professores são variados, sobressaindo-se, em ordem decrescente, política (27), educação (16), artes e cultura (14), economia e finanças (14), ciências e tecnologia (12), saúde e nutrição (10) e esporte (8). A época em que o questionário foi aplicado, antes e depois do primeiro turno das eleições municipais, pode ter afetado os resultados, sendo este, inclusive, um dos assuntos mais abordados pela mídia no período.

Alguns professores não fizeram referência a um tema em si, porém a um caderno ou seção do jornal: cotidiano (6), cidades (4), página do leitor, polêmicas, editorial ou ponto de vista (4), Brasil (1), Caderno Mais (1), Caderno Revista (1) e Turismo (1). Houve também referências a temas genéricos, como matérias gerais (4), internacionais (4), comportamento (4) e atualidades (3), ou, ao contrário, a temas bastante específicos, como: comércio exterior e relações internacionais (1), políticas de economia, ciência e tecnologia (1), e novas tecnologias farmacêuticas. Finalmente, com 3 ou menos citações figuraram: informática, meio ambiente, moda, sociais, mídias, mercado de trabalho, segurança/violência, problemas sociais, agricultura, assuntos acadêmicos, estética, matérias filosóficas, lazer, entretenimento, leis e publicidade.

Fizemos questão de frisar todas as temáticas citadas pois a análise cruzada dos dados permitiu observar que o interesse por determinadas matérias estava diretamente relacionado à atividade profissional desempenhada e/ou às disciplinas ministradas, indicando uma tendência de concentração do interesse em temáticas relacionadas com a área de formação e/ou atuação dos professores.

Podemos concluir, portanto, que os professores utilizam-se da mídia, em especial impressa, para manterem-se informados. De maneira geral, as informações buscadas dizem respeito à sua área de atuação, ou seja, jornais e, especialmente, revistas, efetivamente funcionam como veículos de atualização – talvez pudéssemos dizer de formação continuada – a estes professores.

Outro aspecto abordado pela enquete dizia respeito ao uso dos meios de comunicação pelos professores em sala de aula. A eles foi pedido que indicassem, numa escala de 0 a 4, a freqüência com que utilizavam jornais, revistas, matérias da TV ou outras fontes em suas aulas. Sendo que 0 indicava a não utilização de determinado meio e 4 sua utilização com bastante freqüência, os resultados obtidos foram os seguintes: jornal obteve freqüência média de 2,3; revistas obteve freqüência média de 2,6 e TV, de 1,7. Na categoria outros foram citados: Internet (mencionada por 20 professores), com freqüência média de 3 pontos; artigos ou livros não necessariamente didáticos ou pedagógicos (citados por 5 professores), com média de 3,8 pontos; filmes (citados por 5 professores), com média 2,5. Foram ainda mencionados estudos de caso e documentários (uma citação cada) e rádio, no caso específico de dois professores de radiojornalismo.

Comparando os dados, podemos notar que a freqüência para uso de revistas em sala de aula foi mais ampla que o uso de jornais e gravações de TV. Neste primeiro momento, não nos aprofundamos no sentido de saber a razão para tais opções, possibilidade que permanece em aberto para futuras discussões. Por ora, podemos apenas levantar hipóteses para estas escolhas: qualidade, aprofundamento ou extensão das reportagens, maior facilidade de acesso, maior facilidade de seleção das matérias ou alguma característica didática deste tipo de texto.

Quando perguntados sobre o uso mais freqüente de textos ou imagens (gráficos, figuras, fotos, charges, etc.) publicadas na mídia, 44 professores responderam que usam mais textos (o que corresponde a 80% do total), e 15 mencionaram imagens (28%), sendo que as respostas para este item não foram excludentes.

No que diz respeito à maneira como os materiais são trabalhados em sala de aula, os professores mencionaram o uso para: provocar debates (32 citações); exemplificar e ilustrar conteúdo (com 28 citações); fazer parte da avaliação (14) ou como dinâmica complementar (13), em forma de trabalhos em grupo, leitura dirigida ou trabalhos práticos, para iniciar uma temática (trigger) ou concluí-la.

Cinco professores mencionaram fazer a análise crítica dos textos, estudando sua estrutura, construção e argumentação. Um professor mencionou utilizar reportagens da mídia para promover maior relação entre teoria e vida cotidiana. Outros 5 consideram estes materiais importantes para atualização no conteúdo da disciplina estudada. Apenas para um dos respondentes o estudo da mídia é parte intrínseca do conteúdo ministrado.

Quanto à maneira como os assuntos da mídia são trazidos para a sala de aula, pudemos observar que predominam as situações em que os professores levam os textos para sala de aula, pois consideram importante discutir temáticas do dia-a-dia com os estudantes (32 respostas). A seguir, sobressaem-se as situações em que os alunos mencionam fatos e personagens em sala, buscando relacioná-los ao tema abordado, com 28 referências, e as situações em que os professores o fazem, utilizando-se de fatos e personagens da mídia como fonte de suas disciplinas (25 menções). Houve, ainda, 14 professores que mencionaram que a análise dos meios de comunicação e/ou dos assuntos do cotidiano é parte do conteúdo programático. Apenas 5 professores disseram que as temáticas são trazidas para sala de aula pelos alunos, porém de modo descontextualizado, e 3 professores disseram que os alunos não citam ou que situações da mídia não são abordadas em suas aulas.

Por fim, foi perguntado aos professores se tiveram algum constrangimento em sala causado por conteúdo publicado na mídia. Dos respondentes, 31 afirmaram que não. Onze professores deixaram a questão em branco. Entre os que responderam afirmativamente ao item, sobressaíram-se polêmicas causadas por temáticas abordadas em sala de aula que, de modo geral, questionassem clichês, estereótipos ou o senso comum acerca de questões diversas. A seguir, temas que, de alguma maneira, envolvessem questões éticas e, por fim, temáticas relacionadas a saúde e estética.

Podemos, portanto, concluir, que o uso de textos da mídia em aula é expressivo, sendo que, na maioria das vezes, são os professores que levam este material para a sala, em especial para provocar debates, ilustrar conteúdo, proporcionar maior relação entre teoria/prática, ou mesmo para servir de apoio para as avaliações. No entanto, pudemos perceber que o uso do jornal ainda é bastante limitado, obtendo uma freqüência relativamente baixa se comparada às revistas e internet. Percebemos, também, uma tendência a fixar-se o uso da mídia a reportagens que tenham diretamente a ver com o conteúdo ministrado pelo professor, constituindo-se num complemento, ou num facilitador, do processo de aprendizagem.

Assim, embora a mídia tenha seu espaço na sala de aula do ensino superior, percebemos que a formação por ela possibilitada ainda é pouco explorada, ocorrendo, talvez, fora dos espaços universitários e, muitas vezes, sem a necessária reflexão crítica sobre os conteúdos abordados e a forma como são apresentados.

 

Referências

BARDIN, Laurence.  Análise do conteúdo.   Lisboa: Edições Setenta, 1977.

BOGDAN, Robert; BIKLEN, Sari.   Investigação Qualitativa em educação – uma introdução à teoria e aos métodos, Porto: Porto Ed., 1994.

DATAFOLHA (1997). O jovem, a sociedade e a mídia do próximo milênio. Disponível em: <www2.uol.com.br/survey/frm4_pt.htm>. Acesso em 19/11/2004.

GIL, Antonio Carlos.   Métodos e técnicas de pesquisa social.   2. ed.   São Paulo: Atlas, 1989.

KRIPPENDORFF, Klaus. Content analysis - an introduction to its methodology.   7. ed.  Califórnia - EUA:  Newbury Park, 1989.

LAKATOS, Eva M., MARCONI, Marina de A.  Fundamentos de metodologia científica.   3. ed.   São Paulo: Atlas, 1991.

LÜDKE, Menga, ANDRÉ, Marli E. D.  Pesquisa em educação: abordagens qualitativas.   São Paulo: EPU, 1986.

PACHANE, Graziela Giusti. A universidade vivida: a experiência universitária e sua contribuição ao desenvolvimento pessoal a partir da percepção do aluno. Campinas: UNICAMP, 1998.  Dissertação (Mestrado em Educação)

THIOLLENT, Michel.  Aspectos qualitativos da metodologia de pesquisa com objetivos de descrição, avaliação e reconstrução.  Cadernos de Pesquisa, n. 49 p. 45-50.  São Paulo: Fundação Carlos Chagas, 1984.