AS INSUFICIÊNCIAS NA UTILIZAÇÃO DO JORNAL EM SALA DE AULA

                                                               

LIDIA MARIA GONÇALVES - UEL

 

 “O Programa Folha Cidadania é uma parceria entre o jornal Folha de Londrina , setor privado, entidades sociais e secretarias municipais de Educação e tem como objetivo utilizar o jornal como suporte pedagógico e técnico para estimular a leitura entre os jovens. A Folha subsidia cerca de 50% dos custos de distribuição do jornal diário em sala de aula. Iniciativa privada, secretarias municipais de Educação e entidades sociais, que são os patrocinadores do projeto, respondem pelo restante através da aquisição de cotas que vão cobrir o custo dos exemplares distribuídos.”

 

Com a informação acima, semanalmente, o jornal abre, no momento em que publica a Folha Cidadania (atualmente, às quartas-feiras), o espaço destinado aos assuntos vinculados e sempre num enquadre localizado à margem direita do Caderno2. O início do Projeto Cidadania, pela Folha de Londrina, ocorreu em 1994; nesse ano, eram atendidas algumas escolas da Rede Municipal de Educação de Londrina; cada aluno de quarta e oitava séries das escolas conveniadas ao projeto recebia o exemplar  do dia para que os professores pudessem desenvolver trabalhos escolares através do jornal em sala de aula e, ao final daquele dia letivo, o aluno levasse o exemplar que ganhou para sua residência, com isso dando acesso aos familiares à leitura do jornal.

 

Em 1998, todos os alunos da rede municipal de Londrina passaram a ser atendidos pelo projeto; sendo que para cada grupo de três alunos, era distribuído um exemplar do jornal.

Na zona urbana e em escolas mais elitizadas, a aquisição de um periódico por semana parece ser relativamente simples. Na zona rural de Londrina não existem bancas de jornais, revistas e gibis nos sete distritos que compõem o município (Paiquerê, Irerê, Guaravera, Maravilha, Lerroville, São Luiz e Warta), muito menos nos patrimônios que pertencem a esses distritos e que são, evidentemente, comunidades ainda menores. Exemplificando, a escola de ensino fundamental do distrito de Paiquerê, atende aproximadamente 530 alunos por ano, sendo cerca de 50 deles distribuídos em duas turmas de oitava série; se um aluno dessa escola quiser comprar um jornal, deverá viajar até a zona urbana do município, percorrendo trinta e cinco quilômetros e necessitará de três ônibus para conduzi-lo da sua escola até a banca mais próxima, o que consumirá no mínimo três horas (uma hora e meia de ida e outra hora e meia para a volta)e a utilização de seis ônibus para ir e vir.

 

Esta é a realidade atual de um grande município, localizado na região sul do país e que figura dentre os mais destacados da nação, portanto maiores dificuldades devem ocorrer em regiões menos favorecidas, o que reforça a importância de valorizar e contribuir para o sucesso de projetos que distribuam jornais aos alunos de escolas públicas. O Projeto Cidadania propicia acesso à comunicação impressa a alunos que não teriam outro meio de acesso a este bem cultural, o que não garante que o jornal seja utilizado como suporte pedagógico e técnico para estimular a leitura entre os jovens, objetivo que apregoa.

 

A “Empresa Jornalística Folha de Londrina S/A”  é sediada à Rua Piauí, 241, Centro de Londrina – PR, mantém o site “www.bonde.com.br/folha de londrina” e, desde 1994, desenvolve o Projeto Cidadania, encaminhando exemplares de jornais às escolas municipais conveniadas a esse projeto. Vale esclarecer que, desde o início de 1993, o estado do Paraná transferiu, gradativamente, para o município a responsabilidade pelo ensino fundamental e foi assumindo as escolas de ensino médio e superior (que não integram a rede particular, obviamente). No caso do município de Londrina, as escolas públicas de 1ª a 4ª séries, em sua grande maioria, são de responsabilidade da prefeitura. O poder municipal também arca com as escolas de 5ª a 8ª séries da zona rural (7 ao todo, uma em cada sede de distrito), e as localizadas na zona urbana, são de responsabilidade do Estado do Paraná. Por isso, são poucas as escolas de 5ª a 8ª séries deste município atendidas pelo Projeto Cidadania que, por sua vez, atende um grande número (mais de 70) de escolas municipais de 1ª a 4ª séries em Londrina e em outras regiões do Estado. E, embora esta pesquisa (de tipo etnográfico) particularize o trabalho realizado com o jornal em uma determinada escola, o

Projeto Jornal na Educação é desenvolvido nos cinco continentes. Além disso, a realidade apresentada na referida escola pode ser semelhante à de outras do município e do país.

 

Em 1994, quando o Projeto Cidadania foi iniciado em algumas escolas mais carentes da prefeitura de Londrina, entre as quais a da Favela Marabá se incluia, eu recém havia concluído o curso de Letras, portanto já sabia que ler é uma atividade prioritária na escola, ao contrário, de muitos colegas que – por só possuírem o magistério em nível de segundo grau ou terem graduação em outra área que não Letras – priorizavam o estudo da gramática normativa já nas séries iniciais. Eu mesma já havia passado por essa fase, quando terminei o magistério e comecei a lecionar para uma turma de segunda série em um conjunto habitacional em Londrina, nas aulas de Língua Portuguesa usava grande parte do tempo disponível com atividades a partir de palavras soltas ou frases descontextualizadas como: passe para o feminino, passe para o masculino, passe para o plural, dê o diminutivo, dê o aumentativo, separe em sílabas. E fazia isso inocentemente, acreditando que o trabalho com concordância verbal e nominal era indispensável para resolver os problemas de fala inadequada a modalidade culta, essas concepções eram muito vigentes nos idos 1984.

 

Dez anos depois, quando o Projeto Cidadania se inicia, eu já havia adquirido conhecimentos lingüísticos, graças à graduação em Letras, sabia tudo o que não devia ser feito, só não sabia, concretamente, o que fazer e como fazer. Sabia que a ênfase do ensino de Língua é o texto e não a gramática normativa para o ensino fundamental e médio, muito menos a metalinguagem deveria ser o enfoque do ensino nas séries iniciais. Então, distribuía o jornal (como todos faziam) e concedia tempo para a leitura do jornal (o que nem todos faziam). Mas trabalhava a composição do jornal (quantos cadernos, o que trata cada caderno, como localizar tal assunto) e para “incentivar a leitura” pedia que grifassem palavras com acento agudo, com acento circunflexo, com cedilha e demais dificuldades ortográficas, localizassem frases exclamativas e interrogativas. Acreditava, na época, que, enquanto o aluno estivesse procurando aquela dificuldade ortográfica (por exemplo, palavras com ch), ele estaria lendo o texto. Sem que tivesse consciência, a concepção de leitura que fundamentava minha prática e a de tantos outros colegas poderia formar ledores mas não era capaz de formar leitores, pois se baseava na leitura decodificativa e não na interpretação do texto.

 

Como nessa fase já possuía graduação em Letras, não trabalhava mais apenas no nível da palavra ou da frase descontextualizada, detinha-me no texto para através dele realizar um trabalho que em nada contribuía para formar leitores, bons produtores textuais ou cidadãos conscientes.

 

Em 1995, quando assumi também o padrão 5ª à 8ª séries na rede municipal, cursava a Especialização em Letras e meus maiores conhecimentos lingüísticos permitiram-me enxergar que a ênfase deveria ser a leitura e não o texto como mero pretexto para o trabalho com ortografia e gramática, mesmo que de forma contextualizada. Então, através do jornal, promovia a leitura pela leitura, cedida os 45 minutos de aula de língua portuguesa, uma vez por semana, para alunos de 5ª à 8ª séries lerem o jornal, cada um lia o que bem queria, nenhuma orientação era dada para essa leitura, nenhum trabalho era feito de interpretação e discussão dos textos. Para mim, a leitura era importante, por isso devíamos ter tempo e espaço para realizá-la na escola, mas que para criar o prazer de ler e incentivar o hábito de leitura, nenhuma cobrança poderia ser feita, a leitura pela leitura já tinha o benefício de manter o aluno atualizado, enriquecer seu vocabulário e fixar ortografia.

 

Como ministrava cinco aulas semanais, uma era para leitura de jornal, outra era para leitura de outro tipo de texto, a terceira para interpretação desse texto, a quarta para produção de um texto relacionado ao tema lido (intertexto) e a quinta para análise lingüística das produções dos alunos (por amostragem). E o jornal servia unicamente para leitura-prazer, mesmo não sendo o melhor material para esse tipo de leitura, e para contemplar a realidade retratada em suas páginas.

 

Nenhum aluno nunca demonstrou qualquer resistência em utilizar o jornal, talvez porque fosse leitura livre, ele escolhia o texto do seu interesse, o que invariavelmente recaía sobre o caderno de esporte e o caderno dois que traz a programação da TV, o horóscopo e a agenda cultural (shows, entrevista com artistas, etc.).

 

Também porque eu frisava o status que esse tipo de leitura representa; se antes liam praticamente apenas o livro didático, agora estavam tendo acesso a um material que a classe social mais elevada assina ou compra nas bancas, a classe A investe seu dinheiro nesta aquisição, porque a considera de valor positivo, e eles estavam tendo acesso gratuito a esse material de leitura, o que já  representava motivo suficiente para valorizá-lo.

 

Naquele período (1995), ainda não ouvia falar em ênfase nos gêneros textuais, enfocava a tipologia textual, solicitava produções de textos narrativos, descritivos e dissertativos. Hoje, 2004, graças ao contínuo processo de qualificação, adquiri competência para em produção de texto explorar as características dos diversos gêneros e não só das tipologias; em leitura, entendo que apenas a interpretação do texto, percebendo seus recursos expressivos e argumentativos, é capaz de formar o leitor. Se não exploro os mecanismos persuasivos do texto e não instigo a análise crítica do discurso ali produzido, posso contribuir para formar ledores mas não leitores, porque leitor é aquele que percebe as ideologias contidas no discurso e posiciona-se com relação aos posicionamentos do autor veiculados pelo texto.

 

Em 1987, quando cursava o último ano de Direito, trabalhei como coordenadora pedagógica de primeira à quarta séries na escola de Paiquerê. Da experiência como coordenadora, compartilho a que mais me marcou: foi com o uso do jornal na escola. Na época, naquela comunidade, havia a Escola Estadual de Paiquerê e esta atendia o ensino de 1ª à 4ª através de uma parceria entre o Governo do Estado do Paraná e a Prefeitura Municipal de Londrina, o prédio era do estado e mantido por ele, também os funcionários eram estaduais, mas os professores eram municipais. Com isto, nem o município investia em nossa qualificação, pois estávamos “emprestados” para uma escola estadual, nem o Núcleo Regional de Ensino nos fornecia orientação, afinal éramos professores municipais.

 

Um dia, repentinamente, foi entregue um exemplar do jornal na Escola Estadual de Paiquerê, o fato causou grande estranhamento. Até então, o único assinante de jornal na região era o meu pai Augusto Gonçalves. Pensamos que alguém da comunidade tivesse feito assinatura e o jornal entregue no endereço errado. Nos dias seguintes, o fato se repetiu; achamos que, se o novo assinante não reclamou, deveria ser um brinde do jornal para a escola. Por um mês recebemos o exemplar diário, colocando-os sobre a mesa da biblioteca, à espera de que alguém nos mandasse alguma orientação do que fazer com o material.

 

Era um exemplar só e não sabíamos como atender a escola toda com ele. Deixávamos na mesa da biblioteca, à disposição de funcionários e professores que quisessem lê-lo no intervalo. Um mês depois, o mesmo deixou de ser enviado, sem que houvesse nenhum aviso prévio, tal como se iniciou e, tempos depois, sem saber o que fazer com os jornais velhos e empilhados, fizéssemos bandeirinhas para enfeitar as salas de aula no período das festas juninas.

 

Vinte anos depois, retorno à escola de Paiquerê, com o objetivo de realizar uma pesquisa com alunos e professores sobre o uso do jornal na escola. Percebo que pouca coisa mudou. Desejo que os diretores, os supervisores pedagógicos, os coordenadores de escolas, os professores possam ler este trabalho e se ver refletidos nele para, tomando consciência de sua prática, buscar meios para otimizá-la. Esses meios, provem de duas fontes: a busca de instrumental teórico-lingüístico através da contínua qualificação profissional e a motivação para manusear, com sensibilidade, os aspectos institucionais que determinam o ensino e a aprendizagem.

 

“A instituição não é um mundo inteiramente isolado e que tem alguma ligação, burocrática e de subordinação, como estruturas do mundo mais amplo” (Goffman, 2001:92). Na realidade rural, a maioria das pessoas pertence à classe social menos favorecida socioeconomicamente e possui um nível mínimo de escolaridade. Este dado favorece a criação de estigmas (GOFFMAN, 1988) que recaem sobre o modo como os professores vêem seus alunos e como esses alunos enxergam sua identidade. O corpo docente pode considerar que dispor desse material de mídia gera status, mas não explorar devidamente esse recurso. Pois, “a fim de explorar eficientemente um sistema, é preciso conhecê-lo profundamente”. (obra citada, pág. 177)

 

Exemplificando, os Parâmetros Curriculares Nacionais orientam no sentido de levar a temática das drogas para a sala de aula por ser um problema social urgente e necessitar de trabalho preventivo. “O Jornal na sala de aula em muita ourientação (sic) para nos fala que nós não podemos fumar droga e está orientando nós isso para que nós não ficamos drogando ele fala sobre os garotos de rua e isso está orientando os garotos nas salas de aula” – é o que testemunha um dos alunos participantes da pesquisa deste trabalho, argumentando que tratar do tema junto aos adolescentes não desperta a curiosidade para o uso, pelo contrário, conscientiza sobre as conseqüências.

 

“As escolas tem que trazer mais jornais para os alunos lerem assim eles fica por dentro de tudo que está acontecendo no país e no mundo” – solicita o mesmo aluno, revelando o seu apoio ao Projeto Jornal na Escola por trazer para a sala de aula a vida real, como recomendam os PCNs.

Durante uma década (de 1994 a 2004), a Prefeitura Municipal de Londrina- assim como tantas outras administrações públicas- investe recursos para a manutenção do Projeto Cidadania, financiando, em parceria com a iniciativa privada, o acesso ao jornal para alunos de quarta e oitava séries de escolas municipais. Esta ação, aparentemente, resolveria a dificuldade de acesso ao jornal, pelo menos uma vez por semana ( no dia em que as escolas recebem o exemplar).Não foi o que nossa pesquisa constatou.  Professores, no nível discursivo, reconhecem a importância da leitura do jornal e afirmam usá-lo de vez em quando. Alunos discordam do discurso docente, afirmam que os professores quase nunca utilizam jornal e quando o fazem é com atividades gramaticais ou lúdicas: ler horóscopo, novela, shows, sobre TV e esportes.

 

Goffman, sociólogo e psiquiatra americano, ensina que é ingenuidade achar que a adesão a esta ou aquela formulação a respeito do que quer que seja possa revelar transparentemente de que modo alguém atua, no nosso caso específico, de que modo um determinado professor trabalha. O trabalho de um professor de Língua Portuguesa pode não ser determinado pela concepção de leitura que ele diz adotar, porque o sujeito negocia a sua face na tentativa de transmitir uma imagem coerente com o papel social por ele ocupado. Disso resulta a necessidade de confrontar depoimentos sobre a utilização do jornal em sala de aula e analisar como os alunos reagem ao trabalho do professor para constatar se a utilização do jornal está sendo ou não  suficiente para a fomentação de alunos leitores. .

 

O depoimento que apresento nesse artigo, sobre o uso “que não se consuma” do jornal na escola, dedico aos professores que ao lê-lo visualizarem sua experiência refletida e sentirem-se motivados a buscar uma nova ação.  

Referências Bibliográficas

Brasil. Secretaria de Educação Fundamental. Parâmetros Curriculares Nacionais: Introdução aos parâmetros curriculares nacionais. (v. 1). Brasília: MEC/SEF, 1997.
Brasil. Secretaria de Educação Fundamental. Parâmetros Curriculares Nacionais: Língua Portuguesa. (v. 2). Brasília: MEC/SEF, 1997.  
Foucambert, Jean. A leitura em Questão. Trad. Bruno Charles Magne. Porto Alegre: Artes Médicas, 1994.  

Foucambert, Jean. A Criança, o Professor e a Leitura. Trad. Marleine Cohen e Carlos Mendes Rosa. Porto Alegre: Artes Médicas, 1998.  

GOFFMAN,Erving. A representaçào do eu na vida cotidiana..Trad. Maria Célia Santos Raposo. Petrópolis, Vozes, 1985.  

GOFFMAN, Erving. Estigma: notas sobre a manipulação da identidade deteriorada. Trad. Márcia Bandeira de Mello Leite Nunes. Rio de Janeiro; LTC, 1988.  

GOFFMAN, Erving. Manicômios, Prisões e Conventos. São Paulo: Perspectiva, 7ª edição,2001.  

Soares, Magda. Letramento: Um tema entre três gêneros. Belo Horizonte: Autêntica, 1998.