Representações
sociais da juventude nos jornais:
quando o jovem vira notícia?
Ilana
Eleá S. Werneck
Mestranda em Educação – PUC-Rio
1.Introdução
Estudar
a forma como diferentes grupos vem sendo representados pelos meios de comunicação
de massa é uma das maneiras de se realizar pesquisas educativas em torno da mídia.
As formas através das quais as mídias se ocupam da família, do gênero
(masculino/feminino), da relação adulto-criança, das minorias e dos jovens,
por exemplo, ajuda os educadores a problematizarem a função dos estereótipos
veiculados na estruturação dos quadros de valores e de comportamento desses
grupos. Trata-se de um tema importantíssimo no âmbito da pesquisa educativa se
pensarmos que estas representações constituem um dos territórios
privilegiados da educação informal.
Dentro
da categorização realizada por Rivoltella (2001) sobre ações mídia-educativas,
a opção pelo estudo das representações sociais está inserida na chamada
“proposta ideológica”, a qual pretende trazer reflexões aos sujeitos,
tendo consciência que “ler criticamente
um produto midiático não significa mais aproxima-lo através parâmetros de
valor (bonito/feio, bom/mal), mas desconstruí-lo, desmitificar a sua cobertura
ideológica, reconhecer os traços da cultura hegemônica” (2001:49)
2.
Por que estudar o jovem no jornal?
Partindo
dos pressupostos acima citados, cabe aos educadores atentarem para o potencial
formador dos meios de comunicação de massa. Este estudo procura mapear como os
jovens têm sido vistos, citados e representados através de um meio de comunicação
de massa específico - o jornal. A escolha pelo estudo do jornal O Globo
deveu-se por esse se apresentar como um jornal de grande circulação no país.
Foram decupadas todas as matérias que tematizavam a juventude num período de
26 dias consecutivos (16 de março a 6 de abril de 2004).
Ao
falarmos em juventude, estamos nos referindo ao momento posterior à infância,
que envolve a adolescência e a juventude propriamente dita, que aqui adotamos
como o período entre os 16 e os 24 anos.
Segundo
Abramo (1997)[1], existe uma distinção
entre os modos como são tematizados os jovens nos meios de comunicação:
quando os produtos são dirigidos diretamente a este público, os temas
normalmente são cultura e comportamento — música, moda, estilo de vida,
esporte e lazer; em contrapartida, quando os jovens são assunto de noticiários,
matérias analíticas ou editoriais, os temas abordados são de um modo
geral,violência, crime, exploração sexual e drogadicção.
Isso
pode ser verificado também nos jornais? Para
Barbero (2001)[2],
por mais que a televisão se apresente como o mais “sofisticado dispositivo de
mldagem”, ela não funciona sozinha, devendo conviver/competir com outras
mediações, como os valores instituídos pela famýlia, pela escola, pelos
amigos, enfim, pelo meio social em que o indivíduo estiver inserido.
Nesse
contexto de mediações, o jornal costuma apresentar-se como uma alternativa à
“má-informação” do jovem, por ser feito em linguagem escrita e por
tratar, diariamente, de temas considerados importantes para uma compreensão da
realidade polýtica, econômica e social em que esse jovem vive.
Por
ser visto como porta-voz da informação, o jornal é “sacralizado”, tanto
em sua versão impressa como televisiva. A necessidade de manter-se informado
tornou-se um dos requisitos na sociedade dita globalizada. Embora o telejornal
ofereça um panorama dos principais acontecimentos do dia, será no jornal
impresso que se poderá encontrar aquelas mesmas temáticas tratadas de forma
mais densa, com um aprofundamento maior.
As
seguintes perguntas são colocadas: Que representações sociais do jovem são
mais freqüentemente encontradas nesse meio de comunicação, tido como
importante fonte de informação diária? Existem cortes de classe nessas
diferenças? Existem correlações entre o modo como a mídia representa o jovem
e o modo como ele próprio se percebe e o grupo do qual faz parte?
1.As representações sociais
Antes
de trazer mais elementos sobre o trabalho, acredito que caibam algumas
pinceladas sobre o conceito de representação social que foi tomado como guia.
Vale a pena deixar claro que embora existam outras linhas de estudo sobre as
representações, como as defendidas pela antropologia ou sociologia, os
pressupostos adotados nesse trabalho falam de um lugar muito específico: o traçado
por um olhar sociológico à psicologia social (Farr:1995:31). Assim, o conceito
de representação social que trabalharei foi criado por Moscovici em 1961,
partindo da necessidade que esse encontrou de aprofundar o conceito de
representações coletivas construído por Durkheim, que tomava como ponto de
partida explicativo a relação dos indivíduos com a religião, com o sagrado,
que por serem baseados em verdades externas à percepção dos indivíduos e por
não terem origem individual, apresentar-se-iam como relativamente fixos,
pressionando os indivíduos a aceita-las. A representação seria aceita de
forma homogênea, a ser vivida por todos os membros de um grupo, da mesma forma
que partilham uma língua, como forma de preservar o vínculo entre eles e
instaurar o pensamento uniforme. A representação seria coletiva porque perdura
pelas gerações, exercendo coerção.
Embora
Moscovici reconheça a força que o conceito de representações coletivas traz como forma de problematizar o
individualismo nas análises sociais, esse autor cria o conceito de representações
sociais, por acreditar que nesse termo caibam maior mobilidade e
flexibilidade. O que passa a ser levado em conta são as construções
contextualizadas de sujeitos sociais a respeito de objetos socialmente
valorizados, que podem ser identificados através dos saberes populares e do
senso comum, que seria criado por grupos como forma de explicação da
realidade. Segundo Moscovici, as representações sociais se constituem como uma
série de opiniões, explicações e afirmações que são produzidas a partir
do cotidiano dos grupos através das comunicações em geral, onde se elaboram
os conhecimentos do senso comum. Sendo o jornal um meio de comunicação, que
conhecimentos sobre a juventude esse veículo estará trazendo para a formação
do ideário da sociedade sobre a juventude e para a formação de identidade
desse grupo?
1.A análise do jornal: passos metodológicos
A
metodologia para análise de mídia impressa já havia sido desenvolvida pelo
Diretório de Pesquisa (CNPq) do qual faço parte: “Campos de problematização
moral dos jovens e a influência da mídia”, coordenado pela professora
Aparecida Mamede, vinculado ao Departamento de Educação da PUC-Rio. Durante a
pesquisa agora em fechamento, tivemos como tarefa analisar a maneira como
diferentes temas – desemprego, violência, drogas, estética, entre outros,
(citados por universitários como sendo os principais valores e problemas da
juventude) ganhavam espaço nos jornais. Apropriando-me dos avanços alcançados
pela pesquisa na construção dessa metodologia, parti para a análise dos
jornais tendo dessa vez, como foco, a tematização da juventude.
A
leitura do jornal para a minha pesquisa foi feita, então, tendo como objetivo
inicial selecionar todas as matérias que trouxessem o tema juventude para suas
páginas. Depois de recortadas, as matérias eram depositadas em diferentes
sacos plásticos, pois me baseei na busca da triangulação temática observada
primeiramente por Abramo: observar matérias COM, SOBRE e PARA jovens, tendo o
cuidado de sempre anotar as referências das mesmas (em qual editoria, data e página
foram publicadas).
Num
segundo momento as matérias foram organizadas em uma planilha de forma de
facilitar a análise posterior dos dados. Levando em consideração as observações
feitas por Carmen Lozza[3]
, as fotos, infográficos e ilustrações, além do tamanho das matérias, não
podem ser esquecidos como constituintes da estrutura do jornal, devendo ser
levados em conta quando estamos realizando uma revisão crítica.
Dessa
maneira, a seguinte tabela foi construída:
|
Editoria |
Manchete |
Tamanho |
Foto |
Tam. Foto |
Cor |
Artista |
Box |
Quem |
Fonte |
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A
escolha por esses campos teve por objetivo nortear minha análise: quais
editorias são mais recorrentes no trato ao tema juventude? Há diferenças
quando os jovens aparecem na editoria Capa ou no Segundo Caderno? As matérias são
acompanhadas de fotos? Fotos de quem? Fotos de artistas são predominantes?
Quais temas ganham boxes?
As
planilhas eletrônicas se mostram muito úteis para o processo de análise, pois
nos permitem criar gráficos e organizar tabelas a partir dos campos que nos
interessarem. Por exemplo, posso abrir um arquivo que esteja ordenado pelo
tamanho das matérias em ordem crescente (que tipos de matérias mereceram espaço
grande?), um outro pelo tamanho da foto e ainda um outro para as que trouxeram
fotos de artistas. Que representações sociais de juventude estão sendo
transmitidas pelo jornal em questão?
1.Apresentação
de alguns resultados
Das
144 matérias que traziam a juventude como tema para as páginas do jornal, 56%
estavam COM; 33% SOBRE e 11% PARA jovens. Análises qualitativas nos permitirão
mostrar que jovens são esses que
aparecem, sobre o que falam a respeito
deles e que temas são entendidos como sendo de interesse para
eles.
Um
outro ponto importante a ser observado é a forma como as editorias são
privilegiadas para tratarem da tematização da juventude. A seguinte distribuição
foi encontrada:

A
forte incidência de jovens no caderno de Esportes ocorreu devido às
proximidades das Olimpíadas em Atenas. Pode-se inclusive falar na “jovem”,
pois a maior parte das matérias (45,1%) dizia respeito à ginasta Daiane dos
Santos, de 19 anos, tida como grande esperança de vitória e conquista da
quinta medalha de ouro, dessa vez com a coreografia “Brasileirinho”. Matérias
grandes, com fotos e acompanhamentos diários foram publicadas sobre o
rendimento da ginasta.
Já
nas outras editorias, os espaços foram preenchidos de forma dicotômica: de um
lado atores/atrizes, modelos, jogadores de futebol e jovens ligados a bandas
famosas e de outro, jovens envolvidos em atitudes violentas, brigas em festas,
pancadarias. Se “estar na mídia” aparece como condição sine qua non para continuar nela, desenhando uma espiral sem fim,
deve-se atentar para o fato que tematizar a juventude somente a partir de
categorias profissionais que recebem acento da mídia soa no mínimo
reducionista, devendo significar um sinal de alerta aos educadores e famílias.
Por que só recebem visibilidade os jovens que trabalham em novelas e programas
de televisão? Pelo o que pareceu na leitura dos jornais, a única maneira de um
jovem receber espaço nas suas páginas, se não estiver em destaque na mídia,
será através de notícias negativas, escândalos, brigas. Onde estão os
jovens atuantes, ligados às artes, às letras, aos movimentos sociais, às
produções culturais e políticas? Eles não existem? Ou estão sendo
silenciados?
Entre
matérias seguidas com poses de atrizes e modelos em festas, apenas uma nota
trouxe luz, mesmo que fraca, no movimento estudantil. Não foi, ainda assim, uma
matéria completa, mas uma nota na coluna do Ancelmo Góis, que embora tenha
destaque, não traz aprofundamentos. Dizia:
“A
UNE também decidiu cobrar mudanças na economia. Prepara protestos em diversas
capitais. Uma caravana sai de Porto Alegre, dia 2, para pregar, pelo país,
reformas econômica e universitária(...) Alguns atos começam antes. Hoje, tem
manifestação em BH. Amanhã, em SP e BSB. Quinta será no Rio.”
Segundo
Caderno, 30/03/2004, p.16
Por
ser tratar de uma organização interestadual para protestos promovida pela UNE,
não deveria o jornal ter se ocupado da divulgação das propostas com maior
antecedência e esclarecimentos? Além
da nota, nenhuma outra menção ao movimento recebeu linhas no jornal desse dia,
nem para esclarecer o que seriam as reformas econômicas e universitárias
propostas. No dia seguinte foi publicada uma notícia mais detalhada:
UNE
volta às ruas por mudanças no ensino. Cerca de 2 mil estudantes participaram
de uma passeata pelas ruas do centro de Minas. Reinvidicam 50% das vagas nas
universidades para estudantes da rede pública, a regulamentação do ensino
superior privado, passe livre e garantia de financiamento para as universidades
públicas. O País,
31/03/2004, p.11
Caras
pintadas (cerca de mil) retornam às ruas para lembrar os 40 anos do golpe de
64, em passeata convocada pela UNE e união dos secudaristas. 2/04/2004
Embora
se possa ter a impressão do jornal ter dado atenção – mesmo que mínima- a
jovens ligados ao movimento estudantil, quando comparamos a inserção dos
outros grupos de jovens no jornal percebemos a dimensão da diferença. Observe
como foram distribuídas as 81 matérias com jovens:

Levando
em consideração que no grupamento “atletas” foram incluídas as inúmeras
notícias com a ginasta Daiane dos Santos e toda a preparação para as Olimpíadas
- além dos já tradicionais
jogadores de futebol, a tematização da juventude está sendo feita, no jornal
em questão, de forma desproporcional. Ao lado de jovens que se envolvem em
brigas e adotam práticas violentas nas noites da Zona Sul carioca, atores,
bandas, modelos e apresentadores de televisão (moradores do eixo Rio-São
Paulo) recebem a maior fatia da exposição nos jornais, transformando esse veículo
midiático numa vitrine invertida: práticas sociais, científicas, culturais e
artísticas protagonizadas por jovens de diferentes lugares do Brasil não
ressoam nas páginas do jornal.
No
caso de matérias sobre os jovens, as Cartas dos Leitores dispararam devido à
problemática envolvendo pitboys que
ocorreram no período. A grande quantidade de cartas publicadas sobre o assunto
reforçou a tônica da indignação contra atitudes violentas em jovens das
camadas médias e altas da sociedade. A carta publicada em 5/04/2004 (p.6):
“Fica
difícil pensar que a humanidade vai melhorar. Jovens agridem e são agredidos,
são presos e liberados com a ajuda
de advogados. A educação está errada, valores morais não existem. O soco na
boca da sociedade é reforçado com a atitude do judiciário, de permitir a saída
desses marginais que usam perfume francês. Isto só demonstra que estamos
perdidos. Não haverá punição enquanto não houver uma tragédia.”
Por
mais que o jornal em questão tenha uma publicação semanal destinada ao público
jovem - “Megazine”, nesse estudo foram entendidas como matérias para os
jovens as que eram apresentadas dentro da estrutura diária do jornal e não em
cadernos específicos.
Foram
encontradas matérias sobre diferentes temas, oscilando entre educação, lazer,
esportes e entretenimento. Em compensação, a matéria que anuncia o término
do FIES para que seja substituído pelo projeto Universidade para Todos
(4/03/2004, p.9) perde a oportunidade de trazer discussões, debates e informações
sobre a mudança. Já uma matéria sobre o Programa de Planejamento da
Secretaria Municipal de Saúde, implantado em 1992, traz informações mais
completas, principalmente por divulgar os telefones dos postos onde podem ser
encontrados os serviços anunciados:
Programa
de Planejamento Familiar da Secretaria municipal de Saúde, implantado em 1992.
Orienta-se sobre DSTs, contraceptivos, acesso a preservativos, indicação de
ligadura de trompa, em reuniões de até 2 vezes por semana. Cerca de 25% das
mulheres que têm filhos no município do Rio tem menos de 20 anos. E a maioria
completou apenas o ensino fundamental. Quase 30% dos partos do Hospital são de
adolescentes. Dos 60 mil partos feitos anualmente, cerca de mil são de
gestantes menores de 15 anos.
(Jornal
da Família, 28 de março de 2004)
Considerações
Muitas
reflexões podem ser feitas a partir da análise das matérias, mas o mais
importante é o registro desse movimento de leitura atenta e crítica que nós,
educadores, devemos manter continuamente. A formação dos alunos tem-se dado
pela mídia de maneira informal e extra-escolar, se os professores não
trouxerem a mídia para dentro da sala de aula, estarão perdendo uma
oportunidade valiosa de diálogo capaz de aguçar o pensamento crýtico dos
alunos. Auxilia-los na reflexão sobre as imagens de si próprios veiculadas
pela mídia contribui para o desenvolvimento de sujeitos ativos e mais
conscientes. Até quando apenas atores, atrizes, jogadores de futebol e modelos
continuarão nas pautas dos jornais, gerando um instantâneo fotográfico sobre
os rostos da juventude brasileira?
Seleciono,
pois, para finalizar, um trecho de entrevista concedida por Roger Silverstone[4]
para a 4º Cúpula de Mídia 2004, no Rio de Janeiro:
“Uma
coisa é certa: a mídia exerce tamanha influencia no nosso dia-a-dia que
necessitamos de instrumentos de análise poderosos e sofisticados para avaliá-la.
Acredito que devemos desenvolver estes instrumentos assim como novos princípios
para a prática da educação para a mídia. Na minha avaliação, os jovens
devem ser mais instruídos para lidar com o processo de representação da mídia.
Capacitação que deveria fazer parte da educação básica, hoje e sempre”
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[2]
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