ANÁLISE SEMIÓTICA
DE UMA NOTÍCIA
Ivana
Quintão de Andrade (UFF)
A
idéia de realizar esta pesquisa surgiu durante uma aula sobre argumentação,
da disciplina de Semiótica Discursiva, no curso de mestrado em Língua
Portuguesa (UFF-2000).
O
trabalho de manipulação realizado por meio de certos arranjos lingüísticos
me despertou grande interesse, principalmente quando o discurso jornalístico
surgiu como o foco dos comentários mais inflamados.
Sendo
esse discurso aquele que atua como meio de transformação (ou manutenção) de
opiniões e idéias, através da divulgação de informações sobre as quais os
leitores podem (e devem) pensar, então o jornal
se confirmaria como aquele que detém “o conhecimento”.
O
leitor comum, no entanto, nem sempre consegue perceber os processos de construção
dos sentidos que estão subjacentes ao texto jornalístico. Isso porque as
informações são “passadas” através de mecanismos de poder implicitamente
impressos nas páginas de jornal.
Haveria,
dessa forma, um jogo de forças direcionado à tentativa de fazer o leitor crer
numa determinada opinião, ou posição ideológica daquele que transmite a notícia.
Afinal, “a finalidade última de todo ato de comunicação não é informar,
mas persuadir o outro a aceitar o que está sendo comunicado. Por isso, o ato de
comunicação é um complexo jogo de manipulação com vistas a fazer o enunciatário
crer naquilo que se transmite.” Fiorin
(1994:52)
A
informação precisa ter credibilidade, precisa ter sempre o sabor da novidade.
Além disso, ao leitor de jornal não é dada a liberdade de interpretar o texto
lido como quiser, o que o torna, dia após dia, “prisioneiro” de um sentido
previamente determinado.
Portanto,
o discurso jornalístico objetivaria “moldar”
a opinião do leitor em relação à notícia veiculada. Essa é uma tensão
que, embora silenciada, se encontra inscrita não só nos recursos lingüísticos
usados nos textos escritos, mas também no aspecto visual do jornal - na
diagramação da página, na seleção de cores, nas fotografias divulgadas. É
uma articulação de signos verbais e não-verbais que deslizam um pelo outro,
um no outro.
Atravessado
por uma linguagem que se pretende neutra, o jornalista fala sobre um determinado
assunto, e, ao fazê-lo, está, de certa forma, produzindo uma ação, um
movimento direcionado à produção de uma verdade. O leitor tem, então, a
“certeza” de que o jornalista sabe o que diz, pois detém o conhecimento e,
portanto, “pode” falar. Essa “crença” acaba permitindo a produção de
“realidades”, ou melhor, de efeitos de verdade nos discursos.
Dessa
forma, o leitor, colabora na constituição da imagem que torna o discurso
Esse
processo ocorre em nível imaginário, isto é, o sujeito-jornalista investe e
é investido imaginariamente pelo sujeito-leitor como aquele que “sabe” e
este, por sua vez, como aquele que precisa ser informado. São duas imagens que
se tocam e interagem à medida que o leitor confere ao jornalista - e, conseqüentemente,
ao jornal - a completude de um saber que nele, leitor, é considerado
incompleto.
Os
gestos de interpretação. Sabe-se que há no discurso jornalístico uma
linguagem que se pretende neutra. No entanto, no gesto do narrador-jornalista em
“contar” o que sabe, já podemos detectar as marcas de sua interpretação.
Isso porque em qualquer discurso, narradores (e narrativas) estão ligados a
processos histórico-ideológicos que direcionam a produção de determinados
campos de significação. Por isso, é possível afirmar que as relações que
constroem o texto escrito correspondem às relações que o seu autor tem com o
mundo.
No
que se refere ao texto jornalístico, espera-se que haja um grau muito grande de
objetividade na “fabricação” e na difusão da informação. No entanto, o modo como a informação é produzida, isto é, como ela se
institui materialmente no papel, já não traria em si uma carga de conteúdos
ideológicos e estratégias argumentativas articuladas com o fim de modificar o
Por
outro lado, pensando em alguns produtos de consumo (por exemplo, roupas e
alimentos), pode-se afirmar que são artigos consumidos de forma variada,
alternada - afinal, ninguém veste a mesma roupa e come a mesma comida todos os
dias -. Mas, o jornal, ao contrário, é um produto que solicita de cada indivíduo
um comportamento inverso: o da repetição.
A
preferência do leitor por um determinado jornal seria então confirmada pelo
seu retorno diário ao mesmo discurso. Mas,
ao eleger o seu jornal e ser diariamente “fiel” a ele, o leitor não estaria
também sendo fiel a si mesmo? Não estariam transitando aí dois movimentos, o
de construção do público-leitor pelo jornal e, na via contrária, a do próprio
jornal pelo público-leitor? Que imagens estariam sendo projetadas de um para o
outro?
A
cumplicidade discursiva. O Jornal, institucionalmente falando, tem interesse em
manter esse cotidiano abonado pelo leitor-fiel, diariamente arrebatado por uma técnica
de sedução usada nas páginas de jornal. São depoimentos, curiosidades, crônicas,
cartas dos próprios leitores, editoriais, classificados, horóscopos, anúncios
etc. através dos quais se daria a manipulação de vários estereótipos
sociais – apontando, assim, para a imagem que se tem do sujeito-leitor que vai
receber as informações. É natural, portanto, que o leitor confie no
jornalista - que o enunciatário confie no enunciador. Faz parte do “acordo”
saber que o jornalista detém a verdade e o leitor nela acredita. Abonado pela
naturalização desse valor, o destinador daria, então, continuidade ao seu
processo de sedução na tentativa de tornar o destinatário um prisioneiro dos
seus “modelos” de leitura.
Entende-se,
no entanto, que esses modelos de leitura não são simples e facilmente
“impostos” ao leitor. Eles se estruturariam com base no conhecimento prévio
que o destinador tem de seu destinatário. Em outros termos, os textos seriam
construídos mediante uma hierarquização de valores, isto é, o conhecimento
da classe social dos leitores que se quer atingir determinaria o nível de
inteligibilidade e compreensão não só do texto verbal impresso, mas também
da apresentação visual do jornal colocado nas bancas.
Dessa
forma, pode existir no discurso jornalístico uma forma objetiva de narrar a notícia
e uma forma subjetiva de apresentá-la ao leitor. Em outras palavras, o leitor,
enquanto receptor de mensagens, se construiria subjetivamente no próprio gesto
do emissor - gesto esse que sinaliza para o tipo de leitor que se quer.
Os
valores, portanto, não estariam no sujeito-jornalista, mas no seu texto, no
objeto-jornal, sujeito semiótico que, por conseguinte, mediaria a relação
entre os sujeitos e os objetos.
Independentemente
dos valores veiculados, tratar-se-á, neste trabalho, do discurso do ponto de
vista de sua capacidade de “agir” e de “fazer agir”, moldando e
modificando as relações entre o público-leitor e o seu jornal.
O
foco, portanto, será o modo de funcionamento do discurso jornalístico
considerando os recursos argumentativos e as modalidades de relação entre os
sujeitos - o que escreve e o que lê a notícia.
Nota-se
ainda que as pessoas, em geral, têm um “método” próprio de “manusear”
as notícias, revelando uma forma particular de “entrar” no jornal. Há os
que vão direto para a seção de esportes; os que “entram” pelo noticiário
internacional, pelo horóscopo, pelo editorial (a “sala de visitas” de um
jornal), enfim, para depois partir para outras seções e colunas.
Por
isso, outro movimento de análise será o de “apreciar” o jornal como um
“quadro” semiótico, cuja entrada se dará pela página onde o editorial está
alocado, a fim de detectar a narrativa correspondente à seguinte notícia: O
derramamento de óleo na Baía de Guanabara (RJ) pela Petrobrás – muito
divulgada, principalmente, entre os dias 20 e 27 de janeiro de 1999.
Desse
modo, serão observados os recursos discursivos usados pelo enunciador para
“passar” essa notícia para o enunciatário, bem como (embora
superficialmente) a organização dos dispositivos não-verbais que atuam como
estratégias visuais usadas no processo de manipulação do público-leitor.
O
fio condutor. Sabe-se que o sistema e a competência foram os objetos teóricos
iniciais da Lingüística. Essa delimitação foi facilmente mantida no período
em que essa área do conhecimento se confundia com a fonologia e a morfologia,
mas tornou-se insustentável no ressurgimento dos estudos semânticos nos anos
sessenta, quando então surgiu a necessidade de uma observação mais atenta
para o que estava no exterior desse sistema: as relações da utilização
concreta da linguagem com o contexto sócio-histórico. Em outros termos, o
texto passou a ser um objeto não apenas lingüístico, mas também histórico e
social.
O
“alargamento” do enfoque teórico dado pela Lingüística fez surgir, assim,
as diferentes propostas teóricas que passaram a conceber o texto, e não mais a
frase, como unidade de sentido. Algumas delas são: a Análise do Discurso, a Análise
da Conversação, a Pragmática, a Semiótica, etc.
Tomando a semiótica na sua
vertente francesa, representada por Greimas, tem-se uma linha de estudo que
enfatiza o “conceito de texto como objeto de significação e, por
conseguinte, preocupa-se fundamentalmente em estudar os mecanismos que engendram
o texto, que o constituem como uma totalidade de sentido. [...] A semiótica é
uma teoria geral dos textos, quer se manifestem verbalmente, visualmente, ou por
uma combinação de planos de expressão visando o verbal.”
(Fiorin:1994,164)
A semiótica vai, portanto,
trabalhar com o percurso gerativo de sentido, isto é, o processo de
entendimento por que passa o leitor, a partir do seu contato com a superfície
do texto - constituído por material verbal e/ou não-verbal. Em outros termos,
o processo gerativo refere-se à produção do texto; na análise tenta-se
recuperar, por meio da leitura, esse percurso que teria dado origem ao texto. A
semiótica será, portanto, o nosso fio condutor durante a análise dos
editoriais de jornal.
O corpus analisado constitui-se
dos seguintes jornais de circulação no Grande Rio: Extra, O Dia e O Globo - os
quais se vêem, há bastante tempo, envolvidos
no que poderíamos chamar de uma “guerra de discursos”.
Considerações
pós-análise. Foi muito gratificante ter realizado este trabalho de pesquisa.
As articulações verbais e não-verbais observadas ao longo da análise se
confirmaram em estratégias daquilo que chamei uma “guerra de discursos”.
Foi possível também desvendar algumas “artimanhas” argumentativas que compõem
o discurso jornalístico.
Sabe-se que não há discurso
argumentativo e discurso não-argumentativo, pois todos os discursos têm um
componente argumentativo - uma vez que todos visam a persuadir. E, para um
trabalho de persuasão bem feito, necessário se faz que o enunciador conheça
aquele com quem vai conversar, isto é, o enunciatário. O trabalho de aproximação
feito pelo enunciador dos jornais analisados favoreceu amplamente a construção
da identidade do enunciador pelo próprio enunciatário.
Antes
que uma notícia seja divulgada, vários dispositivos argumentativos são
acionados para fazê-la chegar ao leitor da forma previamente concebida pelo
enunciador - antes de ser vendida, a notícia é coletada e moldada de acordo
com as expectativas do público. O leitor, por sua vez, vai construindo a imagem
do jornal de acordo com o que este diz (o verbal) e exibe (o não-verbal).
A
forma de apresentar uma notícia está diretamente ligada à imagem e à opinião
que o leitor constrói da notícia e, portanto, do jornal. A opinião pública
é, assim, ideologicamente construída pelo jornalista, ou melhor, através das
palavras dele e devolvida ao leitor como fato “real”, “verdadeiro”. Por
isso costuma-se dizer: “É verdade... deu no Jornal Nacional”; “Eu li
n’O GLOBO...” - como se a opinião do público só passasse a ser verdadeira
quando apreendida pelo discurso jornalístico.
Identificado
o editorial como o “espaço” através do qual a “voz” do jornal é
projetada para o leitor, e sob a orientação da teoria semiótica, foi possível
observar o jogo argumentativo face a uma mesma notícia veiculada em três dos
jornais de maior circulação no Estado do Rio.
Durante
a leitura dos editoriais, percebe-se que as “estratégias” não se limitam
ao campo lingüístico. Há uma narrativa “contada” não apenas por
palavras, mas, também, por imagens que acabam se tornando parte integrante do
discurso. O discurso jornalístico, atravessado por signos de diferentes
naturezas, objetivou não só conquistar o leitor como também moldar a sua
opinião.
No
entanto, em sua tarefa de conquistar o enunciatário, o enunciador persuade a si
próprio, apresentando um discurso que reflete o pensamento, as aspirações
daquele. Num jogo de sedução envolvendo o verbal e o não-verbal, o enunciador
se revela um “camaleão” ao se transformar, no discurso, na possibilidade de
realização das expectativas do enunciatário. Dessa forma, o enunciador deixa
de ser o manipulador para ser o manipulado.
A
visão de mundo do leitor e a força argumentativa do jornalista se confundem
num movimento parafrástico não de volta ao mesmo dizer, mas de atualização
“ideológica” do dizer - só detectado quando a “lanterna” da teoria
semiótica é “ligada” sobre o texto-jornal. Assim foi possível compreender
a articulação dos diferentes signos no processo de geração de sentidos de
uma notícia.
BIBLIOGRAFIA
BARROS,
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FIORIN,
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LANDOWSKI,
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NEIVA
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TEIXEIRA,
Lúcia. A semiótica no espelho.