DIZER, LER E PRODUZIR: COMPARTILHANDO EXPERIÊNCIAS COM A UTILIZAÇÃO
DO JORNAL NAS SÉRIES INICIAIS DO ENSINO FUNDAMENTAL

 

Milka Helena Carrilho Slavez
Faculdades Toledo de Araçatuba-SP

UEMS- Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul- campus de Paranaíba

A utilização do jornal na escola tem se tornado bastante freqüente atualmente. Provavelmente, numa tentativa de melhorar sua prática pedagógica com essa “novidade, muitos professores apenas colocam as crianças diante do jornal e pedem para elas lerem, explicarem a notícia reproduzi-las, produzirem outras nos jornaizinhos escolares ou ainda recortarem letrinhas ou palavrinhas.

Espera-se com essa prática, incentivar o hábito da leitura de jornais, melhorar a capacidade de interpretação das notícias, levar a realidade para dentro da sala de aula, estimular a produção de texto e, talvez principalmente, formar leitores críticos.

Tudo isso é muito importante, sem dúvida, mas uma utilização inadequada do jornal poderá não atingir nenhum desses objetivos e ainda afastar a criança desse portador de textos.

Como qualquer outra iniciativa de inovação na área educacional, há que se conhecer bem o material com o qual se irá trabalhar, para melhor aproveitá-lo como recurso pedagógico.

Desse modo, “O estudo dos meios de comunicação de massa obriga a certos comportamentos: o tipo de reflexão, o modo de abordar os conhecimentos, uma atitude crítica, uma qualidade racional, que não poderemos passar para as crianças se não os experimentamos nós mesmos.” (HERR, 1988, p. 8-9).

Portanto, é fundamental que o professor conheça:

▪os “filtros” pelos quais as informações passam, até chegar até nós, para que seja possível refletir sobre a “imparcialidade” e a “objetividade” dos jornais;

▪os aspectos gráficos do jornal, as características peculiares a este portador de textos, bem como sua função social;

▪como utilizar adequadamente a imprensa na escola, para estimular a leitura, a escrita e aproximar o leitor do mundo.

Assim, como procedimento necessário para o trabalho com a imprensa, deve-se levar em consideração que, antes de tratar uma informação é importante saber quais são as representações que a criança faz dessa informação. Esse processo deve obedecer aos seguintes passos:

Dizer – escutar a história da criança, suas hipóteses, o que ela já conhece sobre o assunto.

rabalhar com a imprensa é uma oportunidade de a criança expressar seus sentimentos, sejam eles medos, angústias, tudo o que está relacionado com a sociedade. Porque em geral as preocupações que elas têm e que geram essas ansiedades, angústias e medo, são freios para a aprendizagem. Isso permite ao professor conhecer as representações que as crianças fazem sobre o mundo e trabalhar com elas no sentido de sua evolução.

Ler – baseando-se na silhueta do texto, a criança pode antecipar do que se trata. Outros símbolos como logomarcas, logotipos, cores, tipografia, também auxiliam na antecipação.

Quando a criança ainda não é uma leitora da imprensa e se encontra diante de uma situação-problema complexa, poderá contar em vários pontos de apoio, há diversas informações que ela já dispõe sobre o assunto, hipóteses corretas vão poder ser formuladas pela criança a partir de indícios formais que ela vai ver na imprensa, como, por exemplo, a diagramação do texto, basta isso para que ela possa deduzir o assunto de que trata o texto. O que está em torno – as ilustrações são também possibilidades e fontes de hipóteses para a criança. A foto jornalística tem um papel essencial neste processo porque tem uma analogia muito grande entre a leitura da imagem de imprensa com a leitura do texto. Tudo isso permite que a criança faça aproximações e leia apoiada nestas hipóteses.

Produzir – as competências de leitura eficiente propiciarão à criança ser capaz de transferir para a produção também eficiente.

O trabalho com a produção é fundamental porque progressivamente a criança vai se apropriar do funcionamento do língua vai começar a compreender como a língua funciona e também conhecer todas as engrenagens da comunicação. É nesse processo que ela irá perceber as influências que interferem na produção e assim adquirir uma visão mais crítica.

É indissociável ler e produzir.” (HERR, 1998). A apropriação da comunicação não se faz se não perceber os “filtros” existentes neste meio, é isto que faz com que a criança se torne mais crítica e busque mais dados na fonte. Por isso é necessário produzir para perceber como o processo de produção é permeado de uma pluralidade de pontos de vista e de várias outras influências exteriores.

Para o trabalho com a imprensa obter êxito, a prática deve ser muito bem planejada com programas de atividades para a turma, organizados em pequenos projetos. Vale ressaltar que a proposta aqui apresentada não tem a pretensão de transformar-se num modelo a ser reproduzido pelos professores e sim servir como referência para que outras experiências sejam desenvolvidas a partir de sua realidade, pois para que o professor utilize novas técnicas ele precisa conhecer bem as características do jornal, ter sensibilidade para fazer as adaptações necessárias de acordo com os interesses e curiosidades de seus alunos, e principalmente planejar como irá explorar o jornal. Ele necessita conhecer para avaliar até que ponto houve falhas na forma de desenvolver a atividade, e principalmente acreditar que as crianças são inteligentes e capazes. Somente assim ele poderá aplicar as sugestões de modo que elas tenham êxito.

Serão apresentados alguns temas que foram explorados a partir de planejamento feito detalhadamente, como se fossem mini-projetos voltados à especificidade de cada um dos componentes do jornal, tais como: Suportes de textos, Primeira Página, sobre Cabeçalhos, Classificados, Fotografias e vários outros. Estes mini-projetos foram elaborados a partir da seleção das atividades que já haviam sido agrupadas anteriormente, organizadas numa ordem que iniciava com investigação sobre o conhecimento das crianças sobre o tema que seria desenvolvido, apresentação de uma situação-problema para ser resolvida por elas consultando o jornal, atividades de sistematização do conhecimento construído e de reflexão sobre o que se descobriu. Trabalhou-se também com atividades que servem para desenvolver habilidades específicas para a localização da informação suscitada e atividades de produção de escritos relacionados ao tema explorado.                

Alguns exemplos serão apresentados durante a oficina. Poderão ser sugestões e ponto de partida para que outras formas de utilização do jornal sejam criadas pelos professores diante de sua realidade.

METODOLOGIA

Partindo da análise de jornais, de apresentação de atividades experimentadas com crianças das séries iniciais do Ensino Fundamental e da troca de experiências, busca-se na teoria contribuições que possibilitem conhecer melhor este portador de textos, bem como utilizá-lo de forma mais proveitosa no sentido de formar leitores de textos variados.

 

AVALIAÇÃO

Baseia-se na observação do interesse e na atuação dos participantes durante a oficina. Há também, uma análise da ação da monitora elaborada pelos participantes, através de um formulário próprio.  

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BIDDLE, Débora (org). Using newspaper in the classroom. Londres: The Newspaper Socity, 1990.  
FARIA, Maria Alice.  O jornal na sala de aula. São Paulo: Contexto, 1996.  
______________ . Como usar o jornal na sala de aula. São Paulo: Contexto, 1996.  
FOUCAMBERT, Jean. A leitura em questão.Porto Alegre: Artes Médicas, 1994.  
HERR, Nicole,  Aprendendo a ler com o jornal. Belo Horizonte: Dimensão, 1997.  
______________ . 100 fichas práticas para explorar o jornal na sala de aula. Belo Horizonte: Dimensão, 1997.  
PINTO, Manuel & SANTOS, Antônio. Utilizar criticamente a imprensa na escola. In: Cadernos públicos na escola. v.4. Lisboa, 1994.  
SANTOS, Antônio. Visita ao jornal – guia do professor. In: Cadernos públicos na escola. v.2. Lisboa, 1991.