FORMAÇÃO DE PROFESSORES: UMA BUSCA CONTÍNUA

 

Maria José Silva Ferreira1 e Patrícia Silva Ferreira.
Mestre em Educação, Professora do Curso de Pedagogia, Universidade Salgado de Oliveira (UNIVERSO), São Gonçalo, Rio de Janeiro. Doutora em Ciências Biológica (microbiologia), Professora do Programa de Pós-graduação, Centro Universitário Plínio Leite (UNIPLI), Niterói, Rio de Janeiro.

Apesar de tantas inovações tecnológicas levadas à sala de aula, o ensino nas nossas escolas, ainda está centrado na aquisição de conteúdos.  O professor continua sendo o centro do processo ensino – aprendizagem, visto como aquele que possui o conhecimento e sua tarefa é transmiti-lo aos alunos. Embora já faça parte do discurso escolar que não se aprende apenas na escola, a prática pedagógica revela a crença de que a aquisição de conhecimentos válidos passa somente pela escolaridade.

As Oficinas de leitura com textos de jornais como uma opção de leitura contextualizada, servem para que os professores do Ensino Fundamental explorem e criem situações pedagógicas que estimulem os seus alunos a compreenderem os fatos históricos, sociais e geográficos, partindo de assuntos que interessam aos alunos ou cujo interesse o professor seja capaz de suscitar. Tal leitura permite ao aluno se situar no caos do excesso de informações que nos chegam através da mídia – tanto no que diz respeito a fatos históricos importantes, como os pequenos acontecimentos que ocorrem no dia a dia, ampliando as suas possibilidades de aprendizagem, fugindo da leitura exclusiva do texto contido nos livros didáticos.

Oficina: “O professor-leitor: uma oficina com leitura de jornal, numa perspectiva multidisciplinar”

Esta oficina foi realizada com professoras que atuam efetivamente com turmas que vão da pré-escola, até a 4ª série do Ensino Fundamental de uma escola particular, de classe média, com turmas de 28 a 30 alunos.

Estas professoras, na sua maioria, já têm ou estão fazendo um curso Superior, e costumam realizar cursos de atualização oferecidos, muitas vezes, pela própria Instituição.

Ao selecionar os jornais que seriam usados na oficina, encontramos um assunto que estampou durante semanas seguidas todas as manchetes de jornais, produzindo notícias das mais variadas formas, que foi a questão do ”apagão”, ou seja, “o problema do racionamento de energia elétrica no nosso estado”. Pudemos então trabalhar com variados tipos de notícias que abordavam o tema das mais diferentes maneiras. Conseguimos, notícias que abordavam situações que poderiam ser trabalhadas em conteúdos de Português, Matemática, História, Geografia, Ciências, e outras, o que ajudou bastante para que os professores entendessem nossa proposta de trabalho.

Objetivos da oficina:

▪Despertar os professores para a importância da leitura dos textos de jornal na escola, pela  

facilidade de entendimento da sua linguagem e pela importância das notícias na aquisição de conhecimento e formação de opinião do aluno.

▪Chamar a atenção para a possibilidade de usar os textos de jornal para reforçar os conteúdos estudados em sala de aula.

▪Sugerir ao professor textos que podem auxiliar na preparação de aulas dos diversos conteúdos por ele ministrado.

Procedimentos da oficina:

Primeiramente separamos diversas notícias que apresentavam o assunto do momento: A questão do racionamento de energia elétrica. Após separar as professoras em pequenos grupos, entregamos a elas e solicitamos a cada grupo que criasse sugestões de atividades que pudessem ser desenvolvidas por elas em sala de aula e que contivessem os conteúdos que deveriam ser trabalhados na série que fosse escolhida por elas. Em seguida, cada grupo deveria apresentar suas sugestões de atividades para serem discutidas no grande grupo.

A resposta a essa atividade foi enriquecedora, uma vez que cada grupo passou a dar as suas sugestões de forma clara e objetiva, confirmando para todos nós que o uso do jornal pode ser feito em sala de aula sem maiores dificuldades para professor.

Apresentação das sugestões de atividades feitas pelos grupos:

O primeiro grupo apresentou sugestões de atividades para conteúdos de Língua Portuguesa a serem aplicadas em turmas de 1ª a 4a série do Ensino Fundamental.

A reportagem trabalhada foi: Uma luz na confusão. Como enfrentar o dia-a-dia do racionamento em família sem perder a lucidez.

(Jornal O Globo, seção Jornal da Família, 03/06/01.)

As atividades sugeridas foram:

Comparar algumas crônicas; Reescrever algumas crônicas; Realizar um debate para formar opinião sobre: as necessidades básicas de cada família; funções do governo: interesse público e dinheiro; valores humanos: solidariedade e união; pontos positivos e negativos do racionamento; Montar uma charge; Criar manchetes e títulos; Criar um jornal da turma. Tema para discussão: Os alunos irão debater sobre a necessidade da energia para cada família e de como cada um pode colaborar durante o racionamento instituído pelo governo.

O segundo grupo apresentou sugestões de atividades para trabalhar conteúdos de Matemática, com turmas de 1a a  4a  série do Ensino Fundamental.

A reportagem trabalhada foi: Aprenda a administrar o consumo doméstico. Com a calculadora na mão, conheça e corte seus gastos de energia. (Jornal O Globo, Seção Caderno Especial, 27/05/01)

Os professores sugeriram as seguintes atividades:

Trabalhar o tempo; horas, dias, meses, ano; Resolução de problemas envolvendo as quatro operações; Problemas de cálculo de porcentagem; Seqüência numérica; Sistema de numeração; Divisão e interpretação da moeda; Sistema monetário; Cálculo de perímetro, área e volume; Multiplicação por 10; 100 e 1000; Operações com sinais <  e  >.

O terceiro grupo apresentou sugestões de atividades para conteúdos de Ciências que podem dependendo do enfoque serem aplicadas em turmas de 1ª a 4a séries do Ensino Fundamental. A reportagem trabalhada foi: “Vamos construir uma pilha?” (Jornal O Globo, seção Globinho, 03/06/01)

As atividades propostas pelas professoras foram:

Os diferentes tipos de energia; O sol – fonte de energia; A energia solar e a sua necessidade para todo ser vivo; A energia química; A energia elétrica – energia usada nas moradias; A força da água; Como funcionam as turbinas da hidrelétrica; O choque elétrico; Os bons e maus condutores de energia; Repetir com os alunos a experiência ensinada na reportagem: “Vamos construir uma pilha”. Colocar como Tema para discussão, aproveitando o eixo da energia elétrica, falar sobre o aquecimento da Terra, a questão do desmatamento e conseqüentemente a falta de chuvas.

O quarto grupo apresentou sugestões de atividades para conteúdos de Geografia e História ou Estudos Sociais, e podem ser aplicadas em turmas de 1ª a 4a séries do Ensino Fundamental. Este grupo trabalhou com várias reportagens retiradas de três jornais diferentes; O Globo, O Dia e Jornal do Brasil, que enfocavam o problema do racionamento de energia em diversos estados brasileiros.

Atividades sugeridas a partir das reportagens:

Confecção de maquetes geográficas enfocando o racionamento:nos Estados; nas regiões; nas capitais;Localização espacial - utilização de mapas; Economia Geográfica nas regiões Sudeste, Centro-Oeste, Nordeste – a antecipação do horário de verão; A necessidade das chuvas nas regiões Sudeste, Centro-Oeste e Nordeste. Como Tema para discussão: Ao longo do processo é importante que o aluno perceba que ele é parte integrante deste contexto, e deve exercer a sua capacidade crítico-reflexiva frente às informações recebidas através das notícias.

O quinto (e último) grupo apresentou atividades que poderiam ser trabalhadas pela Educação Infantil, a partir das ilustrações sobre o apagão, mostradas no jornal.

As atividades foram:

Dramatizar situações da economia de luz no lar nos momentos de: tomar banho; sair do quarto e apagar a luz; uso do computador; deixar a geladeira aberta; deixar a televisão ligada por muito tempo; uso de lanternas; cuidados com velas acesas;

Sentido de colaboração: Como ajudar aos pais na economia da conta de luz?

Criatividade: Quem é o apagão? Vamos desenhá-lo?

Tema para discussão: Quem tem medo do escuro?

Trabalhar os medos.

Conclusões da oficina:

Ao término das apresentações, solicitamos que os professores emitissem alguma opinião sobre as atividades que haviam aprendido naquela oportunidade, e o grupo apontou as seguintes situações:

▪A leitura de jornal transforma o dia-a-dia da sala de aula tornando-o mais interessante e criativo;

                  ▪O jornal oportuniza ao aluno leituras que o incentivarão a buscar novas leituras;

▪A leitura do jornal proporciona ao aluno a possibilidade de conhecer, discutir, formar opiniões e fazer críticas conscientes sobre quaisquer assuntos;

▪A leitura facilita a comunicação entre eles próprios, na medida em que têm assuntos comuns para comentar;

                  ▪Além de ser um instrumento de atualização diária, a leitura de jornal permite que o leitor se mantenha bem informado sobre o que se passa no Brasil e no Mundo.

Cabe, portanto, ao professor usar a imaginação e permitir que o jornal invada sua sala de aula e proporcione aos seus alunos um aprendizado mais completo e consistente. Neste contexto, o jornal se torna mais uma opção para melhorar a prática pedagógica do professor, levando-o a trabalhar com mais entusiasmo e prazer. Reconhecem também que num processo em que o personagem principal é o professor, é necessária a conscientização de que só através de uma formação continuada será possível melhorar a qualidade do profissional de educação e fazer com que o seu trabalho ganhe credibilidade. Entendem todos que cabe a cada profissional deste segmento, avaliar-se sempre, buscando revitalizar sua prática para poder ser mais útil aos que dependem dos seus saberes.

Desta forma, todos esperam que as autoridades que fazem a Educação no nosso país dê prioridade a esses profissionais promovendo a melhoria da qualidade dos Cursos de Formação de Professores, para que os futuros mestres, sejam melhor preparados para enfrentar as exigências que as escolas  impõem ao professor hoje.

Ressaltamos que as pessoas com as quais lidávamos apresentavam idades, origens, experiências e oportunidades de aprendizagem em níveis diferentes, contudo, encontramos em todos a mesma boa vontade de levar às crianças possibilidades de uma aprendizagem mais eficaz e prazerosa a partir da leitura de livros infantis e de outros textos, inclusive os de jornais, porque passaram a crer que este é um caminho capaz de proporcionar um aprendizado mais eficiente para a criança.

Num processo em que a personagem principal é o professor, é preciso ter consciência de que a mudança na qualidade do seu trabalho será obtida com a realização de Cursos de Formação Continuada, por isso, a necessidade de incentivar a todos professores, a buscar sempre a auto formação, realizando cursos paralelos que lhes tragam novas possibilidades para que possa atuar melhor na sua função.

Quantos aos futuros professores queremos ressaltar a necessidade que têm de assumirem a responsabilidade com a sua própria aprendizagem, buscando realizar um curso de Formação mais preocupado com a sua aquisição de conhecimentos, pois esta preocupação lhe abrirá chances para que cresça e seja considerado um profissional responsável  e competente mas,  para isso, torna-se necessário que encare as situações de aprendizagem como um desafio importante a ser conquistado.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS  

FARIA, Maria A. de O. Como usar o jornal na sala de aula. São Paulo, Contexto, 1998.    
FARIA, Maria A. de O. O jornal na sala de aula (repensando a língua portuguesa). São Paulo, Contexto, 2001.  
FREIRE, Paulo. A importância do ato de ler em três artigos que se completam. 41a. ed, São Paulo, Cortez, 2001.  
GARCIA, Wladimir (org.). A Concepção de um leitor-produtor e o seu desdobramento na prática pedagógica. Cadernos, no 21, Florianópolis – SC: UFSC, agosto, 1994.  
GIL, Antônio Carlos. Métodos e Técnicas de Pesquisa Social. 5 ed., São Paulo: Atlas, 1999.  
LAJOLO, Marisa. Do mundo da leitura para a leitura do mundo. 6a. ed, São Paulo, Ática, 2000, p.16.  
LEITE, Regina Scarpa. Formação de professores: aquisição de conceitos ou competência? Revista do professor de Educação Infantil, nº 30. Brasília. MEC/SEF, 2000.  
SILVA, Ezequiel T. da. O professor e o combate à alienação imposta. 4a ed, São Paulo, Cortez, 2000.  
SOUZA, Maria do Socorro, et alii. Oficina uma construção coletiva. Revista de Educação AEC, Brasília, ano 23, no90, jan./mar., 1994.