O uso do jornal na prática pedagógica do professor de ensino fundamental

 

Maria José Silva Ferreira e Patrícia Silva Ferreira.
Mestre em Educação, Professora do Curso de Pedagogia, Universidade Salgado de Oliveira (UNIVERSO), São Gonçalo, Rio de Janeiro. 2 Doutora em Ciências Biológica (microbiologia), Professora do Programa de Pós-graduação, Centro Universitário Plínio Leite (UNIPLI), Niterói, Rio de Janeiro.

 

Segundo (Faria, 2001), é importante que se ensine ao aluno como selecionar fatos e organizá-los, analisando-os de forma crítica. As atividades com jornal permitem que se utilize o registro que convém à situação, e associado à leitura e à escrita, numa relação dialética, permite que  a  partir de uma leitura crítica, o aluno chegue à produção de textos sem interferência direta do treinamento gramatical ou da sistematização da língua. Neste contexto é que apresentamos as Oficinas de leitura com textos de jornais como uma opção de leitura contextualizada, que serve para que os professores do Ensino Fundamental explorem e criem situações pedagógicas que estimulem os seus alunos a compreenderem os fatos históricos, sociais e geográficos, partindo de assuntos que interessam aos alunos ou cujo interesse o professor seja capaz de suscitar. Nossa pesquisa foi sobre como as oficinas pedagógicas constituem um espaço coletivo de desafios, possibilitando o crescimento de professores e alunos, e a investigação foi feita a partir da visão de futuros professores, alunos do curso de pedagogia.

 

METODOLOGIA

A Metodologia constou de conversas diretas; entrevistas, aplicação de questionários; oficinas de leitura de jornais. Foram desenvolvidas ao longo do trabalho duas Oficinas Pedagógicas. Ambas constaram de atividades práticas de leitura de textos de jornais.

As turmas pesquisadas foram: 3º ano Normal de um Colégio Cenecista; uma turma do 3º período do Curso de Pedagogia - Capacitação em Serviço (com aulas aos sábados em horário integral) de uma Universidade particular.

Perfil do grupo de estudo

Questionário 1

Querendo explorar um pouco mais a questão da dificuldade ou desprazer pela leitura, apresentados pelos futuros professores, solicitamos que respondessem a um questionário. As perguntas foram feitas ao público-alvo num total de 65 pessoas. Os alunos do Curso Normal já atuam como professores de Creches Comunitárias, em Niterói, RJ. E aos alunos do curso de Pedagogia, em regime de Capacitação em Serviço, são professores em Escolas Municipais, das séries iniciais do Ensino Fundamental.

O primeiro questionário foi aplicado antes da oficina e teve por objetivo, colher subsídios para que se pudesse traçar um perfil do professor-mestre que naquele momento passávamos a conhecer. Para isso, solicitamos a cada um que respondesse ao questionário com respostas o mais completas possível. Iniciamos querendo saber o que eles liam e que apontassem suas preferências entre livros, jornais ou revistas; em que momento das suas vidas haviam despertado para a leitura; se compraram e leram algum livro no semestre e qual tinha sido;  se gostavam de escrever e o que tinham escrito recentemente.

Desenvolvemos, então, Oficinas Pedagógicas de Práticas de Leituras de textos de jornais, sugerindo atividades importantes, que além de uma prática prazerosa, as atividades servem para ajudar no trabalho do professor e do aluno-professor.

Questionário 2     

As perguntas foram feitas, após a primeira oficina, aos alunos já citados anteriormente.  O objetivo foi avaliar o nível de entendimento e participação dos alunos na oficina, bem como as vantagens e desvantagens deste tipo de trabalho.

 

Resultados

Diagnóstico preliminar do público-alvo (Questionário 1)

Analisando as respostas obtidas, verificamos que:

▪Cerca de 21% não gosta muito de ler e nem escrever, com receio de que possam ser criticados ou corrigidos. Algumas respostas relataram fatos desagradáveis que ocorreram quando ainda pequenos e foram severamente corrigidos tanto na leitura quanto na escrita, entretanto queriam ser professores e entendiam a necessidade de superar esses problemas.

▪38% dos alunos afirmaram que lêem apenas os livros com os quais trabalham ou os quais estudam (incluindo o material de pesquisa para o curso), justificando ser o tempo insuficiente, pois trabalham e estudam.

▪Apenas 22% afirmaram gostar de ler livros, jornais e revistas, além dos livros e textos obrigados pela escola. Quanto à escrita, até gostam e escrevem, embora tenham vergonha de mostrar o que produzem, por isso, guardam ou jogam fora .

▪19% afirmaram que gostavam de ler e escrever, mas consideram que para ser um bom profissional é necessário praticar todo tipo de leitura, pois só assim, terão prazer em “ouvir” seus alunos e orientá-los para que aprendam sempre mais através da leitura.

Recebemos esse resultado com certa surpresa, por achá-lo equilibrado se considerarmos que a resposta positiva,“gostam de ler” ou “lêem” é de aproximadamente 79%.  Esse resultado gerou expectativas positivas, pois o fato é que alguns alunos não gostam de ler e não todos, como era a nossa impressão inicial.

 

Título da oficina: UMA EXPERIÊNCIA COM LEITURA DE JORNAL

 

Público: Alunos do 3º ano do Curso Normal e alunos do 3º Período de Pedagogia

 

Tempo da oficina:  4 horas

 

Local para realização: sala de aula, sala de leitura e  biblioteca

 

Objetivo da oficina:

Despertar o interesse pela leitura de textos de jornal, utilizando-o como instrumento de aquisição de cidadania e construção do conhecimento.

 

Procedimentos da oficina:

Iniciamos a oficina fazendo uma apresentação do jornal, analisando a sua importância enquanto veículo de comunicação atualizada, já que enfoca os fatos que acontecem no Brasil e no mundo; as suas diversas utilidades como: embrulhar, enxugar, proteger e ainda a necessidade da sua reciclagem para a economia do país.

Ressaltamos a importância do jornal por alcançar todas as classes sociais com suas notícias, ao mesmo tempo em que reconhecemos a efemeridade da notícia do jornal, pois com a rapidez dos meios de comunicação, como por exemplo, a Internet, um fato que é importante, agora, daqui a alguns momentos passa a ser notícia antiga, dando lugar a notícias mais novas.

Foram observadas também as diferenças entre a notícia de jornal e o noticiário, uma vez que ao ouvir a notícia no rádio ou na televisão, ela nos chega fragmentada, por causa da quantidade de informações que devem ser dadas em pouco tempo. Isso faz com que o ouvinte ou expectador perca muito na compreensão da notícia, enquanto que quando se lê o jornal, raramente os fatos são esquecidos.  Isso ocorre porque a leitura é muito mais eficiente quando se deseja entender alguma coisa.

Num segundo momento, solicitamos aos alunos-professores que se separassem em grupos a fim de manusearem os jornais disponíveis; desmontá-los; separá-los em partes, separarem as reportagens por assuntos; identificarem os textos literários e os não-literários; reconhecerem os autores; as notícias informativas sobre política, esportes, economia e outros.

Em seguida, sugerimos algumas atividades de trabalho com o jornal como estímulo, para que os alunos se interessassem por esse tipo de texto, visando a possibilidade de reproduzir esta prática na sua sala de aula.

▪Reconhecimento das partes do jornal.

▪Análise dos conteúdos da primeira página (pp).

▪Localização das notícias da pp e sua continuação nas páginas internas (pi).

▪Reconhecimento  das notícias mais importantes da primeira página.

▪Criação de um mapa das notícias durante uma semana sobre o mesmo assunto.

▪Localização em mapas dos locais de onde se originam as notícias.

▪Identificação das notícias pelos assuntos (política, saúde, religião, esporte, lazer, violência, conflitos armados, educação, etc.).

▪Comparação das notícias em vários jornais, separando-as por assunto.

Observávamos que à medida que os alunos liam e comentavam as notícias, eles não percebiam como toda aquela prática lhes dava prazer.  Queríamos que percebessem que poderiam levar aquela experiência para as suas salas de aula, na tentativa de incentivar a leitura no seu aluno.

Em seguida, pedimos para que se separassem, formando pequenos grupos para realizarem o trabalho que seria proposto. Primeiro eles deveriam escolher as notícias, de preferência que abordassem o mesmo assunto em dois ou três jornais. Após a leitura dos textos, solicitamos a cada grupo que montasse uma sugestão de conteúdos que pudessem ser trabalhados a partir dos textos escolhidos, nos diversas séries do Ensino Fundamental.

 

Cada grupo sugeriu os conteúdos que poderiam ser ensinados a partir da exploração dos textos que tinham em mãos.  Nesta prática, verificaram que podiam trabalhar com os textos de jornal envolvendo todas as disciplinas tais como: Ciências, História, Geografia (do Brasil e do Mundo), Matemática, Português, Filosofia, Sociologia, etc., e em todos os níveis do Ensino Fundamental. 

 

Conclusões da oficina:

Para concluir a oficina, cada grupo apresentou para o grande grupo, como seriam realizadas algumas das atividades de aula preparadas por eles. Houve troca de experiências e as atividades propostas foram realmente muito interessantes, por isso cada um se propôs a reproduzi-las em sala de aula.

Verificaram também as múltiplas possibilidades de uso dos textos de jornal, já que podem servir como sugestões de leituras que abrem possibilidades de abordagem para as diversas disciplinas ensinadas por eles.

Os futuros professores e professoras puderam comprovar que o jornal é realmente um instrumento de aquisição de conhecimento; na medida em que os assuntos são abordados de maneiras diferentes em cada jornal, e também é multidisciplinar, podendo-se numa mesma notícia, trabalhar conteúdos diferentes. Constataram pela prática que tanto a leitura e a escrita, como os diversos conteúdo a serem ensinados, podem ser trabalhadas explorando-se textos de jornal, fugindo um pouco dos livros didáticos.         

A Oficina foi realizada com sucesso, uma vez que os futuros professores nos deram a oportunidade de ver a possibilidade de realização de um trabalho prazeroso, e possível de ser realizado com bom proveito para o professor e o aluno, ao mesmo tempo em que surgia nova motivação para a realização da leitura na sala de aula, os resultados forma comprovados com o questionário 2, onde os professores relataram aquilo que observamos em sala.

Foi possível para o professor-aluno, de acordo com as falas nos debates em sala de aula e nas respostas dadas ao questionário 2, e com nossas observações durante as oficinas que nosso público-alvo foi capaz de construir um fazer pedagógico prazeroso e útil à construção do conhecimento, utilizando e reconhecendo o jornal como um material rico, barato e de fácil aquisição, e que ao mesmo tempo, é um canal transmissor de notícias, com uma leitura fácil de ser entendida por usar um registro coloquial ao alcance de todos, e que pode ser usado na sala de aula, como auxiliar no desenvolvimento da leitura, além de dar uma visão atualizada  de  tudo que ocorre no mundo.

Tivemos também respostas positivas quanto à validade deste tipo de trabalho com oficinas. Todos gostaram muito da experiência e confirmaram o que já haviam dito durante o encerramento das atividades, que reconheciam ser o jornal um material de muitas possibilidades de trabalho inclusive de forma multidisciplinar; que estavam satisfeitos com os resultados da aprendizagem e que repetiriam com seus alunos as atividades aprendidas na oficina.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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FARIA, Maria A. de O. O jornal na sala de aula (repensando a língua portuguesa). São Paulo, Contexto, 2001.

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FURTH, Hans G.  Piaget na sala de aula. Rio de Janeiro: Forense, 1970.

GARCIA, Wladimir (org.). A Concepção de um leitor-produtor e o seu desdobramento na prática pedagógica. Cadernos, no 21, Florianópolis – SC: UFSC, agosto, 1994.

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GIL, Antônio Carlos. Métodos e Técnicas de Pesquisa Social. 5 ed., São Paulo: Atlas, 1999.

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LAJOLO, Marisa. Do mundo da leitura para a leitura do mundo. 6a. ed, São Paulo, Ática, 2000, p.16.

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VYGOTSKY, L.S. A Formação social da mente: o desenvolvimento dos processos psicológicos superiores. São Paulo; Martins Fontes, 2000.