APRENDENDO COM A LEITURA DOS JORNAIS NA SALA DE AULA
Neyly
Maria Dias – PPGE/UFMT
Profa. Dra. Ana Arlinda de Oliveira - PPGE/GPLL/UFMT*
INTRODUÇÃO
Hoje,
menos tímida que há algumas décadas, a prática da leitura não se revela tão
incômoda, ao contrário, é a base de uma sociedade crítica e inovadora. Porém,
há muito que se fazer, de fato, para que o ato de ler se torne um prazer necessário.
Se as práticas pedagógicas caminham para uma tendência de valorização e
construção do conhecimento, então porque não usar o jornal na escola? Deste
modo, cabe ao professor a responsabilidade de trazer para a escola a experiência
do cotidiano em detrimento de uma concepção
educacional dominante que inviabiliza o conhecimento elaborado por meio
do ser-estar humano.
A
esse respeito PAVANI (2003) cita ASHEIM
(1956) que afirma :
(...)
ler é uma habilidade altamente desenvolvida; não é mera aceitação passiva
dos esforços dos outros. Não é de estranhar, portanto, que a quantidade de
leitura se correlacione em alto grau coma educação da pessoa; a pessoa precisa
ser educada para ser capaz de ler; e deve ter prática suficiente para ler bem.
A fim de ler com prazer e com facilidade, é necessário prática contínua,
exercício contínuo, contínuo aperfeiçoamento desta habilidade”.
Nesse
sentido, é necessário que a escola, a partir da leitura do seu papel social,
repense sua prática pedagógica na formação do leitor, em cujo espaço possa
criar metodologias de ensino que acreditem no homem como sujeito de sua própria
criação e não apenas um ser passivo de onde se retiram informações irreais
e inalteráveis. Nesta perspectiva, o jornal como veículo de informação é
sem dúvida um instrumento pedagógico, uma vez que “apresenta
um conjunto um conjunto dos mais variados conteúdos, preenche plenamente seu
papel de objeto da comunicação....Levar jornais e revistas para a sala de aula
é trazer o mundo para dentro da escola”. (FARIA, 2003, p.11-12).
Deste
modo, investigar como ocorre a
leitura do jornal com alunos da 7ª série do Ensino Fundamental, por meio de
uma experiência em sala evidencia o propósito desta pesquisa.
*
GPLL – Grupo de Pesquisa em Leitura e Letramento
PRESSUPOSTOS
TEÓRICOS
A preocupação com a prática na sala de aula é um assunto
que vem inquietando teóricos e educadores ao longo do tempo, uma vez que é
evidente a indiferença e a rejeição pela leitura, principalmente entre os
adolescentes de todas as camadas sociais.
Sobre
o pensamento que ainda hoje prevalece na concepção do sistema educacional,
embora de forma não explicitada no discurso, torna-se necessário que a escola
repense sua prática pedagógica de formação do leitor crítico da e na
realidade que o cerca.
Durante
a leitura de um texto real o indivíduo estaria estudando a realidade,
compreendendo e, ao mesmo tempo, elucidando a sua forma de ser e suas
possibilidades de ação e questionamentos sobre o próprio ser. Isso me faz
lembrar FREIRE (1996) quando revela que a prática da leitura significa a
leitura da libertação de cada pessoa e de cada povo, o que significa que o ato
de ler não se resume em apenas conhecer, mas produzir e reconstruir novas idéias
e valores que este autor chama “leitura de mundo” que precede a
leitura da palavra” (1996,p.90), presente no cotidiano dos jornais e na vida
das pessoas.
Neste
caso, empresto a voz de (HERR,
1988, PG.11) quando afirma que :
“A
imprensa não é uma disciplina a mais. Ela é multidisciplinar, permitindo
atingir objetivos diversos: habilidades sensório-motoras, capacidades
sensoriais, capacidades cognitivas, evolução do comportamento, conforme
objetivos gerais da escola e de acordo com os objetivos específicos dos
diferentes níveis”.
Deste
modo, trabalhar o jornal no espaço escolar, além de explorar e respeitar os
conhecimentos que os alunos levarão para a escola despertará nos próprios
alunos o prazer e a necessidade da leitura e da escrita, possibilitando-lhe
maior reflexão e ressignificação de sua cidadania.
Para
ratificar esse pensamento retomo o posicionamento de (FARIA E ZANCHETTA,
2002,P.16), quando afirmam que “o exercício de definir as funções da
linguagem a partir de títulos é pertinente para estimular a sensibilibidade do
aluno quanto às intenções da palavra escrita. Isto comprova que a leitura
de mundo precede a escrita que, entre outros, insere - no repertório lingüístico
necessário para a evolução intelectual humana.
É
neste sentido que começo a investigar o jornal como recurso pedagógico, por
acreditar que além desta, bases teóricas de autores educadores como SILVA,
(1998), FREIRE (1996), (PAVANI (2002) e ROSING (2001), que ora as tomo
emprestadas, darão sustentação científica às indagações em torno da
utilização do jornal como referencial de leitura, capaz de transformar o
professor num conhecedor da palavra que possa oferecer ao educando a capacidade
de compreender o mundo que o cerca).
METODOLOGIA
Esta pesquisa está sendo desenvolvida com base no método de
pesquisa qualitativa - participante, por considerar o jornal como um elemento de
natureza interativa, exigindo um envolvimento entre o pesquisador e os
participantes nas atividades em sala de aula, propiciando maior aproximação do
objeto numa relação dialógica e cooperativa em torno do evento.
Além disso,
“A pesquisa – participante qualitativa supõe o contato
direto e prolongado do pesquisador com o ambiente e a situação que está sendo
investigada, via de regra, através do trabalho intensivo de campo, isto é, se
a questão que está sendo estudada é disciplina escolar, o pesquisador
procurará presenciar o maior número de situações em que esta se manifeste, o
que vai exigir um contato direto e constante com o dia a dia escolar” (LUDKE
& ANDRÉ, 1986, p.11)
OS
SUJEITOS E O CONTEXTO
A
categoria de sujeitos da pesquisa está representada por alunos da faixa etária
de 12 a 15 anos e pela professora habilitada em Letras que atua há 14 anos no
magistério.
O
critério essencial na escolha dos sujeitos deve-se ao fato de serem os que
trabalham a leitura específica do jornal enquanto instrumento de leitura e
produção textual.
Quanto ao contexto situacional, a pesquisa está sendo desenvolvida na Escola Pública Estadual de 1º e 2º Graus “Antônio Cesário F. Neto”, uma escola de médio porte, com 20 salas de aula que abriga um total de 2.229 alunos.
PROCEDIMENTOS
TÉCNICAS E INSTRUMENTOS DE PESQUISA
Observação
das aulas com produção de diário reflexivo; Intervenção em atividades;
aplicação de questionário semi-aberto; entrevista gravada (utilização do
questionário desenvolvido como parâmetro); fotografias de momentos
significativos.
CONSIDERAÇÕES
GERAIS
Em
linhas gerais, podemos afirmar que, apesar de tratar-se de uma pesquisa em
andamento, de acordo com a trajetória de leitura até aqui realizadas, a dimensão
sócio-histórica desenhada por um modelo que privilegia os interesses econômicos
em detrimento da incorporação intelectual na construção social influenciou e
cerceou significamente as práticas de leitura no Brasil.
Sobre
esse pensamento que ainda hje prevalece na concepção do sistema educacional,
embora não explicitada no discurso deste, podemos perceber que, ainda hoje, porém
menos contundente, resguarda uma herança sociocultural na qual se sobrepõem os
interesses econômicos a necessidade humana de se apropriar de suas faculdades
sensoriais, emocionais e racionais que só podem ser revelados no contexto de
uma leitura ativa, espontânea e participativa.
Assim
sendo, diante do desafio de resgatar o necessário prazer pela leitura,
investigo a importância das atividades de leitura do jornal
na sala de aula, uma vez que não só a leituras mas, principalmente, a
leitura de jornais pode ser considerada um instrumento de análise da realidade,
visão de mundo, experiência pessoal, uma vez que revela o cotidiano das
pessoas, de povos e de diferentes culturas. Essa experiência está sendo
constatada uma vez que nos permite a cada dia perceber que as atividades múltiplas
de leitura e produção de textos oferecidas
por esse suporte vêm revelando a criticidade e oralidade dos alunos, além
do envolvimento prazeroso com as atividades lúdicas.
BIBLIOGRAFIA
FARIA,
Maria Alice. O jornal na sala de aula – A organização de um jornal, leitura
crítica, redação escolar e linguagem de Imprensa. São Paulo, Contexto. 1996.
__________Como
usar o jornal na sala de aula. 8ª edição, (coleção repensando o ensino) São
Paulo: Contexto. 2003.
FARIA
& ZANCHETTA. Para ler e
fazer o jornal na sala de aula – São Paulo: Contexto: 2002.
FREIRE,
Paulo. Pedagogia da Autonomia – Saberes necessários á prática educativa,
Paz e São Paulo: 17ª ed. Paz e
Terra, 1996.
HERR,
Nicole. 100 fichas práticas para explorar o jornal na sala de aula. Tradução
de Márcio Venício Barbosa. Adaptação Jornalística: Ana Lagôa, 2ª edição.
Dimensão. 1994.
___________Aprendendo
a ler com o jornal. Tradução André luzayadio. Adaptação Jornalística: Ana
Lagoa, 2ª edição. Dimensão: Paris, 1988.
LUDKE,
Menga e ANDRÉ, Marli E. D. A. Pesquisa em educação: abordagens qualitativas.
São Paulo: EPU, 1986.
PAVANI,
Cecília ( org.) Jornal (in) formação e ação. (prefácio Ezequiel Teodoro da
Silva) São Paulo: Papirus, 2002.
ROSING
M. K.Tânia. A formação do professor
e a questão da leitura.
2ª ed. –
SILVA,
Ezequiel Theodoro
da. Criticidade e leitura: ensaios.
Campinas, São