O jornal Os Leais como mediador escola-bairro-centro num contexto de exclusão

Solange Moraes Barreto Borges
José Luiz Brolezzi

A educação é processo importante no contexto da existência humana. Ela é mediação fundamental para que os homens adquiram a sua legítima cidadania, integrando-se no universo do trabalho, da sociabilidade e da cultura. Por meio dela, eles devem transformar-se reivindicando uma atividade – de caráter físico e/ou intelectual – necessária ao seu sustento, à sua participa÷ão política, de modo a compartilhar das tomadas de decisão que alocam o poder na sociedade e à sua integração aos bens culturais, tornando-se, dessa forma, cidadãos.

É a Escola a instituição responsável pela formação desse ser humano íntegro, pois é nela que as atividades de leitura e de produção textual concretizam-se como parte de um projeto político-pedagógico instigante, que tenha como objetivo inquietar indivíduos e lugares, tirando-os da passividade e inserindo neles uma postura crítico-reflexiva.

Partindo desses pressupostos, elaborou-se o projeto Jornalendo cujo objetivo era o uso do jornal como um objeto pedagógico das professoras da Escola Estadual “Professora Thereza de Arruda Bailão”. A partir desse trabalho, surgiu a idéia de se fazer o jornal da escola, que acabou se transformando em jornal da comunidade do Bairro dos Leais, intitulado Os Leais.

Esse jornal passou a ser parte integrante da vida das crianças, pois elas mesmas quiseram contar e escrever as histórias do seu cotidiano e do passado do bairro, atrelando a essas histórias componentes geográficos, matemáticos, históricos, científicos e literários. Além disso, o periódico passou a ser um mediador entre escola-bairro-centro, num contexto de exclusão.

A Escola Estadual “Professora Thereza de Arruda Bailão” pertence a uma comunidade rural distante quinze quilômetros do centro do município de Serra Newra, no estado de São Paulo. Como tal, sua economia de subsistência é de base agrícola: cultivo do tomate, do café, de manga e de verduras e legumes. Seus alunos são moradores de sítios e fazendas, o que já os torna naturalmente isolados entre si e desprivilegiados em relação às outras comunidades da mesma cidade: sua via de acesso não é asfaltada, os meios de transportes são precários, a escola oferece apenas Ensino Fundamental/1º ciclo, o posto de saúde faz rodízio de médicos e o comércio é insuficiente.

Apesar desse quadro, a região possui uma memória histórica riquíssima. Por meio de suas fazendas com casario antigo, de velhas estações ferroviárias desativadas, de belos recursos naturais e de igrejas e capelas do início do século XX, as crianças puderam resgatar o passado para estruturar o seu presente histórico e a sua conseqüente inserção social. Todo o trabalho de resgate de memória, de mapeamento, de análise da biodiversidade, dos “causos”, da arquitetura, das artes e do turismo feito por alunos e coordenado por professores está sendo registrado, divulgado e agregado ao projeto.

O objetivo deste trabalho é apresentar o percurso seguido pelos professores-coordenadores e pelos alunos envolvidos na produção do jornal Os Leais, divulgando o próprio jornal, a comunidade e a proposta interdisciplinar, destacando os seus pontos positivos e negativos, mostrando como uma comunidade pode se organizar por meio dessa mídia e abrindo a comunicação para a troca de experiências entre aqueles presentes no Seminário.

Na verdade, a cidadania começa exatamente no momento em que uma comunidade e, dentro dela, cada ser humano, vai se construindo no tempo histórico e no espaço social em que está inserido. E, para dar sentido à sua existência, ele só dispõe de um instrumento que lhe dê as referências históricas de suas ações: o conhecimento. Só que o conhecimento não é algo abstrato, desvinculado de compromissos com a vida, ao contrário, ele é um equipamento para a ação e cabe ao professor, por meio do projeto político-pedagógico, mostrá-lo ao aluno.

A partir do momento que os alunos e os moradores se reconhecem como parte integrante de uma comunidade – no caso a dos Leais, na cidade de Serra Negra, no estado do Brasil – e dão voz às suas inquietações, mostrando o que têm a oferecer, suas ações direcionam-se para a sua própria transformação.