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  OFICINAS DE TEATRO DA UNATI-UNESP DE MARÍLIA: A IMPORTÂNCIA DA CRIAÇÃO DE PEÇAS TEATRAIS COLETIVAS ATRAVÉS DO LÚDICO, DA MEMÓRIA E DO INPROVISO.

Ana Paula Cordeiro - UNESP-FFC de Marília.


Introdução

O presente trabalho tem por objetivo apresentar os resultados de nossa pesquisa de doutorado realizada junto a 30 alunos participantes das Oficinas de Teatro da UNATI (Universidade Aberta à 3ª Idade)-UNESP, Campus de Marília, que pretendeu verificar e avaliar a importância da memória, do lúdico e do improviso no processo de criação teatral dos participantes. A pesquisa foi desenvolvida de 1999 a 2004.

O trabalho com as oficinas teatrais visou estimular os processos de criação dos alunos de forma lúdica e prazerosa, a fim de que estes participassem da elaboração de trabalhos teatrais, desde a concepção de histórias que poderiam se transformar em peças teatrais, passando pela criação de figurinos, sonoplastia, cenários, iluminação. Ou seja, ao participarem das oficinas, os alunos da UNATI experimentaram todo o processo de elaboração teatral de forma coletiva e dialogal. Especificamente, buscamos estimular com este trabalho a criação de textos coletivos dos alunos através de suas formas de ver o mundo, de suas lembranças, de sua cotidianidade. Desta forma, buscamos valorizar e resgatar as visões de pessoas idosas acerca do mundo em que vivem, através de suas criações artísticas, levando-as a tornarem-se criadoras pessoais de cultura, contribuindo para difundir o conhecimento e a arte em seus meios sociais.

Através das oficinas de teatro, propusemos jogos teatrais, exercícios improvisacionais, educação para o movimento, atividades que buscaram estimular as lembranças dos alunos, além de propostas de conversas em grupo, nas quais os participantes dialogaram sobre suas vidas, deram depoimentos e debateram sobre variados temas ligados às peças elaboradas por eles.

Nossa opção por trabalhar com indivíduos idosos se deu pelo fato de que há muito a ser discutido em relação às questões ligadas ao envelhecimento humano, à aprendizagem e aos processos de criação nesta fase da vida. Hoje há uma preocupação cada vez maior com a educação permanente das pessoas que envelhecem por parte de instituições de ensino, sejam elas públicas ou privadas, com o intuito de atender essa parcela da população em suas necessidades culturais e em sua busca por novos conhecimentos e atividades. Nesse sentido, intensifica-se cada vez mais a criação de programas de ensino e extensão universitários voltados para a terceira idade. Na UNESP (Universidade Estadual Paulista) esses programas recebem o nome de UNATI (Universidade Aberta à Terceira Idade).

As UNATIs da UNESP, assim como vários programas de extensão desse tipo existentes em outras universidades, possuem como principal característica a preocupação com a educação permanente de seus alunos, não havendo a emissão de diplomas ou a conclusão do processo caracterizada por formatura ou término de um curso universitário específico, como ocorre nos cursos de graduação. Na maior parte dos programas que norteiam os trabalhos das UNATIs o aluno pode freqüentar a universidade pelo tempo que considerar necessário.

Na UNATI-UNESP de Marília são oferecidas aos alunos palestras sobre temas variados às quartas feiras, cursos de línguas, como inglês, francês, alemão e espanhol, fisioterapia e várias oficinas, entre elas, as de teatro. Para participar da UNATI basta que o aluno tenha mais de cinqüenta e cinco anos e faça sua matrícula.

Ao tratarmos dos processos de criação teatral junto a pessoas idosas, devemos nos questionar a respeito do processo de envelhecimento humano. A forma como se dá o processo de envelhecimento, as possibilidades físicas, mentais e sociais não são as mesmas para todos. Inicialmente podemos dizer que a velhice, na sua qualidade de destino biológico, é vivida de maneira variável, segundo o contexto social. Há muitos fatores que interferem no modo como as pessoas envelhecem. A classe social à qual o indivíduo pertence e que lhe confere uma determinada posição no mercado de trabalho, que lhe dá sua visão de mundo, que determina, inclusive, suas lutas, seus anseios e seus hábitos é determinante também no processo de envelhecimento. O homem carrega as marcas de seu trabalho, das intempéries, do vivido.

Também não podemos esquecer que o ser humano é fruto de uma época, cujos contecimentos históricos marcam, de forma direta ou indireta sua vida. Portanto, ao tratar do envelhecimento humano, não podemos pensar num único modelo de velhice sem corrermos o risco de cair em reducionismos ou nas armadilhas das idéias estereotipadas. Acreditar que o tempo da velhice é simplesmente um tempo de declínio e de fechamento para o mundo é uma delas. Mesmo porque a realidade nos mostra que, cada vez mais, as pessoas que envelhecem buscam caminhos variados na tentativa de viver da melhor forma esse período da vida. Continuar estudando, aprendendo e vivendo novas experiências dentro do ambiente acadêmico faz parte das escolhas dos idosos.

Ecléa Bosi (1979) nos diz que as faculdades do ser humano, para continuarem vivas, dependem de nossa atenção à vida, do interesse que temos pelas coisas, de um projeto. Pondera que durante a velhice deveríamos estar engajados em projetos e causas que não envelhecem, que nos transcendem e dão significado ao cotidiano. Diz também que:


[...] a velhice é o momento de desempenhar a alta função da lembrança. Não porque as sensações enfraquecem, mas porque o interesse se desloca, as reflexões seguem outra linha e dobram-se sobre a quintessência do vivido. Cresce a nitidez e o número das imagens de outrora e esta faculdade de relembrar exige um espírito desperto, a capacidade de não confundir a vida atual com a que passou, de reconhecer as lembranças e opô-las às imagens de agora (1979, p.39).


Quando o idoso recorda, segundo Bosi (1979), há todo um trabalho de reflexão e localização, há uma inteligência do presente, referenciais do presente, que fazem com que uma lembrança não seja apenas uma repetição de um estado antigo, mas uma “reaparição”. Por esta razão, durante as oficinas, estimulamos questionamentos e proposições de problemas que exigiram do grupo novas formas de agir e de pensar, respostas rápidas para questões que precisavam ser resolvidas no palco, dando espaço a verdadeiras situações criativas, mas também estimulamos o recordar, o lembrar, as vivências e experiências dos alunos. Presente e passado contribuíram para a criação de textos dos alunos, num trabalho que buscou valorizar o passado à luz dos referenciais do presente, de maneira dinâmica, privilegiando o caráter lúdico do conhecimento.
Se falamos da importância do elemento lúdico em nosso trabalho, cabe-nos aqui esclarecer o que entendemos por lúdico e elucidar a sua importância para o mundo social. Johan Huizinga (1990) afirma que a civilização surge e se desenvolve através do jogo. Define jogo da seguinte forma:


O jogo é uma atividade ou ocupação voluntária, exercida dentro de certos e determinados limites de tempo e de espaço, segundo regras livremente consentidas, mas absolutamente obrigatórias, dotado de um fim em si mesmo, acompanhado de um sentimento de tensão e de alegria e de uma consciência de ser diferente da vida cotidiana (1990, p. 33).


O autor coloca que a noção que temos de jogo e a própria palavra jogo tiveram sua origem, não num pensamento lógico ou científico, mas sim na linguagem criadora. E é exatamente sobre a questão da linguagem que tratamos nesse trabalho. Através da linguagem do teatro, os alunos participantes das oficinas teatrais da UNATI-UNESP foram capazes de transformar depoimentos, diálogos, histórias orais em textos: jograis, esquetes, poemas, contos e peças teatrais. Foram elaborados textos individuais que muito contribuíram para a criação dos textos coletivos do grupo participante. Nossa pesquisa dedicou-se a analisar estes textos a fim de avaliarmos o quanto o cotidiano e as histórias de vida dessas pessoas estão refletidos em seus trabalhos.

As oficinas teatrais contribuíram para que as histórias dos participantes, suas visões de mundo e sua capacidade criativa viessem à tona através do lúdico, do jogo. Viola Spolin afirma que “qualquer jogo digno de ser jogado é altamente social e propõe intrinsecamente um problema a ser solucionado” (Spolin, 1992,p.5). Entendemos que o jogo teatral e a improvisação são imprescindíveis quando trabalhamos teatro com pessoas adultas, pois consideramos que quando o adulto dá vazão ao seu lado lúdico, quando joga, representa, quando deixa-se envolver pela brincadeira, ele revela muitas vezes seu caráter mais autêntico, despe-se da máscara de seriedade imposta por seus papéis sociais e mostra muito mais de si mesmo, que em quaisquer outros momentos do seu dia a dia. No palco, durante o jogo e a improvisação, somos levados a deixar de lado as resoluções, as posturas e decisões mais óbvias, pois nem sempre elas dão conta de resolver o que foi proposto. O adulto torna-se mais verdadeiro e mais espontâneo nesses momentos em que é chamado a criar.


Metodologia

Desenvolvemos nossa pesquisa com um grupo de 30 alunos participantes das oficinas de teatro da UNATI, observando e analisando sua trajetória, sua evolução em relação às propostas e objetivos deste estudo. Nossa meta era acompanhar o desenvolvimento da aprendizagem teatral desse grupo. Adotamos, para isso, uma linha metodológica de cunho qualitativo. Procuramos, dentro das abordagens qualitativas, algumas respostas em relação aos procedimentos a serem utilizados na pesquisa nas linhas da pesquisa–ação e pesquisa participante.
Thiollent define pesquisa-ação dizendo que ela é


um tipo de pesquisa social com base empírica que é concebida e realizada em estreita associação com uma ação ou com a resolução de um problema coletivo e no qual o pesquisador e os participantes representativos da situação ou do problema estão envolvidos de modo cooperativo ou participativo (Thiollent, 1986, p.14).


Quanto à pesquisa participante, Fals Borda nos diz que este tipo de pesquisa:


[...] responde especialmente às necessidades de populações que compreendem operários, camponeses, agricultores e índios – as classes mais carentes nas estruturas sociais contemporâneas – levando em conta suas aspirações e potencialidades de conhecer e agir. É a metodologia que procura incentivar o desenvolvimento autônomo (autoconfiante) a partir das bases e uma relativa independência do exterior (Fals Borda in: Brandão, 1983,p.43).


Podemos dizer que nosso trabalho se aproxima e dialoga com estes tipos de pesquisa, visto que o processo de observação do pesquisador em relação ao grupo deu-se de forma participante, através do diálogo, de propostas de atividades, da convivência grupal. Pesquisador e pesquisados, durante todo o desenvolvimento da pesquisa e da coleta de dados estiveram juntos, em constante processo de interação.

Desenvolvemos o trabalho de oficinas de teatro com os alunos da UNATI desde 1999 oferecendo atividades todas as sextas-feiras, no horário das 14 às 16 horas. O ano letivo começa no início de março e termina em dezembro, havendo férias de um mês em julho. Para participar das oficinas de teatro era necessário que o aluno estivesse matriculado na UNATI-UNESP e participasse das palestras oferecidas às quartas feiras pelo programa. Ao todo, cerca de trinta alunos passaram pelas oficinas de teatro de 1999 a 2004. Suas idades variaram entre 58 e 83 anos. A maioria dos participantes eram do sexo feminino: 26 mulheres e 4 homens. Mais da metade dos alunos possuía curso superior completo e o restante, no mínimo, o segundo grau completo. Dos trinta alunos participantes, treze alunas permaneceram no grupo dede o início do trabalho, contribuindo com a elaboração de todos os textos do grupo.

Quanto à nossa proposta em relação aos alunos que participaram das oficinas, salientamos que foi além do aprendizado de técnicas teatrais e da atuação no palco. Objetivamos que os participantes compreendessem em profundidade todos os aspectos que envolvem a arte de fazer teatro, desde a concepção de um roteiro para a elaboração de uma peça até sua representação num palco, através do jogo e do improviso. Também trabalhamos com propostas de exercícios que visaram valorizar o cotidiano, a memória e as histórias de vida das pessoas do grupo. Em nossa pesquisa nos interessamos em colher depoimentos e histórias dos participantes. Nosso objetivo ao colher esses relatos era o de conhecer mais profundamente o grupo e suas motivações, além de nos utilizarmos de memórias em relação a fatos, acontecimentos e histórias a fim de que estas pudessem contribuir para um maior entrosamento e interação entre os participantes do grupo e auxiliar nas construções e criações de seus trabalhos. Valorizamos as conversas e o diálogo, nos valemos das técnicas da história oral nos concentrando em obter depoimentos e relatos das vidas dos participantes.

Maria Isaura P. de Queiroz (1988) nos dirá que o termo história oral é amplo e recobre uma quantidade de relatos a respeito de fatos não registrados por outro tipo de documentação, ou quando se quer complementar o que já está documentado. Ela pode ser coletada através de entrevistas e registrar a experiência de um só indivíduo ou de um grupo de indivíduos de uma mesma coletividade. O depoimento pode ser definido, nas ciências sociais, como o relato de algo que o informante presenciou, experimentou, ou de alguma forma conheceu.

Nas oficinas, os relatos de fatos e momentos da vida dos participantes, assim como informações relevantes para um maior conhecimento do grupo e de sua realidade, foram colhidos, como já colocamos, em boa parte através de conversas informais, jogos teatrais e entrevistas não diretivas com os membros do grupo. Nosso interesse estava centrado em captar detalhes e acontecimentos relevantes das vidas dos participantes, principalmente em relação à profissão e ao ambiente familiar. Os alunos eram estimulados a escrever a partir de suas próprias experiências. Os participantes criaram textos individuais e coletivos, que serviram de alimento para as construções das peças do grupo. Os textos elaborados pelos alunos, tanto os coletivos quanto os individuais, constituíram-se em nosso principal material de análise, a fim de percebermos o quanto as oficinas, as conversas sobre o cotidiano e a memória contribuíram para os processos de criação dos participantes.


Resultados

Em nosso primeiro encontro com o grupo, que ocorreu no início de 1999, apresentamos nossa proposta de trabalho em relação às oficinas. O objetivo era desenvolver um trabalho no qual o grupo participasse de maneira efetiva não apenas em relação à atuação no palco, mas também construindo textos, elaborando as próprias peças que seriam montadas e encenadas pelos participantes. Para tanto, faríamos das oficinas um espaço para o desenvolvimento dos jogos teatrais, de exercícios improvisacionais e do diálogo. Falamos a respeito da importância de exercícios que, num primeiro momento, parecem não estar relacionados ao teatro, mas que estão ligados a um bom desempenho no palco, mesmo que de forma indireta. Os exercícios seriam importantes para que observássemos o uso da voz, o conhecimento e a ocupação do espaço cênico, o desenvolvimento de nossa capacidade sensorial, da atenção e da concentração nos momentos em que estivéssemos agindo no palco, da capacidade de improvisar e de responder rapidamente a uma situação imprevista ou a um problema proposto. As oficinas funcionariam, assim, como um aquecimento e um local de aprendizagem para que o grupo se conhecesse melhor e pudesse entrar em ação.

Num primeiro momento a reação dos participantes foi de resistência e de incredulidade quanto a serem capazes de escrever suas próprias peças. Consideraram a proposta difícil de ser desenvolvida. Procuramos tranqüilizar o grupo, dizendo que todo o trabalho desenvolvido seria o resultado de um esforço gradativo e que nada ocorreria de uma hora para a outra. Reiteramos que o mais importante em nossas oficinas seria o prazer envolvido em cada exercício, em cada proposta de ação. Dessa forma, depois de nossa primeira conversa, o grupo mostrou-se disposto a participar efetivamente das oficinas.

Falamos sobre a importância do improviso, da memória, da cotidianidade e do lúdico como elementos desencadeadores dos processos de criação dos alunos. Trataremos especificamente sobre como estes elementos contribuíram para o desabrochar da criatividade durante os exercícios das oficinas e nos textos coletivos elaborados pelo grupo.

Os exercícios de improvisação tornaram-se muito apreciados pelo grupo. Muitas cenas eram criadas sem a menor dificuldade a partir de uma palavra, de uma situação ou mesmo da junção de objetos. Improvisar num palco, segundo Spolim (1992), é possível a qualquer pessoa, desde que o ambiente propicie as condições para o intento. O chamado comportamento talentoso, para a autora, nada mais é que a capacidade que alguns indivíduos possuem de entregar-se ao ambiente, de envolver-se ao máximo com ele. E um envolvimento em todos os níveis: intelectual, físico e intuitivo. A autora nos diz que o aspecto intuitivo é geralmente negligenciado nos processos de aprendizagem. E não deveria, dada a sua enorme importância em relação ao ato de aprender. Ela salienta que todos nós, em algum momento de nossas vidas, encontramos uma resposta a um problema ou simplesmente “fizemos a coisa certa sem pensar” (p.3). A intuição nos faz transcender os limites do que nos é familiar, nos faz adentrar no desconhecido e por alguns instantes pode liberar o gênio que existe em nós. O intuitivo, segundo Spolin, só pode responder ao imediato, às situações que ocorrem no “aqui e agora” (p.3). Ele ocorre quando somos capazes de nos envolver com o mundo à nossa volta, que está em constante transformação. A autora nos diz que “quando a resposta a uma experiência se realiza no nível do intuitivo, quando a pessoa trabalha além de um plano intelectual construtivo, ela está realmente aberta para aprender” (1992, p. 3-4). Ela salienta também que existe um caminho para que o conhecimento intuitivo possa existir. O conhecimento intuitivo requer que o ambiente seja de espontaneidade, no qual as pessoas possam experimentar e agir com liberdade.

Nas oficinas, todos eram livres para aceitar ou não as propostas de jogos e exercícios. Na grande maioria das vezes, o grupo todo aceitava os desafios propostos. Os exercícios improvisacionais sempre foram apreciados pelo grupo, que resolvia com entusiasmo as situações que surgiam no palco e que requeriam respostas novas e imediatas. Para melhor elucidar esta afirmação, relataremos o exercício desenvolvido numa oficina ocorrida em 1999. Nessa ocasião, pedimos ao grupo que trouxesse de casa objetos de uso cotidiano. Pedimos que eles fossem colocados todos juntos, em cima de um móvel que ficava no palco. Em seguida, propusemos que cada participante fosse ao palco e escolhesse um objeto. Feito isto, a tarefa era a de criar uma história de vida para o objeto escolhido: onde ele foi fabricado, para que servia, como ele chegou às mãos de seu dono eram algumas das sugestões para a criação da história, mas cada um era livre para criar a história do objeto escolhido, acrescentando os dados que quisesse. Cada um dos participantes iria à frente e contaria a história do objeto, como se este tivesse vida e pudesse falar de si mesmo. Um dos objetos escolhidos por uma aluna foi uma sombrinha. A aluna foi à frente e emprestou sua voz ao objeto, contando a seguinte história: “Meu nome é Umbrella. Acho que nasci na Coréia, mas fui levada, ainda jovem, para o Paraguai. Um belo dia vim parar no Camelódromo de Marília e minha dona me comprou. Mas ela era muito distraída e me esqueceu no canto de uma loja de bijouterias. E essa agora! Eu tinha vindo de tão longe, atravessado o mundo e agora minha dona me perdia numa lojinha qualquer. Mas logo ouvi novamente a voz da minha dona: -Alguém por aí viu uma sombrinha? Ufa!”

Trabalhamos constantemente com exercícios que visaram desencadear lembranças e recordações importantes dos participantes, a fim de que estas pudessem nos levar a um melhor conhecimento do grupo e suscitar idéias para as criações teatrais. Em algumas oficinas fizemos uso de objetos pessoais, de valor sentimental para os alunos e de fotos, textos ou poemas, com o objetivo de suscitar essas lembranças e recordações.Relataremos, para exemplificar este trabalho, uma oficina ocorrida em maio de 2001, que teve como tema as “reminiscências” do grupo.

No dia 4 de maio, uma semana antes desta oficina que relataremos, conversávamos com as alunas a respeito de velhos “causos” contados pelos antigos, de histórias verídicas que se misturavam às invenções dos contadores de histórias. Resolvemos então, de comum acordo com o grupo, que a próxima oficina seria de reminiscências, nas quais as alunas (nesta oficina não houve a participação de alunos do sexo masculino) contariam algo de suas vidas, de suas lembranças, de suas habilidades. As alunas que desejassem poderiam trazer um texto por escrito, dramatizá-lo para as colegas ou poderiam simplesmente ir à frente e falar de improviso. Assim, a oficina do dia 11 de maio ocorreu carregada de reminiscências, de apresentações e leituras de textos e de histórias contadas no calor daquele momento. A aluna Lourdinha escreveu um texto que, pela sua beleza e densidade nos faz lembrar dos “Poemas dos Becos de Goiás e outros mais”, de Cora Coralina.

No texto de Lourdinha, visualizamos velhas paisagens e costumes, lugares e casas que talvez ainda existam em algum sítio ou fazenda perdidos pelo interior do Brasil. Sobre seu nascimento ela diz: “Tal como me contaram, eu nasci de parto natural e minha mãe de cócoras, ou melhor, sentada e escorregando num banquinho de madeira. Aos primeiros sinais de que eu viria ao mundo, meu pai (que saudades!) foi logo buscar a parteira, a Dona Zefa, que chegou com seu inseparável pito, fumando e balançando as saias. (...) Em pouco tempo cheguei ao mundo berrando como todos os bebês. Meu pai quando me viu, tomou-me nos braços e foi me mostrar para todos dizendo que a Estelita (nome da minha mãe) havia tido uma ‘coruja’. Imagine só! Uma coruja! Deveria mesmo só ter olhos, muito arregalados e curiosos, ávidos para ver o mundo e as pessoas ao seu redor.”

Ela descreve com muitos detalhes a casa antiga dos avós e suas redondezas: “Perto desta casa ficava o engenho de moer cana, onde se fabricava além do açúcar mascavo uma pinga muito boa, que era famosa na região”. Sobre seus gostos e preferências, relata que sempre gostou de representar. Lembra-se das festas e teatros da infância: “E os cirquinhos que as crianças armavam no fundo dos quintais, onde se pagava palitos de fósforo como entrada?” Relaciona a arte de representar à sua profissão: “E como professora primária a gente também não é um pouco artista?? Certa vez um aluno até me perguntou se eu havia trabalhado na televisão.”

No texto de Lourdinha, nascimento, família, casa, teatro e trabalho se misturam. Conta com detalhes o seu nascimento. Ecléa Bosi (1979) nos fala da importância dos velhos parentes, dos encontros que fazem com que o indivíduo relembre seu passado com um frescor que não existe na evocação solitária. Muitas das recordações que incorporamos ao nosso passado não são nossas, nos foram contadas por nossos familiares e depois lembradas por nós. Diz a autora que muitas de nossas idéias e lembranças


“[...]foram inspiradas nas conversas com os outros. Com o correr do tempo elas passam a ter uma história dentro da gente, acompanham nossas vidas e são enriquecidas por experiências e embates. Parecem tão nossas que ficaríamos surpresos se nos dissessem o seu ponto exato da entrada em nossa vida. Elas foram formuladas por outrem, e nós, simplesmente, as incorporamos ao nosso cabedal. Na maioria dos casos creio que este não seja um processo consciente” (Bosi, 1979, p.331).


Segundo a autora, existe um “lastro comunitário” (p.331) de que nos servimos para constituir o individual. Através das idéias do meio em que vivemos e de uma práxis coletiva, construímos nossos valores. É um processo cujas fases não são elaboradas conscientemente. Na fala e nos textos das alunas das oficinas de teatro da UNATI lembranças longínquas vieram à tona e podemos vislumbrar os ecos de um passado ainda mais distante, de vozes de mães, pais, avós.

No texto de Lourdinha há lembranças do nascimento, da casa dos avós, do engenho de moer cana, da fabricação do açúcar mascavo e da pinga boa, famosa na região. Lembranças suas ou lembranças incorporadas às suas pelos parentes, pela família? Não importa. Lourdinha sabe dessas coisas e fala delas com precisão de detalhes. Há também as lembranças da juventude, do trabalho, da alegria de ser uma professora “meio artista”. A sua visão em relação ao ato de ensinar entrelaça-se com o ato de criar. Ela liga o professor ao artista, e não ao sacerdote, como fazem muitas professoras aposentadas. Ser professor é ser artista, é inventar sempre um jeito novo de ensinar, de estimular os alunos, de motivá-los.

Nos trabalhos criados, percebemos o quanto o cotidiano dos participantes e suas visões de mundo, que se formaram nos grupos sociais, com a família, com o trabalho, surgem com nitidez e nos permitem conhecer melhor este grupo de pessoas. Os textos de Lourdinha e de outras alunas nos revelam isso. Eles tocam em assuntos de um cotidiano visto principalmente pelos olhos femininos, visto que uma das características marcantes do grupo era a presença majoritariamente feminina: dos trinta participantes, apenas quatro eram do sexo masculino. Os textos individuais foram todos escritos por mulheres. Os homens participaram mais dos trabalhos coletivos elaborados pelo grupo. Nos textos escritos pelas alunas do grupo encontramos assuntos relacionados ao cotidiano familiar, à preocupação com a educação dos filhos, à realização através da família, à participação e ao encontro com o outro. Há nos textos das alunas elaborados como exercícios de escrita nas oficinas temas recorrentes, como situações cotidianas envolvendo a família, a maternidade, a alegria de ser mãe, a dor da perda ou da separação de um filho. O texto de Iraci mostra bem todas essas preocupações: “Vida feliz! Ah! Sim! Crianças sadias e felizes! Bem vestidos, bem alimentados, inteligentes. Espertos, estudiosos, esforçados, cultos, prósperos! Sim... Vou trabalhar mais! Eles precisam! É, vou arrumar mais algumas aulas! Dobrar o período!”

Todo este trabalho de oficinas ocorreu de forma lúdica e prazerosa. Vários tipos de linguagens se entrelaçaram e deram forma aos trabalhos do grupo. Rubem Alves nos diz que:


As pessoas normais brincam com muitos jogos de linguagem: jogos de amor, jogos de poder, jogos de saber, jogos de prazer, jogos de fazer, jogos de brincar. Porque a vida não é uma coisa só. A vida é uma multidão de jogos acontecendo ao mesmo tempo, uns colidindo com os outros, das colisões surgindo faíscas. Uma cabeça ligada com a vida é um festival de jogos. E é isso que faz a inteligência (Alves, 2000, p.112).


Através das oficinas, nas quais propusemos diferentes tipos de atividades, os participantes criaram cenas, improvisaram no palco e elaboraram vários textos individuais e coletivos. Quanto aos textos individuais, a criação destes e as leituras e dramatizações dos mesmos funcionaram, num primeiro momento, como uma espécie de aquecimento para que o grupo perdesse o receio de escrever e de atuar. Assim como os outros exercícios e jogos ocorridos durante as oficinas de teatro, eles ajudaram a despertar nos participantes do grupo muito do seu potencial criativo. Mais importante até que os resultados dos trabalhos que culminaram com as apresentações das peças ao público, foi este exercício de criação constante, foi a aprendizagem teatral que aconteceu de forma descontraída e lúdica, através dos diversos jogos propostos.

Quanto aos textos coletivos, dos processos de criação ocorridos nas oficinas nasceram “Fragmentos da Vida”, “Os Italianos”, “Momentos do dia-a-dia”, “O cravo e a Rosa” e “Ditos, desditos e não ditos”, trabalhos do grupo que foram vistos por diversos públicos em diferentes ocasiões. Nestes trabalhos também constatamos a importância do improviso, das memórias, da cotidianidade e do lúdico nas criações dos alunos.

O primeiro desses textos, “Fragmentos da Vida”, homenageia os quarenta anos de existência da UNESP de Marília, completados no ano de 1999. O texto fala de construção, de vidas anônimas que ajudam a tecer as redes da trama social. Gente que faz história, que é esquecida e por vezes excluída. Mescla poemas de autores consagrados e de outros desconhecidos, como o relato de Virgília, aluna do grupo de teatro da UNATI e funcionária aposentada da UNESP que trabalhou por trinta anos na Universidade. Os poemas e o relato de Virgília são alinhavados pela fala das outras alunas. O grupo classificou o texto “Fragmentos da Vida” como um jogral.

“Os Italianos” e “Momentos do dia-a-dia” são peças curtas. A primeira narra o cotidiano de uma família de imigrantes italianos residente na cidade de Marília nos anos 30. A segunda trata do tema do preconceito contra a mulher idosa em diversas situações do dia-a-dia: em casa, no ônibus, na rua, em lojas, no trabalho. Já o texto de “O cravo e a Rosa” caracteriza-se mais como um roteiro para a realização de um trabalho performático. Este trabalho fala da infância e da juventude dos alunos do grupo de teatro nos anos 30 e 40 na cidade de Marília e diferencia-se dos demais pelo fato de utilizar-se mais da expressão corporal, do que de falas e diálogos. “Ditos, desditos e não ditos”, último trabalho coletivo do grupo, é uma peça de cerca de uma hora de duração que aborda de forma divertida e despretensiosa diversos ditos e provérbios populares. Enfim, os textos elaborados pelo grupo tratam de temas variados e por vezes são diferentes em relação aos formatos. Temos peças teatrais, roteiro e jogral. Mas há muitas coisas unindo estes trabalhos entre si. Consideramos que o elemento lúdico foi o elo, a chave que abriu as portas para a criação.

Falamos muito ao longo de nossa pesquisa em criação. Mas, o que é criar? Fayga Ostrower nos diz que:
Criar é, basicamente, formar. É dar uma forma a fenômenos que foram relacionados de modo novo e compreendidos em termos novos. Nas perguntas que o homem faz sobre o mundo e nas soluções que encontra, nas suas ações bem como na própria experiência do viver, o homem sempre forma (Ostrower, 1977, p.11) .


Criar, para a autora, é formar. Segundo ela, nos movemos entre formas. Recebemos inúmeros estímulos a cada momento e estes provocam em nós estados e sensações. Nós relacionamos alguns desses estímulos e, nesses relacionamentos, os percebemos. As formas de percepção não são gratuitas e os relacionamentos que fazemos não se dão ao acaso. Nós relacionamos os fenômenos entre si e os ligamos a nós mesmos. As relações que estabelecemos tem a ver com uma ordenação interior, com nosso ser mais íntimo. Diz a autora que:


Nessa busca de ordenação e de significados reside a profunda motivação humana de criar; trata-se de possibilidades do homem que correspondem a necessidades existenciais. Impelido a compreender, o homem é impelido a criar. Ele precisa ordenar os fenômenos e avaliar o sentido das formas ordenadas, precisa comunicá-lo a outros seres humanos através de novas formas ordenadas. (Ostrower,1977, p.11)


Se concordarmos com as considerações de Ostrower, podemos dizer que nossas criações têm a ver com nossas percepções, com nossas formas de ver o mundo. Para criarmos, estabelecemos relações entre os fenômenos e os ligamos ao nosso mundo interior. Ou seja, criamos a partir dos nossos referenciais e de nossas ordenações interiores. Nas criações do grupo, individuais ou coletivas, pudemos observar suas motivações para escrever, as formas como expressam o seu cotidiano e a presença das memórias da vida familiar e social, assim como do trabalho. Desde a escolha dos temas, passando pela pesquisa e elaboração dos roteiros, dos diálogos das peças, até os ensaios e a atuação no palco, além das conversas sobre cenários, figurinos, sonoplastia, o grupo encontrou formas próprias de relacionar-se, de trabalhar, dando forma à memória e à cotidianidade de cada um.

As lembranças dos participantes do grupo foram fundamentais para a elaboração dos textos coletivos. Histórias dos participantes, de suas famílias, de seu grupo social, de momentos históricos estão presentes em suas criações. Em “Fragmentos da Vida” encontramos o relato de Virgília sobre suas memórias enquanto funcionária da UNESP. Ela se recorda da aula inaugural, ocorrida em 1959 na antiga FAFI, um instituto de ensino superior isolado que foi depois incorporado à UNESP em 1976. Fala da revolução de 64, dos simpósios, dos alunos que conheceu. No período em que o grupo se reuniu para a elaboração do jogral, Virgília escreveu um texto longo a respeito das memórias de seu trabalho na UNESP. Este texto foi adaptado e ficou mais curto para fazer parte de “Fragmentos da Vida”.

Para a elaboração da peça “Os Italianos”, o grupo se reuniu inúmeras vezes, inclusive no período de férias da UNATI-UNESP para conversar sobre o roteiro. Algumas alunas, filhas e netas de italianos, compartilharam suas histórias com os colegas, ensinaram a pronúncia e a forma correta de escrever palavras em italiano e se recordaram de pessoas filhas de imigrantes que também poderiam contribuir fornecendo dados a respeito de antigos costumes de suas famílias. Gente que ajudou a construir a cidade de Marília, SP, juntamente com imigrantes de outras nacionalidades e migrantes de tantos cantos do país. Houve pesquisa sobre a imigração de famílias italianas para Marília também junto à Casa D’Itália, centro de cultura e de ensino da língua italiana na cidade.

No roteiro para a apresentação de “O cravo e a rosa”, os participantes resgataram as lembranças de antigos brinquedos: soltar pipa, rodar pião, jogar bilboquê, pular amarelinha, brincar de roda. Entre oficinas, jogos, improvisos e conversas, as memórias dos prazeres da infância e da juventude reapareceram fortes, carregados de emoção e vivacidade. A infância nos anos 30/40, a juventude nos anos 40/50. Os alunos Miguel e Venício se lembraram dos antigos “footings”: as moças caminhavam juntas, às vezes de braços dados, enquanto os rapazes ficavam encostados nos prédios da avenida principal da cidade olhando as moças passarem. Havia troca de olhares, pequenos flertes, sorrisos tímidos. Os bailes e os carnavais de antigamente, com suas músicas e cores, confetes, serpentinas e fantasias não foram esquecidos.

As lembranças também estão presentes na peça “Ditos, desditos e não ditos” desde a pesquisa e compilação de cerca de quatrocentos ditos e provérbios populares pelo grupo, até a criação das historietas baseadas em três desses ditos. Uma das alunas, Elza, possui cadernos repletos de ditos, provérbios e pensamentos de escritores, pensadores, filósofos e de anônimos, que foram utilizados para deles retirarmos idéias para a peça. Muitos dos ditos reunidos na pesquisa do grupo saíram dos seus cadernos, mas todos contribuíram com os mais diversos ditos. Eles eram levados ao grupo e lidos para que os conhecêssemos.
A leitura dos ditos ocorria de forma divertida e bem humorada. Alguns deles eram engraçados, outros carregados de lições de moral e de preconceitos. Uns, por vezes, contradiziam outros. Daí, inclusive, a inspiração para o nome da peça. Nesses momentos, algumas alunas se recordaram de ditos que eram como verdadeiros conselhos proferidos por suas mães, tias, avós. Lembrando dos ditos, lembravam-se também de histórias relacionadas a eles. Nas historietas criadas a partir dos ditos há até pequenas homenagens a familiares de participantes do grupo. A personagem Tita, por exemplo, recebeu esse nome em homenagem à avó de Urânia, aluna que interpretou a personagem na peça. A historieta baseada no dito “Visita sempre dá prazer, se não é quando chega é quando sai”, foi quase toda elaborada a partir de idéias e recordações de Lourdinha, aluna do grupo que interpretou a personagem Zefina. Toda a peça tem uma linguagem entrecortada por ditos e provérbios populares.

As lembranças dos participantes do grupo foram importantes não apenas em relação à construção dos textos, mas também para a montagem dos mesmos. Histórias, objetos antigos, fotografias, velhos discos e canções contribuíram para a elaboração de cenários, figurinos e sonoplastias. Na peça “Os Italianos”, o grupo conversou e pesquisou a respeito desses elementos, com o intuito de recriar no palco um cenário que fosse a sala de jantar de uma casa antiga e toda a ambientação de época. Algumas alunas recordaram-se das casas de suas avós, dos móveis, dos utensílios, dos velhos bibelôs. Móveis e objetos antigos, alguns com quase cem anos, fizeram parte do cenário da peça. Plantas do palco foram desenhadas a fim de que houvesse um estudo para que se encontrasse a melhor forma de colocação dos móveis e objetos no cenário. Fotos antigas dos anos 30 foram trazidas por algumas alunas para que as roupas das personagens ficassem bem caracterizadas em relação à época de que tratava a peça: o ano de 1934. Fotos de mães, pais, primas e irmãos, fotos importantes que guardam as memórias das famílias dessas alunas.

Para a montagem de “O cravo e a rosa” a aluna Elza trouxe velhos brinquedos, como bilboquê e peteca para o momento em que o grupo relembra no palco das brincadeiras infantis. O aluno Miguel contribuiu com a sonoplastia da peça trazendo discos com músicas de bailes antigos e velhas marchinhas de carnaval.

Na peça “Ditos, desditos e não ditos”, o cenário de uma das historietas é a sala de uma casa antiga. Mais uma vez as alunas do grupo contribuíram com seus móveis e objetos. A aluna Alzira levou o retrato de sua mãe para fazer parte do cenário, pois na peça as personagens Zefina, Maria, Luzia e Catarina citam várias vezes ditos e pensamentos atribuídos à falecida “Tonica”, avó das quatro na história. As alunas acharam então que já que a “vó” Tonica era citada na peça, poderia haver um retrato dela no palco. Assim, o retrato da mãe de Alzira passou a ser a avó Tonica, a fazer parte do cenário. E todas as vezes que uma das quatro personagens fazia citações à “vó”, elas olhavam ou apontavam para o retrato e ainda diziam: “_que Deus a tenha! Amém!” Outro objeto que tornou-se uma personagem à parte da peça foi um gato de louça trazido pela aluna Iraci. Segundo Iraci, o gato é um objeto muito querido, pois foi dado de presente por uma amiga. Na historieta baseada no dito “Visita sempre dá prazer, se não é quando chega é quando sai”, as personagens Zefina, Maria e Luzia são irmãs, moram juntas numa casa antiga de uma pequena cidade do interior e recebem a impertinente visita de uma prima de São Paulo, Catarina. A prima Catarina acha a casa das três ultrapassada e coloca defeito em tudo. Dos móveis aos objetos, nada escapa. Numa das cenas, Catarina pega o gato que faz parte do cenário como um enfeite da casa e faz uma careta de desaprovação ao olhar para ele. Depois coloca-o em cima de uma mesa, com cara de desprezo. Em outra cena, Gustinha, empregada da casa, vê o gato fora de seu lugar e o recoloca onde ele estava inicialmente. Nas três vezes em que a peça foi apresentada, o público soltou boas risadas com essas cenas. Nos ensaios, as alunas passaram a ter um carinho especial pelo gato de louça de Iraci. Gato de louça que fez parte da história do grupo.

A cotidianidade e as visões de mundo dos participantes surgiram através dos jogos, dos improvisos, das conversas e até mesmo na forma de construir os textos. Essas visões de mundo são formadas pelo meio no qual os indivíduos vivem, através dos mais diversos grupos sociais, pela profissão que o indivíduo exerceu ao longo da vida. Uma das peculiaridades do grupo, além da presença maciça das mulheres, é o fato de que pelo menos metade dos participantes atuou profissionalmente na área da educação. No desenvolvimento dos trabalhos percebemos o quanto essa variável foi importante na formação de um “jeito de ser” próprio do grupo.

Stano (2001) analisa as peculiaridades do envelhecimento de professores aposentados e nos diz que:


há, no professor/a velho/a, permanente traço e vestígio do/a professor/a que proferia palestras, que liderava grupos, que impunha disciplina, que selecionava conteúdos e que formava o outro com sua ação pedagógica (2001, p.56).


E ainda:

Ou seja, ao aposentar-se, o/a professor/a fortalece os seus laços com a profissão exercida utilizando-se de suas marcas, do que ficou e do seu olhar sobre o vivido, redefinindo-o para mantê-lo num projeto de existência (p.58).


A autora nos diz que o professor, mais que qualquer outro profissional que se aposenta, procura por atividades nas quais possa, de alguma forma, continuar em contato com aspectos de sua profissão. Profissão marcada pelo espaço público, pelo simbólico.

Pudemos constatar em nossas observações e conversas com o grupo, o gosto pela profissão na fala das professoras aposentadas. Lordinha escreveu em seu texto “Reminiscências”, que ser professor é ser um pouco artista. Elza contou várias vezes histórias relacionadas ao magistério, aos sacrifícios que o professor fazia para chegar às escolas rurais ou de difícil acesso. Sacrifícios recompensados pelo encontro com os alunos. Regina também nos contou a respeito das escolas rurais e da fazenda “São João do Nhema”, na região de Júlio Mesquita- SP, na qual por muitos anos exerceu o magistério alfabetizando crianças. O caminho para chegar à pequena escola era longo, mas compensado pelo carinho das crianças que corriam para abraçá-la à medida em que a avistavam na estrada de terra. Ruth foi professora de história, Nair de Educação Artística. Venício foi professor e também supervisor de ensino. Sempre havia algo a contar sobre as aulas, sobre o gosto pela profissão. Muitas outras histórias poderiam ser citadas. Mas queremos apenas ressaltar que a profissão do magistério esteve presente de forma marcante nas conversas e construções do grupo.

Observamos, por exemplo, que no processo de criação dos textos, havia um forte zelo para com a construção das frases, com as palavras. Havia também uma certa preocupação com a clareza dos textos, do que se queria transmitir. Pesquisa em relação a figurinos e cenários. Na peça “Os italianos” houve um enorme cuidado para que nas falas, nos figurinos e no cenário, tudo indicasse que se tratava dos anos 30 e não houvesse, em nenhum momento, alguma “gafe” nesse sentido, como um linguajar mais moderno ou objetos que não eram de uso na época.

Desta forma, através dos jogos teatrais, do improviso, das memórias e da cotidianidade, as criações do grupo ocorreram. Nas oficinas de teatro da UNATI-UNESP, os participantes encontraram um ambiente propício capaz de liberar comportamentos espontâneos, pois a autonomia e a liberdade de cada um sempre foram respeitadas.


Conclusão

Nesta trabalho, apresentamos nossa pesquisa que teve por objetivo verificar e avaliar a importância da memória, do lúdico e do improviso no processo de criação teatral de 30 alunos participantes das Oficinas de Teatro da UNATI (Universidade Aberta à 3ª Idade)-UNESP, Campus de Marília, entre os anos de 1999 a 2004.

Buscamos, através das oficinas teatrais estimular os processos de criação dos alunos de forma lúdica e prazerosa, a fim de que estes participassem da elaboração de trabalhos teatrais. Os alunos, através das oficinas, improvisaram no palco, dialogaram, participaram dos jogos teatrais, criaram textos individuais e coletivos, montaram espetáculos e os apresentaram a públicos variados em diversas ocasiões.

Desenvolvemos nosso trabalho com um único grupo e pudemos, assim, observar e avaliar seu desenvolvimento em relação à aprendizagem teatral. As oficinas de teatro, com suas propostas de jogos, de exercícios, propiciaram descobertas, constituíram-se em caminho para as realizações do grupo. Realizações e alegrias que foram compartilhadas com o público, com a coletividade. Criar coletivamente, ouvir o que cada um tem a dizer, exercer a autonomia e a liberdade com respeito às idéias e opiniões dos companheiros, viver na diversidade, descobrir-se também no outro: estes foram alguns dos desafios aceitos pelos participantes do grupo de teatro da UNATI-UNESP.

O ambiente das oficinas teatrais, permeado pelo jogo, pelo lúdico, propiciou aos participantes a oportunidade de manifestarem suas lembranças, de falarem de seu passado. Ecléa Bosi (1979) nos diz que a sociedade capitalista desvaloriza a lembrança e o vivido. A memória, que contribui para que o ser humano dê sentido à sua vida, é substituída pela rapidez e pelo imediatismo. Em nosso trabalho com as oficinas de teatro da UNATI-UNESP, propusemos exercícios e estimulamos conversas com vistas ao afloramento das lembranças e ao desenvolvimento da reflexão acerca da vida e das experiências dos participantes do grupo. As memórias uniram passado e presente, deram mais sentido ao cotidiano de cada um e estimularam as criações do grupo.

No palco da UNATI, as histórias dos participantes foram respeitadas, assim como o ritmo de trabalho e o tempo de aprendizado de cada um. Foi com enorme alegria que o grupo de teatro encarou cada apresentação de seus trabalhos ao público. No entanto, não houve apenas a preocupação com os resultados das montagens. O prazer do aprendizado teatral esteve presente nos momentos em que os participantes jogaram no palco, improvisaram, recordaram, escreveram e discutiram roteiros, ensaiaram, trocaram experiências.
Muitos estereótipos ligados ao envelhecimento humano foram desmistificados em nosso trabalho, como o de que a pessoa idosa tem mais dificuldade parara aprender e aceitar novos desafios. Pessoas que nunca haviam pisado num palco ousaram criar, escrever, atuar. Os participantes foram convidados a jogar e a criar e aceitaram o desafio.


Referencial Bibliográfico

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STANO, Rita de Cássia M. T. Identidade do Professor no envelhecimento. São Paulo: Cortez, 2001.
THIOLLENT, Michel. Metodologia da Pesquisa- Ação. São Paulo, Cortez, 1986.

 
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