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LEITURA DOS ALUNOS DE EJA: UM DIAGNÓSTICO A PARTIR DO TEXTO NARRATIVO

Eliane Aparecida Cerqueira Fonseca – Universidade Estadual de Santa Cruz – UESC

 1. Introdução

Codificar, compreender, interpretar e refletir sobre um escrito demanda um esforço muito grande daquele que precisa aprender e daquele que se propõe a ensinar. No processo de ensino-aprendizagem é preciso levar em consideração “o quê”, o “de quem”  e o “para quem” da leitura.

A contextualização, considerar a oralidade, as estratégias de leitura, usar os diversos gêneros textuais e muitos outros recursos que poderão contribuir para uma prática de leitura mais eficiente.

Geralmente, os alunos de EJA têm pouco domínio de escrita e da leitura, já que, muitas vezes, o tipo de trabalho ou as situações sociais das quais participam não favorecem o desenvolvimento dessas atividades. Sabe-se que esse fato, além de ser determinante para a sua exclusão sociocultural, torna-se um obstáculo para a sua aprendizagem.

Segundo Magda Soares os objetivos que cercam o ensino de leitura não ajudam a avançar.

“ (...) na escola freqüentada pelas classes populares.(...) a leitura se apresenta como uma necessidade para atender ao modo de produção das sociedades contemporâneas e para responder às exigências da cultura dominante, que se organiza , fundamentalmente, pela linguagem escrita. Saber ler ‘para arranjar serviço’ (...). Em oposição, alunos e pais de alunos das classes privilegiadas apontam a importância da leitura ‘como forma de lazer’(...)” (1995 p.48/49).

Assim, atendendo às classes dominantes, a escola atribui ao objeto de ensino de leitura a fruição, instrumento de circulação de conhecimento, como forma de participação social. Distanciando a classe popular desse objeto.Essa limitação, preocupa. A leitura é algo mais amplo e complexo assim como a constituição do sujeito-leitor. No entanto, é preciso considerar esse ponto de vista, conforme Orlandi esclarece: “(...) as classes populares têm uma finalidade pragmática(ler para se defender, eu diria), a classe dominante tem finalidade ‘construtivas’ (ler para dominar, eu diria) (...) é uma diferença que deve ser levada em conta nos métodos de leitura propostas” (1995,p.58).  

Espera-se que o aluno aprenda a ler não de acordo com um modelo (professor) mas que descubra, desvende, concorde, descorde com os vários sentidos que o texto lhe ofereça.

O problema que nos ocupa é: Os alunos de EJA do 2° segmento apresentam um perfil de sujeito-leitor? Em qual nível de ações e operações mentais os alunos apresentam  maiores dificuldades em Procedimento de leitura ?

O objetivo dessa pesquisa é identificar o nível de ações e operações mentais dos alunos de EJA do 2° segmento 5ª a 8ª séries do Ensino Fundamental em Procedimento de leitura.A hipótese é que os alunos de EJA apresentam  maiores dificuldades em Procedimento de leitura no Nível Global, pois é nesse nível que se encontram ações e operações mais complexas .  Ezequiel Theodoro explica : “As teorias clássicas na área da leitura explicitam três posturas distintas para um leitor na sua interação com os textos: o ler as linhas, o ler nas entrelinhas e o ler para além das linhas. Acreditamos que é exatamente esta terceira postura, a de ler para além das linhas que melhor caracteriza o trabalho de interlocução de um leitor crítico.” (1998 p.34).

2. Pressupostos teóricos

Conforme a consultora do MEC Maria Inês Fani,

“O processo do conhecimento passa pelo ‘saber fazer’, antes de ser possível ‘compreender e explicar’ e essa compreensão e a conceituação correspondente acabam por influenciar a ação posterior. Há, pois, uma fase inicial em que predomina a ação para obter êxito, seguida por outra, cuja característica principal é a troca constante de influência entre a ação e compreensão, ambas de nível semelhante e uma terceira em que a compreensão coordena e orienta a ação. Este processo é contínuo e culmina, numa fase posterior do desenvolvimento, com a ‘tomada de consciência’ dos instrumentos utilizados e das relações estabelecidas.” ( SAEB p.9,1999)

Assim, pode-se dizer que o processo de conhecer comporta um ciclo, pois a compreensão e a tomada de consciência dos instrumentos e das relações estabelecidas em um nível influenciam o fazer no nível seguinte. Desta forma, uma competência adquirida em um nível torna-se facilmente aplicável, com um saber fazer, no nível seguinte sem necessidade de maiores reflexões, dando origem, portanto, às habilidades instrumentais.

As competências cognitivas foram categorizadas em três níveis distintos de ações e operações mentais, que se diferenciam pela qualidade das relações estabelecidas entre o sujeito e o objeto do conhecimento: “Nível Básico, Operacional e Global” ( SAEB p.10/11,1999)

Do cruzamento entre conteúdo e competências resultam os descritores dos desempenhos desejáveis dos alunos; esses descritores, no seu conjunto, expressam a totalidade dos indicadores necessários para elaborar o material para a coleta de dados que situarão o nível de aprendizagem do aluno.

No Nível Básico encontram-se as ações que possibilitam a apreensão das características e propriedades permanentes e simultâneas de objetos comparáveis, isto é, que propiciam a construção de conceitos. Por exemplo, observar para levantar dados, descobrir informações nos objetos, acontecimentos, situações, etc...e suas representações. Para avaliar os Procedimentos de Leitura ao final do ensino fundamental os indicadores que correspondem às Competências Cognitivas do Nível Básico são:

  • Localizar informações num texto;
  • Identificar o tema/tópico central de um texto.

No Nível Operacional encontram-se as ações coordenadas que pressupõem o estabelecimento de relações entre os objetos; fazem parte desse nível os esquemas operatórios que se coordenam em estruturas reversíveis. Estas competências, que, em geral, atingem o nível da compreensão e explicação, mais que o saber fazer, supõem alguma tomada de consciência dos instrumentos e procedimentos utilizados, possibilitando sua aplicação a outros contextos. Por exemplo, classificar – organizar (separando) objetos, fatos, fenômenos, acontecimentos e suas representações, de acordo com um critério único, incluindo subclasses em classes de maior extensão. Para avaliar os Procedimentos de leitura, ao final do ensino fundamental os indicadores que correspondem às Competências Cognitivas do Nível Operacional são:

  • Relacionar uma informação identificada no texto com outras oferecidas no próprio texto ou em outro(s) texto(s);
  • Relacionar uma informação identificada no texto com outras pressupostas pelo contexto;
  • Utilizar informações oferecidas por um verbete de dicionário e/ ou de enciclopédia  na compreensão ou interpretação do texto;
  • Relacionar informações oferecidas por figuras, fotos, gráficos e/ou tabelas com as constantes no corpo de um texto.

No Nível Global encontram-se ações e operações mais complexas, que envolvem a aplicação de conhecimentos a situações diferentes e resoluções de problemas inéditos. Por exemplo analisar objetos, fatos, acontecimentos, situações, com base em princípios, padrões e valores. Para avaliar os Procedimentos de leitura ao final do ensino fundamental os indicadores que correspondem às Competências Cognitivas do Nível Global são: 

  • Depreender de uma informação explícita outra afirmação implícita no texto;
  • Inferir o sentido de uma palavra ou de uma expressão considerando o contexto e/ou universo temático e/ou estrutura morfológica da palavra (radical, afixos e flexões).

3. Metodologia

A seleção do texto levou em consideração a complexidade estrutural do texto, seu universo temático em função das características do aluno (sua idade, maturidade afetiva e intelectual e o nível de escolaridade) preocupando-se inclusive com a diversidade do domínio linguagem.

A pesquisa foi realizada com alunos atendidos pela Proposta Político Pedagógica Educação de Jovens e Adultos 2ª etapa (5ª e 8ª séries) do Ensino Fundamental da Rede Pública do Município de Ilhéus na Bahia. Um curso noturno com dois anos de duração para alunos com idade mínima de 15 anos na Escola Municipal do Banco da Vitória.

A 1ª fase tem a duração de um (01) ano e oferecerá  as disciplinas de: Língua Portuguesa, História e Geografia. No ano seguinte, a 2ª fase, oferecerá as disciplinas de: Matemática, Ciência e Inglês. Segundo a Proposta cada Centro de atendimento de EJA contará com atendimento individual aos alunos com dificuldades de aprendizagem em Língua Portuguesa e Matemática.

I - Quadro curricular do ano 2005 / Educação de Jovem e Adulto 2ª etapa = 5ª a 8ª séries

1ª FASE – 01 ANO

COMPONENTES CURRICULARES

CARGA HORÁRIA

SEMANAL

ANUAL

Língua Portuguesa

10

400

História

05

200

Geografia

05

200

Total

20

800

 

 

 

 

 

II- Quadro curricular do ano 2005 / Educação de Jovem e Adulto 2ª etapa = 5ª a 8ª séries

2ª FASE – 01 ANO

COMPONENTES CURRICULARES

CARGA HORÁRIA

SEMANAL

ANUAL

Matemática

10

400

Ciências

06

240

Inglês

04

160

Total

20

800

        

 

 

 

Assim, os alunos participantes da pesquisa pertencem a 1ª fase conforme quadro I.

           Foram elaboradas 30 (trinta) questões - 10(dez) questões de acordo com os indicadores de cada Nível: Básico,  Operacional e Global.

           O texto: “Caso de Chá” foi dado ao aluno para leitura silenciosa. No primeiro dia receberam o texto e um questionário com 15 (quinze) questões. Não houve intervenção ou auxílio durante a tarefa. A seqüência das questões seguiu a seguinte organização : as 05 primeiras pertenciam ao Nível Básico as 05 seguintes ao Operacional e 05 últimas ao Global.

           O número de participantes do primeiro dia foi maior que o segundo dia. Os alunos não foram avisados que continuariam a atividade no dia seguinte:

1° dia  33 alunos. 2° dia 23 alunos. Os alunos que não participaram dos dois dias não tiveram os resultados analisados. Portanto trabalhou-se com 23 questionários.

           O texto escolhido para testar os procedimentos de leitura é “Caso de Chá” de ANDRADE, Carlos Drummond de. Em anexo.

Questões para avaliar os procedimentos de leitura a partir das competências cognitivas do Nível Básico:

1.      Onde fica localizada a casa da velha senhora?

 Resposta esperada: Na encosta do morro

2.      Que paisagem pode ser vista da sua casa?

              Resposta esperada: O mar e o bairro todo.

3.      Para se referir à velha senhora, como o verdureiro a tratava?

Resposta esperada:  “Madame”

4.      Para se referir ao verdureiro como a velha senhora  o tratava?

 Resposta esperada: Inicialmente “senhor”  quando mais íntima “meu filho” 

5.    Qual a explicação que o verdureiro dá por ter utilizado todo o terreno?

Resposta esperada: O Chá saiu muito bom e os seus parentes lhe pede.

6.      Por que a velha senhora não utilizava para o seu consumo o chá plantado?

Resposta esperada: Não se senti bem tomando chás.

7.      Qual o conselho do verdureiro com relação ao consumo do chá pela velhinha ?

Resposta esperada: Não devia tocar no chá

8.      Depois da plantação de chá, qual é a atividade diária que passa a ter a velha senhora?

Resposta esperada: Passa a regar as plantas, com isso exercita-se mais todo o dia.

9.      Quem descobre que a plantação de chá trata-se de plantação de maconha?

Resposta esperada: O filho da Velha Senhora recém chegado da Europa.

10.  O texto “O Caso de Chá” aborda sobre que assunto?

Resposta esperada: Aborda de uma forma bem humorada sobre a plantação e venda de drogas.

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