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A
LINGUAGEM MATEMÁTICA COMO SÍNTESE DA FORMA E CONTEÚDO
DO CONCEITO
Anna
Regina Lanner de Moura – UNICAMP - lanner@unicamp.br
Nossas instigações
Este Grupo
de Comunicação traz reflexões sobre quatro pesquisas
que têm por referência pressupostos teóricos da formação
dos conceitos matemáticos discutidos no âmbito da Educação
Conceitual. O pressuposto que aqui abordamos é o que discute, segundo
Kopnin (1978), no estudo dos conceitos científicos, o problema
da linguagem enquanto meio de representação da realidade.
Isto é, se abordarmos a linguagem matemática, tomando apenas
o aspecto lógico-formal de seus símbolos o conceito não
é entendido como uma forma de representação da realidade,
como resultado da generalização de experiências da
vida diária, mas como um ente que tem vida própria e que,
por isso mesmo, não produz no sujeito que o aprende significados
dos movimentos de seu contexto. Na busca de abordagens que superem a limitação
dessa interpretação do conceito, essas pesquisas estudam
como a problematização dos nexos conceituais pode gerar
um espaço de (re)criação conceitual onde tenha lugar
a dúvida e discussões sobre elaborações conceituais
em linguagem natural de modo a ressignificar a linguagem formal do conceito.
A definição dos nexos conceituais tem referência na
dimensão lógico-histórica do conceito abordada por
Kopnin (idem), Davidov (1982) e Lima (1998). As pesquisas, apresentadas
neste grupo, estudam a elaboração dos nexos conceituais
de número natural, fração e álgebra quando
desenvolvidos em atividades de ensino em sala de aula. Em, "O conceito
de número natural enquanto linguagem a partir de episódios
de sala de aula", as autoras fazem uma análise interpretativa
das noções de número manifestadas por jovens e adultos,
em processo inicial de escolarização, quando envolvidos
em atividades interativas sobre os nexos conceituais do número
natural; em "Educação Conceitual e Educação
Algébrica nas séries iniciais", as autoras discutem
o desenvolvimento do pensamento algébrico de alunos do Curso de
Pedagogia de uma universidade pública de são Paulo; em "Forma
e conteúdo na linguagem matemática – um olhar sobre
a fração", as autoras estudam as características
de forma e conteúdo das elaborações conceituais da
fração, sob o aspecto da forma e conteúdo da medida,
de alunos de uma quarta série do ensino fundamental da rede municipal
de São Paulo; em "A ressignificação da linguagem
formal do sistema de numeração decimal", as autoras
investigam as características das reflexões de professores
em Formação Continuada que se baseou na combinação
entre atividade de ensino e dinâmica relacional, enfocando o aspecto
criativo da linguagem de sistemas de contagem.
O eixo comum
As pesquisas
deste grupo estudam o desenvolvimento conceitual de matemática
em sala de aula do ensino fundamental. O objetivo comum consiste em dar
movimento ao pensamento, linguagem e afetividade na atividade de ensino
dos conceitos matemáticos. Nessas, o conceito é entendido
como um dos movimentos do pensamento enquanto reflexo da realidade na
atividade humana. Por meio da atividade, o ser humano produz a si mesmo,
a realidade que existe em si, em forma de conceito e, é neste movimento
que produz o entendimento do mundo e de si mesmo e seu próprio
pensamento.
O homem constrói a sua história, construindo seu pensamento,
sendo uma das formas de sua manifestação, o conceito. Os
conceitos são idéias organizadas dedutivamente segundo as
quais o homem cria, dos objetos existentes, novos objetos, o conceito
tem existência abstrata, embora tenha sua origem na atividade prática
histórico-social dos seres humanos. A atividade humana é
a base desta produção, por meio dela, atribuímos
significado às coisas, aos movimentos e a nós mesmos. A
atividade é aqui entendida como a que concebe Leontiev ( 1988 ),
ações movidas por uma necessidade e organizadas, intencionalmente,
em vista de um resultado. Este resultado, assim concebido, nunca é
um objeto isolado, algo fragmentado de todo o movimento histórico-cultural
de produção da vida, mas neste movimento de se constituir,
integra e passa a integrar a cultura humana.
As ações que são movidas por funções
como alimentar-se, dormir, proteger-se e outras têm como resultado
produzir alimentos e abrigo. A produção do resultado é,
ao mesmo tempo, produção de conceitos cujos significados
são aliados à necessidade de origem e representados por
linguagens que comunicam esses significados. Os objetos, conceitos, significados
e linguagens, produzidos na atividade, constituem e dão vida à
diversidade cultural dos agrupamentos humanos. Quantos conceitos e suas
linguagens foram elaborados para, hoje, usufruirmos uma boa refeição
e quantos, para termos uma casa aconchegante!
São vários os níveis da atividade humana sobre a
realidade, várias são as formas do pensamento e uma delas
é o conceito. A que abordamos em nossas pesquisas, é a do
conceito científico.
Na escola, tratamos principalmente do conceito científico com o
objetivo de desenvolver seu pensamento e linguagem. Em nossa abordagem,
o conceito científico é destacado do conceito comum, mas
não em oposição a este. Pelo contrário, o
tem como base de significados, da mesma forma que para aprender outra
língua, a materna serve de suporte de significação.
O conceito de senso comum se forma pela generalização das
experiências da vida diária com aplicação de
recursos e representações que não são, necessariamente,
advindas da linguagem científica, o conceito científico
universaliza o conteúdo e a representação da atividade
própria do conceito, mas ambos nascem do movimento da atividade
humana que enquanto produz a realidade significada, produzir pensamento
e linguagem, produz cultura.
Nas considerações feitas até aqui, demos ao pensamento
a forma de conceito, a seguir destacaremos o aspecto da linguagem na tentativa
de fundamentar teoricamente a relação pedagógica
que instituímos como eixo de nossas pesquisas: desenvolver pensamento,
linguagem e afetividade ao aprender o conceito matemático.
Do conceito científico destacamos dois dos aspectos que lhe são
constitutivos: a forma e o conteúdo. Fundamentados em Kopnin (1978),
damos à forma o significado de linguagem representativa do conceito
e ao conteúdo o do movimento histórico de sua criação.
Aqui podemos destacar, também, uma dualidade de geração
mútua: as novas necessidades exigem novas formas para o conceito,
por sua vez, as novas formas exigem que se dê a ele novos conteúdos.
Deste modo, forma e conteúdo, linguagem e conteúdo do conceito
não estão em oposição, mas imbricados num
mesmo movimento da atividade humana que está na sua origem. O método
como arte de criação do conceito é o método
de sua aprendizagem. Dessa forma, se justifica uma das questões
que discutimos em nossas pesquisas, isto é, as possibilidades da
combinação dos dois aspectos, forma e conteúdo do
conceito de matemática, na atividade de ensino.
A forma do conceito matemático tem sua expressão nas diferentes
representações que lhe são atribuídas para
a comunicação de seu conteúdo histórico e
que chamamos de linguagens do conceito. O conteúdo histórico
do conceito matemático tem, hoje, uma linguagem própria,
diferenciada da linguagem natural ou materna. Enquanto esta tem configurações
singulares em cada agrupamento humano, territorialmente distintos, a linguagem
matemática é universal. A linguagem matemática se
forma segundo as regras próprias da lógica formal. Em busca
do rigor, ela se estrutura se destituindo da nebulosa contradição
da retórica da linguagem natural. É uma linguagem artificial
que pretende, pelo seu formalismo, decidir, sem margem a dúvidas,
se uma declaração é verdadeira ou falsa, (Chaitin,
2003). Dada essa sua natureza é a linguagem possível de
se transferir para máquina, é a linguagem de máquina.
Mas esta linguagem tão enxuta, tão universal que permite
declarar verdades objetivas e não sentimentos, vela e não
revela, por si só, o conteúdo histórico da matemática.
Todo o conceito, também, o matemático tem suas bases na
atividade prática do ser humano (Caraça, 2002), mas este
último se reveste de uma linguagem artificial que o torna um ente
existente, independentemente, da ação, um ente que não
requer mais os sentidos e nem a percepção para o entendimento
de sua alma, a axiomática.
Pode-se aprender o enredo lógico do conceito matemático
sem que se entenda o enredo histórico que lhe deu existência,
isto se sua aprendizagem for toda planejada somente sobre os aspectos
formais de sua linguagem. Mas, para aquele que se inicia nesta ciência
não se pode exigir uma aprendizagem neste nível de formalização
e o motivo é profundamente educacional, pois consistiria em criar
uma concepção de ciência fragmentada do próprio
movimento humano que a criou. Como diz Kopnin (1978), se considerarmos
o conceito científico apenas sob os aspectos da linguagem, o destituímos
de ser um sistema de representação da realidade.
O caminho
enxuto da linguagem numérica
Para nos
explicarmos melhor como poderíamos abranger, em sala de aula, a
complexidade forma e conteúdo do conceito, trazendo para dentro
deste movimento o aprendiz na totalidade de seu pensamento, do sensitivo
ao lógico formal, do subjetivo à objetividade formal, do
afetivo à máquina, propomos fazer este percurso para o conceito
de número. Estaremos vendo o movimento de constituição
da linguagem numérica e possíveis formas de abordagens de
seu método, no ensino da matemática, para as séries
do Ensino Fundamental.
Entende-se que o conceito de número não está nas
quantidades da natureza, mas no movimento do pensamento originado pela
atividade de controlar a variação dessas quantidades. O
conceito de número se constitui no movimento de administração
dos movimentos quantitativos da produção da vida.
Por meio da atividade, o ser humano constrói imagens abstratas
de suas ações antes mesmo de realizá-las com as mãos.
Usar uma quantidade de pedra como representativa de uma quantidade de
ovelhas advém da necessidade de administrar o movimento de variação
da quantidade de cabeças do rebanho. O pastor planeja e executa
a ação do fazer corresponder uma pedra a uma ovelha. Não
está nem na pedra e nem na ovelha ser uma correspondência,
é a mente humana que faz esta abstração ao combinar
esses dois elementos. Esta combinação dá ao monte
de pedra resultante um novo significado: o de ser uma quantidade equivalente
a de ovelhas. O antigo contador cria um objeto novo: o número pedra.
O significado nasce no campo do outro e se manifesta na comunicação.
A combinação de ações implica comunicação
e sob a tensão de comunicar ao outro, o conteúdo da ação
vai-se estabelecendo como uma linguagem ou como um movimento constante
e social de combinação de ações futuras, diz
Lima (1992). Se o pastor que conta com pedras o seu rebanho, apresentar
a um colega o monte de pedras que mantém guardado, dizendo-lhe
que ali está a quantidade de seu rebanho o colega poderá
lhe responder que não vê, ali, senão pedras. Na verdade,
se não lhe for comunicado o ato de fazer corresponder que deu às
pedras o significado de quantidade de ovelhas, ele poderá insistir
que continua enxergando somente um monte de pedras.
Lima (1992) considera que o homem, ao produzir, passa a lidar com um outro
aspecto da matéria: a quantidade que não é senão
um aspecto das qualidade que atribuímos ao objetos ou seja a intensidade.
Todas as coisas e seres que nos rodeiam - energia, água, terra,
ovelhas, ar, vacas, pessoas, cachorros, cadeiras, calor, distância,
etc. - possuem quantidade. Não existe nada sem quantidade. Portanto,
sentimos tudo que nos rodeia através de sua quantidade; existindo
em todas as coisas, a percebemos, através dos nossos sentidos.
Na pecuária o ser humano é obrigado a administrar o movimento
quantitativo dos rebanhos; na agricultura, administra o movimento quantitativo
das terras produtivas, do tempo, das sementes, da colheita. Na produção
de metais, ele administra o movimento quantitativo do calor, do mineral,
das unidades produtivas. Em todas as atividades produtivas, o ser humano
precisa administrar múltiplos movimentos quantitativos.
À medida que avança no domínio das quantidades, a
humanidade desenvolve a idéia de número e lhe dá
uma linguagem, o numeral, que passa a ser o símbolo que a expressa.
Dizemos que linguagem numérica é o conjunto de símbolos
e idéias que o ser humano vem criando para operar coletivamente
os diversos movimentos quantitativos que compõem a natureza humana.
À medida que o homem desenvolve sua produção, desenvolve
também a linguagem das palavras. Cada novo instrumento que cria
já nasce com um conjunto de linguagens que lhe serão próprias.
No mesmo espaço semântico da produção, nascem
tanto a linguagem das palavras quanto a linguagem matemática. É
a linguagem das palavras o terreno em que nasce a linguagem das quantidades,
ou mais especificamente, a linguagem numérica. Assim como a linguagem
numérica é determinada pela linguagem das palavras, a aprendizagem
daquela, tem como condição, a aprendizagem da linguagem
das palavras.
Com a linguagem das palavras, buscamos fazer surgir no pensamento do outro
e, ali, significar as imagens, palavras, gestos que queremos comunicar.
Como a linguagem matemática tem suas bases formadoras na linguagem
das palavras, pode-se dizer que a ação social humana, no
desenvolvimento da linguagem numérica, é mediada pela linguagem
das palavras.
Nascendo da linguagem das qualidades, diz Lima (1992), a linguagem numérica
se desenvolve em oposição a ela: cada salto seu é
produto da necessidade da sua diferenciação, e cada salto
na diferenciação é ocasionado pelo seu desenvolvimento.
Realmente, todo desenvolvimento da matemática acontece como processo
de diferenciação destas linguagens: é o esforço
humano para se liberar da linguagem das palavras, na lida com movimentos
quantitativos da vida, é o movimento da linguagem numérica
para se emancipar de sua origem - a palavra.
A matemática é a forma que o pensamento humano encontrou
para dar linguagem algorítmica, linguagem de sistema aos aspectos
quantitativos da realidade é a forma que lhe possibilita administrá-la
objetivamente, é portanto, uma representação desta
realidade na qual somos e nos fazemos seres humanos. Mas não está
somente na linguagem este poder algorítmico e mas, também,
no conteúdo histórico do processo humano que a desenvolveu.
Assim, se abordarmos o conceito matemático, de forma estreita,
somente sob o aspecto da linguagem, tomando apenas os símbolos
e outros meios que lhe servem de sinal, não se pode afirmar que
ela reflete o objeto, mas tomada em conjunto, incluindo o significado
dos sinais e suas relações, a linguagem constitui, indiscutivelmente,
um meio de representação da realidade.
O conceito matemático expressa seu conteúdo, na atividade
humana que lhe deu origem, pela linguagem da lógica formal, linguagem
que tem regras próprias, diferenciadas das da linguagem natural.
Essa linguagem não revela, por si só, mas vela todo o processo
da atividade humana que constituiu o conceito. Este, enquanto resultado
da atividade, encerra em si mesmo o movimento automotivador de sua aprendizagem.
Como está aprisionado pela linguagem, é preciso que seu
conteúdo ganhe movimento na atividade de aprendizagem.
Em Catalani (2002) podemos ver como as crianças, primeiramente,
atribuem à fração o conteúdo histórico
da medida e é neste movimento que dão significado de relação
parte/todo à representação que criam da medida da
“sobra” da operação com a unidade de medida.
Em suas criações libertam-se do “aprisionamento”
do número “inteiro” e atribuem aos objetos que contam
a qualidade de serem discretos ou contínuos.
Em Sousa (2004) a variável se liberta do “aprisionamento”
do “x” e do “y” e ganha o significado de movimento,
da dualidade permanência e fluência. Tudo está em movimento,
a variável atribui significado numérico dentro de um campo
de variação a esse movimento. Os alunos se libertam do número
físico como um administrador, sem sombra a dúvidas, de qualquer
movimento quantitativo.
Em Ferreira (2005) e Brito (1999), o número natural é construído
pelo fazer corresponder um a um e um a vários, pela criação
da idéia de equivalência. O pensamento numérico se
liberta de ser uma mera enunciação da seqüência
numérica e passa pela discussão da relação
do conjunto que conta e o conjunto contado.
Essas mudanças nos levam a afirmar que a aprendizagem do conceito
científico não consiste na mera transposição
da linguagem natural para a linguagem científica mas implica numa
mudança de compreensão da realidade. Se for ensinado apenas
do ponto de vista de sua representação não possibilita
a quem o aprende vivenciar esta mudança.
As muitas atividades que encontramos em materiais didáticos para
desenvolver o conceito de número na criança, sejam do número
natural, sejam do racional, centram a construção de significados
apenas nos aspectos perceptíveis de suas linguagens, como os infindáveis
exercícios de relacionar número à quantidade correspondente
de objetos, os de corresponder o número fracionário a partes
de figuras geométricas regulares, a partes de pizzas ou de barras
de chocolate e outros.
Nesta abordagem, o pensamento numérico fica restrito a uma visão
fragmentada das relações dos conjuntos numéricos
entre si e os outros conteúdos matemáticos como, a geometria
e a medida; e das relações com os movimentos qualitativos
e quantitativos da realidade. Pois, não é a forma isolada,
isto é a linguagem, mas o conteúdo histórico do conceito
que possibilita fazer essas conexões.
A dimensão
dialógica do pensar e dar linguagem numérica à realidade
A linguagem
é um fato social. Ela nasce num processo dialógico de produção
de significados. Um ser humano sozinho não produz linguagem. O
professor de matemática que enche a lousa de demonstrações
ou, ainda, de correções de listas de exercícios para
que o aluno repita, sem erro, tudo o que ele faz, não está
produzindo significados matemáticos com o aluno, mas pelo aluno.
É freqüente o aluno que acompanha com atenção
a demonstração na lousa dizer que enquanto acompanhava,
na lousa, pareceria entender tudo, mas assim que esta era apagada, era
como se tudo fosse apagado, também, de sua mente.
Se a matemática tem linguagem é preciso que seus significados
sejam desenvolvidos pelo aluno, num contexto dialógico. Nesse sentido,
assumimos nas pesquisas a dinâmica relacional indivíduo-grupo-classe
como fazendo parte do movimento do conceito em sala de aula.
As atividades de ensino dinamizam as ações de aprendizagem
de modo que o aluno possa pensar sobre os conceitos, num primeiro momento
individualmente; num segundo momento, com colegas de grupo e, num terceiro
momento, com o coletivo-classe, onde passa a discutir as sínteses
que elaborou com seu grupo de trabalho. É na discussão do
coletivo que será elaborada uma definição possível
do conceito em estudo.
Esse processo de discussão indivíduo-coletivo refaz a dinâmica
da comunicação na criação da linguagem humana.
As relações sociais determinam as linguagens e, por isso
mesmo, determinam também a linguagem numérica. A linguagem
das palavras nasce diretamente no terreno social e é nele que se
ancora, também, a linguagem matemática. A dinâmica
indivíduo-coletivo estabelece um acordo coletivo para tratar dos
significados da relação forma e conteúdo no conceito
matemático.
“A influência da linguagem sobre o pensamento constituiu um
fato para a ciência moderna que criou um sistema de diversas linguagens
artificiais, fato que dispensa demonstração” (Kopnin,
1978: 307). Para o autor, a relação dinâmica entre
conteúdo e forma do conceito gera dois aspectos interdependentes,
mas distintos deste: o do senso comum e o científico.
Quando a criança diz, nos episódios de sala de aula, discutidos
por Moura (1995), que medir é ler na balança ou na régua
o número que resulta de pesar um objeto, ou de colocar a régua
sobre um comprimento, ela está usando um conceito de senso comum
que se forma pelo uso das tecnologias da medição. Esta sua
formulação do conceito de medida, não é científica.
Mas, é esta formulação que possibilitará a
criança descobrir que medir não é o mesmo que contar
dedos, bananas e lápis. Vai descobrir que medir pode ser contar
dedos, mas sem “deixar buracos” entre um e outro, que medir
é contar passos, mas “passos de passeio que são sempre
iguais”. Essas expressões são criadas por crianças
em atividades que envolviam medir as distâncias que saltavam, num
jogo de “salto em distância”. Elas entendiam que medir
era ler um número na balança, numa régua e número,
para elas, vem da contagem de coisas, portanto quando lhes era sugerido
medir a distância saltada, sua primeira iniciativa era contar passos,
palmos ou pés.
No caso de medir a distância, a unidade de contagem não está
no espaço a ser contado, como acontece quando se conta dedos, cada
dedo sugere uma unidade. É preciso, então, estabelecer uma
unidade, o que precisará ser discutido com o grupo que vai realizar
as medidas. E, é nesta discussão, que a criança vai
percebendo que medir não é somente ler um número
em algum instrumento, mas que é preciso criar os elementos de contagem
para dar origem a este número. Percebem que medir é atribuir
um número a “coisas que se contam sem deixar buracos”,
pois as mãos que contam devem alternar-se uma adjacente a outra,
e que o objeto que conta deve ser repetido sempre idêntico a si
mesmo, pois o passo que conta deve ser sempre igual. Realiza, dessa forma,
sobre o conceito de senso comum que trazia, antes das atividades, novas
elaborações. Embora, essas ainda não tenham o status
de conceito científico, pode-se dizer que apresentam um “crescimento”,
em relação ao conceito inicial, na direção
do conceito científico.
O terceiro elemento de nosso eixo, a afetividade está na elaboração
intersubjetiva dos significados do conceito. A dinâmica indivíduo-coletivo
mobiliza o sujeito, da reflexão individual à discussão
coletiva, intersubjetiva de significados dos conceitos. Neste movimento,
está a possibilidade de instaurar-se, tanto em nível individual
quanto coletivo a tensão criativa. Espaço de sensações
e percepções que toma forma nas dúvidas e hesitações
sobre as elaborações conceituais, expressas em linguagem
corporal e afetiva. Estamos definindo a afetividade como o movimento de
atribuir linguagem aos sentimentos que afloram neste espaço criativo
do conceito. Em Brito ( 2002) e Ferreira (2005), evidencia-se este espaço
quando os sujeitos discutem que forma atribuir à base de contagem
de um sistema que deve abranger grandes quantidades. Para chegar a um
resultado o grupo discute, refaz, elimina hipóteses elaboradas
no momento individual. O centro deste acordo simbólico passa a
ser a argumentação e não juízos de valor sobre
o que foi produzido.
O que se tem percebido é uma tendência a valorizar, em qualquer
que seja o aspecto, a produção individual dos colegas. As
expressões que surgem no grupo de trabalho como: “pensei
muito e só consegui chegar nisto” (mostrando o sistema que
criou); “foi difícil chegar a este sistema e agora vejo que
não tem nada a ver”; “Será que juntando a idéia
deste sistema com a daquele (apontando para os sistemas de duas colegas)
a gente não chega a um mais completo?”; “tá
difícil criar um do grupo (a aluna fala depois de uma longa discussão),
mas se tirarmos sugestões dos sistemas que cada um fez, vamos conseguir
um mais completo o que vocês acham?”; são indícios
do momento coletivo de elaboração do conceito de um sistema
de contagem.
O respeito pelo que o colega produz, a argumentação pela
melhor produção, o solicitar a opinião do outro,
o reconhecimento dos limites da própria produção
e outros são os elementos afetivos presentes na negociação
dialógica de significados e criação de linguagem
numérica.
A elaboração coletiva deve ter sustentação
na individual e não suplantá-la. O indivíduo desenvolve
sua singularidade somente no movimento de significação coletiva
de sua produção individual e vice-versa, o coletivo só
se constitui como tal se potencializador das individualidades que o compõem.
É por isto que dizemos, anteriormente, que o professor que não
dá espaço, em suas aulas de matemática, a uma dinâmica
indivíduo-coletivo, não dá lugar ao movimento afetivo
da criação de linguagens, tornando suas aulas uma conversa
de máquina sobre os conceitos, tão fria, objetiva e igual
para todos quanto as gravações das secretárias eletrônicas.
Não há lugar para a produção individual do
conteúdo do conceito. Os conceitos assim aprendidos, não
necessitam de salas de aula para serem ensinados. Na sala de aula, está
colocada a exigência social do movimento de criação
do conceito, da produção de significados intersubjetivos.
A aprendizagem será completa se a abordagem permitir um desenvolvimento
combinado pensamento-linguagem-afetividade porque este é o movimento
humano de criação dos conceitos científicos.
Concluindo
As pesquisas que fizemos sugerem que é preciso muito mais do que
informar, repetir e aplicar os conceitos em exercícios para dar
vida e subjetividade à aprendizagem de matemática, é
preciso destituir-se do formalismo, do rigor da linguagem, da rigidez
das regras e deixar que as crianças se sintam desafiadas a terem
as suas elaborações. O cuidado com a relação
forma e conteúdo do conceito requer que a elaboração
da linguagem esteja intimamente relacionada ao significado do conteúdo.
Os conteúdos do conceito, o encontram na sua história, mas
o aluno para aprendê-lo deve dar a este, significados que lhe façam,
caso contrário, não o compreende, apenas o memoriza e o
repete de forma fragmentada de seu pensamento.
Conhecer o conceito somente sob o aspecto formal de sua linguagem não
é garantia de que o tenhamos em nossas subjetividades, como movimento
do pensamento, linguagem e afetividade para nos entender e entender o
mundo em que vivemos. Sem este movimento não nos apropriamos do
método pelo qual foi constituído: a medida que o ser humano
constrói pensamento sobre a realidade, desenvolve a si mesmo enquanto
resolvedor da vida.
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