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  O PAPEL DA LITERATURA NO ENSINO DA MATEMÁTICA

Frederico Reis Marques de Brito
Leni Nobre de Oliveira

Que motivo levaria um livro de narrativas árabes envolvendo curiosidades, enigmas e folclore da matemática a se tornar um best seller e transformaria o seu autor em um dos escritores mais bem-sucedidos e conhecidos dos brasileiros, um povo que, segundo pesquisas comprovadas se vangloria em assumir o seu desconhecimento sobre a matemática e confirma que esse tipo de pensamento é até uma forma de se declarar sanidade mental, uma vez que aprofundamento em matemática é coisa para doido? Como um livro não indicado normalmente nos espaços escolares e acadêmicos como O Homem que calculava atinge a sua 38ª edição, com uma média de dois milhões de exemplares já vendidos, após quase um século de encantamento de leitores dos mais diversos? Autor de uma obra extensa, o protagonista dessa façanha - Malba Tahan ou Julio César de Mello e Souza - escreveu 69 livros de contos e 51 de Matemática. Contra o ensino exclusivamente teórico e expositivo de sua época, Malba Tahan se levantou como um feroz crítico do professor de matemática que não ousava ser criativo. E denunciava: O professor de matemática em geral é um sádico. Ele sente prazer em complicar tudo.
O sucesso desse autor está numa fórmula simples e milenar de passar conhecimentos: o uso da literatura. Acreditando ser a literatura uma forma de linguagem com excelente poder catalizador do diálogo do homem consigo mesmo, com os outros homens e com o mundo que o rodeia, Malba Tahan propôs a manutenção do exercício de pensar a ciência, o conhecimento e as formas com que eles se estabelecem como uma rede de informações formada por narrativas alegres, prazerosas e cheias de ensinamentos dos mais variados. E isso há quase cem anos.
A necessidade de intermediar o ensino da matemática aos alunos de quinta à oitava séries, depois de um trabalho de pesquisa do Projeto Oficina da Palavra, em que observamos um evidente desinteresse por atividades ligadas a essa ciência , levou-nos à evidenciar a parceria entre matemática e literatura já presente de forma acanhada em nosso trabalho. Promovemos a utilização de textos metamatemáticos, principalmente os narrativos, além de leitura e produção de obras de arte plásticas e textos literários, para que esses alunos percebessem a utilização da matemática em variadas práticas humanas.
A partir do Projeto Oficina da Palavra, propusemos aos 496 alunos de 5ª a 8ª séries da Escola de Aplicação, subsidiada pela FEMM, a seguinte questão:

Ocupando o espaço abaixo, escreva para nós o que é matemática para você. Não se preocupe se você acertou ou não. Esse exercício não vale ponto e o mais importante para nós é que você escreva o que você pensa que é a matemática. Mas escreva o que você pensa de verdade!!!

Esperávamos, baseados em trabalhos e leituras anteriores oferecidos a eles, que tentassem elaborar um conceito para a matemática. Desejávamos estudar a pertinência de tais conceituações, o que discutiremos em outro momento. Aqui nos interessa alguns dados obtidos a partir da leitura das respostas dadas por eles, que podem ser resumidos da seguinte forma:


Resumo parcial das respostas obtidas da questão “ O que é a matemática”
Número total de alunos 496
Número de respostas recebidas 100% 240
Só definiram: 40% 96
Definição e Opinião positiva: 24,6% 59
Definição e Opinião negativa: 3,3% 8
Opinião positiva: 17,1% 41
Opinião negativa: 8,3% 20
Gostam quando aprendem: 6,7% 16


Essa questão proposta para os alunos propiciou-nos reforçar que as lides cotidianas para o ensino da matemática podem ser mais proveitosas e eficazes, se tornarem mais prazerosas. O prazer pode ser adquirido pelo aquisição do sucesso consciente da criança ou do adolescente acostumado a lidar de forma pouco produtiva com seu próprio erro e, muitas vezes, inconsciente das estratégias que o levaram ao acerto. Dos 496 alunos convidados a escrever um conceito para a matemática, apenas 48,3% se dispuseram a entregar a resposta, mesmo com as ressalvas presentes na redação da questão. E desses que responderam, 40% realmente atendeu ao propósito da questão: escrever sobre o que é a matemática. Desconsiderando a pertinência de tais conceituações, chamou-nos a atenção, o fato de 41,7% dos interrrogados se dedicarem a opinar positivamente sobre a matemática, e apenas 11,6%, negativamente, o que nos mostra, em primeiro lugar, a ansiedade do aluno em registrar um julgamento sobre sua prática e, em segundo lugar, uma porcentagem maior de respondentes que afirmam aceitação da matemática e o reconhecimento de sua importância. Nessa mesma coleta de dados, surpreendeu-nos a opinião de 6,7% dos respondentes de que gostam da matemática quando aprendem. É por meio desse dado que acreditamos ser pertinente pensar sobre a importância do uso da literatura e também de outras formas de expressão artística, para melhorar o contato com a teoria e a prática da matemática e de sua compreensão teórica. Obras literárias como Alice no País dos Enigmas, Matemática curiosa e divertida, Os números governam o mundo vêm sendo usadas por nós com sucesso, para auxiliar na aquisição do gosto e do prazer pelos conhecimentos ligados à matemática, para alunos de 5ª a 8ª série.

Partimos do princípio de que um dos usos culturais humanos que se apresenta como instrumento viável de interlocução para esse perfil de abordagem do conhecimento é a literatura, por seu poder transculturador e transmigrador dos saberes. Considerada perniciosa por Platão em sua República, pela sua incapacidade de representar de forma adequada o mundo das idéias, sendo um dos mais precários simulacros, é exatamente ela, a literatura, que propicia o discurso de Platão, a elaboração e simulação de sua cidade ideal, construída no diálogo e na narrativa. Toda a cidade (a república) e o discurso de Platão com que a elabora são simulacros porque são representados pelo signo lingüístico (a litera) de forma alegórica (ficcional) em que situações são simuladas pelo discurso literário, para que ele pudesse construir outro discurso, o filosófico. Dessa mesma forma, o discurso sobre a matemática vem sendo elaborado com bastante pertinência pelos textos narrativos, como no caso das obras de Malba Tahan, Apostolos Doxiadis, Simon Singh, Mário de Oliveira, G. H. Hardy e outros que têm auxiliado adultos a compreenderem um pouco mais sobre essa área do saber e sobre aqueles que com ela lidam.
Pensamos a interdisciplinaridade como uma solução para o problema da fragmentação do conhecimento, da perda da visão de conjunto da realidade e como propulsora de resultados eficazes, diante dos graves problemas de compartimentalização dos conteúdos, como é o que acontece no Ensino Fundamental. A matemática se dissocia dos outros saberes em que predominam as formas textuais verbais e passa a ser o espaço dos números, das fórmulas e dos sinais, um outro tipo de cifração da linguagem e da informação. Considerando informação enquanto inserção a partir de sua origem (in forma), é adequado raciocinar que negar ao aluno a intermediação dos mecanismos de compreensão dessas diferentes linguagens seria impedir-lhe, de forma injusta e desonesta, o acesso ao conhecimento a que tem direito.
Por isso, não se pode desprezar que, quando a apresentação textual antecede a sistematização das fórmulas e dos sinais, a compreensão dos significados dos eventos que geraram a formação do conhecimento matemático pode ser facilitada e melhorada e a literatura o faz de modo prazeroso. Nesse sentido, a interdisciplinaridade exerce um inestimável papel pela interrelação da literatura com a matemática.
É preciso reforçar que a formação das associações para um aprendiz consciente e interessado implica a retomada de conhecimentos prévios que vão contribuir para a produção de novos significados textuais. Quando não tem tais conhecimentos, o leitor cria associações limitadas, sente-se em desnível em relação ao texto e até o abandona por considerá-lo aborrecido e cansativo. Isso se dá com a aprendizagem da Matemática. O fato de 6,7 dos alunos indagados responderem que gostam de matemática quando aprendem, num momento em que a pergunta era o que é a matemática, leva-nos a pensar que a angústia diante da não compreensão dos conteúdos dessa disciplina se deve ao desconhecimento, muitas vezes elementar de informações históricas e processuais dos modos como se chegou à sistematização de regras, fórmulas, teorias e soluções matemáticas, que sempre estão relacionados a necessidades humanas de explicar o mundo ao seu redor ou solucionar impasses ligados a sua relação com esse mundo, modos esses pré-requisitos extremamente importantes, de cujo conhecimento as narrativas podem dar conta com excelente qualidade e adequação. A intertextualidade e a interdisciplinaridade são instrumentos coerentes para se pensar o texto, seja ele matemático, literário, informático, visual ou auditivo, se tomarmos texto enquanto tecido de informações a serem lidas.
Textos menos apelativos do ponto de vista estético formal, por lidarem com um discurso oficial, supostamente factual ou cifrado como é o caso do discurso matemático, oferecem menos fruição ao leitor do que o texto literário que, nesse ponto, é muito mais sedutor. Por isso, verdades, ensinamentos, sabedoria, conhecimento e ciência são intermediados por textos verbais, e de forma mais agradável e tranqüila do que por aqueles textos que envergam caráter informativo.
Esses aspectos apontados servem para manter a discussão sobre o papel da literatura como elemento de unificação do diverso, do disperso e do fragmentado modo de lidar com o conhecimento. Muitos outros aspectos latentes poderiam ser abordados, mas faz-se necessária a restrição. Para Weil, “a arte procura não só refletir em muitos aspectos a produção científica e tecnológica como também os materiais que são produtos da tecnologia científica.” Baseados nisso, percebemos que a arte pode lidar com efetividade com aspectos do saber matemático, oferecendo-se como catalizadora de fronteiras e transmigradora de saberes, por ser ponte transgressora dessas mesmas fronteiras, aqui em particular, a arte literária.
É possível pensarmos que boa parte daquilo que os alunos não conseguem entender das atividades teóricas e práticas no cotidiano da sala de aula poderia ser melhor trabalhado por meio das narrativas, tanto aquelas metamatemáticas, produzidas intencionalmente com esse objetivo, quanto aquelas que abordam sob a forma de curiosidades, folclores, poesias romances, anedotas, biografias e enigmas.
A literatura constrói seu sentido à revelia do discurso oficializado como científico, factual ou referencial e, nesse espaço esteticamente criado, ela, sem nenhum entrave, interlocuta com os demais saberes. Se Freud pode ser considerado um bom leitor dos textos literários, também um bom escritor, antes mesmo de ser um cientista, foi ainda aquele que criou uma ciência cujo mote do discurso tem, muitas das vezes, a construção dos modos de ser e de comportar humanos arquivados e observados nas narrativas míticas primitivas e em textos literários.
Vemos a literatura como uma espécie de pensamento elevado, dado seu grau de simulação de mundos e de interferência nos modos de ser e de pensar humanos. Sendo uma das mais antigas práticas culturais, principalmente pelo ato de narrar, de forma oral, escrita, por meio de encenações e de desenhos e pinturas deixadas pelos povos primitivos e remotos, constitui-se como instrumento de arquivo de história e memória, ao mesmo tempo em que reflete sobre o humano e não raro tem sido usada como forma de ensinamento nas várias modalidades do saber, por meio da representação do mundo. Por isso, sua capacidade de dialogar sem atropelos com a matemática oferece-se como espaço para a melhoria da qualidade da aceitação desse saber por jovens e adolescentes. Dessa forma, cremos que a leitura de obras metamatemáticas pode contribuir para uma formação mais sólida do profissional de educação e, conseqüentemente, dos pequenos aprendizes. Isso viabilizaria a esses profissionais a prática da indicação e discussão de obras metamatemáticas para as crianças, com contribuições proveitosas para a integralização dos saberes e para a formação integral do pensamento humano.

1. CHANGEUX, Jean-Pierre; CONNES, Alain. Matéria e pensamento. Trad. Luiz Paulo Rouanet. Sâo Paulo: UNESP, 1996.

2. DOMINGUES, Ivan ( org). Conhecimento e transdisciplinaridade. Belo Horizonte: Editora UFMG/IEAT/UFMG, 2001.

3. DOXIADIS, Apostolos. Tio Petros e a Conjectura de Goldbach: um romance sobre os desafios da matemática. Trad.

Cristiane Gomes de Riba. São Paulo: Ed. 34, 2001.

4. GALILEU. Maio, 1999, Ano 8, Nº 94.

5. TAHAN, Malba. O homem que calculava. 55ª ed. São Paulo/Rio de Janeiro: Record, 2001.

6. HARDY, G. H.. Em defesa de um matemático. São Paulo: Martins Fontes, 2000.

7. SINGH, Simon. O último Teorema de Fermat. Trad. Jorge Luiz Calife. São Paulo/Rio de Janeiro: Record, 1999

8. WEIL, Pierre et. alli. Rumo a nova transdisciplinaridade: sistemas abertos de conhecimento. São Paulo: Summus, 1993.

 
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