Que motivo levaria um livro de narrativas árabes
envolvendo curiosidades, enigmas e folclore da matemática a se
tornar um best seller e transformaria o seu autor em um dos escritores
mais bem-sucedidos e conhecidos dos brasileiros, um povo que, segundo
pesquisas comprovadas se vangloria em assumir o seu desconhecimento sobre
a matemática e confirma que esse tipo de pensamento é até
uma forma de se declarar sanidade mental, uma vez que aprofundamento em
matemática é coisa para doido? Como um livro não
indicado normalmente nos espaços escolares e acadêmicos como
O Homem que calculava atinge a sua 38ª edição, com
uma média de dois milhões de exemplares já vendidos,
após quase um século de encantamento de leitores dos mais
diversos? Autor de uma obra extensa, o protagonista dessa façanha
- Malba Tahan ou Julio César de Mello e Souza - escreveu 69 livros
de contos e 51 de Matemática. Contra o ensino exclusivamente teórico
e expositivo de sua época, Malba Tahan se levantou como um feroz
crítico do professor de matemática que não ousava
ser criativo. E denunciava: O professor de matemática em geral
é um sádico. Ele sente prazer em complicar tudo.
O sucesso desse autor está numa fórmula simples e milenar
de passar conhecimentos: o uso da literatura. Acreditando ser a literatura
uma forma de linguagem com excelente poder catalizador do diálogo
do homem consigo mesmo, com os outros homens e com o mundo que o rodeia,
Malba Tahan propôs a manutenção do exercício
de pensar a ciência, o conhecimento e as formas com que eles se
estabelecem como uma rede de informações formada por narrativas
alegres, prazerosas e cheias de ensinamentos dos mais variados. E isso
há quase cem anos.
A necessidade de intermediar o ensino da matemática aos alunos
de quinta à oitava séries, depois de um trabalho de pesquisa
do Projeto Oficina da Palavra, em que observamos um evidente desinteresse
por atividades ligadas a essa ciência , levou-nos à evidenciar
a parceria entre matemática e literatura já presente de
forma acanhada em nosso trabalho. Promovemos a utilização
de textos metamatemáticos, principalmente os narrativos, além
de leitura e produção de obras de arte plásticas
e textos literários, para que esses alunos percebessem a utilização
da matemática em variadas práticas humanas.
A partir do Projeto Oficina da Palavra, propusemos aos 496 alunos de 5ª
a 8ª séries da Escola de Aplicação, subsidiada
pela FEMM, a seguinte questão:
Ocupando o espaço abaixo, escreva para nós
o que é matemática para você. Não se preocupe
se você acertou ou não. Esse exercício não
vale ponto e o mais importante para nós é que você
escreva o que você pensa que é a matemática. Mas escreva
o que você pensa de verdade!!!
Esperávamos, baseados em trabalhos e leituras anteriores
oferecidos a eles, que tentassem elaborar um conceito para a matemática.
Desejávamos estudar a pertinência de tais conceituações,
o que discutiremos em outro momento. Aqui nos interessa alguns dados obtidos
a partir da leitura das respostas dadas por eles, que podem ser resumidos
da seguinte forma:
Resumo parcial das respostas obtidas da questão “ O que é
a matemática”
Número total de alunos 496
Número de respostas recebidas 100% 240
Só definiram: 40% 96
Definição e Opinião positiva: 24,6% 59
Definição e Opinião negativa: 3,3% 8
Opinião positiva: 17,1% 41
Opinião negativa: 8,3% 20
Gostam quando aprendem: 6,7% 16
Essa questão proposta para os alunos propiciou-nos reforçar
que as lides cotidianas para o ensino da matemática podem ser mais
proveitosas e eficazes, se tornarem mais prazerosas. O prazer pode ser
adquirido pelo aquisição do sucesso consciente da criança
ou do adolescente acostumado a lidar de forma pouco produtiva com seu
próprio erro e, muitas vezes, inconsciente das estratégias
que o levaram ao acerto. Dos 496 alunos convidados a escrever um conceito
para a matemática, apenas 48,3% se dispuseram a entregar a resposta,
mesmo com as ressalvas presentes na redação da questão.
E desses que responderam, 40% realmente atendeu ao propósito da
questão: escrever sobre o que é a matemática. Desconsiderando
a pertinência de tais conceituações, chamou-nos a
atenção, o fato de 41,7% dos interrrogados se dedicarem
a opinar positivamente sobre a matemática, e apenas 11,6%, negativamente,
o que nos mostra, em primeiro lugar, a ansiedade do aluno em registrar
um julgamento sobre sua prática e, em segundo lugar, uma porcentagem
maior de respondentes que afirmam aceitação da matemática
e o reconhecimento de sua importância. Nessa mesma coleta de dados,
surpreendeu-nos a opinião de 6,7% dos respondentes de que gostam
da matemática quando aprendem. É por meio desse dado que
acreditamos ser pertinente pensar sobre a importância do uso da
literatura e também de outras formas de expressão artística,
para melhorar o contato com a teoria e a prática da matemática
e de sua compreensão teórica. Obras literárias como
Alice no País dos Enigmas, Matemática curiosa e divertida,
Os números governam o mundo vêm sendo usadas por nós
com sucesso, para auxiliar na aquisição do gosto e do prazer
pelos conhecimentos ligados à matemática, para alunos de
5ª a 8ª série.
Partimos do princípio de que um dos usos culturais
humanos que se apresenta como instrumento viável de interlocução
para esse perfil de abordagem do conhecimento é a literatura, por
seu poder transculturador e transmigrador dos saberes. Considerada perniciosa
por Platão em sua República, pela sua incapacidade de representar
de forma adequada o mundo das idéias, sendo um dos mais precários
simulacros, é exatamente ela, a literatura, que propicia o discurso
de Platão, a elaboração e simulação
de sua cidade ideal, construída no diálogo e na narrativa.
Toda a cidade (a república) e o discurso de Platão com que
a elabora são simulacros porque são representados pelo signo
lingüístico (a litera) de forma alegórica (ficcional)
em que situações são simuladas pelo discurso literário,
para que ele pudesse construir outro discurso, o filosófico. Dessa
mesma forma, o discurso sobre a matemática vem sendo elaborado
com bastante pertinência pelos textos narrativos, como no caso das
obras de Malba Tahan, Apostolos Doxiadis, Simon Singh, Mário de
Oliveira, G. H. Hardy e outros que têm auxiliado adultos a compreenderem
um pouco mais sobre essa área do saber e sobre aqueles que com
ela lidam.
Pensamos a interdisciplinaridade como uma solução para o
problema da fragmentação do conhecimento, da perda da visão
de conjunto da realidade e como propulsora de resultados eficazes, diante
dos graves problemas de compartimentalização dos conteúdos,
como é o que acontece no Ensino Fundamental. A matemática
se dissocia dos outros saberes em que predominam as formas textuais verbais
e passa a ser o espaço dos números, das fórmulas
e dos sinais, um outro tipo de cifração da linguagem e da
informação. Considerando informação enquanto
inserção a partir de sua origem (in forma), é adequado
raciocinar que negar ao aluno a intermediação dos mecanismos
de compreensão dessas diferentes linguagens seria impedir-lhe,
de forma injusta e desonesta, o acesso ao conhecimento a que tem direito.
Por isso, não se pode desprezar que, quando a apresentação
textual antecede a sistematização das fórmulas e
dos sinais, a compreensão dos significados dos eventos que geraram
a formação do conhecimento matemático pode ser facilitada
e melhorada e a literatura o faz de modo prazeroso. Nesse sentido, a interdisciplinaridade
exerce um inestimável papel pela interrelação da
literatura com a matemática.
É preciso reforçar que a formação das associações
para um aprendiz consciente e interessado implica a retomada de conhecimentos
prévios que vão contribuir para a produção
de novos significados textuais. Quando não tem tais conhecimentos,
o leitor cria associações limitadas, sente-se em desnível
em relação ao texto e até o abandona por considerá-lo
aborrecido e cansativo. Isso se dá com a aprendizagem da Matemática.
O fato de 6,7 dos alunos indagados responderem que gostam de matemática
quando aprendem, num momento em que a pergunta era o que é a matemática,
leva-nos a pensar que a angústia diante da não compreensão
dos conteúdos dessa disciplina se deve ao desconhecimento, muitas
vezes elementar de informações históricas e processuais
dos modos como se chegou à sistematização de regras,
fórmulas, teorias e soluções matemáticas,
que sempre estão relacionados a necessidades humanas de explicar
o mundo ao seu redor ou solucionar impasses ligados a sua relação
com esse mundo, modos esses pré-requisitos extremamente importantes,
de cujo conhecimento as narrativas podem dar conta com excelente qualidade
e adequação. A intertextualidade e a interdisciplinaridade
são instrumentos coerentes para se pensar o texto, seja ele matemático,
literário, informático, visual ou auditivo, se tomarmos
texto enquanto tecido de informações a serem lidas.
Textos menos apelativos do ponto de vista estético formal, por
lidarem com um discurso oficial, supostamente factual ou cifrado como
é o caso do discurso matemático, oferecem menos fruição
ao leitor do que o texto literário que, nesse ponto, é muito
mais sedutor. Por isso, verdades, ensinamentos, sabedoria, conhecimento
e ciência são intermediados por textos verbais, e de forma
mais agradável e tranqüila do que por aqueles textos que envergam
caráter informativo.
Esses aspectos apontados servem para manter a discussão sobre o
papel da literatura como elemento de unificação do diverso,
do disperso e do fragmentado modo de lidar com o conhecimento. Muitos
outros aspectos latentes poderiam ser abordados, mas faz-se necessária
a restrição. Para Weil, “a arte procura não
só refletir em muitos aspectos a produção científica
e tecnológica como também os materiais que são produtos
da tecnologia científica.” Baseados nisso, percebemos que
a arte pode lidar com efetividade com aspectos do saber matemático,
oferecendo-se como catalizadora de fronteiras e transmigradora de saberes,
por ser ponte transgressora dessas mesmas fronteiras, aqui em particular,
a arte literária.
É possível pensarmos que boa parte daquilo que os alunos
não conseguem entender das atividades teóricas e práticas
no cotidiano da sala de aula poderia ser melhor trabalhado por meio das
narrativas, tanto aquelas metamatemáticas, produzidas intencionalmente
com esse objetivo, quanto aquelas que abordam sob a forma de curiosidades,
folclores, poesias romances, anedotas, biografias e enigmas.
A literatura constrói seu sentido à revelia do discurso
oficializado como científico, factual ou referencial e, nesse espaço
esteticamente criado, ela, sem nenhum entrave, interlocuta com os demais
saberes. Se Freud pode ser considerado um bom leitor dos textos literários,
também um bom escritor, antes mesmo de ser um cientista, foi ainda
aquele que criou uma ciência cujo mote do discurso tem, muitas das
vezes, a construção dos modos de ser e de comportar humanos
arquivados e observados nas narrativas míticas primitivas e em
textos literários.
Vemos a literatura como uma espécie de pensamento elevado, dado
seu grau de simulação de mundos e de interferência
nos modos de ser e de pensar humanos. Sendo uma das mais antigas práticas
culturais, principalmente pelo ato de narrar, de forma oral, escrita,
por meio de encenações e de desenhos e pinturas deixadas
pelos povos primitivos e remotos, constitui-se como instrumento de arquivo
de história e memória, ao mesmo tempo em que reflete sobre
o humano e não raro tem sido usada como forma de ensinamento nas
várias modalidades do saber, por meio da representação
do mundo. Por isso, sua capacidade de dialogar sem atropelos com a matemática
oferece-se como espaço para a melhoria da qualidade da aceitação
desse saber por jovens e adolescentes. Dessa forma, cremos que a leitura
de obras metamatemáticas pode contribuir para uma formação
mais sólida do profissional de educação e, conseqüentemente,
dos pequenos aprendizes. Isso viabilizaria a esses profissionais a prática
da indicação e discussão de obras metamatemáticas
para as crianças, com contribuições proveitosas para
a integralização dos saberes e para a formação
integral do pensamento humano.
1. CHANGEUX, Jean-Pierre; CONNES, Alain. Matéria
e pensamento. Trad. Luiz Paulo Rouanet. Sâo Paulo: UNESP, 1996.
2. DOMINGUES, Ivan ( org). Conhecimento e transdisciplinaridade. Belo
Horizonte: Editora UFMG/IEAT/UFMG, 2001.
3. DOXIADIS, Apostolos. Tio Petros e a Conjectura de Goldbach: um romance
sobre os desafios da matemática. Trad.
Cristiane Gomes de Riba. São Paulo: Ed. 34, 2001.
4. GALILEU. Maio, 1999, Ano 8, Nº 94.
5. TAHAN, Malba. O homem que calculava. 55ª ed. São Paulo/Rio
de Janeiro: Record, 2001.
6. HARDY, G. H.. Em defesa de um matemático. São Paulo:
Martins Fontes, 2000.
7. SINGH, Simon. O último Teorema de Fermat. Trad. Jorge Luiz Calife.
São Paulo/Rio de Janeiro: Record, 1999
8. WEIL, Pierre et. alli. Rumo a nova transdisciplinaridade: sistemas
abertos de conhecimento. São Paulo: Summus, 1993.