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FORMAÇÃO
DE LEITORES E ESCRITORES
Adriana Maura Maria Carvalho - Escola Comunitária
de Campinas
Sou professora do 2º ano do II Ciclo (4ª série
do Ensino Fundamental), da Escola Comunitária de Campinas e a seguir
registro algumas observações que considero importantes ao
consultar e pesquisar diferentes autores que analisaram a construção
de produção de textos narrativos e a formação
de escritores. Procuro relatar também, algumas de minhas reflexões
e procedimentos para produções de texto, na tentativa de
contribuir com outros educadores e, principalmente, na minha busca pessoal
de ser professor e formador de escritores.
A escolha do registro sobre produção de texto, foi em função
da grande importância e necessidade deste trabalho nas séries
iniciais. Os textos narrativos circulam entre as crianças destas
séries sob forma de textos orais (histórias reais e fictícias
contadas) e sob forma de textos escritos (leitura de histórias,
notícias, cartas...).
Segundo o PCN, para que as crianças possam participar de uma vida
social eficiente, é necessário que adquiram o domínio
da língua oral e escrita, pois é por meio dela que se comunicam,
tem acesso à informação, expressam e defendem pontos
de vista, partilham e constroem visões de mundo e produzem conhecimento.
Para que isso aconteça, é fundamental que a escola tenha
a responsabilidade de garantir a seus alunos o acesso aos saberes lingüísticos,
necessários para o exercício da cidadania.
O trabalho com produção de textos nas escolas deve formar
escritores competentes capazes de produzir textos coerentes, coesos e
eficazes. Esse escritor competente ao produzir um texto, precisa ser capaz
de conhecer possibilidades, saber selecionar o gênero no qual seu
texto se realizará e fazer escolhas necessárias para atender
a seus objetivos e situações propostas.
Por exemplo: se o escritor deseja enviar notícias a familiares,
ele escreve uma carta; planeja o texto em função do seu
objetivo e do leitor a quem se destina, leva em consideração
as características específicas do gênero, elabora
um resumo, toma notas e estuda assuntos após uma exposição
oral e expressa por escrito seus sentimentos, experiências ou opiniões.
Também, é capaz de olhar para o próprio texto e verificar
se está confuso, ambíguo, redundante, obscuro ou incompleto.
É capaz de revê-lo e reescrevê-lo até considerá-lo
satisfatório para o momento. É ainda, um leitor competente,
quando recorre com sucesso a outros textos e precisa utilizar fontes escritas
para a sua própria produção.
Para aprender a escrever, é necessário ter acesso à
diversidade de textos escritos, testemunharem a utilização
da escrita em diferentes circunstâncias, defrontar-se com as reais
questões de quem se propõe produzi-la, arriscar-se a fazer
e receber ajuda de quem já sabe escrever. Sendo assim, o trabalho
da escrita na escola, não pode inibir os alunos ou afastá-los
do que se pretende; ao contrário, é preciso aproximá-los,
principalmente quando são iniciados “oficialmente”
no mundo da escrita através da alfabetização. Afinal,
esse é o início de um caminho que deverão trilhar
para se transformarem em cidadãos da cultura escrita.
A prática de produção de textos precisa realizar-se
num espaço em que sejam consideradas as funções e
o funcionamento da escrita, bem como as condições nas quais
é produzida: para que, para quem, onde e como se escreve.
Formar escritores competentes supõe, portanto, uma prática
continua e variada de produção de textos em sala de aula.
Diferentes objetivos exigem diferentes gêneros com formas e características
que precisam ser aprendidas.
A maioria dos escritores iniciantes costuma contentar-se com uma única
versão de seu texto, procedimento este, muitas vezes sugerido pela
própria escola. Isso em nada contribui para a produção
de texto ser entendida como processo ou para desenvolver a habilidade
de revisar. O trabalho com rascunhos (esboço) é fundamental.
É uma estratégia didática importante, para que o
aluno perceba, expresse e analise suas primeiras idéias.
Nesse sentido, a revisão do texto (situação didática)
assume um papel fundamental na prática de produção.
É preciso ensinar a prática de revisão: monitorar
todo o processo de produção textual, de tal maneira que
o escritor possa planejar organizar e avaliar os papéis de produtor.
Isso significa deslocar a ênfase de intervenção no
produto final para a intervenção no processo de produção.
Para formar verdadeiros escritores, é preciso também oferecer
condições para que os alunos criem seus próprios
textos e avaliem o caminho que percorreram. Isso só é possível,
se os alunos tiverem contato com diferentes modelos de textos, que lhes
permitam recriar, criar, recriar as próprias criações.
Formar bons escritores depende não só de uma constante prática
de produção de textos, mas de uma constante prática
de leitura.
Considerando a importância desta prática e o exercício
na formação de escritores, ressalto algumas considerações
de autores que pesquisam as competências de crianças em produção
de textos:
“Góes e Smolka (1992), Abaurre (1992), Kato e Scavazza (1992),
Santos (1997) salientam as diferenças de desempenho de crianças
em produção de textos orais e escritos, mostrando as dificuldades
que as crianças têm, muitas vezes, em adequar os textos às
características próprias da escrita”.
“Em relação aos textos narrativos, também foram
realizados estudos que mostraram dificuldades estruturais. Rego (1986)
e Brandão (1994), entre outros, discutiram o desempenho de crianças
em escrita de histórias, mostrando que as mesmas passam por um
processo de construção dos esquemas textuais e que a história
completa (situação inicial, desequilíbrio e desfecho)
só é produzida após certo tempo de intervenção
e contato com esse tipo textual”.
Leal e Guimarães (1999) atentam que "as decisões acima
explicitadas são tomadas, muitas vezes, sem que o autor perceba
os dilemas, tal é sua familiaridade com o tipo de texto ou tal
é a sua falta de consciência acerca das múltiplas
possibilidades. Além disso, não são decisões
tomadas todas na fase preliminar de planejamento. Muitas dessas decisões,
assim como a coordenação com a busca dos recursos coesivos,
são tomadas na própria atividade de geração
do texto. Assim, muitos autores, como Rego (1988), Góes e Smolka
(1992), Weisz (1992) e Kato (1995), advertem que a criança precisa
desenvolver habilidades meta cognitivas de planejamento, monitoração
da atividade, revisão, avaliação do texto produzido.
Durante toda a tarefa, a monitoração da ação
possibilita retomada e refacções" (11).
“Quando entendermos na prática pedagógica essas dificuldades,
ela passará a contribuir mais para que a criança consiga
fazer distinção entre gerar o texto e pensar sobre ele,
como bem salientam autores como Góes e Smolka (1992) e Cafiero
(1996), entre outros. A coordenação entre o planejamento
e geração, tomadas de decisões sobre forma e conteúdo
são essenciais para produção de qualquer tipo de
texto e deve ser feita a partir da imagem que se faz do leitor provável
ou pretendido e da situação de interação que
será mediada pelo texto. Logo, é necessário que se
proporcionem, na prática pedagógica, situações
reais de interação”.
LEAL, Telma Ferraz (UFPE)
LUZ, Patrícia Santos (Escola Arco Íris)
Outros autores apontam a avaliação do caminho percorrido
pelo escritor, como importante para a tomada de consciência das
questões envolvidas no processo de produção de textos.
O professor precisa intervir chamando a atenção para certos
aspectos e fazer com que os alunos exponham suas preferências, dificuldades,
alternativas escolhidas ou abandonadas. Esse trabalho de explicitação,
permite que com o tempo, os procedimentos de análise propostos
pelo professor se incorporem à prática de reflexão
do aluno, favorecendo um controle maior sobre seu texto. Uma contribuição
importante é conhecer o processo de criação de outros
autores, seja através de um contato direto, seja por meio de textos
por eles escritos sobre o tema vídeos, entrevistas, etc.
Leonor Werneck dos Santos (UFRJ) analisa as propostas dos Pcns e considera
que “a prática de escuta de textos orais / leitura de textos
escritos, a prática de produção de textos orais e
escritos e a prática de análise lingüística
formariam um tripé em cima do qual se sustenta o ensino de língua
portuguesa, funcionando como um bloco na formação dos alunos.
Os conteúdos partem, portanto, de textos, sempre, valorizando e
destacando diferenças e semelhanças, fazendo com o aluno
discuta o que vê / lê para conseguir se sentir usuário
da língua e participante do processo de aprendizagem. Em resumo,
tem-se o princípio USO? REFLEXÃO? USO (p. 65)”.
PCNSO ensino de língua portuguesa e os PCN’s
Foi adotado para trabalhar no 2º ano do II Ciclo do Ensino Fundamental
(4ª série), o livro A Bolsa Amarela de Lygia Bojunga. Os alunos
coletaram dados para conhecimento da autora, socializaram os dados principais
e registraram, coletivamente um texto informativo.
O trabalho com o livro proporcionou diversas e diferentes leituras, entendimentos,
interpretações, dramatizações e reflexões
de conflitos que atenderam a esta faixa etária (Ex: vantagens de
ser menina ou menino, as vontades, papel dos adultos e das crianças,
respeito às diferenças, discriminações...).
A partir da leitura do livro, desenvolveram-se trabalhos de entendimento,
interpretação e produção. Optamos por apresentar
algumas produções dos alunos.
O aluno escolheu, justificou e desenhou um trecho do livro que mais gostou
ou lhe chamou atenção (o importante nesta proposta foi realizá-la
após leituras, entendimento e interpretação do livro,
pois o aluno já possuía conhecimento da história
toda e teve condições de escolha).
Seqüência didática para este trabalho:
? ler o livro “A Bolsa Amarela”, autora Lygia Bojunga, Editora
Melhoramentos;
? escolher um trecho ou um capítulo da história;
? analisar e observar a descrição da personagem Raquel;
? descrever objetos e situações relacionados ao livro;
? criar e descrever uma personagem;
? produzir uma narrativa, inserir a personagem e estabelecer-lhe uma função;
? justificar as escolhas e criações;
? trocar com o grupo classe os procedimentos realizados.
A-1-Descrição da personagem”: “
Minha personagem é um menino da classe de Raquel, alto e é
forte, vive defendendo Raquel quando os meninos não chamam ela
para brincar”. Ele é pardo e é o melhor amigo de Raquel,
sempre usa calça jeans meio claro, meio escuro, uma camiseta com
o nome Minas Gerais estampado na parte do peito e usa tênis “All
Star” vermelho. Ele tem olhos verdes e cabelo preto. O nome dele
é João Francisco. J.O.
-Justificativa do trecho que escolheu - “O trecho que mais gostei
foi O Almoço, pois é muito engraçado e divertido,
mostra a discriminação de Raquel, por ser menina e criança,
pois queria ser menino e gente grande” J.O.
Anexo de desenho de um trecho desenhado por aluno e registro
da justificativa.

A-2-Descrição
da personagem - “Personagem que criei entra no” capítulo:
O Alfinete de Fralda “A minha personagem é uma formiguinha
que era discriminada porque era diferente dos outros, no formigueiro todas
as formiguinhas eram pretinhas, mas ela era de três cores: suas
patinhas eram brancas, seu corpo todo cinza e o bumbunzinho era vermelho;
e cansada de ser discriminada fugiu levando oito sementinhas (que para
o formigueiro era muito) e a formiguinha agora estava sendo perseguida
como uma “fugitiva”e seu nome era Téco.” M.H.
-Justificativa do trecho que escolhi: “Eu escolhi o capítulo
4, porque foi o que me chamou mais a atenção, porque eu
só tinha idéias para fazer esse capítulo; eu estava
com vontade de fazer um cenário com chuva, mas também um
cenário não muito difícil e que não estivesse
no livro, por que eu não gosto de copiar coisas. Eu escolhi este
capítulo porque eu estava com inspiração de escrever
como se eu estivesse escrevendo no chão, estava com vontade de”
brincar” com as nuvens e com o sol, estava com idéias de
desenhar pessoas e porque foi o capítulo que mais gostei”.
M.H.
Anexo de
desenho de um trecho desenhado por aluno e registro da justificativa.

A-3- Descrição
da personagem: “Minha personagem se chama Chic, ela é marrom
avermelhada e uma galinha muito bonita, mas implicante demais, mas pelo
menos ela usa isso como uma coisa boa: Quando decide ajudar alguém,
nunca desiste. Chic gosta de comer coisas como ração, milho
e outras coisas... ou melhor, gosta de comer de tudo. Seu papel na minha
história é ajudar a descosturar o pensamento de Terrível,
de modo diferente de todos. (todos tentaram descosturar o pensamento fazendo
a pessoa não pensar em lutar) Chic faria o contrário. No
final da história todos ficam aliviados por Terrível não
lutar mais nenhuma luta, para se matar”. S.
Anexo de
desenho de um trecho desenhado por aluno e registro da justificativa.

A seguir,
o trecho escolhido foi apresentado para a classe e neste momento os colegas
que acompanhavam as apresentações fizeram comentários
sobre as justificativas e as ilustrações. Os alunos observavam
e comentavam os trabalhos, avaliando se estavam completos e se poderiam
acrescentar algo para melhorá-los.
Algumas leituras destes registros foram realizadas como modelagem, destacando
aspectos importantes deste tipo de texto e questionando os alunos para
refletirem e responderem:
-por que você gostou deste trecho?
-o que mais lhe chamou atenção?
-você relacionou com algum momento importante de sua vida?
-você argumentou sua escolha, explicou com detalhes à escolha?
-você reestruturou sua justificativa após apresentação,
comparação e comentários com os colegas.
Quando nós
escutamos,
Imaginamos distâncias,
Construímos histórias,
Desvendamos nossas paisagens.
(Bartolomeu Campos de Queirós,op.cit.)
Até
este momento, os alunos tiveram a oportunidade da escolha de um trecho
que gostaram e devido a esse interesse, foram levados a escrever um texto,
a representá-lo em forma de desenho, tendo o retorno dos colegas
através de comentários e contribuições para
aprimorarem seus trabalhos. Além das observações
da professora, foi importante que outros leitores, no caso os alunos,
fizessem as análises e comentários referente aos seus textos.
Dando continuidade ao trabalho com textos descritivos, os quais tiveram
o objetivo de transcreverem nas produções de textos, trechos
completos e com maiores desenvolvimento e coesão.
Durante o trabalho com descrição, diversas situações
orais foram propostas, com o objetivo de proporcionar aos alunos o exercício
desta prática, primeiro oralmente e de forma mais lúdica,
buscando um envolvimento e motivação, antes de iniciar propostas
escritas.
EX- maleta de artes- os alunos neste dia estavam com a maleta de artes
e contaram como era a maleta; o que havia dentro dela, suas características,
detalhes como cor, fechos, como ganhou, desde que ano possuía esta
maleta, como comprou etc (descrição subjetiva);
-estojo do material: cor, o que possuía dentro, forma (descrição
objetiva);
-descrever imagem e fotos (descrição objetiva);
-descrição de um objeto do seu quarto (descrição
subjetiva- sentimentos e relações com este objeto).
É fundamental que o professor, ao resgatar histórias presentes
no cotidiano dos alunos; garanta um espaço de ouvir, ler, contar,
recontar e registrar histórias vividas, vistas, ouvidas e lidas,
permitindo que todos tenham a oportunidade de ser, tanto narradores/escritores
quanto ouvintes/leitores. São exemplos de ações que
o professor pode realizar para relacionar e desenvolver a narrativa. A
linguagem nas suas diferentes manifestações - corporal,
visual, musical, escrita - permite a narração, quando se
constitui como uma experiência do aluno.
Dando seqüência ao trabalho com texto descritivo, os alunos
receberam a proposta de criar, desenhar e descrever uma personagem para
a história: A Bolsa Amarela.
Os aspectos físicos e emocionais da personagem foram destacados
pela
professora, através de aspectos característicos de algumas
pessoas e ou objetos. Diferentes tipos de textos descritivos realizados
tanto pelos alunos, como também pela professora, proporcionaram
um importante referencial.
Segundo Othon
M. garcia(1973). “Descrição é representação
verbal de um objeto sensível (ser, coisa, paisagem), através
da indicação dos seus aspectos mais característicos,
dos pormenores que o individualizam, que o distinguem. “
Descrever não é enumerar o maior número possível
de detalhes, mas assinalar os traços mais singulares, mais salientes;
é fazer ressaltar do conjunto uma impressão dominante e
singular. Dependendo da interação do autor, varia o grau
de exatidão e minúcia da descrição.
Diferentemente da narração, que faz uma história
progredir, a descrição faz interrupções na
história, para apresentar melhor um personagem, um lugar, um objeto
enfim, o que o autor julgar necessário para dar consistência
ao texto. Pode também ter a finalidade de ambientar a história,
mostrando primeiro o cenário.
Numa descrição, quer literária, que é técnica,
o ponto de vista do autor na produção do texto, consiste,
não apenas na posição física do observador,
mas também na sua atitude, na sua predisposição afetiva
em face do objeto a ser descrito. Dessa forma, existe o ponto de vista
físico e o ponto de vista mental.
Após esta etapa, apresentaram a personagem, leram suas principais
características, para que o grupo descobrisse quem seria ou o que
seria este personagem.
Durante a apresentação, com intervenção da
professora e contribuição dos colegas, completaram as idéias
e descrições dos seus personagens.
Destaco neste momento a importância da avaliação do
caminho percorrido pelo aluno, para que ele tenha oportunidade de exercitar
a sua consciência sobre questões importantes e relevantes
neste tipo de texto descritivo e em sua formação de escritor.
A professora interviu, chamando a atenção para aspectos
importantes e fazendo com que o aluno verbalizasse suas preferências,
dificuldades e alternativas escolhidas ou abandonadas.
Esse trabalho de explicitação, permitiu e permitirá
que, com o tempo, os procedimentos de análise propostos pela professora
se incorporem à prática de reflexão do aluno, favorecendo
um controle maior sobre o texto.
Para Vygotsky (1993, p.108), o "pensamento não é expresso
em palavras, mas é através delas que passa a existir".
A relação entre pensamento e linguagem é um processo,
"um movimento contínuo de vai e vem do pensamento para a palavra
e vice-versa. O pensamento passa por muitas transformações
até transformar-se em fala. Não é só expressão
que encontra na fala: encontra sua realidade e sua forma" (idem,
p.109). Sendo assim, para o autor, pensamento e linguagem são indissociáveis
e suas inter-relações acontecem nos significados das palavras
que, por sua vez, não são fixos, se modificam e se constroem
historicamente nas inter-relações sociais.
“Vygotsky considera a linguagem um dos instrumentos básicos
inventados pelo homem, que tem duas funções fundamentais:
a de intercâmbio social - é para se comunicar que o homem
cria e utiliza sistemas de linguagem - e de pensamento generalizante -
é pela possibilidade da linguagem ordenar o real, agrupando uma
mesma classe de objetos, eventos, situações, sob uma mesma
categoria, que se constroem os conceitos e significados das palavras.
A linguagem então atua não só no nível interpsíquico
(entre pessoas), mas também no intrapsíquico, influindo
diretamente na construção e alteração das
funções mentais superiores (imaginação, memória,
planejamento de ações, capacidade de solucionar problemas,
de fazer análises e sínteses, entre outras). Desta forma,
os sistemas de signos produzidos culturalmente não só interferem
na realidade, mas também na consciência do indivíduo
sobre esta”.
Na realidade, não são palavras o que pronunciamos ou escutamos,
mas verdades ou mentiras, coisas boas ou más, importantes ou triviais,
agradáveis ou desagradáveis etc. A palavra está sempre
carregada de um conteúdo ou sentido ideológico ou vivencial.
(Bakhtin, 1992, p.95)
Durante a exposição dos alunos e troca entre os colegas,
ocorreram algumas manifestações de sentimentos, estados
de ânimo. Essas relações interpessoais provocaram,
acentuaram e ao mesmo tempo amenizaram-se ao longo do trabalho. Foi um
componente importante na vida destes alunos, pois à falta de tomada
de consciência das causas que a provocaram e desconhecimento das
formas adequadas de atuação pode conduzi-los a conflitos
pessoas dificilmente solucionáveis. Baseado na fonte: “Falemos
de Sentimentos”, A Afetividade como um tema transversal, Monserrat
Moreno, Genoveva Sastre e outros, Ed. Moderna.
Estas manifestações surgiram a partir dos comentários
dos colegas sobre os trabalhos e apresentações referentes
aos aspectos que estavam incompletos ou incoerêntes. Alguns alunos
não aceitaram ou não gostaram de ouvir críticas,
ficaram chateados e aparentemente incomodados. A professora nestes momentos
interviu, valorizando e destacando aspectos positivos em seus trabalhos
e “protegendo” estes alunos. Também foram comentados
e refletidos com o grupo todo a função e os aspectos que
estaríamos analisando, pois muitos alunos, se não determinado
com clareza nossos objetivos e o que queremos com este tipo de trabalho,
tendem a ver apenas o negativo nos trabalhos dos colegas.
Diversas intervenções nos textos descritivos dos alunos
foram realizadas e comparadas.
Foi proposta uma produção de texto individual, na qual deveria
aparecer o personagem criado pelos alunos e a história teria relações
como o trecho escolhido do livro A Bolsa Amarela.
Esta personagem criada teria uma função na história:
- atuaria no trecho que não gostou; poderia ajudar a solucionar
um problema ou poderia acrescentar dados e outras situações
com o objetivo de melhorar a história original ou resolver uma
determinada situação.
Neste momento, fiz algumas observações e comentários,
expressando também meus sentimentos e desejos, de forma direta
e sem magoar os alunos. pretendendo formar escritores competentes, ofereci
condições para que os alunos criarem seus próprios
textos e de avaliarem o percurso criador. Isso foi possível, pois
tiveram acesso a um amplo repertório de modelos, que lhes permitira
recriar, criar, recriar as próprias criações. Os
alunos não criam do nada, é preciso que tenham boas referências.
Por isso, formar bons escritores depende não só de oferecermos
uma prática continuada de produção de textos, mas
de uma prática constante de leitura.
Meu objetivo maior foi passar aos alunos, a magia do aprender e a consciência
de que serão os grandes beneficiados. A competência que mostrarão
no futuro como profissionais dependerá deste vínculo significativo
com a aprendizagem que nós educadores pretendemos incentivar e
comprometemos a provocar.
A partir da história criada, compararam o trecho do livro escolhido,
o personagem e a história. Receberam um roteiro para observarem
e analisarem suas produções.
a-Você conseguiu colocar na história, o personagem que criou
e descreveu?
b-Você colocou o personagem que criou no trecho do livro que escolheu
e ele ajudou a solucionar ou a enfrentar alguma situação
ou teve uma função na história?
c-O personagem que criou está coerente com as características
que descreveu anteriormente?
Questionamentos e intervenções da professora, durante as
leituras e comentários orais dos alunos:
Analisando as etapas propostas de produção de texto (justificativa
do trecho escolhido, descrição do seu personagem e criação
da sua história) os alunos registram suas observações
e análises individuais.
a-Análise da produção: “ Acho que consegui
deixar coerente, pois o personagem ajuda e atrapalha ao mesmo tempo, como
planejado e a função dele consegue ser a mesma da descrição
(ajudar a Raquel). Consegui juntar um personagem em um novo capítulo
sem atrapalhar a história. Não consegui colocá-lo
na parte que mais gostei. Consegui descrevê-lo fisicamente e biologicamente,
mas esqueci de colocar características emocionais. J.O.
b-Análise da produção: “Consegui colocar o
personagem na história e foi no capítulo que escolhi. Conto
na produção, de uma formiguinha chamada Téco que
está cansada de ser discriminada, pois ela era assim: patinha branca,
corpo cinza e o bumbunzinho vermelho, enquanto as outras eram pretinhas.
Então Téco foi se enturmando e até que Raquel contou
sua vida a ela e Téco resolveu ajudá-la picando a mão
das pessoas que a discriminassem, mas Téco avisou Raquel que se
discriminassem, ela também seria picada. Então Raquel concordou
e daquele dia em diante a vida de Raquel mudou.”M.H.
c-Análise da produção: “ Eu não consegui
colocar a personagem na parte da história que eu escolhi, mas consegui
encaixa-lo em outra parte da história, no capítulo 5, A
Volta da Escola, neste trecho quando Afonso conversa com Terrível.
Neste trecho contei que minha personagem Chic, não gosta de briga,
gosta de ajudar os outros e gosta de comer ração e milho.
Tive a idéia de colocar minha personagem no capítulo 5 porque
não consegui coloca-lo na parte que Terrível é encontrado
pelo pescador, assim coloquei-o em uma parte que ia combinar com a minha
personagem”. S.
O resultado, de forma geral, foram produções de textos mais
completas, com melhor desenvolvimentos e coesão, como mostram os
exemplos (anexo). Mesmo os alunos que ainda não atingiram os objetivos,
deslocaram, no sentido de produzir com melhor qualidade.
Várias situações de refacção e reestruturação
individuais, em duplas e pequenos grupos foram proporcionadas ao longo
das etapas relatadas, tendo como objetivo, proporcionar aos alunos uma
troca de opiniões e idéias para que acrescentassem em seus
textos.
Nessa nossa prática docente em momentos de reflexão, percebemos
o quanto estamos longe do ideal, e nos conscientizamos de que somente
atingiremos rupturas e reformas do pensamento, refletindo sobre a nossa
prática e principalmente buscando relações nos conceitos/conteúdos
trabalhados.
Precisamos analisar e refletir nossa prática pedagógica
para buscarmos novos caminhos para os saberes que devemos ensinar na escola,
tornando o processo de ensino aprendizagem desafiador aos nossos alunos.
A prática de leitura de livros literários favorece a aprendizagem
da leitura e é fundamental para a integração do indivíduo
no seu contexto social. O hábito da leitura abre novas perspectivas
e permite posições críticas diante da realidade;
proporciona nova visão e exige entendimento sobre os fatos; obriga-o
a falar, a se expor através de seus textos. O leitor deve ser estimulado
a compreender o texto, a interpretá-lo e a recontá-lo, criando
novas situações e provocando uma outra produção
por um autor diferente, embora suas idéias iniciais partam de uma
mesma leitura.
“Ser
escritor é ser perigoso porque é lutar com a liberdade.
Embora tenha dito Drummond que “lutar com a palavra é a luta
mais vã”, não é tão vã assim,
senão muitos não se honrariam de ser romancistas, contistas,
poetas. Ser escritor é ser inventor de palavras, de discurso. E
ser inventor é ser poeta.
Os escritores são os donos da palavra. Quando os discursos ficam
velhos eles inventam outros, e os renovam. São antenas ligadas
a tudo o que acontece no mundo, a fim de que, diante das novidades, e
principalmente do novo, coloque o seu discurso simbolizante. Não
se trata daquela palavra fixa, pedra, que não amolga. Nada disto.
A palavra do escritor é a imagem do homem e da sociedade, é
a vida na sua fluidez, tanto para diante como para trás, para dentro
como para fora, buscando o mítico, o desconhecido ser que somos
e seremos por muito, muito tempo.
Portanto, zombem quanto queiram do escritor, do poeta, do comunicador.
Seja através do jornal, da revista, do livro, do computador, da
internet, ou pela palavra falada na televisão e no rádio,
é sempre a sombra do escritor que acompanha. A palavra falada,
quando escrita, ganha outra vida. Não há história
sem palavra, sem arte. Não há ciência sem arte, sem
palavra. Não há vida sem palavra. Ela é o nosso sinal.
O verbo é que fez o homem. É que faz o homem.
Eis, portanto, a razão do mistério do escritor, do poeta.
Da auréola de grandeza, de força, de beleza, de poder que
o cerca.
Quando não houver mais a palavra escrita, o homem civilizado desaparecerá
da face da terra, e sobre esta reinará a treva, como no princípio.
Não esperemos que um dia a profissão seja oficializada.
De qualquer forma ela é divina, desejada, amada, odiada, mas sempre
um símbolo da alma”. Francisco Miguel de Moura .
Bibliografia:
Morin,Edgar,
1921- Educação e Complexidade: Os sete saberes necessários
e outros ensaios- São Paulo: Cortez, 2002.
www.fae.ufmg.br/GT10/telma.htm
Pcns-Ministério da Educação e do Desporto-Secretaria
do Ensino Fundamental- SEF- Parâmetros Curriculares Nacionais- Língua
Portuguesa.
Texto: Compreendendo o compreender das crianças a respeito da língua
escrita- Um mergulho no cotidiano das séries iniciais. Ângela
Vieira de Alcântara (UERJ)
Jacqueline de Fátima dos Santos Morais (UERJ) e Cócis Alexandre
dos Santos Balbino (UFF).
texto *Quando escutamos, desvendamos nossas paisagens - A palavra, a fala
e a narrativa: ouvindo e desvendando paisagens. Patrícia Corsino
* Doutoranda em Educação/PUC-Rio. Consultora da série
Linguagens e sentidos.
Notas:
Sastre, G & Moreno, M. e outros. “Falemos de Sentimentos”
e A Afetividade como um tema transversal. São Paulo: Editora Moderna.
Sastre, G & Moreno, M. e outros (2002). Resolução de
Conflitos e aprendizagem emocional: Gênero e transversalidade. São
Paulo: Editora Moderna.
VYGOTSKY, L.S. Pensamento e Linguagem. São Paulo: Martins Fontes,
1993.
BAKHTIN, M. Marxismo e filosofia da linguagem. São Paulo: Hucitec,
1992, p.133
http://www.secrel.com.br/jpoesia/@fma23.html (Francisco Miguel de Moura). |
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