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| LEITURA
DE ADAPTAÇÕES DE CLÁSSICOS DA LITERATURA UNIVERSAL
E PROPOSTAS DE MEDIAÇÃO ESCOLAR
Andréa Antolini Grijó - Grupo de Pesquisa do Letramento Literário - Universidade Federal de Minas Gerais 1.Introdução Em seu livro “ Literatura: leitores & leitura”, Marisa Lajolo afirma que “não há mágica capaz de transformar em leitores quem por qualquer razão, não pode ou não está a fim” . Transformar alunos em leitores tem sido uma tarefa histórica das escolas e para sua realização são discutidas as inúmeras maneiras de se construir processos de mediação que possam tornar os alunos a fim de ler, ou seja, que os tornem sujeitos, que antes de tudo reconheçam na literatura um patrimônio cultural da humanidade, ao qual deve ser dado acesso por direito à população, e principalmente que possam vivenciar a experiência estética que sua leitura permite e proporciona. Além da escola, existem outras redes de mediação social de formação de leitores,nas quais encontramos diversos mecanismos que, de certa forma, influenciam nas escolhas e nos modos de ler dos indivíduos: a mídia, em especial a televisão e suas livres adaptações, as listas dos mais vendidos veiculadas por jornais e revistas e a sedução das propagandas indiretas divulgadas nos programas de entrevista, implicam na formação do gosto médio dos leitores. Mas a escola ocupa um lugar de destaque entre essas redes, uma vez que se constitui como a agência privilegiada de formação de leitores – a escola é o lugar para o qual a sociedade dirige a função de ensinar a ler e a escrever – bem como, a agência de acesso ao saberes construídos pela humanidade em sua longa jornada sobre a Terra. As mediações, elaboradas pela escola envolvem um conjunto de procedimentos que tratam desde a seleção do que pode e deve ser lido – o estabelecimento do cânone – como a legitimação dos espaços de leitura e dos modos de ler. E é este último que nos interessa já que a leitura literária na escola dá-se de forma singular. Essa singularidade não é traço que se relaciona somente à literatura, todo conhecimento ao ser introduzido na escola passa por um processo ao qual temos denominado escolarização. Apesar do reconhecimento de que em boas situações de aprendizagem, o objeto de conhecimento investigado deve manter suas características de objeto sociocultural, ou seja, deve circular na escola como circula na sociedade, é preciso compreender que a sintaxe que organiza a dinâmica escolar, muitas vezes o transforma em um objeto absolutamente alheio às práticas sociais – tomemos como exemplo os textos das cartilhas que pretendem constituir-se como referência para a aprendizagem da leitura e da escrita. No entanto, em seu artigo A escolarização
da literatura infantil e juvenil, Magda Soares realiza uma série
de reflexões importantes acerca das maneiras como esse fenômeno
tem se configurado e, em especial, chama atenção para a
transferência do texto literário de seu suporte para o livro
didático e para os objetivos de leitura que a partir de então
se estabelecem e que, em conseqüência estabelecem um perfil
de leitor competente. Ainda define o que poderia ser uma escolarização
adequada da literatura: aquela “que conduzisse eficazmente às
práticas de leitura literária que ocorrem no contexto social
e às atitudes e valores próprios do ideal de leitor que
se quer formar”. 2. O corpus selecionado Para realização desta análise, foram
selecionadas duas obras, e seus suplementos de leitura : Dom Quixote,
de Miguel de Cervantes, adaptado por Michel Harrison e Rei Artur, adaptado
por James Riordan, ambas da Coleção Tesouro dos Clássicos
da Editora Ática, indicadas para leitura no segundo segmento do
Ensino Fundamental. As adaptações são aqui compreendidas
como obras em diálogo com outras que pretendem possibilitar a leitura
por um público que não se constitui como o previsto pelo
autor do texto original e para que tal objetivo seja alcançado
valem-se de um conjunto de estratégias discursivas complexas e
sistemáticas. 3. Uma proposta de análise Rei Autur é parte de um ciclo de narrativas caracterizadas como novelas de cavalaria, um conjunto de histórias que foi transmitido por meio da oralidade, de geração em geração no Ocidente. Conta as aventuras de um grande rei , Artur, que reorganiza uma Grã Bretanha devastada pelas guerras, no início do século V. Artur e seus cavaleiros, chamados da Távola Redonda protagonizam aventuras violentas e histórias de amor que exerceram grande influência em toda a literatura ocidental, ecoando inclusive em Dom Quixote, nossa outra obra de referência. Dom Quixote é considerada a obra fundadora do romance moderno, e como sintetiza Ana Maria Machado no texto de apresentação do livro é um estudo da natureza humana, dividida entre o sonho e a realidade. Em seu bojo é possível descobrir uma crítica contundente às novelas de cavalaria e suas versões idealizadas de herói, além das marcas iniciais de uma característica tão cara à literatura da pós-modernidade : a metalinguagem. Ambas são obras que atravessaram as fronteiras temporais e espaciais e constituem hoje o que chamamos patrimônio cultural da humanidade, pois constroem por meio do discurso literário, uma forma original de se ler a realidade. Os Suplementos de Leitura para o aluno, veiculados junto aos livros são um conjunto de nove questões cada, configuradas em diferentes tipologias de exercício ( perguntas e respostas,associação entre informações em colunas,ordenação), sendo oito especificamente voltadas para o exercício da leitura, mesmo que estejam presentes nessa proposta mais de uma concepção de leitura, e uma voltada para a produção de texto. Para este trabalho tomaremos somente as atividades que contemplam as competências de leitura, a fim de desobstruir o olhar investigativo, considerando as limitações de tempo dessa apresentação. A observação da configuração
dos Suplementos de Leitura nos permite perceber dois blocos distintos
de questões, que conseqüentemente se fundam em duas concepções
de leitura. São valorizadas, especialmente as seguintes estratégias: recuperação de informações explícitas, por meio de sua localização ou identificação , inferências globais que pretendem que o leitor,a partir de marcas do próprio do texto, organize dados referentes a esse e, inferências locais relacionadas, nesse caso, à linguagem figurada. Observemos o modo como foram construídas as questões desse primeiro bloco, nos dois suplementos. No suplemento anexo ao Rei Artur, a primeira questão solicita, por meio de um exercício de ordenação numeral, que o leitor reconstrua o enredo da narrativa seqüencialmente, valendo-se dos fatos que a constituem apresentados no encarte. A segunda questão é uma pergunta que apresenta um relevante fato da narrativa e solicita ao leitor que infira a relevância desse fato para a totalidade da obra, por meio de relação causa - conseqüência. A terceira e quarta questões voltam-se para a recuperação de informações no texto, sendo a terceira relacionada aos personagens. Dividida em três itens, em todos esses há a exigência da recuperação de informações do texto, que possibilitem caracterizar os personagens e relacioná-los à ações realizadas na trama, inferindo essa caracterização por meio das marcas lingüísticas presentes no texto. A quarta é relacionada à identificação de certo momento em que um fato acontece. Na quinta questão são apresentadas duas colunas, em uma delas é apresentado um conjunto de ações desenvolvidas na trama por Artur e na outras um conjunto de virtudes do Rei. Ao leitor é solicitado que, realizando uma inferência global, relacione os atos às virtudes. No suplemento anexo ao Dom Quixote, encontramos um padrão semelhante. A primeira questão propõe que o leitor que reorganize a narrativa seqüencialmente, mas nesse caso, a partir de trechos extraídos da própria narrativa. As segunda e terceira questões voltam-se para recuperação de informações do texto, seja para localização de fatos do enredo, seja para explicar ações do personagem principal, seja para identificar quem faz o que na história. À quarta questão vincula-se a estratégia de inferência local, por meio da compreensão da linguagem figurada, nesse caso, de provérbios. O personagem Sancho Pança, em diversas situações da narrativa, vale-se de provérbios para demonstrar sua visão sobre os acontecimentos, assim solicita-se que o leitor associe, por meio de alternativas apresentadas na própria questão, os provérbios às formas discursivas coloquiais. Esse tipo de questão reforça a premissa da compreensão “do que o autor quis dizer”, como fundamental para o diálogo com o texto, considerando que é preciso assegurar um sentido para que o leitor não fique confuso ou perdido. A quinta questão está voltada para os personagens. São apresentadas um conjunto de características para que o leitor associe aos personagens, listados no topo da questão. E a sexta questão solicita que o leitor identifique traços de metalinguagem no texto, depois da apresentação desse conceito. As questões descritas, e saliento aqui que se tratam da parte mais representativa em quantidade nos suplementos, inscrevem-se numa concepção de leitura como processo de compreensão do texto. Trata-se de um conjunto de propostas de desenvolvimento de estratégias que se vinculam em geral aos textos informativos, que têm função social bastante diferente daquela dos textos literários, já que a busca de informações para resolução de problemas imediatos ou não, é bastante diferente da experiência estética à qual deve se prestar o texto literário. Nessa concepção, não cabe ao leitor posicionar-se em relação ao texto, mas tomá-lo como objeto portador de sentido e a quem é dada a tarefa de desvendá-lo, recuperá-lo. No segundo bloco de questões, podem ser observados exercícios de outra natureza, em que a leitura é tomada como como uma interação entre o leitor e obra, por meio de uma réplica, ou seja, um ato de se posicionar – a partir do contexto de produção da leitura – em relação a um discurso materializado nos textos, gerando outros textos, elos na cadeia da comunicação verbal, como preconiza Bakhtin : Neste caso, o ouvinte, ao perceber e compreender o significado (lingüístico) do discurso, ocupa simultaneamente em relação a ele uma ativa posição responsiva: concorda ou discorda dele (total ou parcialmente), completa, aplica-o, prepara para usá-lo, etc.; essa posição responsiva do ouvinte se forma ao longo de todo processo de compreensão desde o seu início, às vezes literalmente a partir da primeira palavra do falante (...) toda compreensão é prenhe de resposta, e nessa ou naquela forma o gera obrigatoriamente: o ouvinte se torna falante. Trata-se de um conjunto menor de questões que se voltam essencialmente para apreciação e réplica do leitor em relação ao texto. As três questões dessa natureza presentes no suplemento de leitura do Rei Artur articulam a recuperação de informações no texto com a elaboração de apreciação tanto estética, como relativa aos valores éticos que permeiam a obra. A sexta questão solicita ao leitor que dialogue com um tema da obra, compreendido aqui como conteúdo ideologicamente conformado, a violência – que se materializa no gênero novela de cavalaria – intimamente relacionada ao período histórico retratado na obra. Esse diálogo estimulado pela questão: Você considera que a violência era uma qualidade boa na época de Artur? Por quê? inscreve a temática no contexto de produção da obra, o que permite ao leitor estabelecer um diálogo crítico com essa, ao considerar seu caráter social e ideológico. A sétima questão recupera as ações de uma personagem secundária , faz sobre essas uma afirmação e propõe que o leitor apresente sua opinião e justificativa de concordância ou discordância. O diálogo com a obra, materializado na apreciação dos valores veiculados pelo texto,é mediado de forma problematizadora por meio da pergunta formulada. Assemelha-se a oitava questão, em que há o recorte de um fato de narrativa: o combate entre Artur e Mordred. Esse combate é previsto pelo Mago Merlim, logo no início da narrativa. Solicita-se ao leitor que opine acerca de uma afirmativa implícita no texto : a inutilidade de se lutar contra o destino. Da mesma maneira que a sétima questão,temas tratados na obra são problematizados por meio de perguntas, que medeiam a atitude responsiva do leitor. No suplemento do Dom Quixote,encontramos no segundo bloco de questões, duas que demandam o posicionamento do leitor. Na oitava questão são apresentadas duas opiniões divergentes sobre os livros ,que convivem na obra através de dois personagens. Dom Quixote – o personagem – ironicamente e numa crítica às novelas de cavalaria, afirma que os livros são perigosos e deviam ser queimados numa grande fogueira para evitar que desencaminhem as pessoas, enquanto Padre Tomás responde que a culpa não é só dos livros, mas da fraqueza humana em acreditar no que deveria ser somente diversão. Ao leitor é solicitada de forma provocativa, que dialogue com as duas opiniões discordando ou concordando e justificando sua resposta. Podemos nos argüir : as problematizações trazidas por essas questões do segundo bloco precisam ser vinculadas ao texto literário? É verdade que não. Podemos refletir sobre todas essas questões independentemente de lermos literatura,ou lermos Dom Quixote ou Rei Artur, mas o que nos importa destacar é que o homem constrói a literatura inserido no mundo, inserido na sociedade e por isso materializa ideologias e visões de mundo que compartilha com os grupos sociais em que vive, portanto reconhecer e refletir sobre o modo como os temas – seja a violência, o destino, a loucura – são materializados na literatura nos permite conhecer como a humanidade construiu, constrói e vive esses temas, essas idéias e conseqüentemente nos permite compreender como as culturas se constituem e vivem, o que é nosso direito. A sétima questão é um tanto peculiar, pois apesar de envolver o desenvolvimento da competência de apreciação estética, uma vez que solicita ao leitor sua opinião acerca dos motivos que transformaram Dom Quixote numa obra tão famosa, a ponto de muitos a considerarem o melhor livro de todos os tempos, esbarra num fator que necessita de análise. Os clássicos se constituem obras de referência em duas modalidades : a de construção, que abrange qualidades do trabalho de linguagem, do modo de contar, e a de significação, que abrange os componentes de uma narrativa social e existencialmente relevante, capaz de ampliar as dimensões de mundo vividos e imaginados pelo leitor . Ao considerarmos que Dom Quixote constitui-se num dos cânones da literatura ocidental exatamente porque combina as duas modalidades de forma inovadora, uma pergunta se interpõe : como um leitor da adaptação de Dom Quixote consegue compreender a grandiosidade do trabalho discursivo de Cervantes, uma vez que teve acesso exatamente a uma tradução discursiva que ao sintetizar, recortar, selecionar, modificar, tornou a obra possível de ser lida a quem inicialmente não era dirigida? É necessário esclarecer ao leitor e reconhecer a limitação da apreciação estética que a leitura de uma obra adaptada possibilita. Aprecia-se um outro texto, que apesar de ter o original como referência não o é. 4. Conclusões A análise dos Suplementos de Leitura das adaptações de Rei Artur e Dom Quixote, da Coleção Tesouro dos Clássicos nos permite concluir que no material previsto para circular na escola como mediador do processo de leitura convivem dois tipos de abordagem e concepções de leitura: a primeira centrada no desenvolvimento de competências que tomam o texto como elemento que aprisiona um sentido a ser desvendado pelo leitor e a segunda que considera que o sentido constitui-se no encontro do leitor com o texto, por meio de uma atitude responsiva ativa. Aparentemente contraditórias, as duas concepções num mesmo material apontam para o a configuração daquilo que a escola tem compreendido como necessidade do desenvolvimento de inúmeras estratégias e procedimentos de leitura. E que aqui nos coube evidenciar. Os textos literários continuam, apesar do avanço percebido pelo desenho do segundo bloco de questões, a ser tomados como textos informativos já que as abordagens demonstram uma preocupação maior com o que está escrito em detrimento do como, que deveria ter espaço garantido pelo modo particular que a literatura se organiza pela linguagem. A inserção da concepção de letramento,nas discussões acadêmicas, compreendido como envolvimento dos sujeitos alfabetizados em práticas sociais de leitura, tem provocado uma série de reflexões acerca “das habilidades, competências cognitivas e metacognitivas, aplicadas a um vasto conjunto de materiais de leitura e gêneros de escrita que circulam em nossa sociedade, no entanto ainda precisamos continuar investindo nas práticas do letramento literário, que se caracterize efetivamente como experiência estética e que progressivamente abandone uma abordagem centrada na frágil perspectiva de leitura como busca de informações e dedique-se à constituição de leitores autônomos, que desenvolvam a capacidade não somente de escolher textos a partir de suas necessidades cotidianas, mas que também possam se inserir no “processo gerativo de conscientização crítica da literatura como expressão artística e sociocultural” ,tarefa fundamental das práticas mediadas pela escola, porque o que se pretende desenvolver ali não devem ser simulações de leitura, mas práticas autênticas que contribuam para o diálogo crítico com a história e com os conhecimentos produzidos, inclusive os artísticos. Referências BAKHTIN,M.
Estética da criação verbal.São Paulo: Martins
Fontes,2003. |
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