Eliane Gabriel Aires – Profa. da Faculdade
de Educação - UFG
A persistência da ficção de Lygia
Bojunga Nunes como obra já consolidada no cenário literário
brasileiro e o constante fascínio que desperta em seus leitores
– crianças, jovens e adultos, instigou-nos a investigar os
motivos dessa presença a partir de uma pesquisa no universo ficcional
da autora.
Nossa inquietação foi movida por algumas indagações
como: por que a metalinguagem se torna tão marcante em suas narrativas?
Como isso se operacionaliza no próprio ato de criação?
É possível romper com divisões tão demarcadas
e preconceituosas como “literatura” e “literatura infantil”?
O que caracteriza uma obra literária como arte, isto é,
como um produto que não subestima a inteligência de seu leitor
e por isso lhe oferece abordagens inusitadas e estratégicas literárias
surpreendentes?
É nosso intuito verificar se textos realmente artísticos,
como os de Lygia Bojunga, possibilitam a formação de um
leitor diferenciado (uma espécie de Lourenço, a personagem
central de Paisagem), apto à reflexão crítica e estimulado
a enfrentar seus medos e embates cotidianos, que saiba valorizar a singularidade
da linguagem literária e que, sobretudo, leia com prazer.
A partir dos anos 70, deu-se no Brasil um aumento significativo no interesse
pelas questões relativas à literatura e ao incentivo à
leitura. Vários programas surgiram para esse fim, intensificando-se
a produção de livros infanto-juvenis bem como o surgimento
de novos escritores que hoje são nomes de destaque nesse setor.
Os escritores souberam inovar a concepção do livro destinado
à criança e ao jovem, rompendo com ideologias e formas estéticas
enquadradas em códigos instituídos. Nesse panorama, Lygia
Bojunga ocupa um lugar de destaque não apenas no Brasil, mas também
no cenário internacional, o que é atestado pelo premio Hans
Andersen, em 1982, o mais importante na área e literatura infantil,
concedido pelo conjunto de sua obra. Note-se que até esse ano ela
havia publicado apenas seis títulos. Hoje possui dezoito obras
publicadas e continua recebendo inúmeros prêmios. Recentemente
foi concedido à autora o premio sueco Astrid Lindgren (2004).
Fazendo um recorte na produção literária da autora,
nossa pesquisa se propôs acompanhar o projeto estético de
Lygia Bojunga tal como pode ser entrevisto em seus livros de natureza
metalingüística. Conforme a própria escritora, essa
questão centra-se numa trilogia do livro abrangendo leitura, escrita
e leitura-escrita num todo indissociável. Compõem a trilogia
e, pois, o “corpus” desta análise as seguintes obras:
Livro – um encontro com Lygia Bojunga Nunes (1988), Fazendo Ana
Paz (1991), Paisagem (1992).
Primeiramente fizemos uma abordagem geral de cada uma das três narrativas
que compõem o projeto literário de Lygia Bojunga, com o
propósito de destacar os traços essenciais dessa composição,
passando, a seguir, a uma análise mais pormenorizada de Fazendo
Ana Paz e Paisagem, obras que, diferentemente da primeira, transportam
a discussão teórica para o domínio da ficção.
A seguir colocamos em foco elementos constitutivos da narrativa, especialmente
no que se refere às relações entre narrador / texto
/ leitor, privilegiando-se a manipulação lúdica das
instancias narrativas. Logo após nos detivemos na criatividade
performativa dos discursos diretos para, a seguir abordamos a metalinguagem
como procedimento estrutural nas obras de Lygia Bojunga em estudo. Em
relação a este último aspecto, os embates do ato
criador (o vazio inaugural), a construção das personagens
(afinidades e diferenças) e a montagem plural (histórias
dentro de histórias) são contemplados como estratégias
diferenciadas nessas narrativas.
É necessário salientar que privilegiamos as obras ficcionais
escolhidas como ponto de partida para análise, isto é, foram
elas que nortearam e fundamentaram os nossos caminhos metodológicos
e não o contrário. Consideramos que as teorias só
ganham sentido à medida que são solicitados pelo contato
com o texto literário, espaços em que elas se corporificam
de modo específico e singular pela linguagem.
Privilegiando o enfoque metalingüístico, acreditamos que Lygia
Bojunga quis reforçar a função emancipadora da arte,
responsável pela construção de novas formas e, como
Jauss, queria “compreender o caráter revolucionário
da arte: o poder que ela tem de libertar o homem dos preconceitos e representações
arraigadas na sua situação histórica e de o abrir
a uma percepção nova de mundo, à antecipação
de uma realidade nova” (1993: 45).
Se, por um lado, a literatura pode servir à libertação
de conflitos e dramas existências, por outro lado, como acreditamos,
essa libertação será tanto maior quanto mais estiver
estimulada pelos próprios poderes da linguagem em seu funcionamento
poético – este, sim, capaz de agenciar aberturas na relação
com o real. Parece ser essa a proposta da escritora Lygia Bojunga: propiciar
uma leitura que desacomode o leitor de suas posições habituais,
conformadas a modelos estabelecidos e reprodutoras de sistemas. Uma leitura
que salte os limites da escolaridade para alçar vôos mais
ousados.
Essa liberdade que a arte propicia é salutar e necessária
para que o ser humano se realize, pois só assim o leitor, o jovem
em especial, poderá exercitar um novo modo de olhar a realidade.
Mas é preciso que essa abertura se viabilize como construção
no seio mesmo da linguagem – espaço em que o criador pode
conspirar com as forças mágicas da palavra, agenciando sentidos
inesperados. Uma obra literária com a de Lygia Bojunga promove
em seu leitor a possibilidade de romper com as imposições
da sociedade, justamente pelo caráter inovador e original de sua
escrita.
O que buscamos, neste trabalho, é examinar uma ficção
que, independentemente de rótulos ou enquadramentos, procura se
construir com plena liberdade para alçar vôos e assim dar
a seus leitores possibilidades de ingressar nessa aventura, correndo os
riscos próprios de toda aventura. Essa liberdade propiciada pela
arte ficcional contribui para a formação do sujeito crítico,
reflexivo e imaginativo. A gênese da criação (não
só artística) alicerça-se na criatividade alimentada
pela imaginação. Por outro lado, quando o jogo com o imaginário
vem articulado por um forte aparato manipulador, ainda que com táticas
sedutoras, como ocorre em Lygia Bojunga, a liberdade do leitor não
é tão ampla quanto parece, posto que “controlada”
pelos poderes demiúrgicos da criação: ganhar o leitor
ou trazê-lo para um espaço em que reinam mensagens e construções
inusitadas é, afinal enredá-lo pela função
didática.
O que percebemos, entretanto, nas obras da autora é seu compromisso
com uma literatura que se apresenta plurissignificativa, oferecendo-se
como um amplo sistema de signos. Tal amplitude nas relações
entre linguagem e realidade implica uma transformação do
conceito de representação, trazendo outros em seu bojo como
ficcionalidade, ilusão, verossimilhança – noções
colocadas em cena pela narrativa de Lygia Bojunga. É a maneira
criativa com que opera com essas questões que instiga o leitor
a uma disposição mental mais crítica a arejada frente
ao texto.
Mesmo se considerarmos o texto de Lygia Bojunga não totalmente
distante de uma literatura edificadora, a prática de sua escritura
se desvia dos caminhos endossados pela pedagogia tradicional, isto é,
a que se marca pelos estigmas da convenção, do traçar
regras ou estereótipos a serem seguidos. Em sua arte não
cabem ensinamentos categóricos, mas cabe uma ousadia imperiosa
e exigente que não deixa de constituir, também e a seu modo,
um “ensinamento”. Blanchot pontua muito bem essa (in)transitividade
saudável da arte, às voltas com seu próprio espaço
de significação:
A arte que edificar, mas segundo ela própria e
sem nada acolher do dia senão o que é adequado à
sua tarefa. Ela tem certamente por objetivo algo de real, um objeto, mas
um belo objeto: isso quer dizer, o que será objeto de contemplação,
não se uso, o que ademais se bastará, o que repousará
em si mesmo, não remeterá para nenhuma outra coisa, será
o seu próprio fim (segundo as duas acepções da palavra).
(1987: 212)
A verdadeira literatura desmistifica conceitos classificatórios
(infantil, juvenil) porque se insere num compromisso maior – o do
empenho sério na revitalização de sua escrita enquanto
objeto artístico. Mesmo construindo um objeto refratário
às concessões exigidas pelo mercado editorial – facilidade,
leveza, superficialidade, excesso visual, apelo ideológico –
Lygia Bojunga não está à margem da aceitação
pelo público leitor, ao contrário.
A circulação livre pelo real e pelo imaginário e
a impressionante naturalidade e fluidez com que faz sua escrita se deslocar
de um universo ao outro são os aspectos que mais fascinam o leitor.
Buscamos em nossa análise destacar dois aspectos muito marcantes
em Lygia Bojunga: o trato com a linguagem transformada em instrumento
simultaneamente coloquial (espontâneo) e crítico (reflexivo);
e a função dialógica da leitura. Quanto ao primeiro
aspecto, ressaltarmos o caráter transgressor da linguagem, com
sua força criativa para romper com o instituído, oferecendo-se
como signo imerso em seu funcionamento poético. Quanto à
função dialógica, sabemos que o processo de criação,
mesmo constituindo-se como projeto único e singular do criador
enquanto objeto artístico, é um ato de comunicação
e, desse modo, constrói uma semiose – processo em que produção
e recepção se complementam como atos de construção.
Leitura e escrita engendram-se mutuamente num permanente círculo
de correspondências. Nesse sentido, a decodificação
só poderá surgir desse fazer múltiplo e de um entrelaçado
de fontes que não só alimentam o imaginário do receptor
como também o levam a se perceber como indivíduo pertencente
a uma cultura na qual tem participação ativa.
Tendo em mente essas considerações, justifica-se o presente
estudo, que busca valorizar os traços inovadores de uma ficção
empenhada em uma das funções mais legítimas da obra
literária: construir o saber pelo sabor da linguagem.
Vimos a intersecção de leitura, escrita, leitura-escrita
como movimentos inseparáveis e indissociáveis. Na trilogia-do-livro
composta pelas narrativas: Livro – um encontro com Lygia Bojunga
Nunes, Fazendo Ana Paz, Paisagem - objetos de nosso estudo, esses três
componentes da criação literária se integram e se
articulam de forma dinâmica constituindo-se em gestos simultâneos.
Em Livro – um encontro com Lygia Bojunga Nunes, a autora faz uma
reflexão sobre leitura e literatura, de onde emerge o eco contundente
das influencias literárias que Lygia “distraidamente”
explicita ao se deter nos seus “seis casos de amor”. A presença
desses escritores se concretiza nas criações da autora,
em especial em Fazendo Ana Paz e Paisagem, o que confirma o pensamento
de Picon, de que “o germe de um livro são as leituras, mais
do que as experiências ou idéias” (1970: 11).
Assim, se Monteiro Lobato despertou sua imaginação e a influenciou
em sua produção artística – fato já
bem explorado pelos críticos e estudiosos de Lygia Bojunga, as
vozes dos outros escritores também se fazem ouvir em sua ficção.
Dostoievski cria em seus romances pessoas livres, capazes de se colocar
ao lado de seu criador, de discordar dele e até mesmo rebelar-se
contra ele. Vimos como para esta autora a criação de suas
personagens só se dá quando consegue infundir-lhes “um
sopro de vida”, como ela própria enfatiza ao se referir a
Vitor, seu personagem tatu. Ao criar Lourenço dando palpites, discordando
dela em alguns pontos, e Ana Paz-moça rebelando-se contra sua criadora,
Lygia Bojunga parece recuperar um tipo de concepção ficcional
em que essa engrenagem psicológica era central para compor as personagens,
como a de Dostoievski, por exemplo, criador de Raskólnikov, uma
das fixações da autora em sua juventude.
Bakhtin, analisando a poética de Dostoievski, atribui competência
ideológica e independência ao seu herói que, assim
como os de Lygia Bojunga (Lourenço e Ana Paz), poderiam ser interpretados
como autores e não objetos da visão do artista (Bakhtin,
1997: 03).
Entretanto, é importante destacar que a liberdade e a independência
dessas personagens não podem ser representadas através de
um discurso monológico. No caso de Dostoievski, a polifonia instituída
por seu discurso narrativo é que possibilita a movimentação
e riqueza de sentidos do painel de que emergem suas personagens. Isto
nos leva a repensar as múltiplas vozes que se presentificam em
Fazendo Ana Paz e Paisagem, só elas possíveis de representar
a criação de Lygia Bojunga e a performance de suas personagens.
O que mais se destaca, porém, em sua ficção é
o envolvimento que advém da interação autor-obra-leitor,
que a própria Lygia Bojunga reconhece quando afirma “como
é forte a transa livro-e-a-gente”. A dimensão que
alcança o leitor na visão de Lygia Bojunga deixa marcas
visíveis em sua produção literária, especialmente
aquele leitor dotado de uma perspectiva nova diante da literatura.
Mas, como valorizar essa perspectiva inquieta e original do leitor senão
estimulando-o a tal posicionamento por meio de uma escrita inovadora,
que distende ao máximo os poderes da imaginação?
Liberdade de criar, liberdade para ler – duas necessidades que permutam
seus espaços na ficção de Lygia Bojunga. A questão
pode ser tornar complexa, no entanto, quando percebemos que nessa obra
o jogo com o imaginário não é tão livre ou
aleatório quanto parece, pois, conforme sugerimos tal jogo vem
alicerçado por forte autoconsciência na manipulação
de suas táticas. Retomando a reflexão que laçamos
inicialmente, os poderes demiúrgicos da criação,
em Lygia Bojunga, instituem um universo tão singular que chegam
a jogar com a própria invenção, enredando-a nos limites
da ilusão. Se o intuito é seduzir o leitor, e vimos o quanto
e como isso é conseguido, tal sedução mescla encanto
e reflexão, liberdade e compromisso.
O pacto que essa ficção estabelece com o leitor é
um dos mais aliciantes, justamente porque busca traze-lo ou incorpora-lo
no próprio espaço escritural, mas essas cumplicidade tem
o seu preço: decifrar as malhas do tecido não significa
ter apenas liberdade mas também ser controlado. O leitor é,
assim, capturado como a aranha nas secreções de sua teia.
Por um lado, a abertura para criar uma literatura extremamente engenhosa
quanto a seus mecanismos de construção; por outro lado,
uma exigência ou consciência vigilante que dirige e explicita
os caminhos de sua arquitetura. Eis o grande paradoxo que cerca a abro
de Lygia Bojunga.
Ora, a própria necessidade em traçar o movimento duplo da
escrita-leitura numa releitura permanente acentua essa auto-reflexividade
de sua ficção. Vimos, por exemplo, como em Paisagem, a escritora
lê e relê os contos que escreve e as cartas da personagem
Lourenço para prosseguir sua criação.
Para Lygia Bojunga, a questão da leitura se transforma num jogo
que põe em cena, não apenas a própria autora com
suas obsessões, mas também táticas que a desdobram
em personagens ou peças dinamizadoras dessa “culto ao livro”.
Dinamização talvez seja a palavra-chave para caracterizar,
de fato, a escrita ficcional da autora. É como se houvesse, em
sua concepção de literatura, um espírito permanentemente
inquieto a engendrar e acionar os mais criativos movimentos para dramatizar
o ato criador. É por conta dessa inquietação que
procedimentos narrativos inusitados se presentificam em suas obras, atuando
sobretudo na esfera da ludicidade. Foi o que observamos, por exemplo,
quando da análise da movimentação discursiva em seu
jogo enunciativo, no qual múltiplas vozes vão compondo um
narrador proteiforme, a escapulir, constantemente, das posicoes previsíveis
e baralhando, assim, as entidades de autor, personagem e leitor. Espécie
de estrutura circense, o espaço concebido e atualizado por essa
narrativa movimenta os seus andaimes em arriscadas manobras que põem
à prova a sua sustentação.
Salientamos, também, como outro procedimento formal revelador da
singularidade engenhosa dessa narrativa ficcional, a construção
dos diálogos. É nestes que se concretiza a força
libertadora das personagens para exibirem suas fraquezas, ironias e rebeldias.
E como os diálogos não se constroem apenas das falas tramadas
entre as personagens, mas também de um confronto entre estas e
a escritora-narradora, tal metalinguagem dialógica, digamos assim,
confere uma densidade maior aos discursos diretos, justamente por inscrevê-los
no jogo entre realidade e ficção. Desse modo, ao texto enunciado
nas falas diretas sobrepõe-se um outro “texto”, e o
da enunciação dramatizada envolvendo questões relacionadas
ao próprio fazer, ao estatuto da personagem, ao ato da leitura,
à condução do relato...
Sem dúvida é a metalinguagem enquanto processo escritural
o que singulariza a ficção de Lygia Bojunga, ao menos nas
duas obras que abordamos – Paisagem e Fazendo Ana Paz.
Buscamos acompanhar em nossa análise as diversas estratégias
de construção utilizada pela autora, para quem a montagem
de suas narrativas, tal como a encenação teatral, só
adquire sentido porque existindo para o leitor no momento mesmo em que
ela se faz, oferecendo-se como produção em diálogo
permanente com o olhar do outro. Essa concepção de literatura,
refletindo uma das tendências do artista contemporâneo, exibe
um objeto artístico no qual desponta como questão crucial
o desmascaramento do próprio ato criativo. Ora, sabendo-se que
esse propósito desmascarador, alicerçado pela consciência
crítica que lhe é inerente, traz como implicação
inevitável a relação obra-receptor, é preciso
pensar afinal, nesse alvo a ser atingido por uma ficção
como a de Lygia Bojunga. Por outras palavras, a forte presença
de uma arquitetura metalingüística na feitura de suas narrativas
está indissociavelmente atrelada à questão do público
leitor. E aqui, diversos aspectos surgem como possíveis questionamentos
que retomamos como pistas para tentarmos uma melhor articulação,
não as encerrando num espaço definitivo de significação,
mas arriscando alguma coerência.
Fugir ao enquadramento de rótulos e de condicionamentos (do mercado
editorial e de outros sistemas) não elimina a adoção
de mecanismos que acabam por seduzir determinado público leitor,
justamente porque marcados por traços em afinidade com esse destinatário.
É o caso da ficção de Lygia Bojunga. Se sua obra
se furta a estigmatizar-se na categoria juvenil, e de fato não
nos preocupamos em delimitar a análise a essa esfera, o desvendamento
dos caminhos de sua construção ficcional acabou por fazer
aflorarem índices de que essa relação não
está tão ausente quanto parece. Se não vejamos.
São numerosos os artifícios postos em operação
pela escrita da autora que apontam para efeitos de sentido ajustados ao
leitor com o qual dialogam. Podemos recolher alguns: metamorfoses ou mudanças
rápidas na focalização das cenas, burla da expectativa,
clima de esconde-esconde entre personagens e narrador, fantasia desmedida,
humor característico de desenho animado, ludicidade, atitudes marcadas
pela rebeldia, quebra de normas e convenções nas falas,
dinamismo... todos esses ingredientes estéticos se configuram de
modo a buscar uma cumplicidade com o jovem. E se lembrarmos, também,
a presença de mensagens veiculadas com certo teor sociológico
e cultural, como é o caso das histórias contadas pelo pai
da Ana Paz em Fazendo Ana Paz, onde a Carranca atua como metáfora
desse apelo ideológico, então estamos diante de uma ficção
não isenta de um intuito moralizante na formação
do leitor. Acontece que essa “edificação” de
valores, presente no plano do enunciado, é amolecida ou liberta-se
de suas cerradas malhas pedagógicas, pela estrutura narrativa em
sua prática de enunciação. É por meio desta
que o que poderia constituir ensinamentos categóricos de desestabiliza,
existindo antes como verdades mobilizadas pela realidade da ficção.
E ai surge outro ponto a ser equacionado e que também nos encaminha
a uma interessante tensão dialética: a auto-reflexividade
de sua ficção acentua um viés crítico que
demanda um leitor atento e sensível, mesmo diante de um obra que
o fascina pela liberdade e acasos do universo focalizado. Portanto, como
conciliar transgressão e disciplina, concentração
e distração, enfim, reflexão e prazer?
Os procedimentos metalingüísticos configuram a singularidade
dessa escrita ficcional: a estrutura de encaixe ou de uma paisagem dentro
de outra paisagem, jogo de espelhamento entre diversas linguagens, “levantamento”
das personagens discutido por elas próprias, o poder diabólico
da representação, leitura e escrita como corpos que se engendram
mutuamente, a intertextualidade, o papel da câmera fotográfica
simultaneamente como olhar e imagem figurando na Paisagem – todos
esses recursos confluem para conferir à obra literária uma
exigência de construção que não desvia o leitor,
muito menos o deixa impune ao seu contato. Noutros termos, não
deixa o leitor a salvo, recolhido em sua ingenuidade ou inconsciência
prazerosa, distraída, eis o que essa ficção auto
reflexiva pretende conseguir. Trata-se de um propósito muito semelhante
ao de João Cabral. A sua poesia pretende, como ele mesmo explicou
em depoimentos, criar sobressaltos no leitor, jamais acomodá-lo
a sensações confortáveis ou esperadas: “Prefiro
usar uma linguagem áspera, como se fosse um chão de paralelepípedos,
não um chão de asfalto. (...) Numa poesia muito musical,
tenho a impressão de que o leitor é embalado e não
presta atenção” (MOISES, 1996: 24). Em Lygia o seu
chão de paralelepípedos é o espaço bem arquitetado
de ficção onde o choque convive com a distensão em
favor de uma aprendizagem mais plena, porque menos distraída.
O que se pode questionar entretanto, é até que ponto essa
criação de sobressaltos se faz de modo a parecer espontânea
ou acaba-se marcando por um excesso que abusa dos seus artifícios.
Não é demais relembrarmos uma afirmação da
autora ao definir o jogo em que está empenhada: “Eu sou leitora,
logo, eu participo intimamente desse jogo maravilhoso que é o livro;
eu sou leitora, logo eu crio” (1990: 22). Reconhecendo-se como leitora
especial e trazendo para a criação o encantamento com o
próprio jogo, a sua escrita não pode senão refletir
esse olhar maravilhado (esse ego?) com que foca a si mesma – a sua
ficção e a sua personalidade artística. Esse “eu”
reiterado que transparece na fala citada é marca de uma subjetividade
(escrita e escritora) que não tem medo de se expor. Assim como
também não oculta seu desejo de ficar “redonda”
em seu projeto artístico, utilizando a metáfora da laranja
para ilustrar a imagem de completude.
O que podemos dizer, como leitores de suas narrativas, é que elas
procuram realizar algo que já é uma imensa conquista em
nosso tempo marcado pela mesmice: oferecem-se como um resposta moderna
ao didatismo da literatura educativa, firmando-se mais como signo artístico
que como convenção.
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