Eliane Aparecida Galvão Ribeiro Ferreira*
- Instituto Municipal de Ensino Superior de Assis – SP
Como professora de literatura e pesquisadora desenvolvi
uma pesquisa de campo, de 1998 a 2000, direcionada para o ensino e a formação
do leitor. Esta pesquisa configurou-se como minha dissertação
de mestrado. Durante o desenvolvimento da pesquisa, realizei um levantamento
de obras lidas espontaneamente por leitores do Ensino Fundamental de uma
escola privada, na qual já atuava como professora desde 1993. Entre
essas obras, diagnostiquei quais eram as consideradas como atraentes.
Entre as eleitas, destacou-se a obra A mina de ouro, de Maria José
Dupré. A partir desta constatação, objetiva-se neste
texto, por meio do suporte teórico da estética da recepção,
apresentar uma análise objetiva dessa obra.
Norteia a análise da obra escrita por Dupré, a concepção,
em consonância com o pensamento de Regina Zilberman (1984, p.133-4),
de que uma obra, por ser uma unidade concomitantemente composicional e
dialógica, é portadora de um fenômeno literário,
que circula do plano ficcional ao ideológico a partir de sua estrutura,
independentemente da sociedade que o produz ou o reflete. Para tanto,
objetiva-se analisar a construção do narrador, enquanto
ente ficcional, capaz de exercer um poder sobre a atuação
da personagem e das disposições do leitor implícito.
Este fato revela o trânsito do âmbito ficcional ao social
– da personagem ao leitor implícito, que embora seja uma
projeção do texto, ocupa um lugar que vem a ser preenchido
por um indivíduo real: o leitor empírico. Portanto, da manipulação
do leitor implícito passa-se ao controle sobre um ser humano –
o leitor empírico, neste caso, o aluno-leitor. Assim, objetiva-se
detectar o efeito produzido pela obra de Dupré nos alunos leitores,
quais são seus conceitos prévios e horizonte de expectativa
ao eleger essa obra.
Uma vez delimitado o objeto deste artigo, cabe refletir sobre o porquê
desta obra proveniente da década de 40 ser eleita como atraente,
tendo em vista o seu pacto com o pedagógico, a época em
que foi escrita, o momento histórico e a ideologia que representa.
Como ela continua a circular no mercado? Será que agrada aos leitores
ou aos adultos que se valem dela como veículo de manipulação
dos jovens e motivação da dependência? Ou, ainda,
será que por ser facilmente encontrada no mercado e nas bibliotecas
da escola, do município, de amigos e de familiares, os leitores,
por comodismo, consomem-na, assegurando sua circulação?
A reflexão prossegue quanto à recepção, será
que essa obra continua a ser lida porque sintetiza, por meio dos recursos
da ficção, uma realidade que tem amplos pontos de contato
com o que o leitor vive cotidianamente? Será que o sintoma de sua
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*Mestra em Literaturas de Língua Portuguesa, doutoranda em Literatura
e Vida Social. Professora do Instituto Municipal de Ensino Superior de
Assis – IMESA/FEMA, nos cursos de Direito, Publicidade e Propaganda
e Jornalismo, nas disciplinas de Língua Portuguesa, Comunicação
e Expressão, e Redação Forense. Para contato: eagrf@femanet.com.br
sobrevivência deve-se ao fato da obra continuar a se comunicar com
o destinatário atual, ou seja, a falar de seu mundo, com suas dificuldades
e soluções? Ela ajudaria o leitor a se conhecer melhor?
Responder a essas questões requer reflexões sobre a estética
da recepção e do efeito.
Neste artigo, considera-se a literatura como sendo condicionada primordialmente,
tanto em seu caráter artístico quanto em sua historicidade,
pela relação dialógica entre obra e leitor. Essa
relação decorre da estrutura do texto, da presença
de lacunas ou vazios que solicitam do leitor um papel na composição
literária: o de organizador e revitalizador da narrativa. Esse
papel só pode ser exercido quando o leitor preenche os pontos de
indeterminação do texto, os vazios, por meio da imaginação,
ou seja, pelo ato de concretização. Esse ato implica uma
interação na qual o leitor “recebe” o sentido
do texto ao constituí-lo. Desse modo, a atualização
da leitura se faz presente como um processo comunicativo.
A estrutura de comunicação, para Wolfgang Iser (1999, p.107,
vol.2), está subjacente aos vazios. Estes vazios ou lacunas presentes
em um texto indicam os locais de entrada do leitor no universo ficcional.
Assim, um texto possui uma estrutura de apelo que invoca a participação
de um indivíduo na feitura e acabamento: é seu leitor implícito.
A comunicação ocorre quando esse leitor, na busca do sentido,
da concretude, procura resgatar a coerência do texto que os vazios
interromperam. De acordo com Iser, a leitura só se torna um prazer
no momento em que a produtividade do leitor implícito entra em
jogo, ou seja, quando há comunicação.
A relação entre texto e leitor, de acordo com Iser (1999,
p.13, vol.2), caracteriza-se pelo fato de o leitor estar diretamente envolvido
e, ao mesmo tempo, ser transcendido por aquilo em que o envolve. Entretanto,
o papel do leitor na composição literária é
determinado por outro papel: o do narrador. Graças à sua
habilidade em narrar, uma obra pode ser aberta à operação
de leitura e deciframento ou ser fechada a essas operações.
Neste caso, o narrador assume um papel centralizador, introduzindo comentários
ou manipulando as emoções do destinatário na valorização
de uma idéia dominante ou de um herói com o qual se identifica
a temática do livro ou cuja trajetória surge como modelo
para o comportamento humano. Nessas obras, as personagens são veículos
de posições ideológicas. Elas exprimem uma única
visão de mundo, uma ideologia dominante, a do próprio autor
da obra.
A mina de ouro registra as “travessuras” de um grupo de jovens
formado por Henrique, Eduardo, Quico, Oscar e pelas primas Vera e Cecília,
acompanhado pelo cachorrinho Samba. Esse grupo sai de madrugada para uma
excursão, na qual farão um piquenique, no Morro do Jaraguá.
Levado de automóvel pela personagem intitulada padrinho até
o pé do morro, o grupo constrói a hipótese de que
é capaz de realizar as ações solicitadas por esse
adulto: subir o Morro, realizar um piquenique e retornar ao local determinado.
Ao subirem o Morro, as personagens encontram por “acaso”,
no meio do caminho, um buraco na terra. Como ao fundo dele vêem
uma claridade, pensam que é o sol. Assim, crêem que, por
meio da abertura situada no meio do Morro, é possível atravessar
para o outro lado. Seguindo o desejo por conhecimento, movido pela curiosidade
e acreditando que obterá prazer, o grupo passa pela abertura com
a intenção de realizar uma incursão pelo interior
do Morro. Inicia-se, então, a “aventura”.
No interior do Morro do Jaraguá, o grupo depara com uma sucessão
de caminhos, escadas de pedras, ambientes e labirintos. Convicto de que
encontraria facilmente o caminho de volta, termina por perder-se. Essa
constatação propicia às personagens repensar as hipóteses
que construíram inicialmente.
Em sua incursão pelo interior do Morro, o grupo descobre um tesouro
na forma de uma mina de ouro e constrói a hipótese de que
poderá levar pedras de ouro para casa.
Após uma semana perdido no interior do Morro, o grupo consegue,
ajudado pelo cachorrinho Samba, determinar o local adequado para escavar
e abrir uma estreita passagem que conduza à saída. Entretanto,
para passar por ela, deve optar entre a liberdade e a riqueza. A opção
do grupo recai sobre a liberdade. O grupo volta a seus familiares com
a sensação de que se aventurar foi um erro.
A mina de ouro não constava nas listas de obras sugeridas por mim
aos alunos em 1998 e 1999. Assim, objetivando alcançar o porquê
de a terem eleito, questionei os alunos leitores: seis, entre 47 entrevistados
em 1998, e cinco, entre 51 em 1999. As respostas foram diversas.
Dupré iniciou seu ingresso no imaginário dos alunos ainda
na 4ª série, em 1997, com O cachorrinho Samba e permaneceu
durante os anos de 1998 e 1999. O relato dessas leituras influenciou outros
alunos a lerem as obras dessa escritora. Dos 11 leitores de A mina de
ouro, seis leitores responderam que o título era atraente, transmitia
a idéia de suspense e aventura, elementos, segundo eles, indispensáveis
para a construção de um bom livro. Desses seis leitores,
serviu de motivação para duas alunas, além do título,
a indicação de amigos e de pessoas conhecidas; e para quatro
(três alunos e uma aluna), certos elementos da diegese, como a exploração
do espaço da ação em “minas escuras”,
a presença da personagem “cachorrinho Samba” e o papel
desempenhado pelo narrador onisciente e observador, descrito como “contador
de histórias”, como “alguém que conta a história,
só conta”, o que propicia, segundo esses alunos, “mais
imaginação”. Ainda, entre os 11 leitores, os cinco
(quatro alunos e uma aluna) demais apresentaram motivações
que indicam a facilidade de acesso à obra, tais como disponibilidade
na biblioteca da escola, na livraria, na própria casa ou na de
primos. Entre esses cinco leitores, uma aluna acrescentou que a obra disponível
em sua casa fora indicada pela mãe. Segundo a aluna, sua mãe
gostava da autora e havia lido essa obra quando tinha a idade da filha.
E um aluno acrescentou também que o livro era o único que
lhe agradara entre os apresentados pela vendedora na livraria.
Pode-se observar a presença do adulto, principalmente na última
resposta “corajosa” sobre a influência da mãe,
geralmente não admitida no contexto de 6ª série. A
presença do adulto aparece ainda associada ao consumo do livro,
pois ele o compra e o disponibiliza em casa. Também faz-se presente
no vendedor na livraria, que apresenta ao jovem consumidor um certo número
de obras, procurando muitas vezes atendê-lo de acordo com os ditames
das editoras quanto ao que agrada ao leitor juvenil.
A recepção passa, então, pelo filtro de outros leitores,
adultos ou não, que recomendam a obra. Esses leitores gozam do
prestígio de “formadores de opinião”, porque
possuem a confiança e a simpatia dos alunos. Esses alunos classificaram
oralmente a obra como “legal”, “interessante”,
“super”, “gostosa de ler”, “emocionante”,
“misteriosa” etc. Quando questionados se a indicariam a alguém
e por quê, responderam afirmativamente que a indicariam a amigos,
primos, parentes e a todos que gostam de aventuras, porque “ela
é legal, dá imaginação”.
Ainda, daqueles cinco alunos, um complementou suas afirmações
com uma explicação inesperada, constituída por um
clichê próprio de catálogos propagandísticos
de editoras: “a obra é um clássico de aventura e mistério”.
Essa informação, o aluno retirou dos dados biográficos
da obra A mina de ouro, edição de 1984. Conforme esses dados,
As obras A mina de ouro e O cachorrinho Samba figuram na 2ª edição
da publicação Best of the best da Biblioteca Internacional
da Juventude, em Munique, Alemanha, e Dupré é, na principal
biblioteca de São Paulo, o segundo autor mais lido e procurado
pelas crianças. Esse último comentário não
aparece mais nos dados biográficos da edição de 2000;
em seu lugar, consta a data de falecimento da autora. A resposta daquele
aluno surpreende pelo fato de a “propaganda”, a estratégia
de manipulação, elaborada pela editora para atingir o consumidor
adulto, que utiliza como critério de escolha a leitura de sinopses
e apresentações em orelhas, atingir também o jovem
leitor. Esse leitor está mais atento ao que lhe oferecem e procura
argumentos baseados em provas concretas para fundamentar suas escolhas.
Outros fatores que motivaram a escolha, de acordo com sete alunos entrevistados,
foram de ordem visual. Para quatro alunos, “tem muitas ilustrações
coloridas que deixam a história parecendo bem legal”; para
três, “a história é curta, o livro é
fino, tem letras grandes e bastante espaço em branco”.
Indagando os alunos acerca do conceito prévio que possuíam
a respeito dos livros que elegiam, obtive a seguinte definição
de uma aluna: “Livro é assim: começa tudo bem... Daí
algo de ruim acontece. Pronto, alguém luta, sofre, chora. Às
vezes até viaja, sei lá!... Depois de um tempo, pra cá
e pra lá, tudo bem. Todos se encontram, outros melhoram, aprendem,
mas acaba tudo bem.” Pelos depoimentos, percebe-se que a leitura
de um livro está associada à aprendizagem e à moral.
A respeito da aprendizagem, que segundo os alunos não difere da
“moral”, “é ela que você aprende”,
questionei-os se quando realizavam a leitura de um livro descobriam coisas
novas, diferentes. E o que descobriram lendo a obra de Dupré. As
respostas foram diversas. Para três (duas leitoras e um leitor)
alunos, a descoberta diz respeito ao que se deve evitar: “experiências
pavorosas”; “não ir entrando em qualquer buraco”;
“a curiosidade mata e os meninos se perderam e quase morreram”.
Desses três alunos, uma aluna acrescentou que descobriu “como
arrumar o que comer dentro de uma mina”. Para quatro (duas leitoras
e dois leitores) alunos, as descobertas dizem respeito à aquisição
de conhecimentos. Eles descobriram que é possível no interior
de minas de ouro: existirem “lagos e árvores frutíferas”;
“fazer fogo com pedras e fisgar peixes”; se acostumar “com
o escuro e com dormir no chão”; sobreviver “em lugar
sem nenhum recurso”. Desses quatro alunos, uma aluna acrescentou
que reconheceu a importância do conforto, do lar: “descobri
como minha casa é boa”. Para três alunos, a descoberta
está relacionada ao valor do trabalho, do respeito e do planejamento
em equipe: “eu aprendi a importância do trabalho em equipe”,
“como eles planejam para não se perder do grupo e o relacionamento
entre o grupo”, “eu aprendo respeito”. Desses três
alunos, dois afirmaram que a obra lhes forneceu “alguns truques
para viver e sair de um labirinto”, e um afirmou que a obra favorece
a criatividade. Finalmente, para um aluno, a descoberta refere-se à
capacidade das personagens de sobreviver em um ambiente inóspito.
Ele afirmou que: “por serem crianças eram bem espertas para
viver dentro da mina e a aventura dentro dela”.
Pelas respostas dos alunos, pode-se observar que não há
propriamente uma interação entre eles e o texto, uma revitalização
do mundo ficcional e uma aquisição de um saber. O que resulta
da leitura da obra é um manual de regras, de valores aceitos como
positivos quando mantêm um compromisso com os ideais dos adultos
ou negativos quando rompem com esses ideais. Assim, deve-se evitar a desobediência
porque ela favorece a “experiências pavorosas” como
entrar em um buraco, quase morrer, sentir fome, frio e medo. O que se
valoriza na obra são o respeito e a amizade entre as personagens
no interior da mina e sobretudo a correção destas personagens,
sempre preocupadas em se manter unidas, se auxiliar e dividir corretamente
as tarefas e as provisões. Desse modo, desvaloriza-se o espaço
da aventura, que embora repleto de riqueza, pedras de ouro, converte-se
em prisão. Dessa forma, o espaço conduz à privação
de valores positivos, como o lar, o conforto, a presença e a ajuda
da família e a liberdade. Há, então, um afirmar da
fragilidade das personagens, que é expressa na frase de um aluno:
“que por serem crianças eram bem espertas”. Essa fragilidade
avulta na frase do aluno, pois ele observa que se as personagens não
saíssem da mina a tempo pereceriam. Assim, as personagens de Dupré
não dominam o meio ambiente e o tornam o seu lar, antes apenas
“sobrevivem” até que a ajuda apareça.
As concepções acerca da moral e da aprendizagem presentes
em um livro são próprias da década de 50. Entretanto,
essas concepções permanecem nos discursos dos jovens, que,
embora as profiram, fazem-no de forma descrente e às vezes irônica.
Se elas permanecem em seus discursos é porque os jovens julgam
que lhes convém, junto aos adultos que os cercam, proferirem-nas.
Logo, a escola e a sociedade na década de 90 não diferem
tanto da de 50 no que diz respeito aos anseios pela formação
intelectual de seus jovens e ao que lhes é oferecido.
Na obra de Dupré, o chamado da aventura acontece por meio do acaso
e da sedução. Uma abertura encontrada por acaso no Morro
permite às personagens, ao adentrá-la, o ingresso no espaço
da aventura. Ultrapassá-la é mergulhar num universo desconhecido
e justamente por isso irresistível. Entretanto, devido à
intenção pedagógica, o acaso presente na obra tem
um único objetivo: “conformar” o leitor. Dessa forma,
as personagens, elo de ligação visível que o leitor
encontra com o texto, são as primeiras a serem prejudicadas. Seus
desejos são contrariados, não obtêm riqueza ou prazer
na aventura, suas hipóteses falham e elas quase morrem ou por terem
se ausentado do lar, ou se distanciado dos adultos, ou desobedecido. Assim,
a obra deixa transparecer a sua índole educativa; ela induze o
leitor a concluir que não há realidade a ser decifrada,
e sim um modelo a ser seguido. Esse modelo de conduta é o da obediência
e/ou da permanência no espaço doméstico: único
lugar capaz de oferecer aconchego, conforto, tranqüilidade e felicidade.
Justifica-se, então, a afirmação de uma aluna sobre
o que descobriu lendo a obra: “como minha casa é boa”.
Na narrativa, embora a volta ao lar esteja marcada pela presença
de luz, no término da aventura não se põe em relevo
o sol ou qualquer elemento que conote a iluminação. A ênfase
tanto no sol, como na iluminação conotaria a alegria e a
vitória obtidas graças à aquisição
de uma determinada sabedoria no espaço da aventura. Assim, A mina
de ouro encerra-se com a claridade do exterior em oposição
à escuridão da mina, mas sem referência ao sol. As
personagens são, logo depois da saída da mina, levadas para
casa, onde jantam, havendo referência à tarde e à
noite. Desse modo, o espaço da aventura representa a frustração
de expectativas. Nele há medo, risco de morte, escuridão,
tempestade, desconforto, prisão e ausência de iluminação.
Somente o lar é representante do conforto, da luz e do calor proporcionado
pela família.
Ao término da aventura, como os protagonistas, estão arrependidos
por terem desobedecido às normas, as performances realizadas por
eles no espaço distante do lar são negadas. Apesar disso,
os alunos afirmam que a obra produz prazer. Esse prazer, segundo Jacqueline
Held (1980, p.85), advém da fantasia, do imaginário, da
projeção no herói, do partilhar de suas angústias
e de seus perigos, que os alunos realizam. Essa projeção
advém do medo que sentem ao observar os heróis vivendo experiências
amedrontadoras. Justificam-se, então, as afirmações
dos alunos, “dá um pouco de medo”, como elemento motivador
da eleição dessas narrativas. Esse medo é desejado
pelo aluno leitor porque é tranqüilizante. Por meio da aprendizagem
lúcida, consciente, ele sabe que os “monstros”, pertencem
ao imaginário. Eles são objetos mentais dominados pelo aluno-leitor,
com os quais ele pode interagir, quando desejar, por meio da leitura.
O prazer encontrado pelos alunos nessa narrativa, descrito como “o
mais legal”, provém do método catártico.
Baseando-me nessas afirmações, questionei os alunos se gostariam
de participar das aventuras vividas pelas personagens e por quê.
Dos 11 leitores da obra, 10 disseram que sim, pois “seria legal”,
poderiam “andar” e “descobrir coisas” em: “uma
mina de ouro”, “uma gruta cheia de morcegos” e “várias
outras grutas”. Somente um aluno afirmou que não gostaria
de participar, porque “é chato ficar no escuro” e “dá
medo”. Mesmo os alunos que afirmaram querer participar disseram
que sentiriam medo, mas evitariam certas “coisas”, porque
não cometeriam “tantos erros”, como as personagens.
Questionei-os, então, sobre quais medos sentiriam e que erros evitariam.
Os medos relacionados foram: “passar fome”, “não
poder enxergar”, “encontrar bichos estranhos”, “desmoronamentos”,
“separar-se do grupo” e “nunca mais sair de lá”.
Todos os medos referem-se ao risco de morte constatado tanto pelas personagens
quanto pelo leitor implícito. A aventura é marcada pela
imprevisibilidade produzida por esse risco. Justamente por isso, ela é
atraente, rompe com a mesmice, com a rotina, com o dia-a-dia convencional,
com a segurança e com o tédio.
Quanto aos erros, os alunos afirmaram que estavam relacionados ao descuido
das personagens e que seriam evitados se elas tomassem certas precauções.
Estas seriam: “deixar uma corda esticada no caminho ou alguma coisa
marcando para voltar”, “não ir a lugares estranhos
do Morro sem companhia, pois duas cabeças pensam mais que uma”,
“não se separar dos amigos”, “pensar duas vezes
antes de entrar no buraco”, “não andar sozinho pela
mina”, “não esquecer o caminho de volta” e “não
ficar sozinho e levar comida”.
A morte dá à narrativa de aventura concomitantemente uma
carga de atração e de repulsão, tanto para a personagem
quanto para o leitor. Utilizando-se da estratégia do suspense,
Dupré explora o medo e o desejo de saber do leitor. Assim, o leitor
não consegue parar de ler enquanto não vê resolvida
a situação em suspenso. Os protagonistas também sentem
medo, mas ao longo das peripécias sucessivamente narradas vão
aos poucos adquirindo competência para sobreviver. Essa competência,
produzida pela aquisição de um determinado conhecimento,
como reconhecer espaços e nomeá-los no interior do Morro,
encontrar frutas, ouro e peixes, diferenciar animais que representam perigo
dos que não o representam, embora permita que os protagonistas
lidem com seus medos no espaço da aventura e descubram meios de
contorná-los e vencê-los, nada valem no retorno ao lar. O
leitor implícito é induzido a passar pelo mesmo tipo de
experiência vivenciada pelos protagonistas. Ele é levado
a avaliar formas e conteúdos diferentes e, baseando-se nessa visão
da multiplicidade, formar-se e aperfeiçoar-se. Assim, ao lado da
autoridade afetuosa, mas rigorosa dos adultos, acatada como absoluta entre
as personagens, está a necessidade de partir para romper com o
status quo em busca de emoções e aventuras que promovam
competência. Desse modo, A mina de ouro contém elementos
atraentes e cativantes para o jovem leitor que vivencia lutas diárias
com seus medos e tédios, enquanto anseia adquirir um poder que
confira libertação das opressões e normas dos adultos.
De acordo com Regina Zilberman (1984, p.132), a fantasia é o setor
privilegiado pela vivência do livro infantil e juvenil. De um lado,
porque aciona o imaginário do leitor e, de outro, porque é
o cenário em que o herói resolve seus dilemas pessoais ou
sociais. Conseqüentemente, não é a saída que
coloca o herói perante o mundo, mas a sua volta. Assim, se a saída
é provocada pelo reconhecimento de uma deficiência simbólica,
a chegada, o retorno, coloca o herói perante o mundo. Pode-se observar,
entretanto, que na narrativa escrita por Dupré, a intenção
pedagógica transforma a aventura em pretexto para a transmissão
de normas. Seus heróis não obtêm uma vitória
no espaço da aventura. Eles apenas sobrevivem a ela. Dessa forma,
não são sancionados com um determinado poder ou saber capaz
de propiciar a iluminação, a conscientização.
Como o ingresso dos protagonistas na aventura é proveniente de
uma fuga, de um afastamento voluntário dos adultos, de uma transgressão
à ordem e à obediência, o espaço transforma-se
em meio de castigo e lição aos desobedientes. A experiência
propiciada pela aventura não leva as personagens à auto-afirmação,
enquanto confiança em si mesmas e reconhecimento pelos adultos,
antes leva as personagens à aceitação das regras
do mundo adulto, em termos de obediência, com conseqüente reclusão
no âmbito familiar. A reclusão e reconhecimento da importância
do lar revelam o conformismo dos heróis com sua condição
existencial. O relacionamento com o mundo adulto liga-se estreitamente
à confirmação da ideologia familista.
A intenção de Dupré de transformar a narrativa em
exemplaridade prejudica a fantasia, suas personagens jovens e adultas
convertem-se em modelos de conduta, o espaço da aventura, em prisão
e o espaço constituído pelo lar, em espaço ideal.
Dessa forma, a narrativa fica prejudicada quanto ao efeito de verossimilhança.
Ainda, a verossimilhança fica comprometida quando os elementos
com os quais interagem as personagens no interior do morro são
analisados: pedras de ouro que podem servir de anzol ou se friccionadas
produzir fogo, laranjeira que mesmo sem a luz solar produz frutos, e enormes
quantias de ouro inexploradas. Há, também, na nomeação
do espaço da aventura, Morro do Jaraguá, coincidente com
a do mundo empírico, uma contenção da expansão
imaginária do leitor.
De acordo com Anatol Rosenfeld (2000, p.43), há dois tipos de prazer
ofertados por uma obra a um leitor: o prazer do conhecimento e o prazer
estético. Pode-se observar que, após a leitura da obra de
Dupré, ocorre de acordo com os alunos, um prazer imediato associado
à aquisição de “conhecimentos” pragmáticos,
pois lhes é negado o prazer estético.
Na obra, o retorno das personagens ao meio em que viviam inicialmente
representa a restauração do equilíbrio inicial conotado
pela circularidade da narrativa. Ao seu término, os protagonistas
retornam ao seu ponto de partida, ao lar, prontos para acatar as determinações
dos adultos, pois foram aprovados em um rito de “conformação”.
Assim, ao se fechar em círculo, a narrativa fecha também
os protagonistas em seus lares. Esse rito é apreendido por uma
aluna que o define ao comentar sobre livros: “Depois de um tempo,
prá cá e prá lá, todos se encontram, outros
melhoram, aprendem”. A aluna destaca o papel de lição
que a obra possui. As personagens passam por experiências aterradoras,
mas “aprendem”, “melhoram”, não fugirão
e não desobedecerão mais, porque descobriram, assim como
outra aluna, como suas “casas são boas”. Por conseqüência,
as ações realizadas pelas personagens projetam a frustração
no leitor implícito. Como as personagens, ele também anseia
superar suas limitações, fugir do tédio de todos
os dias e da opressão dos adultos e de suas normas, anseia tornar-se
um sobrevivente, romper o círculo de dominação e
ser valorizado e reconhecido por suas performances pelos adultos, mas
esses anseios não são concretizados por meio da leitura
da obra.
Ao questionar os alunos sobre a recepção da obra, notei
uma imagem contraditória que possuíam de si mesmos. Ao alegarem
que a obra era “genial”, “legal”, “criativa”,
que as personagens eram “legais”, “alegres”, “normais”,
“como nós”, aparentemente não a percebiam como
normativa. Entretanto, se na explanação de suas opiniões,
os alunos aceitavam a obra, a atitude em sala era paradoxal, pois pautada
pela quebra constante de normas. Havia, então, um afirmar e negar
daquilo que a escola lhes transmitia. Quando liam a obra, os alunos “aceitavam-na”,
quando estavam em sala, não pautavam seus comportamentos pelos
das personagens disciplinadas, que definiam como “iguais a nós”;
pelo contrário, parodiavam-nas. Assim, os alunos percebiam o paradoxal
que lhes oferecia a escola. Se não reagiam negativamente diante
da obra, o que poderia levar a entender essa impassibilidade como sinal
de aceitação da engrenagem, reagiam pela atitude de descontentamento
com a escola e com o que a representa.
De acordo com Regina Zilberman (1998, p.18), retomando Bernard Charlot,
a imagem do jovem é contraditória precisamente porque o
adulto e a sociedade nela projetam, ao mesmo tempo, suas aspirações
e repulsas. O jovem define-se assim, ele próprio, com referência
ao que o adulto e a sociedade esperam dele. Ele é o reflexo do
que o adulto e a sociedade querem que seja (obediente) e do que temem
que ele se torne (desobediente). Justifica-se, então, a indicação
para leitura, pela professora da 4ª série e pelos demais adultos
responsáveis pela educação dos alunos, das obras
de Dupré. Esses adultos esperam que as obras atraentes pela temática
da aventura, pela exploração de jovens heróis com
os quais se identificam os alunos, tornem-se um alçapão
que, assim como prendem as personagens, “prendam” também
o leitor em um universo no qual a palavra de ordem é a obediência.
As personagens são sedutoras para o leitor, de acordo com Forster
(1998, p.61), porque lhe dão a ilusão de perspicácia
e poder. Uma obra permite ao leitor analisar e observar presas em um universo
uma raça humana mais compreensível e conseqüentemente
mais dócil. Ao tornar as personagens mais compreensivas para o
leitor, a obra consola-no, pois na vida diária nunca nos compreendemos
uns aos outros, não existe a completa clarividência ou a
confissão completa. Mas as personagens em uma obra podem ser completamente
entendidas pelo leitor, se o escritor quiser; sua vida interior, assim
com a exterior, pode ser exposta.
Dupré, em sua obra, dado o caráter trivial desta, apresenta
personagens planas, desprovidas de complexidade psicológica, superficiais
e estereotipadas, com seus papéis ficcionais previamente distribuídos
e fixos para sempre. Essas personagens, por serem facilmente compreendidas,
reconhecidas durante a leitura e posteriormente lembradas, consolam e
agradam ao leitor com pouco contato com textos diversos. Ainda, por atenderem
ao seu horizonte de expectativa, produzem nesse leitor a sensação
de conforto. Todas as ações dessas personagens reforçam
a sua correção, elas não apresentam altercações;
uma vez definidas e descritas por um narrador onisciente, produzem no
leitor a sensação de absoluto domínio de seus pensamentos,
bem como de previsibilidade de suas atitudes. Elas não surpreendem
o leitor, definem-se pelos seus atos. As jovens se conduzem como adultos
em miniatura: são determinadas, companheiras dedicadas, preocupadas
com o próximo e com o julgamento alheio, mais especificamente com
o dos adultos. Quando estão em situações tensas,
elas se definem pela religiosidade que expressam por meio de orações,
pelo apoio e pela coragem que fornecem umas as outras. Ainda, são
compromissadas com a família e amadas por todos os membros que
a compõem. Elas representam assim o mito do “jovem feliz”.
O cachorrinho Samba, enquanto comparsa, também se conduz como personagem
modelar, ele é um companheiro leal, amoroso e determinado. Apesar
disso, é frágil e precisa de cuidados constantes. Pela personificação,
conota os jovens heróis que necessitam de amparo dos “mais
velhos”. Também serve de motivo para justificar as atitudes
dos humanos. Essas atitudes, devido ao caráter moralizante das
narrativas, definem o “bom” jovem que trata bem os animais,
porque os respeita e reconhece o seu valor.
Pela capacidade que algumas personagens adultas masculinas modelares possuem
de dar conselhos às personagens jovens, e por projeção
nelas ao leitor empírico, elas atuam também como suporte
para o pedagogismo da autora.
As personagens femininas, atendendo ao mesmo modelo de literatura trivial,
quando jovens, embora ingressem na aventura, são frágeis
e vulneráveis; quando adultas, permanecem em casa preocupadas,
aguardando que a personagem masculina adulta retorne de sua excursão
em busca dos jovens protagonistas fujões. Graças a isso,
as personagens femininas servem de motivo para justificar a bondade, a
compreensão, o bom caráter e o cavalheirismo das personagens
masculinas.
A exploração dos espaços na obra de Dupré
conota os anseios das décadas de 40 e 50. O cenário primitivo,
embora seja o eldorado de riquezas, está superado, representa apenas
um cenário abandonado, repleto de perigos e mistérios favoráveis
à ação. Ainda quanto ao cenário, Dupré
segue a tendência apresentada pela Coleção Terramarear:
lugares exóticos e primitivos. Explora dos quadrinhos e das narrativas
de aventura a sensação de produzir no leitor sonhos, estímulos
e ideais, como a liberdade, a natureza e a força, mas todos com
caráter escapista e não emancipatório. Embora sua
obra seja atraente por expressar os anseios de jovens leitores que desejam
ingressar em uma aventura por lugares desconhecidos, ela, ao apresentar
uma intenção pedagógica, ridiculariza esses mesmos
anseios, apresentando-os como infantis e infundados. Há em sua
obra, devido ao caráter utilitário, a desvalorização
da emoção; por isso há praticamente ausência
de conflitos entre as personagens.
Pode-se observar pela análise da obra que a literatura não
é concebida como agente formador, mas como manifestação
capaz de doutrinar o leitor, como manifestação retórica.
O discurso utilitário presente na obra faz uma propaganda de um
determinado estilo de vida, apresentado como capaz de propiciar a felicidade.
Assim, a obra veicula, dada a sua natureza, a ideologia da classe dominante
utilitariamente. As mensagens apresentadas ordenam ao leitor implícito,
e por projeção nele ao empírico, como deve proceder.
Assim, o autoritarismo presente no discurso conota a concepção
da autora a respeito de seu leitor. Ele é visto como inferiorizado
diante de um emissor adulto detentor da “verdade”.
A fantasia, por sua vez, aparece na obra de forma escapista, como sucedâneo
do sonho, alienante. Ao término da aventura, os adultos não
acreditam na veracidade dos relatos dos jovens protagonistas; pensam que,
ou eles tiveram febre, por isso deliraram, ou sonharam, ou imaginaram.
A manifestação dessa desconfiança por parte dos adultos,
associada à falta de provas que os jovens não conseguem
trazer no retorno da aventura, faz com que os próprios protagonistas
se conformem com as suspeitas das personagens adultas, ou de outras jovens
personagens “mais velhas” do que eles e que representam, no
espaço da aventura, os adultos. Dessa forma, a fantasia não
ilumina a realidade, não emancipa o seu leitor. Interessa, então,
à autora menos a estética que a inculcação
de moralidades compatíveis com o grupo a que ela pertence.
No espaço da aventura, as personagens aprendem a lidar com o mundo
natural, a conviver com os animais e a dominar seus medos por meio do
conhecimento. Nesse espaço, protagonista Henrique, o “mais
velho”, torna-se, segundo os alunos, digno de ser o líder,
tanto por causa da idade, quanto por merecimentos. Ele é o herói
que se sacrifica pelo grupo, que vive e coordena pelo bem comum a grande
aventura no interior do Morro enquanto os adultos não chegam para
salvá-los. Justifica-se, então, que, entre 11 alunos leitores
da obra, seis (quatro leitores e duas leitoras) tenham apontado esse protagonista
como o mais interessante, afirmando que a escolha se deve ao fato de ele
ser “um bom líder”. Essa classificação
é merecida, segundo os alunos, pois “Henrique faz as coisas
direito”, “ele ajuda os companheiros, trabalha com eles”,
“ele sabe que é caso de sobrevivência”, “é
um garoto com juízo e com muitas idéias, criatividade e
imaginação”, “sabe controlar os deveres e todos
os acontecimentos e sabe botar ordem”, “nunca resolve nada
sozinho”. Entre os demais leitores, somente um aluno apontou a personagem
Oscar como a mais interessante, pois “descobriu que o lugar certo
da saída era pela gruta do morcego”; e quatro alunos (duas
leitoras e dois leitores), indicaram a personagem Samba, pois “achou
o lugar para sair de lá”, “achou Oscar que se perdeu”,
“é inteligente, quando vê perigo começa a latir,
ele sabe pelo cheiro, pelo barulho, tem uma super visão”,
“ajudou praticamente em tudo”.
Os alunos, ao relatarem quais são as personagens mais interessantes,
explicitam a sedução que elas exercem sobre eles. As qualidades
que apontam para definir a personagem Henrique referem-se à correção,
à coragem, à responsabilidade, à sabedoria, à
experiência, à habilidade, ao respeito pela opinião
alheia. Assim, Henrique, quanto à categoria de recepção,
atende ao horizonte de expectativa do leitor, segundo Maria Alice Faria
(1999, p.42), retomando Jauss, na modalidade admirativa. Essa modalidade
leva o leitor a tomar a personagem escolhida como modelo ideal de comportamento,
de conduta. O protagonista Henrique oferece normas positivas de comportamento.
Entretanto, personagens modelares como ele não fornecem ao leitor
possibilidade de crescimento real, ou seja, de ampliar seu horizonte de
expectativa, pois, idealizadas, não mimetizam a complexidade própria
do ser humano e não permitem o questionamento existencial.
O protagonista Henrique, ao aparecer como modelo ideal de líder
e de jovem, representa uma possibilidade de adesão afetiva e intelectual
do leitor ao texto, por meio da identificação e da projeção.
Entretanto, a maioria das qualidades desse protagonista diz respeito ao
autoritarismo associado a um poder conferido ao “mais velho”.
Assim, tanto o poder quanto os saberes dessa personagem conotam os conhecimentos
e atitudes que os adultos atribuem a si mesmos quando desejam justificar
a sua “superioridade” sobre os “mais jovens”.
A personagem configura-se como um adulto em miniatura. As demais, por
aceitarem seu comando, mantendo a calma, sem se exaltarem, compenetradas
em um mesmo objetivo, buscando a organização de suas ações
e mantendo o respeito na divisão das tarefas, conotam o comportamento
ideal que os “mais jovens” devem apresentar em relação
ao “mais velho”.
Segundo Maria Alice Faria (1999, p.36-7), há uma identificação
especular entre o leitor empírico e a personagem indicada por ele
como a mais interessante. Essa identificação ocorre por
meio de um reconhecimento global desse leitor na personagem que se configura
como seu alter-ego. Assim, as personagens de Dupré agradam ao leitor
que se identifica e se projeta nelas, ao mesmo tempo em que atendem ao
seu horizonte de expectativa e se apresentam como modelos a serem seguidos.
O leitor acredita se reconhecer nas personagens quando de fato nelas projeta
apenas o aspecto mais superficial de sua personalidade.
Os protagonistas Oscar e Henrique, de acordo com a tipologia de Maria
Alice Faria (1999, p.38-9), baseada em Lauwe e Bellan, classificam-se
como “heróis positivos ativos”, predominando em suas
caracterizações a esperteza e a inteligência. As atitudes
e ações da personagem Oscar, por sua vez, são próprias
de um jovem esperto, entretanto descuidado. Justamente por isso ele comete
“erros”, como se afastar voluntariamente do grupo sem comunicá-lo
e com isso preocupar a todos. Justificam-se, então, as classificações
dos alunos quanto aos erros cometidos pelo protagonista Oscar e pelas
demais personagens como descuidos que jamais cometeriam se estivessem
em seus lugares. Justifica-se ainda, que os protagonistas Quico e Eduardo
(o primeiro curioso, otimista, brincalhão e às vezes resmungão;
o segundo cauteloso e um pouco amedrontado) não sejam preferidos,
pois se distanciam da seriedade, da coragem e da capacidade de suportar
as situações mais adversas que os alunos esperam encontrar
em um herói. Essas personagens representam um tipo de herói
“mais humano”, que provoca certa frustração
no leitor, porque este não reconhece nelas o “herói
perfeito”. Entretanto, essa face “mais humana” dos heróis
não impede que os alunos sintam desejo de lhes ocupar o lugar,
assim como não rompe o seu horizonte de expectativa. Os alunos
aceitam as “fraquezas” dos heróis, porque os vê
como crianças e ainda justificam-nas. Pode-se observar essa aceitação
e justificativa por meio da afirmação de um aluno: “por
serem crianças eram bem espertas para viver dentro da mina e a
aventura dentro dela”. Isso revela que as personagens, mesmo não
sendo “perfeitas”, se configuram quanto à recepção
como positivas ativas, conseguem realizar ações que promovem
e garantem a sobrevivência.
As qualidades atribuídas ao cachorro Samba pelos alunos referem-se
à esperteza, a um poder próprio dos cães, e à
capacidade de ajudar o grupo de aventureiros. Samba é a personagem
que “todo mundo quer ter do lado”, de acordo com o depoimento
oral e espontâneo de uma aluna, caso precise se aventurar. Os alunos
encontram em Samba elementos atraentes, como a capacidade de fornecer
ajuda e a espontaneidade aliada à despreocupação;
por isso ele é o primeiro a adentrar o buraco que conduz ao interior
do Morro. Esse espontaneísmo e despreocupação são
atraentes para o leitor, justamente em uma fase de sua vida em que crescer
atrai, mas também preocupa e às vezes apavora. A personagem
Samba classifica-se pelas afirmações dos alunos, de acordo
com Maria Alice Faria (1999, p. 61), ora como a “personagem aventureira”,
que vive as aventuras plenamente, de forma despreocupada, sem compromisso
com as normas impostas, ora como o “herói positivo ativo”,
que sabe encontrar a saída do Morro e reconhecer o perigo. Ele
é ousado, corajoso e esperto. Ainda, por não surpreender
e comportar-se de forma previsível, Samba configura-se, assim como
as demais, como uma personagem plana.
De acordo com Held (1980, p.106), o animal doméstico e familiar
revela-se infinitamente precioso, o cão, em especial é atraente,
porque está presente, quando os adultos estão ocupados,
sempre disponível e disposto, pelo menos nos sonhos. O mundo animal
é atraente, porque revela um universo de prazeres sem restrições,
que sempre encantou tanto os jovens leitores. As performances espontâneas
da personagem Samba representam para os leitores: refúgio, desforra,
pausa recreativa e compensadora. Elas lhes permitem melhor enfrentamento
do universo dos adultos, repleto de regras que devem assumir na proporção
de suas forças.
O cachorro Samba apresenta-se de forma paradoxal, embora seja esperto
e ágil, auxiliando os heróis a saírem do interior
do morro, também é frágil e dependente das jovens
personagens principalmente para se alimentar. Essa fragilidade é
constantemente retomada pelo emprego de diminutivos. Graças a ela,
o animal não apresenta heroísmo ou bravura e, ainda, não
obedece a ordens e nem realiza tarefas “determinadas pelo protagonista
Henrique”. Ainda, quando realiza alguma tarefa relacionada a trabalho,
suas ações são descritas ironicamente pelo narrador.
Elas são capazes de provocar o riso, pois, antagônicas, mais
atrapalham do que ajudam. Assim, Samba também se caracteriza como
a personagem engraçada, mas essa caracterização não
o desvaloriza perante o grupo de aventureiros que o admira pela capacidade
de farejar em busca de companheiros desgarrados, fazer companhia e localizar
um local adequado para a escavação. Desse modo, as personagens
confiam nele e consideram a sua ajuda indispensável.
A personagem Samba incorpora duas concepções: a dos adultos
sobre os jovens, que, como o cachorrinho, são incapazes de cuidarem
de si mesmos, o que justifica cuidados suplementares; e a dos jovens sobre
si mesmos, pois se aventurar é preciso e emocionante, e sobreviver,
mesmo que seja por um breve período, é possível.
Samba é a única personagem que demonstra prontidão
para quaisquer aventuras e alegria por ter participado da aventura do
Morro. Por meio da personificação e de suas performances,
esse protagonista apresenta características mais humanas, do que
as personagens que o cercam.
A personagem Samba exerce o papel de “objeto mágico”,
a que confere poder, pois tê-la por perto assegurou às personagens
tanto o ingresso no Morro quanto a saída dele. Essa personagem
conota paradoxalmente o arauto que realiza o “chamado da aventura”
e o “fio de Ariadne”, tanto para as personagens quanto para
o leitor. Ao conhecê-la, o leitor identifica-se com ela, quer tê-la
ao seu lado, porque sabe que ela é competente para ingressar na
aventura e retornar quando for preciso.
A admiração dos alunos pelos “heróis positivos
ativos” conota, segundo Maria Alice Faria (1999, p.47), a pressão
moralizante que recebem por parte dos adultos em sua própria educação
em casa, na escola e sobretudo nos livros que lhes são dados a
ler.
É válido destacar que, embora a obra tenha sido lida por
quatro alunas, nenhuma indicou as personagens Vera e Lúcia como
as mais atraentes. Quando questionadas oralmente sobre o porquê
de não optarem por personagens femininas, responderam: “elas
não fazem nada”. De fato, Dupré reserva às
personagens femininas ações secundárias que demonstram
vulnerabilidade e fragilidade. Justificam-se, então, a decepção
e frustração das alunas leitoras com essas heroínas
que requerem cuidados e atenção permanentes das personagens
masculinas. A caracterização das personagens femininas revela
a concepção da autora quanto ao papel social de uma representante
dessa categoria: a jovem.
Comportamento semelhante ao do protagonista Henrique desenvolve o padrinho.
Ele permanece acampado no exterior do morro, sacrifica-se em nome dos
outros adultos também responsáveis pelos jovens, objetivando
minimizar a tragédia que se abateu sobre todos: o desaparecimento
dos protagonistas. Assim, ele se configura como modelo de “bom adulto”:
responsável, líder nas buscas pelos jovens perdidos, compreensivo
com esses jovens, esperançoso, determinado, comprometido com as
demais personagens adultas, enfim com sólidas qualidades morais.
Essa personagem, por se apresentar como o “adulto perfeito”
e realizar ações em prol de uma causa maior, caracteriza-se
também como herói positivo ativo e herói bom. Representa,
então, o modelo ideal de “adulto” que se espera um
dia os jovens venham a ser.
Pode-se concluir, pela análise das personagens que, quanto à
recepção, elas são negativas. Como não rompem
o horizonte de expectativa do leitor, produzem neste a sensação
de conforto, por serem facilmente compreendidas, a sensação
de consolo. Ainda, essas personagens, por serem desprovidas de consciência
crítica e incapazes de surpreender o leitor, não lhe permitem
a superação de seus problemas existenciais, a reflexão
e a revisão de valores.
Ao término da aventura, as personagens voltando para casa, não
levam da mina objeto algum que possa testemunhar a experiência ali
vivida. Logo, a “mina”, identificada com a grande aventura
de viver, promovida pela desobediência, permanece no universo ali
criado como um sonho, uma fantasia. Essa experiência vivida pelos
protagonistas representa aquilo que os adultos querem esquecer e que os
jovens não querem repetir. Note-se que, fazendo avançar
a narrativa além da volta dos meninos, a autora reforça
esse aspecto irreal ou fantasioso da experiência aventuresca vivida
pelo grupo e, ainda, a “moral” da história: “a
liberdade vale mais do que todo o ouro”. Os dois capítulos
finais expressam essa “moral” e apresentam a aprendizagem,
a lição apreendida e demonstrada no desejo das personagens
de nunca mais voltarem à mina e na valorização das
coisas simples de casa, da família, do aconchego, do lar. No desfecho
dessa obra, pretende-se incutir no espírito do leitor a sensação
de que, embora algo maravilhoso tenha existido no interior de um morro,
as privações, os sofrimentos e os medos levam a crer que
as aventuras não valeram a pena.
Os espaços dessa obra, por sua vez, confirmam o modelo familista.
Eles se dividem em dois planos: o externo, desconhecido e distante do
lar, alcançado pelas personagens que abandonam o setor domiciliar;
e o interno, o conhecido, o do lar, dominado pelos adultos que regulam
a vida familiar, ordenando suas concepções existenciais
e o modus vivendi. Ainda, o espaço externo, o desconhecido, divide-se
também em dois planos: interno e externo e/ou alto e baixo.
O espaço externo, desconhecido, representado pelo Morro do Jaraguá,
divide-se também em dois planos: o interno, no interior do Morro,
que representa o locus horrendus, o perigo, o local de sofrimento e de
angústia, no qual se adentra graças à desobediência,
“por um buraco”, e se é condenado ao encarceramento;
o externo, constituído pelo espaço sobre o Morro, que representa
a segurança, o local da obediência, onde deveriam permanecer
os heróis, e no qual transitam os adultos em busca dos jovens protagonistas.
O espaço interior representa o espaço do abismo, do subsolo,
do “baixo”, conotando a “queda”. Justifica-se,
então, que o protagonista Oscar, quando preso na gruta dos morcegos,
ouça vozes de adultos vindas do exterior do Morro, acima de sua
cabeça. Essas vozes situam-se no “alto”, no exterior.
Assim, os adultos permanecem acima do “abismo”, no plano ideal
e inatingível para os jovens protagonistas.
A obra possui uma narrativa marcada pela intenção básica
do narrador tradicional de contar uma história interessante. Acrescente-se,
ainda, que o tema da aventura no interior de um morro, de uma floresta,
em espaços desconhecidos, compostos por labirintos e galerias,
faz parte da linha heróico-aventuresca que no transcorrer dos tempos
tem encontrado a mais alta ressonância entre leitores diversos.
O discurso proveniente desse narrador é o de alguém que
não participa como personagem da história narrada e conta
uma história da qual está ausente. Seu estatuto pode ser
definido, de acordo com Gérard Genette ([196-?], p.247), pelo seu
nível narrativo, como extradiegético, e pela sua relação
com a história, como heterodiegético. Ainda, por narrar
uma história da qual está ausente, classifica-se como um
narrador de primeiro nível. Pode-se observar pelo discurso do narrador
a aceitação de que os dias, quando não passados em
aventura, são todos iguais. Entretanto, essa aceitação,
que poderia ser entendida pelo leitor como um compactuar de seus anseios,
vem seguida pela supremacia do discurso do narrador sobre a narrativa.
Essa supremacia aparece na exposição para o leitor do seu
julgamento sobre o que a personagem Samba não pode falar. Desse
modo, o discurso do narrador ocupa o espaço do discurso da personagem,
impondo-se para o leitor. A capacidade de julgamento do narrador permanece
ainda na conclusão a que chega a respeito da importância
da aventura para as demais personagens. Ele conclui que as personagens
não anseiam a sua repetição. O narrador, além
de julgar, também se apresenta como um “conselheiro”
experiente e maduro, capaz de interpretar as emoções de
alguém inexperiente. Ele se antecipa em “confortar”
o leitor implícito que, durante a leitura, constrói a hipótese
de que os protagonistas ficariam ricos. O narrador, ao “confortar”,
objetiva conformar o leitor ao fato de que o ouro não traz felicidade.
Esse “confortar” revela uma atitude paternalista do narrador
diante da frustração do jovem leitor. Graças à
focalização onisciente, panorâmica e total, o narrador
configura o seu discurso como o de um autêntico demiurgo, conhecedor
de todos os acontecimentos na sua trama profunda e nos seus pormenores,
e de toda a história da vida das personagens. Assim, esse narrador
penetra no âmago das consciências, como em todos os meandros
e segredos.
O narrador, por meio do discurso, estrangula a autonomia das personagens
de expressar seus próprios questionamentos e, por conseqüência,
a liberdade do leitor implícito de interpretá-los. Essa
orientação assume a função ideológica
da linguagem. Devido à focalização heterodiegética,
o narrador apresenta-se como um “contador” que se volta para
um receptor. Mas, por meio de suas intervenções a respeito
da história, ele demonstra que não está interessado
em manter uma relação comunicativa e interativa com o leitor;
almeja uma relação ideológica. O anseio por esse
tipo de relação avulta em seu discurso quando este assume
a forma didática de um comentário autorizado da ação.
Dessa forma, a sua focalização heterodiegética não
é neutral, antes se reveste de um caráter interventivo que
aparece por meio dos juízos, comentários e digressões
que expressa. Ele busca, sem perder de vista o leitor, explicar o que
acontece na história, ao mesmo tempo em que o conduz para as interpretações
desejadas. Assim, afirma-se a sua função ideológica
pelo seu discurso explicativo e justificativo motivado por uma intenção:
levar o jovem leitor, que se projeta tanto nas personagens quanto no leitor
implícito, à obediência aos valores impostos pelos
adultos.
O narrador, graças à sua função ideológica,
apresenta um monopólio deliberado sobre a narrativa. Sua soberania
sobre o leitor implícito avulta quando se exclui a decodificação
do destinatário. Essa exclusão ocorre porque a voz do narrador
ocupa todos os espaços; ao leitor é fornecido um mundo pronto,
previamente interpretado e facilmente consumível. Com isso, impõe-se
um processo de percepção textual no qual o recebedor é
colocado perante um produto acabado que, se é opressivo no âmbito
ideológico, é digerível sob o aspecto estético.
Assim, caminham juntas na obra de Dupré: facilidade de leitura
e transmissão de valores repressivos. Ainda, a soberania do narrador
sobre as personagens aparece na manipulação da linguagem.
As personagens se comunicam no discurso direto, na norma culta. Desse
modo, pode-se observar que, na obra, não há diferença
entre a fala das personagens jovens e adultas. Os elementos tradicionais
do nível culto escrito aparecem na obra, mesmo no diálogo,
no emprego rigoroso das combinações pronominais oblíquas,
de tempos verbais literários; de ponto-e-vírgula; da oração
negativa sem incorrer na dupla negação própria da
oralidade; e dos períodos compostos por orações coordenadas
e subordinadas reduzidas ou não. Há, entretanto, de acordo
com Maria Alice Faria (1999, p.34), certo equilíbrio quanto ao
tratamento da linguagem. Dupré não exagera a altura do nível
culto, principalmente quanto ao vocabulário. Não há
discrepância entre o sumário narrativo e o diálogo.
Nos diálogos, embora haja o rigor da norma culta, encontra-se um
vocabulário corrente, uma distribuição discreta de
formas lingüísticas situacionais, o que no conjunto cria harmonia
estilística e não chega a comprometer a impressão
de veracidade da personagem. Esse equilíbrio na prosa favorece
que seus textos sejam lidos atualmente com facilidade e prazer. É
válido destacar que esse prazer advém justamente da facilidade
de leitura.
Como se pode observar, o discurso do narrador não propicia uma
comunicação interativa com o leitor. Essa contenção
da interação comunicativa ocorre porque a escritora constrói
a sua obra objetivando atender a um projeto estético pedagógico
condutor de ideologias. A obra, ao apresentar a contenção
comunicativa, assegura o mesmo que os produtos da literatura trivial:
a sedução do consumo fácil. Entretanto ela diverge
desses produtos, pois não necessita se dirigir a qualquer público
sem restrições; antes, possui seu público consumidor,
infantil e juvenil, assegurado, não precisando se lançar
à caça de mercado.
Pode-se concluir que o consumo da obra está assegurado por diversos
fatores. Ela agrada aos adultos pelo seu caráter ideológico,
e aos jovens com pouco hábito de leitura por apresentar processos
formais próprios da cultura de massa. Ainda, por agradar aos adultos,
estes as disponibilizam nas bibliotecas da escola e de seus lares. As
editoras, por sua vez, cientes de que a obra tem consumo assegurado, mantém-na
em circulação no mercado. Assim, o seu consumo não
se deve ao fato de ela sintetizar, por meio dos recursos da ficção,
uma realidade que tem amplos pontos de contato com o que o leitor vive
cotidianamente, nem por se comunicar com esse leitor, falando-lhe de seu
mundo, dificuldades e soluções, mas porque é fácil,
consumível. A obra define-se, devido à repetição
excessiva das mesmas ações em um único espaço,
pelo tédio. Este não é mencionado pelos alunos; antes,
é negado, porque é preferido. Graças à excessiva
exposição dos alunos a produtos da literatura trivial, a
obra os conforta, porque atende ao seu horizonte de expectativa. Ao optarem
por essa leitura, eles evitam realizar um complexo exercício de
raciocínio e interpretação geralmente exigido por
obras mais questionadoras, mais críticas e provocadoras. Assim,
a obra de Dupré, ao não permitir que a produtividade do
leitor implícito entre em jogo na leitura, ultrapassa o limite
de tolerância quanto à produtividade, pois lhe nega a possibilidade
de exercer a sua capacidade. Nessa obra, o narrador diz tudo claramente
ao leitor, gerando o tédio, situação-limite que indica
o fim da participação do leitor.
A mina de ouro, ao reduzir os vazios, porque deseja doutrinar, aproxima-se
dos textos da chamada literatura de tese. Nesses textos, um discurso domina
univocamente. Este discurso é produzido por um emissor que conhece
e prevê com bastante exatidão a enciclopédia, os códigos
e volitivas do leitor ideal ou modelo, segundo Vitor Manuel de Aguiar
e Silva (1993, p.328). Esse leitor ideal, construído ou projetado
por Dupré, deseja ser conduzido pelo narrador, pela estrutura formal
da obra, porque busca entretenimento e consumo fácil. Ao atender
a esse leitor, a autora limita o número de vazios em sua obra,
determinando uma menor atividade imaginativa. Por conseqüência,
há na obra um estreitamento de relação projetiva,
realizado pelo controle da participação do leitor. Desse
modo, o leitor recebe a obra de tal forma pronta, estruturada e fechada
à sua interpretação que ele não tem condições
de projetar uma nova realidade àquela que lhe é apresentada.
Então, guiado pela ótica do narrador, o leitor só
pode manifestar uma atitude de aceitação ou rejeição
acerca das normas e valores expressos na narrativa.
Dupré, ao adotar estratégias textuais geradoras de um texto
facilmente legível para um leitor ideal, antecipou em sua obra
os valores e o repertório de normas tanto do leitor empírico
contemporâneo à sua produção quanto do leitor
empírico futuro, o aluno leitor, potencialmente consumidor de seu
texto. A autora, ao subordinar sua obra ao horizonte de expectativa de
seus leitores e às “necessidades” desses leitores,
objetivou também que eles se subordinassem ao ponto de vista da
obra. Sua obra não rompe ainda o horizonte de expectativa dos alunos
leitores, uma vez que eles esperam ser guiados por um narrador lhes transmita
em seu discurso conceitos de moralidade e valorização da
exemplaridade. Assim, a atuação do narrador na obra de Dupré
impede que a narrativa tenha uma natureza renovadora e apresente um índice
de ruptura quanto ao tratamento do relato. Ao centralizar a interpretação
e dirigi-la, o narrador não possibilita ao leitor implícito
uma participação no universo ficcional e uma identificação
com este universo. Por restringir as modalidades de deciframento de seu
produto, o narrador não lhe garante a constante atualização.
Dupré, ao criar esse narrador controlador, opta pela perda da qualidade
da narrativa em favor da pedagogia. Desse modo, resulta em sua obra uma
assimetria que impossibilita amenizar o contraste entre o poder do narrador
e a dominação do leitor implícito, condenando a obra,
por não ter uma solução esteticamente convincente
para este dilema, a não atingir o estatuto estético.
Pode-se observar então que o professor ao aceitar as opções
de leitura de seus alunos, torna-se também um leitor das obras
eleitas. Ao buscar um sentido para elas, encontra ponto de partida para
a articulação de um trabalho dialógico em sala de
aula. Para tanto, precisa libertar-se de conceitos prévios e compreender
que as obras portadoras de literatura trivial, eleitas como atraentes,
atuam como instrumentos de diagnóstico do horizonte de expectativa
dos alunos. Ao conhecer essas obras, ele pode propor outras leituras,
situadas no eixo da ruptura, que facultem aos alunos a ampliação
de seu horizonte de expectativa, pois somente o estranhamento diante de
uma obra literária pode capacitar o leitor para novas leituras.
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