Gláucia Aparecida Batista - Universidade
de Taubaté – UNITAU
Apresentação
Em 1991 iniciei meu trabalho como professora de História
com crianças e jovens de 10 a 18 anos, da 5ª série
do ensino fundamental ao 3º ano do ensino médio, e desde então,
tenho lecionado em escolas estaduais e municipais de Ubatuba. Sempre insisti
na necessidade da formação de leitores na escola, e principalmente
leitores literários. Fui questionada inúmeras vezes quanto
à pertinência dessa preocupação e das minhas
ações de estímulo à leitura nas aulas de História.
O que tem a ver a disciplina História com a Literatura? Formar
leitores não é tarefa do professor de Língua Portuguesa?
Essa visão fragmentária do conhecimento e da escola, e a
divisão do saber em áreas desconexas ainda persistem em
muitas escolas – é o que fica demonstrado pela dificuldade
de articular o trabalho coletivo e interdisciplinar em projetos pedagógicos
consistentes.
Kleiman (1993, p.7) critica a não-participação dos
professores de disciplinas como Ciências, História e Geografia
no ensino de leitura, e afirma que:
A palavra escrita é patrimônio da cultura
letrada, e todo professor é, em princípio, representante
dessa cultura. Daí que permanecer à espera do colega de
Português resolver o problema [os alunos não compreendem
o que lêem], além de agravar a situação, consiste
numa declaração da sua incompetência quanto à
função de garantir a participação plena de
seus alunos na sociedade letrada.
A experiência aqui relatada foi implantada em 2004
em duas escolas públicas com turmas de 5ª e 6ª séries
e teve por objetivos estimular a leitura de obras literárias e
colaborar para o desenvolvimento da competência de leitura. Pretendia
também tornar as aulas de História mais interessantes, relacionando
os conhecimentos históricos com a Literatura.
Para as 5ª séries foram selecionadas as obras: Os doze trabalhos
de Hércules, de Monteiro Lobato, que recontam os mitos gregos,
e Fábulas, do mesmo autor, que trazem fábulas de Esopo e
La Fontaine. Para as 6ª séries foi escolhida a obra Contos
e lendas medievais, de Gilles Massardier.
Ao todo participaram do projeto de leitura 128 crianças entre dez
e doze anos, e foram utilizadas 20 aulas de História com cada turma,
durante 3 meses, sendo que são dadas três aulas de História
semanais.
O desafio desse trabalho surgiu da constatação das dificuldades
de compreensão e interpretação dos textos do livro
didático pelos alunos, por um lado, e do interesse desses alunos
por histórias de ficção, por outro. Assim, iniciou-se
o trabalho pela leitura de textos agradáveis para os alunos, a
partir dos quais parecia possível estudar História e desenvolver
a competência de leitura. Através das narrativas, surge o
interesse em estudar os referidos contextos históricos. E quando
se tem objetivos, se aprende mais.
Pressupostos teóricos
Este trabalho partiu do princípio de que democratizar
o acesso à leitura e colaborar para o desenvolvimento das capacidades
leitoras é uma tarefa transdisciplinar, na qual todo professor
pode participar, desde que seja ele, também, um leitor. A transdisciplinaridade
é aqui entendida como a interligação dos saberes,
necessária perante a complexidade do real. Freitas, Morin e Nicolescu
assinam a Carta da Transdisciplinaridade, na qual se afirma: “Toda
tentativa de reduzir a realidade a um só nível, regido por
uma lógica única, não se situa no campo da transdisciplinaridade”
(artigo 2) e “A transdisciplinaridade não procura a mestria
de várias disciplinas, mas a abertura de todas as disciplinas ao
que as une e as ultrapassa” (artigo 3). Coelho (2000) defende a
necessidade do trabalho transdisciplinar, no qual a Literatura pode servir
de fio condutor ou “fio de Ariadne”. Para evidenciar a importância
da leitura e seu caráter transdisciplinar, Yunes (2003, p.7) afirma:
[...] a leitura, como recurso civilizatório, é
o que de mais transdisciplinar temos para dar conta de questões
que extrapolam método, instrumento, conteúdo, forma e campo
de aplicação específico. Ela se apresenta como constituinte
mesma do conhecimento, porque ação de um sujeito ou de uma
subjetividade em formação, forjando expressão própria,
o que, afinal, é a meta principal de qualquer projeto educativo
digno deste nome.
Uma idéia bastante difundida é a de que
é necessário desenvolver o prazer da leitura. É certo
que a obtenção de prazer pode ser um objetivo de leitura
e fator preponderante para que uma pessoa leia sempre, mas é complicado
colocar a formação do gosto pela leitura como uma meta educacional.
Nesse sentido, Colomer e Camps (2002, p.94) afirmam que “[...] os
objetivos educacionais nesse campo referem-se à construção
dos instrumentos para a obtenção do prazer, e não
à necessidade de experimentá-lo”. Essa noção
é muito importante para que se possa passar do discurso do “ler
por prazer” para uma prática pedagógica efetiva que
possibilite a formação da competência leitora e do
senso crítico nos alunos, criando condições para
a leitura, seja com objetivos práticos, informativos ou de entretenimento.
Os conceitos de estratégias de leitura desenvolvidas por Kleiman
(1993) e por Colomer e Camps (2002), levam em conta a interação
e a mediação do professor como elementos essenciais para
a construção dos sentidos na leitura e a formação
de leitores proficientes. Essas propostas formaram a base dessa experiência
de leitura.
Metodologia
Os passos seguidos para execução do projeto
de leitura, explicados adiante, foram:
1) Contextualização histórica da produção
dos gêneros e suas versões escritas;
2) Leitura e discussão com a turma toda e criação
de desenhos;
3) Leitura, atividades e resumo em pequenos grupos (técnica do
“quebra-cabeças”);
4) Apresentação dos grupos;
5) Empréstimos de livros feita em sala de aula, com o objetivo
de proporcionar uma “situação real de leitura”
(COLOMER; CAMPS 2002).
A primeira etapa consistiu na contextualização da produção
dos gêneros em questão, buscando responder às perguntas:
quando foram criadas essas histórias? Qual era sua função
naquelas sociedades? Em que ocasiões eram contadas? O que essas
histórias podem nos mostrar a respeito daquele momento histórico?
Como chegaram até nós? Os mitos gregos foram caracterizados
como narrativas, originalmente orais, que eram consideradas verdadeiras
e sua recitação fazia parte de rituais religiosos. Entretanto,
ainda no período clássico da história grega os mitos
passaram pela dessacralização, servindo, contudo, de motivos
para a arte e de base para o pensamento racional-filosófico (ELIADE,
1998). As fábulas, escritas no século VI a.C. pelo escravo
Esopo, constituem os primeiros escritos em prosa da Antiguidade. No entanto,
já existiam, na forma oral, no século VIII a.C. Tinham objetivos
críticos e pedagógicos, passando valores, ressaltados pela
“moral” com que terminam (SMOLKA, 1999). Os contos medievais
(maravilhosos, de exemplo, gestas, de animais, humorísticos) podem
nos revelar valores da classe alta – cavaleiros destemidos que enfrentam
dragões e têm a honra como valor supremo – e muitos
traços do imaginário medieval: o medo do demônio,
a crença nas metamorfoses (lobisomem), etc. (DELUMEAU, 1989). Aspectos
sociais como a vida dura dos camponeses e seus sonhos também podem
ser vislumbrados por meio de algumas histórias (DARNTON apud GUIMARÃES,
2000). Ressaltadas sua origem oral e as variações decorrentes,
a etapa seguinte foi a leitura das obras citadas, caracterizadas como
possibilidades de passagem da oralidade à forma escrita literária.
Essa primeira etapa de preparação é importante para
a compreensão, pois colabora na constituição de uma
das estratégias de leitura propostas por Kleiman (1993), que é
a predição. Um trecho da obra Os doze trabalhos de Hércules
que pode ajudar a contextualizar o momento histórico, ilustrando
a mentalidade grega, traz o conceito de hybris:
– Sim, Nêmesis é a divindade da justiça
e é também a divindade que castiga os culpados da hybris.
– Hybris? – repetiu Pedrinho.
– Hybris é o pecado da “insolência na prosperidade.”
Quando uma pessoa fica muito importante e começa a desprezar os
outros, e a orgulhar-se muito de seus dons, comete o pecado da hybris
– e lá vem Nêmesis castigá-la, abater-lhe o
orgulho.
O trabalho de leitura dividiu-se em dois momentos: a)
Leitura em conjunto: feita em voz alta pela professora e acompanhada pelos
alunos, cada qual com seu texto. Após a leitura de cada texto,
os alunos expunham suas dúvidas e conversávamos a partir
do entendimento verificado. Depois disso eram criados desenhos sobre o
tema. b) Leitura silenciosa, individual, após o que recontavam
oralmente a história lida, e eram feitas atividades em duplas ou
trios, seguidas de produção de resumos escritos das histórias
lidas.
Durante todo o trabalho de leitura, os alunos foram instruídos
a utilizar outras estratégias, além da predição,
como a inferência lexical: continuar a ler para encontrar trechos
explicativos ou sinônimos, além de procurar entender pelo
contexto. O estabelecimento de objetivos de leitura foi uma estratégia
bem sucedida: ler para saber como o herói resolverá seus
problemas foi uma das propostas. Por exemplo, na leitura do sexto trabalho
de Hércules: destruir as aves do lago Estinfale, protegidas por
penas de bronze que as tornavam invulneráveis, os alunos foram
questionados sobre o que poderia fazer Hércules. Acharam muito
difícil a situação, e a leitura foi feita com o intuito
de descobrir como Hércules se safaria.
No segundo momento de leitura, foi proposto aos alunos que tentassem encontrar
nas narrativas lidas o motivo ou tema da história e a relação
desse assunto com o contexto histórico em que foram produzidos.
No conto medieval Uma terra de sonho, lido pelas 6ª séries,
por exemplo, os alunos identificaram o sonho de fartura do camponês
medieval em oposição à sua vida de privações
e opressão, selecionando trechos como esses:
O servo corre ofegante, perseguido pelos guardas do senhor.
[...] Se eles o pegarem, será dilacerado pelos cães ou,
na melhor das hipóteses, enforcado por ter caçado na floresta
senhorial. Executado por causa de duas lebres! [...]
Ao saírem de uma montanha de queijo, que eles atacam a colheradas,
os dois comilões chegam diante de uma cidade incomparável.
Suas muralhas são gigantescas fatias de carne assada; suas ameias,
de patê de fígado; suas torres, pêras descaroçadas.
Foi notado que, quando precisavam recontar oralmente,
muitos alunos apresentaram dificuldades em “montar” um todo,
formando uma narrativa coerente. Foi utilizada uma estratégia que
foi chamada de “quebra-cabeça”, em que cada grupo precisava
reler um trecho e apresentar uma “peça”. As dificuldades
de compreensão foram superadas principalmente com a cooperação
e o diálogo entre os colegas. No final, com a história “montada”
coletivamente, passou-se à reescrita. Assim foi feito com os dois
volumes de Lobato, Os doze trabalhos de Hércules, sendo que a turma
foi dividida em doze pequenos grupos de três alunos. Cada grupo
ficou responsável pela leitura de dois capítulos, correspondentes
aos “trabalhos de Hércules”. O mesmo capítulo,
por exemplo “O leão de Neméia”, era lido por
dois grupos. Em cada grupo, os alunos recontavam oralmente, faziam anotações
e depois se uniam ao outro grupo que havia lido o mesmo capítulo
para fazer um resumo. O resumo era então, passado à turma
toda que, a partir daí, tendo “montado o quebra-cabeça”,
podia passar à reescrita da história toda.
Tanto na conversa geral, incluindo a turma toda, após cada leitura,
quanto nas atividades em grupo, foi valorizada a interação.
Os alunos foram motivados a perguntar, a explicar aos colegas a sua interpretação
e a dar suas opiniões sobre as atitudes dos personagens. Na leitura
da fábula O lobo e o cordeiro, por exemplo, foi solicitado às
crianças que explicassem a moral da história: “contra
a força não há argumentos”. Alguns alunos haviam
declarado não terem entendido porque o lobo agira de tal forma,
comendo o cordeiro, mesmo sem ter razão. Nos grupos formados para
a tarefa, apareceram as explicações dos colegas: “O
lobo ficou com raiva do carneiro ser mais inteligente do que ele...”,
“Ele (o lobo) ia comer o carneiro de qualquer jeito!”, “Não
adiantava nada o cordeiro se explicar, o lobo queria atacar”, “O
carneiro tinha razão, mas o lobo era mais forte do que ele e venceu.”
Durante todas as aulas desse projeto os alunos tiveram a oportunidade
de emprestar livros para leitura em casa. O empréstimo não
era obrigatório e não havia cobrança de atividades
sobre essa leitura. O objetivo, ao levar livros variados para a sala de
aula e disponibilizá-los para empréstimo era, além
de favorecer o “encontro” leitor/livro, verificar se as aulas
de leitura se constituiriam numa motivação para novas leituras.
Resultados
Com relação ao desenvolvimento de estratégias
de leitura (predição, estabelecimento de objetivos, inferência
lexical) verificou-se, a partir dos comentários dos alunos, uma
progressiva assimilação ou incorporação das
mesmas. Por exemplo, já não perguntavam o significado das
palavras imediatamente, logo ao se deparar com elas. Primeiro tentavam
descobrir seu sentido pelo contexto, ou seguiam lendo até encontrar
a explicação. Perceberam rápido que, na obra Os doze
trabalhos de Hércules, a explicação dos sentidos
das palavras ou expressões quase sempre é solicitada pela
personagem Emília e dada pelo Visconde. A predição
funcionou bem: a partir da contextualização histórica
dos gêneros (mito, fábula, conto) os alunos já sabiam
o que esperar. Houve demonstrações de surpresa com o desenrolar
dos enredos ou satisfação com a confirmação
das pressuposições feitas sobre o desfecho das histórias,
deixando claras as predições feitas pelos alunos, o que
significa o desenvolvimento de uma estratégia de leitura. Por exemplo,
na narrativa sobre Hércules com a participação dos
personagens do Sítio, os alunos já esperam por demonstrações
de força de Hércules, de inteligência e esperteza
de Pedrinho e Emília e de conhecimentos do Visconde. Sempre que
era estabelecido um objetivo de leitura, do tipo “como Hércules
vai resolver esse problema?”, esse objetivo se tornava o fio condutor
para a compreensão da leitura, o que pôde ser percebido por
exclamações do tipo: “ah!”, “puxa!, então
foi assim que ele conseguiu.”
Os alunos demonstraram compreender o texto principalmente a partir das
ações dos personagens, que trazem a dinamicidade à
narrativa. Quando solicitados a narrar ou explicar partes das histórias
(de Hércules, por exemplo), os alunos respondiam com ações
do herói e das personagens de Lobato: “O Hércules
mudou um rio de lugar! Mas a idéia foi do Pedrinho”. Pode-se
concluir, a partir disso, que personagens bem caracterizados (sobretudo
o herói) são de grande importância para a compreensão
e o interesse desses novos leitores. O núcleo do enredo ficou bem
fixado, mas surgiram muitas perguntas que demonstravam o questionamento
sobre a veracidade das histórias e personagens narrados. “Hoje
em dia não existe ninguém tão forte quanto o Hércules,
não é?”, “só naquela época existiam
monstros desse tipo... eles sumiram, igual aos dinossauros?” Interessante
notar que muitas crianças das 5ª séries ficam decepcionadas
ao saber se tratarem de personagens fictícios (Hércules
e os seres por ele enfrentados).
Os desenhos criados demonstraram o prazer em conhecer histórias
da mitologia, fábulas e contos, e o poder de despertar a imaginação
das crianças. Os alunos manifestaram curiosidade para ver os desenhos
dos colegas e muitos fizeram mais de um desenho sobre a mesma história,
indicando que compreenderam as seqüências das narrativas.
Foi constatado grande interesse através da participação
dos alunos, com exclamações e comentários paralelos
que denotavam julgamentos sobre as ações dos personagens
a partir dos valores dos alunos, como na leitura da fábula A raposa
sem rabo, em que surgiram exclamações do tipo: “que
invejosa!” ou “fingida...”, desaprovando a atitude da
raposa que dá conselhos por interesse próprio. Com o que
podemos concluir que a leitura seguida de discussão das fábulas
colabora na formação do senso crítico nos alunos.
Os alunos também demonstraram ter aprendido a fazer a inferência
lexical: após a leitura da fábula O lobo e o cordeiro, cuja
moral é contra a força não há argumentos,
surgiu a exclamação “Então, argumento quer
dizer ter razão, saber explicar, não é?”.
Os textos escritos pelos alunos demonstraram um avanço na compreensão
das leituras. Foi constatado que a mediação do professor
e a interação com os colegas têm papel decisivo para
o desenvolvimento da competência de leitura, como já foi
afirmado por Kleiman (1993, p.24): “[...] é durante a interação
que o leitor mais inexperiente compreende o texto: não é
durante a leitura silenciosa, nem durante a leitura em voz alta, mas durante
a conversa sobre aspectos relevantes do texto”.
Com relação aos empréstimos de livros, feitos em
sala de aula, mas desvinculados das tarefas escolares e sem nenhuma relação
com notas, felizmente se multiplicaram. O que leva a pensar que, a partir
da escola, se criaram condições para a efetivação
de situações reais de leitura, fora da escola.
Conclusões
O fato de os alunos se interessarem em levar livros para
leitura livre em casa leva a concluir que a intervenção
educativa no sentido de melhorar as condições de proficiência
para a leitura é fator decisivo para a formação de
leitores. O prazer de ler é o melhor resultado constatado nessa
experiência.
Enfim, o projeto de leitura nas aulas de História provou ser possível
e proveitoso esse tipo de atividade, que parece subverter as competências
dos professores. Ficou a idéia de que a leitura de literatura está
acima da divisão das disciplinas escolares e pode colaborar para
a re-ligação desses conhecimentos, ajudando na construção
de sentidos para o aprendizado escolar.
REFERÊNCIAS
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COLOMER, T.; CAMPS, A. Ensinar a ler, ensinar a compreender. Porto Alegre:
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FREITAS, L. de; MORIN, E.; NICOLESCU, B. Carta da transdisciplinaridade.
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