Ivanir Maciel Ortiz - FEHH
Este artigo aborda o trabalho monográfico: “As
práticas discursivas em sala de aula: o desenvolvimento da linguagem
e a leitura de literatura infantil” voltar-se-á a analisar
as práticas discursivas na relação com o desenvolvimento
da linguagem mediante a leitura de literatura infantil, pelos educadores
que freqüentavam a oficina de leitura: Descobrindo-se leitor. Indicará
possibilidades para otimização do desenvolvimento da linguagem
oral dos alunos, bem como um replanejamento dos encontros de formação,
sem que para isso a literatura infantil fosse “didatizada”,
considerando que: “a literatura é a transformação
da vida em palavras, em linguagem, e, sobretudo, em um dos instrumentos
mais fecundos para a formação da mente do educando”
(Coelho, 2000, p. 28).
Vigotski e Bakhtin contribuíram com esta pesquisa, por defenderem
o resgate de uma concepção de linguagem que levasse em consideração,
os múltiplos sentidos, que uma palavra pode alcançar. O
primeiro procura traçar as possibilidades de elaboração
no plano individual, o segundo analisa a dinâmica sócio-ideológica.
Ambos assumem a natureza mediada da cognição, onde a ação
do sujeito sobre o objeto é mediada socialmente, pelo outro e pelos
signos. A atividade cognitiva é intersubjetiva e discursiva.
Defender a prática de leitura de textos literários, em especial
de literatura infantil, expõe a carência de formação
continuada pautada na concepção de homem como sujeito histórico
e cultural. No município de Blumenau há grupos de formação
que estão estudando a leitura e a literatura desde 1999, da qual,
esta pesquisadora atuou como ministrante da oficina de leitura em questão,
para um grupo misto de educadores - ensino fundamental e educação
infantil. A demanda era grande e havia fila de espera para a entrada de
novos integrantes, por isso se fazia necessário este estudo, com
o intuito de, levantar possibilidades de ampliação destas
discussões, de estratégias de formação e/ou
novas modalidades de formação continuada, como também
o auxílio no aperfeiçoamento de práticas pedagógicas.
O objetivo desta modalidade de formação era a sensibilização
dos educadores da oficina, favorecendo a descoberta do leitor que habita
em cada um, ampliando, transformando ou enriquecendo sua própria
experiência de vida.
Sabe-se que a substância da língua é constituída
no contexto histórico e social pela interação verbal,
mediante as enunciações. Em nossa vida cotidiana, a palavra
é o eixo central da comunicação, revelando que a
conversação e suas formas discursivas norteiam todo o contexto.
Mediante o método de pesquisa-ação, preconizando-se
desta forma o trabalho conjunto, e consequentemente a interlocução,
indicou-se que a aplicação dos estudos realizados na oficina
carecia de revisão no planejamento da mesma.
Uma questão que se faz importante revelar é que a formação
de leitores competentes no ensino fundamental e educação
infantil carece de educador leitor, ou seja, os educadores não
lêem, por razões várias, as quais, não serão
elencadas neste momento.
Grotta (2001, p. 149), defende que “o professor que pretende assumir
um papel ativo na formação de seus alunos como leitores
não pode restringir-se apenas a ensinar a ler, mas deve preocupar-se
em apresentar o mundo da leitura indicando livros, lendo para os alunos
e envolvendo-se na leitura com eles e para eles”, enfim, cabe aqui
o termo letramento literário.
Pensar em letramento literário supõe acrescentar às
discussões que a “Literatura é um autêntico
e complexo exercício de vida, que se realiza com e na linguagem
– esta complexa forma pela qual o pensar se exterioriza e entra
em comunicação com os outros pensares” (Coelho, 2000,
p. 24).
Simultaneamente compreender a infância significa investigar a sua
constituição histórica desde os primórdios
dos séculos medievais até a contemporaneidade. Séculos
em que a duração da infância era breve na família
e na sociedade, podendo-se dizer que a educação era garantida
pela aprendizagem, devido à convivência das crianças
com os adultos. No processo de desenvolvimento humano a infância
é um dos tempos de vida com muitos significados. Este momento de
vida traz consigo expressivas descobertas, interpretações
e reinterpretações do mundo que cerca as crianças.
Seria ingenuidade tentar entender a infância - nas séries
iniciais, na instituição escolar e centros de educação
infantil - desconhecendo ou negando sua trajetória histórica
e cultural na sociedade. A aquisição da linguagem se dá
em meio a este cotidiano. Portanto, a linguagem escolarmente exigida necessita
ser analisada, reconhecida e desenvolvida sob a perspectiva de saberes
que desencadeiem um pensar e um ressignificar das práticas pedagógicas
realizadas em seu interior.
O desenvolvimento da linguagem oral e a leitura de literatura infantil
sugerem que se exponha o pressuposto epistemológico, o qual norteou
o estudo monográfico.
Do ponto de vista da psicologia histórico-cultural, o processo
infantil de aquisição da linguagem e do conhecimento como
um sistema de categorias bem definidas, subordina o trabalho de Vigotski
a uma clara orientação epistemológica, sem deixar
de lado a perspectiva crítica. O autor considera que a linguagem
é uma atividade criadora e constitutiva de conhecimento, consequentemente,
transformadora, ou seja, a natureza do próprio desenvolvimento
humano se transforma do biológico para o sócio-histórico.
Há que se considerar especialmente o estudo realizado por ele sobre
o processo infantil de aquisição da linguagem na relação
entre o pensamento e a palavra. Sua investigação nos introduz
na teoria do pensamento onde revela a descoberta “de que os significados
das palavras se desenvolvem ” (Vigotski, 2001, p. 399).
Sabe-se que ao iniciar os primeiros balbucios a criança vai se
apropriando – mediante a intervenção de alguém
que já domina a linguagem – de palavras que vão se
modificando, à medida que ela passa a elaborar um discurso interior.
O significado da palavra é inconstante. Modifica-se no processo
de desenvolvimento da criança. Modifica-se também sob diferentes
modos de funcionamento do pensamento. É antes uma formação
dinâmica que estática [...] uma vez que o significado da
palavra pode modificar-se em sua natureza interior, modifica-se também
a relação do pensamento com a palavra (Vigotski, 2001, p.
408).
A criança inserida no contexto histórico e cultural está
imersa em um sistema de significações sociais. A palavra
é o principal ponto mediador para ela, sendo grande aliada no processo
de desenvolvimento da linguagem.
O desenvolvimento infantil é ricamente ilustrativo para se constatar
o que Vigotski (2001, p. 409) evidenciou através de seus estudos,
ou seja, “a relação entre o pensamento e a palavra
é, antes de tudo, não uma coisa, mas um processo, é
um movimento do pensamento à palavra e da palavra ao pensamento”.
Ao se falar em linguagem nos vem à mente a multiplicidade de linguagens
das quais estamos envoltos – orais, escritas, musicais, intersubjetivas,
de sinais, iconográficas, etc. – porém, dar-se-á
ênfase e análise neste trabalho à linguagem oral.
Linguagem esta, que nos reporta o outro, a natureza do enunciado, o contexto,
a produção de sentidos atribuída essencialmente à
palavra: “a enunciação, compreendida como réplica
do diálogo social é a unidade de base da língua,
trate-se de discurso interior, ou exterior. Há sempre um interlocutor,
ao menos potencial” (Bakhtin, 1992, p. 16).
Reafirmando o que este autor diz: “a palavra está presente
em todos os atos de compreensão e em todos os atos de interpretação”
(Bakhtin, 1992, p. 38).
A partir do princípio dialógico de Bakhtin, “a palavra
revela-se sempre múltipla e interindividual . Na dinâmica
das trocas verbais, os interlocutores incorporam, articulam, contestam,
recusam as vozes que compõem o contexto dos enunciados que produzem”
(Fontana, 2000, p. 25).
Será riquíssimo trabalhar conscientemente a palavra, para
que o público infantil (e o juvenil também) na escola, seja
de fato dono das suas, transformando-se em cidadãos críticos,
autônomos e conscientes de seu papel na sociedade atual.
As práticas discursivas assumem importância vital quando
tratam do desenvolvimento da linguagem falada da criança inserida
num contexto escolar – instituição escola e centros
de educação infantil – no caso desta pesquisa, que
se realizou nas duas categorias de instituições. Os educadores
destas unidades necessitam ter bastante clareza e aprofundamento teórico
para otimizar os tempos e espaços de forma que desafiem e ampliem
o desenvolvimento da linguagem, tal como Bakhtin (1992, p. 95) postula,
que não são palavras o que pronunciamos ou escutamos, mas
verdades ou mentiras, coisas boas ou más, importantes ou triviais,
agradáveis ou desagradáveis.
Por isso, ignorar a natureza social e dialógica do enunciado significa
estar apagando a profunda ligação que existe entre a linguagem
e a vida. Este mesmo autor também situa a palavra no amplo conjunto
de textos veiculados pelo diálogo e que refletem a estrutura simbólica
de uma determinada cultura.
Portanto, a concepção de leitura norteadora deste trabalho
pautou-se nos pressupostos das práticas interacionistas, ou seja,
na atuação dos leitores. O ato de ler é interagir,
produzir sentidos, compreender e interpretar, dialogando constantemente
com o texto.
Os alunos aprendem a gostar de ler quando se descobrem produtores de sentidos
e de alguma forma, o texto repercute neles. De acordo com Lajolo (1986,
p. 52), as práticas de leitura de texto significam que: o texto
não é pretexto para nada; “um texto existe apenas
na medida em que se constitui ponto de encontro entre dois sujeitos –
o que escreve e o que lê” – ler não é
decifrar, como num jogo de adivinhações, o sentido de um
texto; é reconhecê-lo como dono da própria vontade,
entregar-se à leitura, ou rebelar-se contra ela, propondo outra
não prevista. A seguir é possível complementar isto,
pois:
Sentimos muito bem que nossa sabedoria começa onde a do autor termina,
e gostaríamos que ele nos desse respostas, quando tudo o que ele
pode fazer é dar-nos desejos. Estes desejos, ele não pode
despertar em nós senão fazendo-nos contemplar a beleza suprema,
à qual o último esforço de sua arte lhe permitiu
chegar. Mas por uma lei singular e, aliás, providencial da ótica
dos espíritos (lei que talvez signifique que não podemos
receber a verdade de ninguém e que devemos criá-la, nós
mesmos), o que é o fim de sua sabedoria não nos aparece
senão como começo da nossa, de sorte que é no momento
em que eles nos disseram tudo que podiam nos dizer que fazem nascer em
nós o sentimento de que ainda nada nos disseram (Proust, 1991).
Buscando solidificar o que foi dito anteriormente Ramos
(2004, p. 109) complementa que “para transformar alunos em leitores,
a escola tem que mobilizá-los internamente. Precisa mostrar a leitura
como uma atividade interessante e desafiadora, que contribua para a autonomia
e independência”.
De acordo com o livro Literatura: arte, conhecimento e vida, Nely Novaes
Coelho destaca a importância da intervenção do educador
ao propor a leitura de textos literários, pois cabe a ele, ao utilizar-se
da obra de arte literária, considerar que “literatura é
a transformação da vida em palavras, em linguagem, e um
dos instrumentos mais fecundos para a formação da mente
do educando” (2000, p. 28).
O papel do educador é de fundamental importância nesta proposta
de leitura plurissignificativa, em que, a literatura é arte e como
tal nos é oferecida como um projeto inacabado, nos permitindo um
processo de interação e a possibilidade de reconstrução
desta, onde o leitor mediante sua constituição histórica
e cultural reconstrua-a e conseqüentemente torne-a significativa.
Outro fator importante que merece destaque é o fato de que temos
alunos que entram em contato com a leitura literária somente na
escola, cabendo ao educador respeitar as capacidades lingüísticas,
cognitivas e psicológicas de seu aluno, utilizando-se de textos
literários de qualidade. Também cabe ao educador contribuir
para a formação de um leitor competente não oferecendo
apenas textos que os alunos decifrem sozinhos ou aqueles que eles gostam,
mas sim novas e desafiadoras obras literárias. “O leitor
encontra-se no texto e, na visita ao desconhecido, descobre outras maneiras
de ler e escrever a sua própria existência” (Ramos,
2004, p. 112).
Ao ser introduzido o livro na escola, pode-se ter um agravamento do problema,
isso é, acaba sendo o reforço da dependência e a manipulação
infantil.
De acordo com Zilberman (2003), não bastaria apenas abolir a literatura
na escola ou a instituição escola em si, pois isso significaria
abandonar a criança e reforçar a sua impotência e
incapacidade.
Sabe-se que a escola e a literatura se mostram úteis ao se tornarem
espaço da criança refletir sua condição pessoal
inserida em um contexto histórico e social.
Conforme Zilberman (2003, p. 27) a grande carência da criança
é:
O conhecimento de si mesma e do ambiente no qual vive
que é primordialmente o da família, depois o espaço
circundante e, por fim a história e a vida social. O que a ficção
lhe outorga é uma visão de mundo que ocupa as lacunas resultantes
de sua restrita experiência existencial, por meio de sua linguagem
simbólica. Logo, não se trata de privilegiar um gênero
ou uma espécie em detrimento de outras, uma vez que os problemas
peculiares necessitam ser examinados à luz dos resultados alcançados
por escritor; e sim de admitir que seja pelo conto de fadas, pela reapropriação
de mitos, fábulas e lendas folclóricas, ou pelo relato de
aventuras, o leitor reconhece o contorno no qual está inserido
e com o qual compartilha lucros e perdas.
Há que se considerar que o espaço de leitura
de literatura necessita partir do interesse dos alunos, de um acervo diversificado
e atualizado, bem como, ser convidativo para atividades diferenciadas
e prazerosas. O produto a ser divulgado nesse espaço mais do que
o livro é a própria leitura (Ramos, 2004).
Envolver-se nesta pesquisa foi o indicativo para compreender a amplitude
e o compromisso que significa trabalhar com a formação humana.
Para esta pesquisadora, a ligação direta ou indiretamente,
das pessoas mobilizadas pela defesa da formação de leitores
competentes, deram valiosas contribuições.
As longas conversas com a orientadora do trabalho foram movidas de incentivo
e rigor, fazendo com que se refletisse sobre a defesa de uma leitura como
possibilidade de letramento literário, onde o educador “atue
como mediador, propiciando situações em que os repertórios
do sujeito e do texto dialoguem entre si” (Ramos, 2004, p. 110).
Convém destacar, também, que, quando se defende literatura
de qualidade, está-se concordando com Colomer (2003, p. 374), pois
“se propõe a cumprir uma função de formação
cultural da infância e adolescência, que pode se dividir em
duas vertentes: favorecer sua educação social através
de uma narração ordenada da interpretação
do mundo e iniciá-la na aprendizagem das convenções
literárias”.
A expectativa de início era analisar as práticas discursivas
na relação com o desenvolvimento da linguagem, mediante
a leitura de literatura infantil, pelos educadores que freqüentavam
a oficina de leitura: Descobrindo-se leitor.
Diante das informações que os dados revelaram, foi impossível
manter-se estagnada porque se constatou que o foco central do trabalho
de formação docente necessitava estar conjuntamente ligado
à visualização das práticas escolares, para
sofrer intervenções pontuais, caso contrário, era
certo, que a discussão teórica, ficaria totalmente deslocada
das ações pedagógicas.
Ao deixar muito claro que a literatura não deveria se servir de
pretextos didáticos, quaisquer que fossem, percebeu-se que as educadoras
– que foram os sujeitos da análise – deixavam de se
valer das oportunidades de potencializar o desenvolvimento da oralidade,
receosas de que, com isso, estariam didatizando o trabalho com a literatura
infantil.
A culminância desta revelação se deu, pelo fato, de
que os encontros de formação aconteceram concomitantemente
com a investigação colaborativa preconizando um trabalho
conjunto e as educadoras pesquisadas faziam parte da oficina de leitura.
As observações fizeram com que se redimensionasse o planejamento
dos encontros possibilitando a intervenção das ministrantes
da oficina. Conforme a exposição a seguir pode-se constatar
que tanto a provocação para a entrada quanto a extensão
de um diálogo após a escuta das histórias poderão
favorecer o desenvolvimento da oralidade das crianças.
Pode-se nominar entrada na história toda a ação voltada
a desafiar, motivar, provocar, criar um clima favorável; segundo
Werner (1999, p. 69), “a qualidade da obra, a preparação
do ambiente para essa contação, a relação
da obra com as necessidades internas, emocionais e sociais da criança”.
De acordo com os dados apresentados em questionário pelas educadoras
que freqüentaram a oficina: Descobrindo-se leitor, percebeu-se que
a prática de entrada na história era em grande número
uma simples chamada para a escuta.
Podemos constatar isso ao analisar as práticas discursivas da educadora
V., no contexto do ensino fundamental. A sala de aula era bem iluminada
e com espaço físico amplo. O grupo de crianças da
segunda série era composto por 27 crianças. A prática
de leitura de literatura infantil de qualidade pela educadora era constante
e se dava sempre no início da aula. Há que se destacar que
a palavra é um dos elementos mais presentes neste tipo de atividade,
pois:
(...) a enunciação é determinada
da maneira mais imediata pelos participantes do ato da fala, explícitos
ou implícitos, em ligação com uma situação
bem precisa; a situação dá forma à enunciação,
impondo-lhe esta ressonância em vez daquela, por exemplo, a exigência
ou a solicitação, (...) a segurança ou a timidez,
etc. A situação e os participantes mais imediatos determinam
a forma e o estilo ocasionais da enunciação (Bakhtin, 1992,
p. 113-114).
Faz-se necessário observar a seguir a ação
da educadora V. ao permitir que as crianças relatassem várias
passagens relativas aos seus medos antes de iniciar a leitura da literatura:
Um monstro debaixo da cama. Os alunos costumavam se organizar em círculo
nos fundos da sala para ouvir as histórias.
V. – Quem dorme sozinho no quarto?
Todos – incompreensível.
V. – Cada um deve esperar a vez de falar.
F. – O profe um dia eu vi um filme de três bruxas, daí
à noite eu fiquei com medo. Ficava assim: oh mãe eu estou
com medo; oh mãe eu estou com medo, era meia noite mais ou menos,
daí a mãe me levou para o quarto dela.
Todos – risos.
V. – Daí você conseguiu dormir?
...
G. – Tinha um quadro na sala. Eu estava no quarto e estava chovendo.
Eu sempre via aquele quadro e pensava que era um monstro.
V. – Do quadro da parede?
G. – É do quadro da sala. Quanto tempo que já estava
chovendo, daí quando eu fui para o quarto da mãe, eu abracei
ela.
Todos – risos.
...
V. – Olha aqui, todas as histórias que vocês contam...
H. – Não é história professora, é vida
real.
V. – É verdade então?
Todos – É verdade.
V. – Mas será que as histórias que a gente conta em
livros não são reais também?
Todos – incompreensível.
V. – Só um pouquinho, vamos combinar uma coisa: quando uma
pessoa está falando os outros esperam ta?
...
I. – Uma vez eu vi num filme, que eles colocaram: baseado em vida
real
V. – Aí todo o filme é realidade.
Todos – É.
V. – Mas está dizendo baseado em vida real...
De acordo com este grupo de transcrições,
podemos observar que o relato dos alunos expressou aquilo que antecede
aos textos escritos, ou seja, foram feitas narrativas orais condizentes
com a idade e série em que as crianças estavam. O questionamento
lançado pela educadora antes da leitura da literatura surgiu de
forma espontânea, ou seja, não houve uma intencionalidade
planejada para favorecer o desenvolvimento da oralidade. Isto serviu para
ilustrar a discussão durante o encontro de formação
como possibilidade de ampliação da oralidade sem utilizar-se
da literatura como um pretexto didático.
Bakhtin diz que “A verdadeira substância da língua
é constituída pelo fenômeno social da interação
verbal, realizada através da enunciação ou das enunciações.
A interação verbal constitui assim a realidade fundamental
da língua” (1992, p. 123).
Após a leitura da literatura um aluno estabeleceu “pontes”
com a história: Bruxa-bruxa venha a minha festa e a educadora permitiu
que o mesmo fizesse a leitura para os colegas. Ao analisar a transcrição
anterior, também pudemos perceber que a interlocução
está explícita entre educadora e alunos. De acordo com Bakhtin
(1992, p. 113), pode-se afirmar:
Toda palavra dirige-se a um interlocutor. Toda palavra
é o território comum do locutor e do interlocutor. A palavra
é determinada tanto pelo fato de que se procede de alguém,
como pelo fato de que dirige-se a alguém. Ela constituiu justamente
o produto da interação do locutor e do ouvinte. Também
serve de expressão a um em relação ao outro.
Considera-se saída da história, todo e qualquer
diálogo extensivo às significações pessoais
e/ou coletivas relativos à escuta de textos literários.
Ao observar os dados apresentados sobre os encaminhamentos após
a escuta da história em questionário realizado, foi possível
perceber que as educadoras que freqüentavam a oficina procuravam
deixar as crianças livres para revisitarem a obra, ou, em menor
número deixavam as crianças remoerem a história por
sua própria conta.
Diante do exposto se percebeu que seria necessário refletir nos
encontros da oficina: Descobrindo-se leitor sobre as práticas de
leitura realizadas pelas educadoras em formação no que se
refere às significações pessoais possíveis
de se relatar.
É sabido por nós que literatura não pode servir de
“pretexto” para nada, porém o que se levanta a seguir
é o fato de perceber e intervir em momentos oportunos para se potencializar
o desenvolvimento da linguagem oral, sem que, para isso, se necessite
provocar isto com tal, e, qual literatura.
Ao analisar as práticas discursivas da educadora M. no contexto
da educação infantil se considerou também o espaço
físico em que o grupo de crianças desta turma dispunha.
A sala de aula da turma era muito pequena, pois foi uma casa que se adaptou
para se transformar em CEI. O grupo é misto – os integrantes
têm de dois anos e meio a cinco anos. Em sala as crianças
sentam em forma de rodinha desencadeando uma discussão para ver
quem senta ao lado ou perto da educadora. O número de crianças
é relativo conforme o dia num total de doze crianças. A
leitura de literatura infantil é prática constante neste
grupo. A seguir serão expostos dois momentos de observação
e análise nos encaminhamentos pós-leitura dos textos literários.
Logo em seguida ao término da história O ursinho apavorado,
as crianças jantam e, apesar da educadora não ter percebido
a permanência das mesmas na narrativa, durante o jantar, após
a escuta da história constatou-se:
A. (5 anos) - Queres bala?
B. (4 anos) - Quero!
Como resposta, A. coloca o bumbum para cima e emite um som semelhante
ao ruído de um pum.
Pode-se afirmar que as onomatopéias são consideradas um
recurso potencializador para o desenvolvimento da linguagem das crianças
especialmente desta faixa etária, seria possível em momento
posterior retomar brincadeiras ou, até mesmo, histórias,
para conhecer outras onomatopéias, fato presente na história.
É possível constatar a seguir que a escuta de uma história
já conhecida das crianças é um recurso otimizador
para o desenvolvimento da linguagem.
Após o anúncio da história A casa sonolenta para
ser lida pela educadora:
M. - A casa sonolenta...
Crianças – Onde todos viviam dormindo.
...
Após o término da história pôde-se observar:
M. - ... Uma casa sonolenta, onde ninguém mais estava dormindo.
C. (3 anos) – Estava todo mundo dançando.
D. (3,5 anos) – Brincando.
C. – Dançando.
D. – Brincando.
Segue-se uma pequena disputa, sem intervenção
da educadora, pois a mesma aguardava que as crianças revisitassem
as ilustrações do livro, prática comum após
cada leitura realizada. Neste caso, a interlocução da educadora
poderia acrescentar à discussão um revisitamento do texto
iconográfico e verbal para que as crianças percebessem que
ambas as afirmativas poderiam ser validadas.
E. (5 anos) – Meu gato me arranhou...
A. (4anos) – Estou com sono... – pega o travesseiro.
M. – Agora não é hora de dormir.
Observou-se que as duas crianças estão se
reportando a sensações reais com fatos desencadeados pela
história, porém, novamente aí, a educadora não
percebeu de imediato a relação. Esta continuava aguardando
o revisitamento da obra pelas demais crianças.
Passado algum tempo ao observar o braço de E. (5anos), a educadora
M. pergunta:
M. – Você dorme com um gato, como na história?
E. – Não.
M. – Você dorme numa cama aconchegante?
E. – Não.
M. – Onde você dorme então?
E. - No sofá.
M. – Você dorme no sofá E?
E. – Responde afirmativamente com a cabeça.
M. – E quem dorme com você no sofá?
E. – Meu tio.
M. – E quem dorme no quarto?
E. – Minha mãe e meu pai.
M. – Continua questionando sobre as outras peças da casa
e encerra desta forma:
M. – Quem mais mora na sua casa?
E. – O gato.
M. – O gato vive com você e quem mais?
E. – A minha outra gatinha.
Mediante a transcrição anterior percebe-se
que durante a escuta da história E. valeu-se da personagem gato
para estabelecer relações com o seu cotidiano familiar.
De acordo com (Bakhtin,1992, p. 37), “O material privilegiado da
comunicação na vida cotidiana é a palavra. É
justamente nesse domínio que a conversação e suas
formas discursivas se situam”.
A educadora tenta continuar a interlocução em torno da casa
das crianças, porém há dispersão da maioria
do grupo. Depois de chamar a atenção das crianças
ela os provoca a procurar a personagem pulga da história.
Analisar duas instituições escolares distintas foi desafiador
e demonstrou a importância da “enturmação”
por idade e série, sendo, que na segunda série – faixa
etária de 8 anos – o nível da oralidade estava condizente
com a turma. De acordo com Fontana (2000, p. 28), “o processo de
elaboração conceitual emerge como processo de articulação,
pelo confronto, de muitas vozes sócio-historicamente definidas,
em condições de interação – compreensão/expressão
– determinadas. Configura-se como um processo discursivo”.
Porém, a turma mista da educação infantil, conforme
a análise da transcrição, revelou que a mediação
da educadora para com as crianças ficava comprometida, não
ocorrendo a interação necessária. Consequentemente,
o desenvolvimento da oralidade sofre de carências extremamente importantes
para este período de desenvolvimento humano.
Considerando os objetivos da modalidade de formação em oficinas,
ao redimensionarmos o planejamento, possibilitamos que os educadores vivenciassem
a entrada e a saída da história, para posteriormente, entender
o que as análises das transcrições pontuaram.
À medida que os dados iam sendo analisados, tomou-se consciência
das proporções que este trabalho trará para o campo
da educação, em especial para a formação de
educadores, ou seja, não basta a um formador permitir que o educador
vivencie de maneira prática e teórica, situações
semelhantes àquelas que possivelmente serão oferecidas ao
seu grupo de crianças. Faz-se necessário que o mesmo observe
como está sendo trabalhada a extensão das discussões
estabelecidas durante os encontros de formação diretamente
nos locais de trabalho dos educadores, para posteriormente ressignificá-las.
Por se tratar de uma pesquisa monográfica se fez necessário
ser pontual no esboço da intenção de pesquisa, deixando
à margem outras questões que merecem maior aprofundamento.
A exemplo disto “as práticas discursivas em sala de aula:
o desenvolvimento da linguagem e a leitura de literatura infantil”
serviram como pano de fundo para, levantar reflexões e questionamentos
a respeito da formação de educadores.
Aos profissionais que acreditam no desenvolvimento da linguagem e que
a formação do pequeno leitor deve iniciar bem cedo e continuar
fecunda pela vida afora, a partir de agora fica explícito o desejo
de compartilhar as idéias e constatações aqui expressas,
para que não se esgotem e continuem sendo refletidas, discutidas
e pesquisadas, pois trabalhar com a leitura de literatura infantil significa,
antes de tudo, compreender mediante práticas discursivas, o significado
pessoal para cada sujeito envolvido no processo de recepção
e escuta de uma história. Vale pontuar que algumas ponderações
merecem serem investigadas com o rigor necessário a um pesquisador
em futuras pesquisas. Sendo que questões importantes sobre a formação
de educadores continuam necessitando de reflexão-ação-reflexão.
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