Jaqueline de Oliveira Castanheira - Universidade
Federal de Mato Grosso do Sul - UFMS
A pesquisa que dá base a esse trabalho voltou-se,
de início, para o objetivo de organizar uma fortuna crítica
acerca da obra de Viriato Corrêa. À medida que foi sendo
desenvolvida a primeira parte da pesquisa – aquela que envolve a
consulta –, momento em que foram usadas como meios de pesquisa as
bibliotecas do CPTL (UFMS – Campus de Três Lagoas), da USP,
da Academia Brasileira de Letras, o banco de teses da UNICAMP, e a Biblioteca
Nacional, no Rio de Janeiro, constatou-se uma insuficiência de dados
para a realização do trabalho, uma vez que estes inexistiam.
Contamos ainda com uma pesquisa realizada pela empresa jornalística
FOLHA/SA, a qual foi contatada via e-mail e nos enviou cópias de
vários artigos de diversos jornais, cujo tema era Viriato Corrêa.
Os resultados não foram, no entanto, satisfatórios, uma
vez que maior parte do que se obteve foram artigos de jornais e, por hora,
uma única dissertação de mestrado em Educação
cujo título é Literatura Infantil, História e Educação:
Um Estudo da Obra Cazuza, de Viriato Corrêa, de Ana Elisa de Arruda
Penteado, obtida por meio do banco de teses da UNICAMP.
Dentre os artigos de jornais – documentos mais significativos em
quantidade que em qualidade – selecionamos apenas aqueles que se
direcionavam a produção do autor destinada ao público
infantil, excluindo os artigos relacionados à produção
teatral, notas de falecimento e meros dados biográficos.
Os obstáculos com os quais se deparou – ausência de
textos, escassos artigos de jornais, ou qualquer tipo de publicação
impressa, e de trabalhos científicos (dissertações
e teses) acerca do tema pesquisado – impossibilitou a concretização
de um primeiro objetivo traçado acerca do nome de Viriato Corrêa
– o de realizar uma fortuna crítica do autor.
Diante da impossibilidade de realizar o estudo sobre a recepção,
por inexistir tal objeto, a pesquisa foi redirecionada para o estudo da
obra Cazuza, segundo os modelos de análise propostos por Iser e
Jauss, cujo objetivo principal é apontar as características
estéticas e suas conexões com uma proposta de leitura libertária
e com ênfase na formação do homem, segundo Antonio
Candido. O que se propõe nesse trabalho, no entanto, é apenas
selecionar aqui os textos críticos e comentários, extraídos
tanto dos já referidos artigos de jornal quanto de obras de autores
consagrados pela tradição da literatura infanto-juvenil,
o que há de mais significativo sobre o assunto.
O material resultante da pesquisa não constitui especificamente
crítica literária, embora traga alguns comentários
da obra do autor, apenas com o objetivo de situá-lo em relação
ao público. São, no entanto, esses comentários que
nos servirão de base para refletir sobre o papel e a aceitação
da obra por um determinado público e por isso foram selecionados
cuidadosamente, à razão que se constituíam pertinentes
para nossas observações e postulados teóricos.
Os artigos, que foram resenhados e transcritos, situam-se no período
compreendido entre 1944 e 2002.
A publicação mais recente que temos encontrado sobre a obra
de Viriato, e a que mais se adequou a nossa proposta inicial, é
‘Cazuza’ abre projeto de reedição da obra de
Viriato Corrêa, de O Estado de São Paulo, de 7 de junho de
2002. O artigo traz a notícia de que após dez anos fora
do catálogo, pois a última edição de Cazuza,
de tiragem pequena e esgotada, ocorrera em 1992, Cazuza volta às
livrarias, agora com nova chancela – a da Companhia Editora Nacional
(CEN), que negociou com a família do escritor a reedição
de toda sua obra. Cazuza seria, então, o primeiro livro a ser lançado,
em 40ª edição. Meu Torrão (1935) e A Bandeira
das Esmeraldas (1945) também faziam parte do projeto de reedição.
O mesmo artigo traz ainda
Mas, entre suas quase 70 obras, a mais conhecida é
Cazuza, dedicada ao amigo poeta Olegário Mariano. Não é
exatamente um romance, mas uma coleção de histórias
vividas por uma criança do sertão no Nordeste, quase uma
coleção de crônicas, nas quais vale mais a atmosfera,
de narrativa pouco adjetivada – um pouco distante, embora narrada
na primeira pessoa –, do que por fatos surpreendentes ou arrebatadores.
É um livro de preocupações nacionalistas (como quase
toda a obra de Viriato) e que procura orientar o leitor mirim na compreensão
do mundo. Sem ser didático ou moralista, quase sem estabelecer
valores – no convívio social, no contato com a natureza.
Observa as crendices matutas com curiosidade, duvidando, quando é
o caso, mas sem críticas. Afinal, viveu aquilo e é de si
que fala.
Rios, árvores, bichos e gentes do Brasil matuto
é o nome do outro artigo do mesmo jornal, de 2002, que trata da
obra de Viriato. O artigo traz como destaque
Viriato Corrêa focalizou a História do Brasil
em boa parte de sua obra e, embora ‘Cazuza’ não seja
um livro histórico, ensina o leitor a conhecer hábitos e
crenças do interior do País.
No artigo, Mauro Dias afirma que “boa parte de sua
obra literária é voltada para a história brasileira
– trabalho paralelo ao do paulista Paulo Setúbal”.
E quanto ao livro Cazuza, Mauro Dias afirma que
Embora não pertença de forma expressa à
coleção de livros históricos, não foge à
característica de examinar o País tendo como foco seus tipos
característicos, hábitos e crenças.
Para emprestar aura de ficção ao que é uma autobiografia,
o autor cria um artifício. No prólogo, diz que recebeu de
um velho, que conhecia apenas de vista, o calhamaço de memórias
chamado História Verdadeira de um Menino de Escola. Soube depois
que o velho tinha morrido. Seu apelido era Cazuza. Seu nome verdadeiro,
insabido. Resumiu o título para a publicação: “Cazuza
é mais curto. Profundamente infantil. E profundamente brasileiro.”
Logo no primeiro capítulo, um estranhamento: o menino Cazuza –
lá por seus 6 anos – só começa a usar calças
quando vai para a escola. Até então, usava saiotes femeninos,
como foi hábito até o início do século passado.
Para o jovem leitor de hoje, bastaria uma explicação, que
a nova edição do livro não traz.
Cazuza era filho de um homem relativamente abastado numa cidadezinha minúscula,
de uma rua, apenas, sem igreja, farmácia, vigário. Na escola,
prevalecia a lei da palmatória. Para apagar o escrito no quadro-negro,
os alunos faziam buracos na parede de barro, retiravam torrões
e esfregavam sobre as letras grafadas a giz.
Havia mais bicho do que gente, em Pirapemas. Mas havia a Vovó Candinha,
contadeira de histórias, o preto velho Mirigido, que assustava
as crianças e era invocado quando uma delas não queria tomar
óleo de ríncino, as brincadeiras feitas com carrinhos de
roda feitas de caixote de bacalhau, a festa de papouco (barulho), que
reunia os cantadores da viola, os repentistas, as mais queridas bailarinas
da região na época de São João.
Tia Mariquinhas alimentava tico-ticos, pipiras, cambaxirras, xexéus,
pecoapás, juritis, jaçanãs, graúnas, maracanãs
– pássaros que ainda existem. Saberão deles crianças
globalizadas, criadas pela televisão?
Viriato Correa enaltece alguns bons costumes e critica outros, em capítulos
curtos que vão, aos poucos, conformando a atmosfera da cidadezinha.
Cazuza não é um romance clássico, com trama e ponto
final. É mais a coleção de crônicas sobre a
vida no interior – vida que não é melhor ou pior que
a vida em outra parte. A infância é sempre a mesma.
Esse artigo, cujo enfoque é a obra do autor direcionada
ao público infantil, com notável destaque para Cazuza, vem
confirmar o sucesso e a importância que tal obra consumou através
do tempo, e chamar a atenção para a necessidade de sua reedição.
A análise de Mauro Dias sobre a obra Cazuza embora em alguns pontos
inovadora, pois classifica o texto como uma narrativa de costumes, traz
também notícias que sob nenhum ângulo representam
novidade, como o fato de a obra ser memorialística, enviesada pelos
eixos do biografismo e da ficção.
Após o trabalho de transcrição dos artigos que de
alguma forma mencionavam a obra do autor, pode-se chegar a algumas conclusões.
A primeira delas, acerca da natureza dos textos selecionados até
então, recorre ao fato de que a maioria desses artigos não
sintetiza a importância da recepção da obra, ou seja,
não constitui crítica literária e não passa
por uma análise literária, mas representa meros textos jornalísticos,
ora com a finalidade de divulgar a obra do autor, algumas dessas divulgações
relacionadas a um projeto publicitário, ora com caráter
meramente “elogioso”, como se elogia uma dama da alta sociedade
em uma coluna social.
É mais fácil, por meio do material, construir um juízo
de valor acerca do escritor que de sua obra, já que Viriato foi
muito mais assunto que suas criações. Estas apareceram definidas,
indiscutivelmente, como grandes obras, de boa aceitação
pelo público infantil, inovadora, contínua e surpreendentemente
reeditadas. Embora seja este o juízo comum que se obtém
a partir das inúmeras leituras, depara-se com a contraditoriedade
gerada pelo fato de haver número tão insignificante de textos
com conteúdo ligado à crítica literária.
Constatou-se ainda que os artigos pesquisados situam-se no período
compreendido entre 1944 e 2002, e a maior parte deles se concentra na
década de 60, ao passo que a década de 90 parece não
tê-los produzido.
Entre as obras mais comentadas estão História da Liberdade
no Brasil (1962), Cazuza (1938) e História do Brasil para Crianças
(1934). História da Liberdade no Brasil lidera esse ranking uma
vez que a obra representou um marco na literatura do gênero e se
popularizou mediante todas as camadas populares, isto é, massificou-se
ao transformar-se em enredo da Escola de Samba do Salgueiro de 1963. O
juízo comum a que se tem acesso por meio dos incontáveis
artigos de jornais sobre o assunto na época é que a obra,
embora endereçada particularmente às crianças, tanto
no estilo da narrativa como no estilo gráfico com que é
apresentado, deve merecer a atenção dos adultos e da mocidade,
uma vez que na obra se relacionam todos os mais impressionantes episódios
de nossa história em que o povo esteve envolvido na luta pela liberdade
da nação. A liberdade aparece definida como uma realidade
mágica, embora seu conceito varie muito no espaço e no tempo
e de acordo com a cultura político-social dominante. O livro é
conceituado ainda como “um dos mais importantes e mais bonitos em
que se valem a infância e a juventude brasileiras inclusive a astúcia
para conhecer a nossa história e incluí-lo como verdadeira
obra de arte em sua biblioteca”.
Quando dizemos “bonito” referimo-nos não
apenas ao vibrante conteúdo do livro como também à
beleza gráfica (diagramação e ilustração)
cuja apresentação original e arrojada traz a assinatura
de Eugênio Hirsh.
E mais adiante:
E na última página ilustração
jamais vista em livro algum na certa surpreenderá e emocionará
você. “História da Liberdade no Brasil” é
um dos mais recentes lançamentos da Editora Civilização
Brasileira.
Embora tenhamos constatado tão grande número
de publicações acerca da obra, ela hoje se insere no panorama
das produções desconhecidas ao público-leitor. Atente-se
para o fato de que seus comentários eram, como os que se referiam
às demais obras, de teor artificial e publicitário, em virtude
de sua fácil popularização proveniente da massificação
proporcionada por sua inserção ao evento carnavalesco.
Constatamos ainda que a primeira edição da obra, datada
de 1962, teve 20.000 exemplares, e que sua segunda edição,
de 1974, com a mesma tiragem, não se encontra, ainda hoje, trinta
e um anos depois, esgotada. Atribui-se esse dado ao fato de que, se o
que a obra trazia de original em sua primeira edição era
a inovação gráfica, esta inexiste na segunda edição,
pois o livro de 1974 traz apenas texto, sem nada de arrojado ou inovador
no campo gráfico, e sem ilustrações de espécie
alguma.
Quanto a História do Brasil para Crianças as poucas informações
coletadas traziam dados sobre suas diversas reedições, informações
que sugerem a boa aceitação pelo público mesmo muito
tempo depois da primeira edição, ainda que sem se aprofundar
sobre o conteúdo do livro.
Cazuza, embora não ultrapasse o número de comentários
elogiosos feitos a História da Liberdade no Brasil, é a
obra sobre a qual mais comentários significativos encontramos,
definida como um clássico, e o best-seller da literatura infanto-juvenil
de sua época. A obra é reeditada até hoje, momento
em que podemos adquirir a 40ª edição de 2002. Cazuza
(1938) marcou pelas inovações no caráter autoritário/emancipatório
e difundiu no leitor a marca de um Brasil que clama por ser reconhecido
por suas tradições e valores, da mesma forma que a criança,
indivíduo em formação.
A partir do momento em que constatamos que dentre os artigos coletados
o menos recente é o de 1944, conclui-se que não encontramos
nenhum artigo da época de produção de Cazuza (1938)
e de História do Brasil para Crianças (1934), o que explica
a pouca quantidade de documentos encontrados sobre essas obras, ao passo
que História da Liberdade no Brasil data de 1962 e alcançou
o auge de sua época devido à popularização
proveniente da repercussão alcançada pela transformação
do conteúdo da obra em enredo carnavalesco.
Quanto a comentários retirados de livros, podemos coletar informações
acerca do assunto estudado em obras de Mariza Lajolo, Regina Zilberman
e Nelly Novaes Coelho.
Nely Novaes Coelho, em A literatura infantil: história, teoria,
análise: das origens orientais ao Brasil de hoje, afirma que em
um primeiro momento, a produção literária do autor
destinada às crianças limitou-se à recriação
de matéria fabular já consagrada, partindo, mais tarde,
em conseqüência da exigência do realismo e de divulgação
das coisas brasileiras, para uma produção de caráter
“nacionalista”. A autora afirma ainda que
Seu livro mais famoso, Cazuza (romance infantil escrito
entre 1936 e 1937), publicado em 1938, pertence a essa fase. Tal como
o Coração de E. de Amicis (que era então a grande
leitura da criançada brasileira), Cazuza de Viriato Correia é
um “romance de aprendizagem”, já não “à
européia”, mas “à brasileira”. Não
resta dúvida de que o “modelo” de Amicis lhe serviu
de roteiro. Porém no registro da nossa realidade, Viriato Correia
foi autêntico. Isto é, soube apreender e expressar o clima
brasileiro (bem humorado, brejeiro, tropical...), em lugar do europeu
(com seus rigores invernais, sua seriedade retórica...). e principalmente,
Viriato Correia soube enfatizar nossa alegre predisposição
para viver, que se opõe à patética sentimentalidade
(que por vezes resvala para a pieguice) registrada em Coração.
Tal como esse último, Cazuza é escrito em 1ª pessoa
e abarca o período da infância que corresponde ao aprendizado
na escola... e foi, sem dúvida, das leituras mais queridas das
crianças em idade escolar, em sua época e até bem
pouco tempo. Permanece literariamente válido até o momento.
Inclusive é um documento importante (embora recriado pela imaginação)
do que eram as relações familiares e sociais no Brasil finissecular.
O que era a escola ou os divertimentos; as relações adulto/criança;
ou os ideais, preconceitos, superstições, peculiaridades
regionais, etc., etc. escrito em linguagem coloquial e viva que mantém
hoje todo seu frescor de realidade autêntica, Cazuza ficou como
uma das obras marcantes nas evolução da Literatura Infantil
Brasileira.
A mesma autora, em Dicionário Crítico da
Literatura Infantil/Juvenil Brasileira postula que os maiores valores
da produção do autor situam-se na área da literatura
destinada à meninada, “para a qual deixou um acervo precioso
de títulos, não pelo grande número de livros (quase
duas dezenas...), mas principalmente pela natureza de suas soluções
literárias”.
A autora afirma ainda que o autor obedeceu criteriosamente as tendências
literárias do momento, apresentando em sua obra preocupação
com as “coisas e gentes brasileiras”, e com a formação
da conduta “moral e cívica” das crianças, através
de leituras exemplares e classifica o obra infanto-juvenil do autor como
oscilante entre “a livre imaginação criadora, o determinismo
que rege os fenômenos da vida e o intuito de descobrir a realidade
brasileira”.
Continuamente reeditado, apesar de seus 44 anos de vida
(agora em 82, acaba de sair sua 30 ed.), CAZUZA é livro que não
envelheceu. Gerado por ideais e idéias do Brasil dos anos 30, CAZUZA
transfigurou em literatura os impulsos que estavam na raiz do grande movimento
histórico nacional, então em processo. Movimento que pode
ser sintetizado na nova palavra de ordem: o deslocamento das populações
do interior para as capitais, a fim de impul¬sionarem, com sua força-trabalho,
a modernização do país, a industrialização
em marcha e as novas relações produto/consumo. É,
sem dúvida, essa nova meta ideológica que encontramos na
base do universo literário, criado por Viriato Correia em CAZUZA.
Entre Real e Ficção, existe a coerência orgâ¬nica
que só as verdadeiras obras literárias apresentam.
CAZUZA é a estória simples do menino que dá título
ao livro e que, depois de adulto, resolve escrever suas memórias
de infância. Seus anteces¬sores literários são:
Coração (1886) de Edmund de Amicis e Saudade (1919) de Thales
de Andrade. Pertence à linhagem do primeiro, devido à ênfase
dada à vida escolar ou à educação (entendida
como meio ideal para o progresso do homem); aparenta-se com o segundo,
pela, preocupação em: con¬frontar a vida rural, interiorana
com a vida urbana (embora em um diapasão totalmente distinto).
Representa, porém" uma nítida evolução
sobre ambos.
Através do registro memorialista, CAZUZA conta a aprendizagem de
vida de um menino, a partir de sua entrada na escola. Com suas experiências
simples, muito humanas, na escola do povoado, passando depois para a da
vila e afinal para a da cidade, Cazuza vai tendo a oportunidade de revelar
o jogo-das-relações humanas; o idealismo humanitário
que deve nortear ações de todos; e as diferenças
inerentes aos vários meios sociais: do rudimentar para o civilizado.
Em estilo coloquial, franco, dinâmico (bastante diverso do estilo
nobre, lusitano ou não, característicos dos livros que circulavam
como leituras para crianças), CAZUZA foi dos que “abriram”
as portas da Iiteratura infantil aos ventos 1ivres da vida real.
Viriato Correia, tal como Lobato, utilizou uma linguagem ágil,
muito ade¬quada à compreensão do pequeno leitor, por
apresentar um registro de faia e pensamento que lhe são familiares.
As experiências vividas por Cazuza, apesar de retratarem fielmente
as peculiaridades dos costumes-da época, representam, em essência
a necessária experiência a ser vivida por todas as crianças:
a de crescerem e se tornarem "grandes". Simultaneamente a essa
experiência do indivíduo em seu processo de crescimento natural
e cultural, corre a experiência da nação; dentro do
movimento progressista que a modificava através do tempo.
Note-se que a estória de Cazuza está dividida em três
estágios de vida, que correspondem a três espaços,
sociais: o da primeira infância se passa no espaço rudimentar
do “povoado”; o da segunda infância se passa no espaço
interiorano da “vila” e a adolescência, no espaço
urbano da "cidade". (Sa¬bendo-se que o Cazuza “adulto”,
quando escreveu o livro de suas memórias, já vivia no grande
espaço urbano da “capital” carioca.) É fácil
notar que o ideal atribuído ou exigido ao menino Cazuza é
o tornar-se adulto. Veja-se, por exemplo, já no 1º capítulo,
o que diz Cazuza, quando veste, “calças” pela primeira
vez: “Desde que me entendi, tive a preocupação de
ser homem e nunca me pude ajeitar nos vestidos rendados de menina.”
E também; no último, ao imaginar a imagem que estaria dando
aos outros: "Este é o Cazuza! Ele não é mais
criança. Agora é um homenzinho!”.
Muito embora, hoje, já não se veja na criança um
“adulto em miniatura” (cujo período de infância
precisava ser vencido rapidamente, quase como se fosse um defeito) não
se pode negar que continua sendo esse um dos legí¬timos desejos
das crianças: crescerem.É a ordem natural dos seres. Há,
pois, um perfeito paralelismo entre a experiência-de-vida do menino,
em sua evolução para a idade adulta e a do progresso brasileiro.
Evolução ou progresso que, em ambos, radicam em um dado
comum: a conquista da Cultura através da Educação,
em clima de aberto otimismo, apesar de não ignorar o lado pre¬cário
ou limitado da realidade. Daí, com certeza, o continuado sucesso
que, através dos anos, CAZUZA vem tendo junto aos pequenos leitores:
há uma identificação psicológica fundamental
entre mensagem e destinatário. (O que já não aconteceu
com Saudade, cuja ideologia básica foi superada pelas novas diretrizes
progressista do Brasil e cujo tom pessimista ou nostálgico está
longe de sintonizar com a vibração vital da meninada.)
A autora conclui afirmando que Cazuza é um dos
livros que se incluem na linha de afirmação da energia vital,
do entusiasmo pela Vida e pela conquista do Saber, – que é
uma das aspirações mais legítimas do ser humano e
atribui a tais fatores o não-envelhecimento e o renovado sucesso
que a obra consuma junto ao público mirim.
As autoras Mariza Lajolo e Regina Zilberman, em Literatura Infantil Brasileira:
história e histórias afirmam que Viriato Correia é
“um dos autores em que se encontram versões de histórias
de bichos e de homens passadas em espaços campestres, embora esse
último termo não designe uma propriedade rural com características
aproximadas às de instituições vigentes na economia
brasileira”.
As autoras referem-se ainda à obra Cazuza, reconhecida pela crítica
da época como um clássico da literatura infanto-juvenil.
Ao mencionar a obra, as autoras classificam-na como distinta em relação
à mencionada antes, pois argumentam que Cazuza apresenta algumas
inversões que determinaram uma modificação ótica
com que o mundo rural pode ser representado na literatura brasileira para
crianças, uma vez que tais mudanças aparecem nos seguintes
aspectos por elas enumerados:
a) o escritor opta pela cena realista, evitando símbolos
e analogias, assim como o trânsito entre o mundo histórico
e o fantástico;
b) a apresentação toma a forma de memórias, de modo
que o objeto narrado está distante no tempo (correspondente à
infância do narrador) e no espaço (o narrador vivia no Rio
de Janeiro quando redigiu o livro);
c) o protagonista passa por diferentes estágios que acompanham,
de um lado, seu progressivo amadurecimento, e, de outro, seu paulatino
afastamento do ambiente interiorano;
d) a separação do meio original corresponde a um progresso
nos estudos e uma maior intimidade com a vida escolar; no início
a escola é intolerável, mas à medida que a personagem
se muda do campo para a cidade, ela melhora e o menino passa a gostar,
de maneira crescente, da experiência estudantil;
e) o livro não idealiza personagens, nem lugares; pelo contrário,
critica instituições, como a escola, e certas atitudes cegas,
como o patriotismo oco e o militarismo.
As autoras atribuem essa postura crítica ao distanciamento
adotado pelo narrador diante dos fatos narrados, fatores que remetem a
seu deslocamento espacial e temporal, pois o narrador escreve, adulto
e no Rio de Janeiro, as recordações vividas no interior
do Maranhão. Assinalam também que o centro dessa crítica
é a escola em geral e o tipo de escola descrito na primeira parte
do livro, em particular, modelo de autoritarismo e crueldade, embora a
crítica não se atenue – mas torna-se camuflada, uma
vez que não deixa revelar como a instituição serve
o poder, porque depende desse – quando o menino Cazuza passa a estudar
em colégios de maior prestígio, como o internato em São
Luís.
Lajolo e Zilberman explicitam ainda que, embora as origens do menino Cazuza
sejam relacionadas ao meio rural, a narrativa destina-se a leitores urbanos,
para quem os rudes episódios interioranos chocariam pelo aspecto
da novidade, do desconhecido em um público então em tudo
dominado pelo ambiente citadino, em uma sociedade cuja economia já
ultrapassara a fase de transição de rural para urbana. Quanto
à crítica ao sistema educacional, as autoras estabelecem
um paralelo entre a já referida obra e O Ateneu, de Raul Pompéia,
que se aproximam pelo rigor e repressão, pelas atitudes inadequadas
e desumanas que caracterizam o mestre e a escola.
O fato de que a crítica à escola esmoreça
em indignação quando o protagonista se transfere do sertão
para a cidade mostra que, se ela acompanha especialmente a trajetória
do menino, dirige-se antes a leitores com experiência predominantemente
urbana. Vale dizer, destina-se a pessoas para quem a narrativa de acontecimentos
rudes do no interior seria chocante por desconhecida, e não por
conhecida em excesso. Desse modo, o livro não deixa de repetir
o feito de Raul Pompéia, em O Ateneu (1888), denunciando os descalabros
da instituição educativa. Mas com uma modificação
substancial: Pompéia dirige-se àqueles que passaram por
uma experiência semelhante, enquanto Viriato Correia, ao se referir
a fatos e atitudes que o estudante conheceria (como os privilégios
que recebiam os alunos oriundos de famílias ricas, tema da última
parte de Cazuza), modera sua revolta e prefere uma saída conciliatória,
adotando, em última instância, o mesmo paternalismo com que
a alta burguesia brindava os menos afortunados – assunto de crítica
em muitas passagens do livro.
Para contextualizar a obra no rol das produzidas no período,
há de se falar de características de Cazuza que pertencem
à literatura “chamada infantil” da época. Uma
dessas características é a valorização do
meio rural em detrimento de uma nova realidade que há pouco se
instalara. As mudanças ocorridas na sociedade brasileira, que a
fizeram sucumbir de rural para urbana, geravam ainda um sentimento de
perda ou de nostalgia.
A criança – público alvo das obras aqui estudadas
– apresenta, por sua vez, no decorrer de seu desenvolvimento, necessidades
que a impulsionam a buscar, por meio da imaginação criadora,
a fuga do real para qualquer lugar onde possa realizar todos os seus desejos.
O desejo de crescer, de ser independente e feliz. As autoras argumentam
que ao dar vazão a seu imaginário, que exige o abandono
do lar, cuja vida prosaica é insatisfatória, as crianças
iniciam um percurso por regiões mágicas, classificadas por
elas como mais interessantes que a existência doméstica limitadora.
Essa fuga pode ser realizada durante o ato da leitura. E o meio rural
tornou-se um ambiente que, afastado do citadino, aquele que constitui
sua própria realidade, representa o espaço do lazer, das
brincadeiras e das férias, enfim, o lugar propício para
a fuga (de tudo que representa fragilidade, dependência, limitação
e repressão) em busca do ideal e do maravilhoso, além de
constituir, quando se trata do Brasil, a expressão máxima
do nacionalismo.
Pela mesma razão é o meio rural, rude e
inculto, o ambiente apresentado com mais detalhe ao leitor. É a
partir da situação deste que a realidade é mostrada,
porque corresponde ao lugar onde se instalou o narrador desde a ruptura
familiar original representada pela escola. Esse fato determina mudanças
significativas, porque o universo rural, distante e superado cronológica
e ideologicamente, prescinde de idealizações para ser recuperado,
tal como ocorrera em Saudade. Tampouco assumirá uma índole
integradora, como na obra de Lobato, pois, também para esse caso,
a distância temporal é o sintoma da recuperação
daquele contexto agrário e de sua inexeqüibilidade enquanto
alternativa econômica e social.
E concluem, ainda, afirmando que:
Cazuza, a despeito de sua orientação ufanista,
pedagógica e moralista, atinge um resultado original e único
em nossa produção literária para crianças,
rechaçando as ilusões campestres e denunciando o trajeto
irreversível da história. Não chegou a ser um livro
com seguidores; mas nem por isso o marco que representa, nos seus defeitos
e virtudes, é negligenciável, valendo a pena contrapô-lo
às obras de seu tempo, que levaram avante caminhos conhecidos e
veredas já domesticadas da vida rural brasileira.
Em 1984 a CELIJU (Centro de Estudos de Literatura Infantil
e Juvenil) publica um documento intitulado Centenário de Viriato
Correa, que traz como subtítulo Viriato Corrêa: Sua obra
para a infância e a juventude. O documento engloba um texto de Lúcia
Pimentel Góes sobre a obra do autor, em que, ao tratar de Cazuza,
Góes afirma que numa linguagem viva, corrente, a narrativa se constrói
de pequenos capítulos episódicos e uma ação
que transcorre rápida. Góes afirma ainda que além
da identificação ocorrida entre leitor e personagem –
por meio da experiência de crescerem e do seu dia-a-dia escolar
– há ainda os usos e costumes da época, principalmente
da então dominante filosofia da educação, dos quais
o livro constitui um documento vivo.
Viriato Correa se impõe contra o sistema educacional vigente e
sugere outro que recreasse e satisfizesse o espírito, a favor da
criança e não contra ela. Ainda acerca de Cazuza, a autora
faz os seguintes postulados:
Foi um dos precursores da literatura infantil brasileira,
pois publicou em 1908 “Era uma vez”, contos folclóricos
e maravilhosos, escritos em colaboração com João
do Rio.
(...)
Em “Cazuza” o menino resolve contar suas memórias de
infância. E essa história não envelheceu: é
dada grande ênfase à educação ou à vida
escolar que predomina no livro. Há o contraste entre vida rural
e urbana.
(...)
É um livro terno, no qual Viriato Corrêa dá ênfase
ao amor entre os familiares e para com o próximo. É um retrato
do cotidiano de uma pequena cidade, basta lembrar a galeria de retratos
apresentados. Em todos eles se tira um lição de vida, como
conclusão natural e não imposta didaticamente.
Viriato Corrêa, em “Cazuza”, não é um
narrador distante, pelo contrário, apresenta-se comprometido emocionado.
Quando relata as tristes experiências escolares, resultantes do
autoritarismo e da repressão, em que o castigo é o agente
educador, Cazuza não esconde sua revolta.
(...)
Viriato Corrêa é contra o preconceito racial. Usa todas as
oportunidades para enaltecer o trabalho dos negros e acusar as injustiças
de que são vítimas. Vejam a p.143, ob. cit., quando o Professor
João Câncio deu o braço a uma preta velha e pobre.
Ou leiam o capítulo “A História de Luis Gama”
contando a vida comovente desse abolicionista poeta.
Viriato Corrêa transcreve apólogos, como encaixe na narrativa.
Assim o “Sapato ferrado e a sandália de veludo” ob.
cit. p.86 ou “Os que vivem nas alturas”, p.106, ainda “Fortes
e fracos”, p.127.
É um perpetuador de usos e costumes. Lembramos, como exemplo, o
“jantar de cachorros”, costume roceiro do dia de São
Lázaro, p.41. Ou a festa de Natal, com desafio no sítio
de Raimundo, p.56.
Pitoresco e engraçado, o velório do Mirigido, p.48. Assim
“Cazuza” permanecerá como história e documento
dos costumes e tradições do começo do século.
Outro mérito de Viriato Corrêa: fala da vovó Candinha,
contadora de história. Fica registrado o encantamento da história
contada e a ligação das crianças com os contos de
fadas.
Portanto, Viriato merece toda nossa homenagem como precursor da “Revista
Infantil”, de escritor para crianças e jovens, defensor de
uma filosofia educacional voltada para a criança, perpetuador de
nossos usos e costumes e homem que amava a crianças e jovens e
a própria vida.
No campo dos trabalhos acadêmicos, bem como nos
demais, deparou-se, mais uma vez, com um número muito pequeno de
publicações sobre o assunto, o que demonstra que se trata
ainda de um campo com muitos setores a serem explorados.
Cabe aqui, portanto, uma breve explanação acerca da dissertação
Literatura Infantil, História e Educação: Um Estudo
da Obra Cazuza, de Viriato Corrêa – de Ana Elisa de Arruda
Penteado, concluída em 2003, na UNICAMP.
O trabalho de Ana Elisa de Arruda Penteado encontra-se organizado em quatro
capítulos seguidos de considerações finais e traz
como principal questão o vínculo entre a obra estudada e
sua relação com os objetivos propostos pelo Estado Novo,
panorama político no qual a obra se insere.
A pesquisadora associa o caráter formativo da obra, a exaltação
ao nacionalismo e as coisas do Brasil, a valorização do
trabalho e do indivíduo enquanto agente construtor da Pátria,
a ênfase positiva a todo tipo de instrução que resulte
no progresso da nação ao novo projeto de sociedade projetado
pelo idealismo estadonovista.
Embora pequeno o número de obras que falem sobre o autor, estas
possuem relevância significativa para que se possa estabelecer o
juízo de valor que se faz a partir da leitura da obra estudada
por grandes críticos. Embora suas obras tenham sido pouco reeditadas
e pouco lidas nos últimos tempos, seu nome e sua produção
continua sendo marco de referência para o itinerário de obras
infantis brasileiras, e é reconhecida como um caminho necessário
à evolução da Literatura Infantil que, no Brasil,
teve que se refazer por intermédio da quebra de preconceitos e
da busca de novas soluções.
A escassez de estudos sobre Viriato Corrêa é um dado significativo
da historiografia literária brasileira a respeito da literatura
infantil, pois vincula-se ao velho preconceito de associar a literatura
para crianças a um gênero menor, com utilidade meramente
didática e pedagógica. Ora, literatura infantil é
literatura, e é arte, como todas as outras.