Josélia Aparecida Pires Vicente - graduanda
em Letras pela Universidade Federal de Mato Grosso do Sul - UFMS
Introdução
O erotismo é o tema mais antigo da Literatura,
da Bíblia às revistas pornográficas se faz presente,
porém nunca foi uma temática bem vista, tanto pela sociedade,
quanto pelos estudiosos. Em determinados momentos históricos há
uma ascensão, havendo três momentos em que o erotismo atinge
seu ápice: Antiguidade Clássica, com os libertinos franceses
e hoje. Fatalmente, estes áureos momentos têm em comum um
fator determinante, a liberdade sexual existente na sociedade de cada
uma dessas épocas.
Assim, delinear-se à neste trabalho o perfil das sociedades que
envolviam tanto gregos, quanto leitores de Sade, a pós-modernidade
e os fatores que culminaram em obras eróticas e/ou pornográficas.
Para tanto, literatos, historiadores e estudiosos do sexo darão
as bases para que se desenvolva esta reflexão, que visa à
compreensão das manifestações artísticas cujas
intrinsecamente ao sexo, deram-se ao longo dos tempos.
Antiguidade pagã e cristianismo
A Antiguidade clássica é pródiga
de relatos sobre a vida erótica grega, as cortesãs, a vida
das prostitutas, a homossexualidade socializada e a riqueza erótica
das estátuas, quase sempre, nuas e com os órgãos
sexuais em evidência. Os gregos adoravam ver representações
de nudez, cenas eróticas estampadas em vasos e peças fálicas
eram tidas por sagradas. Neste contexto é que surge a mais antiga
obra erótica que já foi publicada, O Banquete de Platão.
No teatro, histórias picantes eram contadas, tendo por grande autor,
Aristófanes.
Com a decadência do Império Romano, a ética e os valores
cedem lugar a uma crescente brutalidade sexual, entretanto, os cristãos
iniciam o domínio sobre as religiões pagãs, posto
que, a moral judaico-cristã é a sexofobia. Diferentemente
de outras culturas, onde deuses e sacerdotes praticavam toda sorte de
"perversões sexuais" consideradas ou neutras do ponto
de vista moral, ou mesmo virtuosas - a religião judaica prima pela
dificuldade em conviver com os "vícios da carne". Javé
- diferentemente dos Orixás, de Apolo e Tupã, é um
deus assexuado e seu paraíso é para virgens e celibatários:
Isso significa que os pensadores cristãos encaravam
o sexo como um mal necessário, lamentavelmente indispensável
para a reprodução humana, mas que perturbava a verdadeira
vocação de uma pessoa – busca da perfeição
espiritual, que transcende a carne. É por isso que os ensinamentos
cristãos exaltam o celibato e a virgindade como as mais elevadas
formas de vida. O que marcou a ruptura decisiva com a antiguidade pagã.
(RICHARDS, 1992, p34).
Assim, os pregadores da fé cristã, impressionados
pela vocação orgiástica de deuses e seus seguidores,
inauguram uma política de total repúdio ao sexo, que perdurou
por toda a Idade Média e se arrasta até a atualidade com
base nos ensinamentos do apóstolo Paulo: “e os solteiros
e viúvos digo-lhes seria bom se permanecessem no estado em que
também eu vivo”.Ou seja, o controle sexual estava imposto,
homens e mulheres buscavam maior acesso a deus a maior controle de seus
corpos. O espírito teocêntrico domina o Ocidente e no século
IX a igreja sacraliza o casamento: “A Igreja já havia efetivamente
assumido o controle legal, moral e organizacional do casamento”.(RICHARDS,
1992, p35). Porém, o sexo é regulamentado até mesmo
dentro do deste.
Em contrapartida, surgem textos que segundo a Igreja são “inspirados”
por Satanás, como The Comedy of Eros, Norman Shapiro, que diz implicitamente
que todos solteiros ou casados são sexualmente ativos, são
poemas que oferecem conselhos sobre como, onde e quando seduzir mulheres,
tratando o sexo como um jogo. “O anônimo Chave para o Amor,
por exemplo, não deixa nenhuma dúvida quanto ao objetivo
último do macho”.(RICHARDS, 1992, p37).
Nasce então, o termo “pornográfico”, que aparece
pela primeira vez nos Diários de uma Cortesã, em que são
narradas histórias sobre prostitutas e orgias, a palavra pornographos
significa escritos sobre prostitutas.Neste âmbito surgem novos textos,
Ovídio elaborou um guia do sexo, como os que a revista Playboy
publica hoje, este se chama Ars Amatoria (A Arte de Amar). O Kama Sutra,
escrito na Índia no século 2 d.c. , contemporâneo
de Ars Amatoria, seleciona textos milenares em defesa do sexo, que é
dito parte da criação, venerado e praticado.
No entanto, a tolerância religiosa foi diminuindo e em 1231 é
criada a Inquisição, que abole de vez a nudez e o sexo,
restando o erotismo aos mais audaciosos como Boccaccio, que escreveu o
Decameron,onde conta histórias de peripécias sexuais e sátiras
à Igreja, logo, é acusado de heresia e tem de fugir.
Somente com o Renascimento é que o poderio católico se abala
e a arte tem uma maior liberdade, surgindo na Itália Aretino, que
publica poemas e contos eróticos.
Libertinos Franceses
Com a Reforma Protestante e a diminuição
do poder católico há, segundo Foucault, autor de A História
da Sexualidade, uma proliferação de discursos sobre o sexo,
posto que não se visava mais proibir, mas controlar, já
que as dificuldades econômicas a partir do século XIII derivavam-se
do aumento populacional, devendo haver o controle da natalidade.
Neste momento de grandes transformações é que se
dá o conceito de amor que se tem hoje:
Milenarmente, homens e mulheres se casaram por interesses
familiares. Às vésperas do mundo industrial já podia
se fabricar uma nova forma de casamento. A propriedade da terra já
não era mais essencial para a sobrevivência. Agora contava
também a competência profissional. Assim, homens e mulheres
já podiam e casar por atração individual. (MURARO,
1992, p125).
Logo, o contato físico passa a ser tema mais freqüente
na Literatura, afinal, o amor até então não era visto
como essencial para o casamento, o que se explicita nos romances do século
XIX. Em meados do século XVIII na França, surgem os primeiros
libertinos, artistas e intelectuais, que se reuniam em organizações
secretas como a Sociedade para a Promoção do Vício,
Clube do Fogo, do Inferno ou a Ordem Hermafrodita, onde aconteciam leituras
e encenações de livros eróticos, discutiam também
política, o que mais tarde culminaria no pensamento Iluminista.
O mais famoso libertino foi Donatien-Alphonse-Francois, o Marquês
de Sade, como bom libertino se apaixona por uma empregada, Juliette, nome
também de um livro dedicado a ela.Com a perda da amada se entrega
ao sexo brutal, prática conhecida mais tarde como “sadismo”.Terminou
preso na Bastilha e acusado de estupro e orgias com flagelação.
Entre os libertinos se destacam também, Jean de La Fontaine, e
Restif de La Bretonne, o grande ícone dos libertinos. Estes também
influenciaram grande parte do movimento romântico, então
“é provável, de resto, que a leitura de Sade impressionasse
fortemente os românticos, gente que tomava certas fantasias mórbidas
tão a sério que queria traduzi-las em vida vivida. Românticos
e decadentistas não fizeram nada mais do que se envenenar”.(PRAZ,
1996, p127)
Pornografia moderna
Com o surgimento da cultura de massa, “no final
do século (XIX), metade dos 500 mil habitantes da cidade sabiam
ler, muitos compravam livros eróticos importados. Os editores perceberam
o filão e lançaram autores nacionais”, diz Alessandra
El Far, autora de Páginas de Sensação, eram os romances
para rapazes.No fim do século surge o cinema, fundamental para
a popularização da pornografia. Obtendo altos lucros e muito
sucesso, a indústria pornográfica se solidifica até
a década de 30, quando o explícito dá lugar à
insinuação.
É então, que a psicanálise de Freud abole, pelo menos
entre as elites ocidentais, a idéia de sexo como pecado.Por conseqüência
há a revolução sexual dos anos 60, e a liberdade
novamente inverte a dicotomia amor/sexo, o amor não era mais primordial
para o sexo, mesmo com a contenção causada pela AIDS. Assim,
o escândalo que sempre esteve intrínseco a arte erótica/pornográfica,
aferreceu.
O cinema criou grandes clássicos da pornografia daí em diante.
Em 1972, Garganta Profunda foi o primeiro grande sucesso comercial e “com
a chegada do vídeo, o pornô passou a ser produzido em larga
escala, como uma linha de montagem. E isso marcou uma transformação
significativa do produto” diz Nuno César Abreu, autor do
livro O Olhar Pornô.
Na Literatura, o erotismo também se firma, tanto em livros, quanto
e revistas de sacanagem: “A partir do espaço criado pela
sociedade de consumo, manipulado pela indústria cultural, de onde
estes textos concorrem em condições favoráveis com
o livro e congêneres junto ao público”.(DURIGAN, 1985,
p12) Logo, a partir do século XX, autores como Jorge Amado, Drummond,
publicam obras com um cunho erótico fortíssimo. Hoje, diante
da mídia e da pós–modernidade “a quantidade
e a diversidade de outrora não se comparam com o que existe atualmente.
Há uma verdadeira avalanche de textos eróticos, um verdadeiro
boom de erotismo em nossos dias”.(DURIGAN, 1985, p.83)
Conclusão
Por fim, a zona limítrofe entre erotismo e pornografia, dos gregos
ao império Buttman, sempre foi nebulosa, posto que se complementam.
Um exemplo é o de que conceituados diretores de cinema vêem
inserindo em seus filmes cenas de sexo explícito, que não
deixam de ser arte. Em recente entrevista o diretor italiano Into Brass
afirmou “essas cenas são uma forma de reagir à violência
e mostrar o amor pela vida”.
Em suma, como diferenciar as posições do Kama Sutra estampadas
em vasos gregos das cenas de sexo brutal de Sade?Um inocente exemplo:
“As mãos de João passavam por nossos corpos. Nós
duas fazíamos sexo oral em João enquanto ela colocava as
mãos entre minhas coxas”.
Qual o autor? Qual a época em que foi escrito este texto? Poderia
ter sido na Antiguidade Pagã, por um libertino, ou simplesmente
ser um trecho de um ménage á tróis publicado na Revista
Playboy de fevereiro de 2005, como de fato é. Ou seja, Não
importa o momento, os anseios sociais quanto ao sexo sempre proporcionaram
e proporcionarão, em discretas ou indiscretas doses, a literatura
e todo o tipo de manifestação artística erótica,
isto porque:
O erotismo se desdobra na sociedade, na história,
é inseparável delas, como todos os demais atos e obras dos
homens. Dentro da história (contra ela, com ela, nela), o erotismo
é uma manifestação autônoma e irredutível.
Nasce, vive e morre na história; com ela se funde, mas não
se confunde. Em perpétua osmose com a sexualidade animal e o mundo
histórico, mas também em perpétua contradição
diante dos dois.(PAZ, 1999, p28).
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
DURIGAN, Jesus Antônio. Erotismo e Literatura. São
Paulo: Ática, 1985.
MURARO, Rose Marie. A Mulher do Terceiro Milênio: Uma História
Através dos Tempos e suas Perspectivas para o Futuro.Rio de Janeiro,
2°Ed: Rosa dos Tempos, 1992.
PAZ, Otávio. Um Mais Além Erótico: Sade.Tradução:
Wladir Dupont. São Paulo: Mandarim, 1999.
PRAZ, Mário.A Carne, A Morte e o Diabo na Literatura Romântica.Tradução:
Philadelpho Menezes.Campinas, SP: Editora UNICAMP, 1996.
RICHARDS, Jeffrey. Sexo Desvio e Danação: As Minorias da
Idade Média. Tradução: Antônio Esteves da Rocha
e Renato Aguiar. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1993.